A complexidade da educação

A educação é a arte do coração. Essa frase não é nova. Não se sabe quem foi o primeiro a dizê-la. Mas ela está na essência de Sócrates e no fundamento de Dom Bosco. Sócrates instigava os jovens de seu tempo a colocarem para fora o potencial que tinham.

Era como um “parto de ideias”. Dom Bosco, o jovem padre italiano, queria mostrar quanto era importante para os jovens que não apenas fossem amados, mas que se sentissem amados.

O termo “educação” deriva do vocábulo latino educare, que significa criar, nutrir, amamentar, cuidar, ensinar. Porém, a palavra tem relação estreita com a forma verbal latina duco, que quer dizer conduzir. Além disso, “educar” também está ligado a educere, que significa, ao pé da letra, conduzir para fora, isto é, preparar a pessoa para viver no mundo, fora de seu universo individual.

Percebe-se, com isso, que a educação, já na origem da palavra, é algo mais complexo do que pode parecer à primeira vista. Está sempre ligada ao conceito de permitir ao ser humano que ele seja, que realize, que aconteça, que tenha atitude. Em outras palavras, instrumentalizá-lo ou, ainda mais, instigá-lo, para que ele consiga desenvolver suas habilidades. Assim, é preciso que o educador acredite que seu aprendiz tem potencial. Desconsiderar a bagagem que cada pessoa traz é um equívoco de quem não se predispõe a conhecer o universo alheio. Não é possível ajudar alguém a ser condutor sem antes conhecê-lo, sem antes perceber as limitações e as amarras que o impedem de caminhar com os próprios pés.

Se necessário, o aprendiz saberá levantar-se de uma queda, moral ou profissional, individual ou familiar, porque aprendeu a fazê-lo. Foi preparado para que, durante a travessia, não fuja ao sinal do primeiro obstáculo. O educador deve buscar o sonhado meio-termo aristotélico – prevenia o filósofo grego sobre o fato de que, tal como um arqueiro, na vida é possível errar de muitas maneiras, mas acertar o centro é para aqueles que foram educados. Na época, a educação era restrita aos poucos que frequentavam a Ágora ou o Liceu. Hoje, o desafio é atingir todos, sem distinção, como estabelece a Constituição Federal de 1988.

A tarefa afigura-se monumental, complexa. Todos não são alguns. O universo de pessoas é rico e, ao mesmo tempo, penoso de ser trabalhado. Existe, entretanto, uma forma de superar essa dificuldade – agir com a maior simplicidade possível. Nisto reside a sabedoria: tratar coisas complicadas de maneira simples.

E qual é o segredo? É a amizade. Porque a amizade simplifica as coisas, direcionando o relacionamento entre pais e filhos e entre professores e aprendizes para o afeto.

Separar processo educativo de afeto é mais ingênuo do que acreditar no poder do afeto para mudar comportamentos e gerar aprendizagem. É preciso dizer isso, porque há muitos que apregoam ser ingênuo querer acreditar que o professor, com tantos dissabores, haverá de ser afetuoso. Mas, se não o for, não será educador.

Paulo Freire, na obra Pedagogia da autonomia, afirma que “a afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade”. Para ele, seriedade docente e alegria são perfeitamente conciliáveis, e o processo de ensinar e aprender não deve ignorar, além da alegria, a boniteza. Assim, cabe a nós, educadores, mesmo com os dissabores da vida, mesmo com os altos e baixos da profissão, construir diariamente uma relação de respeito e amizade no complexo ambiente da sala de aula.

Por Gabriel Chalita (fonte: Revista Profissão Mestre)

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