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Civilidade

O padrão básico da vida em sociedade é uma trama com múltiplos laços de relacionamento. Nutrir uma sociedade é cuidar das relações. E o alicerce dessa trama, chamada convivência, é o respeito. O respeito é um valor essencial para harmonizar as relações, e a violação desse princípio enfraquece o convívio humano.

Cada vez mais comuns, casos como a tragédia ocorrida entre vizinhos num condomínio em Santana do Parnaíba devem não só ser lamentados, mas, principalmente, servir como alerta. Uma briga de condomínio, uma discussão no trânsito, uma desavença em casa, entre outras situações, não podem desencadear atitudes violentas. O grupo social se enfraquece quando um membro decide resolver (ou interromper) a própria vida desconsiderando a vida das outras pessoas. Não há culpados, não há julgamentos exatos, não há argumentos absolutos. Há violência. Há vítimas. Há tristeza. 

Como dizia Mahatma Gandhi, “a lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos”. Isto é, conflitos angustiam a alma humana, desde sempre. Impedir que eles sejam resolvidos com o emprego da violência é a chave. 

Esses acontecimentos vêm, não raro, acompanhados de justificativas: falta de tempo, cansaço, estresse. O grande risco é que a incivilidade vire um hábito, e maus hábitos violam os direitos dos outros.

Conviver bem se aprende com a educação. Na família. Na escola. Nos diversos espaços sociais. Há muitas receitas para o convívio humano, mas a educação é a ponte. A educação conduz a comportamentos mais amistosos, pois fortalece o respeito à liberdade alheia. 

A educação tem a magia de engendrar pessoas e processos para encontros. Cada encontro é, em semente, uma nova amizade. Em um mundo onde a violência salta aos olhos, contamina as relações e deteriora os sentidos, a amizade é um bem a ser preservado. E o respeito mútuo, uma regra sem exceção.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Aprendendo com o futebol

O futebol é uma paixão nacional. Isso já foi dito muitas vezes. Muitas vezes também já se falou da violência nas arquibancadas, das brigas de torcida, atitudes lastimáveis que enfeiam o espetáculo. O bonito é ver as famílias nos estádios, as crianças torcendo. Em clima de festa.

Um fato interessante merece reflexão. O Corinthians, que possui uma das maiores torcidas do mundo, foi eliminado da Copa Libertadores da América, em pleno Estádio do Pacaembu, pelos argentinos do Boca Juniors. Eliminação semelhante à de 2006, no mesmo Pacaembu e também pelas oitavas de final do torneio. Na época, o embate foi contra outro time argentino, o River Plate; o fato ocasionou cenas de violência, de selvageria.

Desta vez, a história foi diferente, e a postura dos que assistiam ao jogo no estádio, no último dia 15, foi muito mais nobre. Os fiéis torcedores levantaram-se para aplaudir a equipe que dava adeus à competição e ao sonho do bicampeonato. Uma cena que impressionou, inclusive, os experientes comentaristas de futebol. Uma cena que emocionou os jogadores.

Apenas quatro dias depois, o esforço da equipe foi retribuído com a conquista do título do Campeonato Paulista, o 27º do clube, sobre o Santos, na Vila Belmiro.

Assim como no futebol e nos esportes em geral, também acumulamos vitórias e derrotas na vida. E, para todos esses casos, vale o ensinamento de Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe: “Há vitórias que exaltam, outras que corrompem; derrotas que matam, outras que despertam”.

Por isso, nestes tempos, em que muitos buscam a vitória a qualquer preço, a inesperada lição que veio das arquibancadas do Pacaembu é tão bonita e significativa. Ganhar ou perder faz parte da vida, mas é a forma como reagimos que nos torna vitoriosos de verdade.

Que, no futebol e na vida, empenhemo-nos por uma cultura de paz. A violência revela o que de pior há nas relações humanas, e todo tipo de violência deve ser combatido.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

A virtude no processo educacional

Virtudes são qualidades de quem é correto. Toda pessoa de boa índole é dotada de boas virtudes. O aluno virtuoso é aquele que estuda corretamente, ajuda o outro e permite ser ajudado. Que respeita o professor e compreende suas limitações. Que ama e é amado.

O professor virtuoso é aquele que se lembra o tempo todo do poder transformador que tem, das qualidades de ajudar o aluno a encontrar seu caminho. O professor virtuoso ama e permite ser amado. Ao mesmo tempo, é competente e cuidadoso.
 
Por outro lado, há alunos cuja postura difere daquela de quem busca aprender. Ignoram, esses estudantes, valores que fazem do ambiente escolar o espaço ideal para que explorem, coletivamente, as veredas do conhecimento. Do mesmo modo, há professores que se entregam ao marasmo ou à burocracia de nada mais inventar na relação com o aluno. São arrogantes, às vezes; ausentes, outras.
 
Dificilmente, porém, há de se encontrar um professor que seja integralmente virtuoso ou um aluno que não tenha virtude alguma. Não existe esse maniqueísmo. As pessoas vivem de fracassos e de vitórias. De quedas e de sonhos. De ódio e de amor.
 
Uma condição imprescindível para a boa relação na sala de aula é a compreensão de que a perfeição não existe. Existe a vontade de superar. Existe a determinação para recomeçar quando tudo parece perdido.
 
A relação entre professores e alunos necessita privilegiar esse campo das imperfeições. O professor é imperfeito, como o aluno também é. O professor erra e acerta. Da mesma forma, o aluno. São seres que se encontram para entender que é possível desenvolver o que cada um tem de melhor. E isso é uma grande virtude.
 
Aprender com os aprendizes compõe uma interação necessária. O aluno não tem de ser passivo nessa relação. Ele aprende. Mas ele também ensina.
 
O estudante precisa de incentivo e de espaço para o desenvolvimento de sua autonomia. Tem de aprender a dizer “não” e a dizer “sim”. A debater. A refletir. E como isso enriquece a relação na sala de aula!
 
O aluno não é objeto. É tão sujeito quanto o professor. A troca é profundamente instigante. E isso faz bem ao educador, porque o livra da rotina de dizer sempre as mesmas coisas para uma plateia que apenas cumpre o papel de assistir, passivamente, às explanações. O desafio de conviver e a humildade de ser convencido por outra ideia, por outro olhar… Tudo isso a serviço da construção de uma postura pessoal e profissional mais adequada.
 
Virtudes e adversidades hão de existir conjuntamente, mas os valores, quando bem trabalhados no processo educacional, servem como bússola, pois não permitem que os navegadores se percam. Não é possível prever na sala de aula tudo o que há de acontecer na vida. Mas é possível, sim, preparar para a vida. Preparar para dizer não à desonestidade, ao ultraje, à arrogância. E preparar para dizer sim. Sim à tolerância, ao amor compartilhado, à vida correta de quem faz o bem como missão e hábito.
 
Na escola, aprende-se, habitua-se a fazer o que é correto. Das coisas mais simples às mais complexas. De deixar limpo o banheiro a encarar com respeito todas as pessoas. Dos cumprimentos corriqueiros ao conceito de um mundo que precisa de intervenções sérias para que a dignidade humana não seja uma utopia. A virtude, quando presente no ambiente escolar, contribui imensamente para a formação de cidadãos conscienciosos e responsáveis.

Por Gabriel Chalita (fonte: Revista Profissão Mestre)

Esperança na vida

Há pessoas que nos elevam e há pessoas que nos diminuem, ensinou o filósofo Immanuel Kant. Há pessoas que vivem da crítica fácil, do pessimismo, do derrotismo. Que veem o que de pior há nos outros e nas paisagens. É do genial escritor Leon Tolstói esta citação: “Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira”. E há quem veja o que de belo há no bosque. Inclusive, as sementes. E saiba que o inverno é apenas uma estação. E que passa.

Conheci, nesta semana, Dona Djanira. Setenta e sete anos. Voluntária em um hospital que cuida de crianças com câncer. Conta histórias. Algumas, tiradas da literatura universal; outras, da vida. E que rica vida. Lembra-se de algumas crianças que morreram, mas que, antes, riram muito e se emocionaram com suas narrativas. Lembra-se de outras que, curadas, seguiram a vida, com direito a um futuro.

Dona Djanira teve um filho que morreu de câncer. Ela também teve câncer. Venceu uma vez. A doença voltou. Venceu outra vez. E, mais uma vez, adoeceu. Agora, está bem. E não tem medo da morte. Tem medo de perder a esperança na vida. De, talvez, fazer o que disse Tolstói: perder a capacidade de ver o que de belo a vida oferece. Dona Djanira transformou dor em amor e tem um sorriso capaz de envolver qualquer interlocutor. Problemas, todos nós temos – uns, maiores; outros, menores. A questão é prosseguir. Com fibra. Com dignidade e com capacidade de ver.

Dona Djanira é uma dessas pessoas que nos elevam. Um modelo de bravura, de otimismo, de fé. Uma contadora de histórias que fez de sua própria existência uma narrativa inspiradora. Essa senhora-menina, de olhar doce e sábio – que enternece e, ao mesmo tempo, encoraja –, mostra-nos a importância de seguir, ainda que o caminho seja longo e tortuoso. Afinal, sem esperança, não há aprendizado. E, sem aprendizado, a vida fenece. Que, a exemplo de Dona Djanira, não nos permitamos desistir.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Mais um passo contra o bullying

Nesta semana, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados deu um grande passo em direção à cultura de paz nas escolas, com a aprovação de um projeto de lei que visa prevenir e combater o bullying. 

A propositura, de autoria do Senado Federal, acrescenta à Lei de Diretrizes e Bases da Educação um dispositivo que incumbe as escolas de adotarem medidas preventivas, promovendo um ambiente seguro. E vai além: determina que clubes, agremiações e estabelecimentos de convivência coletiva estipulem ações semelhantes na diagnose e no combate a esse tipo de violência. A proposta também estabelece a implementação de um serviço telefônico para denúncias e que cada instituição envolvida constitua uma equipe multidisciplinar para tratar da matéria.

Em 2009, como vereador, elaborei um projeto de lei – sancionado no mesmo ano – que dispunha sobre a inclusão de medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying no projeto pedagógico elaborado pelas escolas públicas do município. Essa ação gerou resultados bastante satisfatórios.

O bullying,  prática intencional e repetitiva de violência, física ou psicológica,  é um problema universal, muitas vezes banalizado e confundido com brincadeira ou indisciplina. É um ato desumano, empregado para atemorizar, excluir, humilhar e perseguir os outros. É a negação da convivência.  A negação da amizade.

Conviver é compreender quem somos, perceber a importância de nos sabermos únicos.  Como seres sociais,  necessitamos do contato com o outro. E, se não acolhemos a diversidade, fomentamos ainda mais as desigualdades. 

A escola é um espaço potencial de convivência. Nela, trabalhamos nossas habilidades e aprendemos a lidar com a riqueza da diversidade. E, quanto mais harmonioso for o ambiente, mais efetivo será o desenvolvimento dos aprendizes. Que o poder público e a sociedade somem esforços para propulsionar, de fato, um novo cenário, em que a paz e a amizade sejam tão naturais quanto verdadeiras.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Adeus, mestre Vanzolini

O Brasil chora. Qual num intenso samba-canção, lamenta, com poesia e pesar, a perda de um de seus mais ilustres filhos. Quis o destino que Paulo Emílio Vanzolini fosse internado no dia 25 de abril, data em que completou 89 anos. Com um quadro grave de pneumonia, o compositor e zoólogo não resistiu. Faleceu três dias depois, no último domingo.

Avesso aos holofotes e às homenagens, o poeta não se via como celebridade. Gostava mesmo era da boemia das rodas de samba. Nelas, os amores achados e perdidos viravam inspiração para músicas capazes de tocar a alma. Humilde, discordava de muita gente ao declarar não ver motivo para a aclamação dos versos de um de seus maiores sucessos: “De noite, eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar; no meio de olhares espio, em todos os bares, você não está”. Para ele, “Ronda” era um samba igual aos outros.

Vanzolini também se destacou por uma laureada produção científica. Formado em medicina, fez doutorado em zoologia na Universidade de Harvard. Nutria grande paixão pelo Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, no bairro do Ipiranga, que ajudou a ampliar, tanto em quantidade de espécies quanto em qualidade. Um dos idealizadores da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e até premiado pela Fundação Guggenheim, em Nova Iorque.

Diz uma de suas obras-primas: “Quando eu for, eu vou sem pena; pena vai ter quem ficar”. Vanzolini deixou-nos, ao partir, não apenas tristeza e dor, mas também o sentimento e a força inerentes a suas composições. “Volta por Cima”, “Na Boca da Noite” e tantas outras canções marcarão para sempre a música popular brasileira. Um legado que aquece a alma e o coração, num momento em que só os versos têm o poder de confortar; uma trajetória que nem o tempo, companheiro e algoz, poderá silenciar.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

O poder da tolerância e da união

Diferentemente das notícias que nos chegam por meio dos diversos veículos de comunicação, espalham-se, pelo País, iniciativas grandiosas de combate ao bullying, com resultados surpreendentes. Sustentadas pela tolerância e pela união dos atores envolvidos no universo escolar, elas são, em sua maioria, lideradas por professores. Profissionais que alicerçam, incansavelmente, a convivência harmoniosa numa sociedade plural.

Concebidas intramuros, as ações antibullying objetivam a conscientização da importância de uma convivência harmoniosa no ambiente escolar, a partir das situações de conflito experimentadas pelos alunos e pelos professores. Desse modo, a observação e a análise dos conflitos são material precioso na busca por soluções diante dos desafios de se conviver, pacificamente, com as diferenças. É o poder das pequenas revoluções empenhadas nos diversos rincões deste País.
 
E o professor é, assim, figura fundamental nesse contexto, haja vista que ele é a alma do processo formativo, o intercessor das situações educativas, o líder dessas pequenas revoluções. Mediar conflitos é educar por meio do afeto, disseminando bons valores, como a amizade, a união e a tolerância. O professor mediador é vital para o sucesso social, emocional e cognitivo dos alunos. Sem sua intervenção, a já difícil compreensão do mundo se torna ainda mais complexa e intricada.

Um mestre é capaz de fazer com que os alunos percebam que podem contar com alguém dentro da escola. E essa percepção tem grande valor, pois um dos problemas do bullying é o fato de a maioria das vítimas permanecer calada, com medo de não ser ouvida ou de sofrer retaliações. Ao sentir-se segura e acolhida para narrar sua dor e, assim, aliviá-la, é provável que a vítima o faça. Isso vale também para o convívio familiar – pais devem estar presentes no dia a dia dos filhos, mostrando-lhes a importância de compartilharem aquilo que os incomoda, que os torna infelizes.
 
É certo que não há como separar o ser humano profissional do ser humano pessoal. O professor também tem problemas, mas, como parceiro mais experiente, deve ser capaz de romper barreiras e de trabalhar suas limitações, a fim de transmitir uma sensação de tranquilidade, de ajuste, de equilíbrio aos aprendizes. O professor é referência para esses alunos que vivem em um mundo tão sem referências como o de hoje. E aí reside o seu poder de transformar duras realidades em espaços de paz.
 
Não se trata de estender mais uma responsabilidade ao professor – profissional já sobrecarregado por dificuldades de todo tipo que se impõem ao seu ofício –, mas, sim, de resgatar o encantamento de uma profissão que cuida, que orienta pessoas e que constrói possibilidades. Paulo Freire afirmava que professor precisa gostar de gente. Caso não goste, não pode ser professor. Dar afeto, vibrar com a conquista do outro, acolher, transformar dores em alegrias são privilégios humanos. Que capacidade infinda de dar e de receber afeto, de sorrir, de chorar, de abraçar, de vibrar com o sucesso do outro tem um professor! Que poderes de atar laços humanos, de promover a união e de semear a tolerância tem um professor! Que privilégio ser professor!

Por Gabriel Chalita(fonte: Revista Profissão Mestre)

Todos têm o direito de aprender

A educação é uma prática libertadora. E o conhecimento, o passaporte para a autonomia. Um país mais justo só é possível com a formação, desde cedo, de indivíduos preparados para a vida e para o exercício da cidadania. E, nesse cenário, o poder público tem papel fundamental.

Participei, nesta semana, como presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, da iniciativa “Liderando Reformas Educacionais: Fortalecendo o Brasil para o Século 21”, na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Trata-se de uma oportunidade para educadores e autoridades políticas discutirem estratégias que elevem a qualidade da educação no Brasil. O evento é organizado pela Fundação Lemann.

Durante quatro dias, abordaram-se questões como currículo, escola de tempo integral, valorização dos professores, participação da família no processo educacional e relação da escola com a comunidade. Um dos pontos mais debatidos foi o acesso de todas as crianças à educação, a partir de metas e diretrizes viáveis.

Conseguimos, nos últimos anos, abrir as escolas públicas para mais e mais crianças e jovens. Oferecer um ensino de qualidade, no entanto, é um desafio que ainda temos de enfrentar. E a política educacional norte-americana pode nos auxiliar na busca desse objetivo.

Não devemos desistir de nenhuma criança e de nenhum jovem. O problema não é a falta de vontade ou de competência desses cidadãos, mas sim a ausência de oportunidades. Com a escola de tempo integral, métodos pedagógicos apropriados, professores preparados e a participação dos pais no dia a dia dos alunos, revolucionaremos a educação no Brasil. Como disse Paulo Freire, “quando o homem compreende a sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções”. É esse o caminho que nos levará a uma política educacional capaz de formar mulheres e homens conscientes, livres e felizes.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Pessoas com deficiência: respeito

Não há vida sem adversidade. Todos enfrentamos obstáculos ao longo da jornada. O que nos diferencia é como reagimos aos percalços do caminho. Alguns desanimam antes de sequer tentar uma solução; muitos, porém, veem na dificuldade uma oportunidade de superação. “Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e às tempestades”, já dizia o filósofo grego Epicuro.

Em recente passagem pelo Rio de Janeiro, visitei o Parque da Catacumba. No grupo que me acompanhava, estava uma deficiente visual. Enquanto todos se extasiavam ao olhar a paisagem, ela se mostrava maravilhada com suas impressões sobre o lugar: “Que sensação, que delícia, que vento bom, que local mágico!”. Ao final do passeio, ficamos ali, conversando sobre a vida. Quanto aprendi naquela tarde! 

O respeito às pessoas com deficiência é uma das premissas para que se construa um país mais justo. Não podemos fechar os olhos para as necessidades desses indivíduos, tantas vezes esquecidos pela sociedade. É obrigação dos governos acolhê-los, criando políticas públicas que os amparem mais digna e humanamente. Nesta semana, a Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, um projeto que concede a essas pessoas aposentadoria com redução do tempo de contribuição à Previdência Social.

Nas situações de deficiência grave, o tempo de contribuição para a aposentadoria integral de homens passa de 35 para 25 anos; no caso das mulheres, de 30 para 20. Quando moderada, são 29 anos para homens e 24 para mulheres. Caso seja leve, o tempo é de 33 e de 28 anos, respectivamente. Já a aposentadoria por idade muda de 65 para 60 anos aos homens e de 60 para 55 às mulheres. A condição é o cumprimento de, no mínimo, 15 anos de contribuição, com comprovação da deficiência pelo mesmo período.

Esse projeto representa um significativo avanço. É preciso respeitar todas as pessoas, dando atenção especial às que mais necessitam. Eis o caminho. Eis nossa convicção.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Escola: espaço de paz

Uma escola é ou deveria ser um espaço de paz, um local em que se aprende a ser, a conviver, a conhecer e a fazer. Uma escola é ou deveria ser um encontro, em que mestres e aprendizes trabalham, juntos, para transformar sonhos em realidade. A educação é o passaporte da liberdade, da autonomia, da promessa de futuro. Nesse cenário, o professor é a alma do processo. E, para isso, deve ser respeitado, valorizado, acolhido. Maria de Fátima é professora de sociologia e filosofia na rede estadual de São Paulo. Esse sempre foi seu sonho. Mas o sonho virou pesadelo. Enquanto cumpria seu ofício, um aluno jogou uma lixeira em seu rosto e quase provocou um deslocamento de retina. Maria de Fátima é mais uma entre tantas e tantos professores que enfrentam essa violência crescente nas escolas públicas. Quando fui secretário da Educação do Estado de São Paulo, criei um programa chamado Escola da Família, que abria todas as escolas nos fins de semana, com práticas esportivas, culturais, de saúde e de geração de renda. O projeto reduziu em até 80% os índices de violência escolar. E fez com que famílias, alunos, professores e funcionários convivessem mais, implantando, em conjunto, uma cultura de paz. Infelizmente, o governo que nos seguiu abandonou o projeto. E a violência cresce a passos largos. Segundo a própria Secretaria Estadual da Educação, os casos de indisciplina e de delitos aumentaram, só na capital paulista, cerca de 150% entre 2010 e 2012. Maria de Fátima e muitos outros mestres, fazedores de sonhos, lapidadores de talentos, necessitam de meios adequados para trabalhar com a coragem inerente à carreira que escolheram. O professor é, afinal, a alma da educação. Enquanto o poder público negligenciar seu papel na prevenção contra a violência nas escolas, esses ambientes de luz serão ofuscados pelo medo, pelo desalento e pelo desencorajamento ao exercício do magistério. Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)