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As crianças que não voltaram

Não conheço as crianças mortas em uma escola no Paquistão. Não sei sequer os seus nomes. Não conheço suas famílias, suas casas. Como não conheço os professores também mortos nesse horrendo atentado. Mas sei de algumas coisas. Vivemos em um mesmo mundo, em uma mesma época. O Sol que aquece esse lado é o mesmo que aquece o outro lado. A Lua que nos inspira a escrever, a namorar, certamente inspirou os seus pais, em algum momento, mas não inspirará essas crianças que, em um dia comum, saíram de casa para aprender algo bom e não voltaram.

A dor dessas famílias não se descreve em pedaços de papel. Os quartos com os ausentes. As lembranças de ontem, quando eles ainda estavam ali, alimentando de vida os seus, prometendo cumprir o ofício de crescer e de prosseguir, mesmo diante de alguns percalços em uma região tão triturada pelo desamor. Crianças, apenas. É o que eram. Vítimas de radicalismos, de ódios que segregam, de bestialidade humana. Não há religião que justifique ações dessa natureza.

Imagino os professores em suas salas de aula. Cada qual ensinando o que lhe competia. Dizendo sobre histórias, geografias, letras, números, gentes. Olhando para os seus alunos e oferecendo a eles o conhecimento como passaporte para dias melhores. Escolheram ser professores por fazerem uma opção pela vida, por acreditarem na generosidade dos saberes e dos encontros. Foram-se eles também. Prematuramente, partiram sem entender as razões. Razão não há para atitudes assim. Nem lá. Nem aqui. Nem em qualquer tempo ou espaço. É de vida que precisamos. E a vida se plenifica na paz. A paz que nasce no coração dos homens e que harmoniza a convivência.

Que as crianças que não voltaram nos alimentem de intenções e de ações de amor. Ou isso ou a barbárie.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/12/2014
 

 

 

 

Irmã Dulce, o anjo bom

Irmã Dulce está em cartaz nos cinemas. O filme conta a trajetória de Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes que, depois dos votos religiosos, tornou-se Irmã Dulce. Dulce era o nome de sua mãe, uma amorosa lembrança que a missionária teve sempre consigo. No nome e no coração. 

“Dulce” vem do latim dulcis,  que significa “doce”. Nome feliz para a Irmã que ficou conhecida como “o anjo bom da Bahia”. Nome feliz para a freira que soube viver a plenitude do evangelho, cumprindo, no dia a dia, o maior de todos os mandamentos, segundo o cristianismo: amar a Deus e amar ao próximo.

O filme de Vicente Amorim traz duas atrizes interpretando Irmã Dulce, em momentos diferentes: Bianca Comparato e Regina Braga. A jovem freira que, desde criança, demonstrava sua vocação para a generosidade, para o amor e a ajuda ao próximo, enfrentou dificuldades no convento para cumprir as regras da congregação e, ao mesmo tempo, não negligenciar o seu ardente desejo de cuidar dos pobres. A porta do convento deveria permanecer fechada durante a noite. As freiras tinham obrigações quanto ao horário das orações. Irmã Dulce não era contra nada disso, pois valorizava demais a vida comunitária e o momento da oração, um combustível que alimentava suas ações de caridade. Mas não aceitava, em hipótese nenhuma, abandonar seus pobres.

As autoridades, entretanto, não compreendiam que uma freira quisesse mudar o mundo. ”Afinal, pobres, sempre teremos. Não somos Deus, somos apenas mulheres, temos limitações”, justificava uma superiora. Mas Irmã Dulce não se permitia ser comandada por limitações. Se não havia como mudar o mundo inteiro, que se mudasse o mundo de quem estava próximo. Que se cuidasse de quem estava despejado dos afetos, das atenções, dos olhares. Eram os invisíveis os seus amigos da dor; eram os doentes que não tinham onde recobrar as forças; eram os carentes que choravam, desamparados, as suas ausências;  eram seus irmãos de Amor os que ela queria embalar em seu celeiro de aconchego. Dizia ela: “O que fazer para mudar o mundo? Amar. O amor pode, sim, vencer o egoísmo”.

Muitas vezes, expulsa dos lugares onde se instalava com seus pobres, Irmã Dulce era vista peregrinando, pelas ruas de Salvador, acompanhada por seus necessitados. Foi uma década de andanças, perambulando com seus pobres sem ter um lugar para chegar.

Mas, enfim, no Convento de Santo Antônio, a superiora cedeu. Irmã Dulce teve autorização para ocupar o galinheiro, abrigando seus irmãos carentes. Desse galinheiro, com o tempo e pelo número de pessoas que a procuravam, fez-se um hospital. Hoje, o maior da Bahia. Irmã Dulce não aceitava portas fechadas. Dizia que se a porta dela era a última porta a que recorria um pobre, ela não poderia, jamais, estar fechada. Enfrentava dissabores com determinação. E não desistia do amor:”Se fosse preciso, começaria tudo outra vez do mesmo jeito, andando pelo mesmo caminho de dificuldades, pois a fé, que nunca me abandona, me daria forças para ir sempre em frente”.

No filme, há momentos de oração em que ela conversa com Santo Antônio, exigindo dele providências para aliviar a dor dos seus irmãos. Oração é intimidade, é sinceridade, é conversa franca que deve brotar do que sentimos, do que desejamos. Seus pedidos eram feitos com simplicidade. Era simples com os homens. Era simples com os santos.

Hoje, Irmã Dulce é beata. Na memória do povo da Bahia, já é santa. Não que não tivesse erros, mas o que são seus erros diante de sua obra? Quantas vidas tiveram outro porvir por serem por ela cuidadas? A sua obra se fez e se faz grandiosa, fortificada, permanente, pois foi construída com cada uma das pedras que recebeu. Pedras recebidas, sempre, com muita humildade. E muita fé. “Eu nada fiz, porque nada sou. Quem faz tudo é Deus, nunca se esqueça disso”.

Em um mundo carente de exemplos, vejamos o filme de Irmã Dulce, leiamos sua biografia, permitamos que sua inspiração nos frequente.

Há muitas razões para nos desanimar: violência, corrupção, perversidade, desamor. Irmã Dulce não desanimou. Aliás, foi incansável. Dormiu por 30 anos numa cadeira, pagando uma promessa que fizera pela saúde de sua irmã. Vítima de enfisema pulmonar, nosso anjo bom não desanimava nunca. Nem por ordem médica, pois seus doentes não podiam esperar.

Que a vida dessa mulher, frágil de saúde e forte de determinação, nos encoraje a fazer o bem. Sem concessões.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/12/2014

Duas facadas em um mesmo coração

Li e reli, com tristeza, a saga de Dona Celia Regina Conceição Germano. No dia 8 de janeiro de 1994, ela perdeu uma filha vítima de bala perdida num confronto entre o tráfico e a Polícia Militar. A filha estava grávida de oito meses. Vinte anos depois, no dia 26 de novembro de 2014, Dona Celia perdeu outra filha, também grávida de três meses. Igualmente vítima de bala perdida. Duas “facadas” em um mesmo coração. Desde que recebeu a triste notícia, Dona Celia enterrou-se numa cama e é mantida sedada. Amanhã, dia 13, ela vai completar 60 anos. Vai comemorar o quê? Há outros filhos, há outros netos que despertam na avó muita preocupação. O filho mais velho de uma das filhas assassinadas é muito quieto, diz a avó, e, vez ou outra, repete para si mesmo que a mãe não deveria ter morrido daquele jeito.

Dona Celia vive em Acari, zona norte do Rio de Janeiro. Mas poderia viver em qualquer outro canto deste imenso país. A onda de violência ainda desafia a nossa inteligência e a nossa capacidade de construir uma sociedade de paz. Cidades vão crescendo, novas tecnologias vão sendo disponibilizadas, novos discursos de velhas práticas políticas adornadas por respostas prontas de ações incompletas. Fala-se o que se espera e faz-se o insuficiente. E há outro agravante. Lemos essas histórias sem a capacidade de indignação, sem a compaixão necessária.

Dona Celia não é minha mãe. Mas poderia ser. Minha mãe também perdeu dois filhos. De formas diferentes. Não foram vítimas de balas perdidas.  Seu coração sofreu o sofrimento inevitável de quem ama. Dona Célia tem, além da dor da perda, razões outras para lamentar a prematura partida de suas meninas.

Que a dor não nos roube a esperança, mas que não nos mantenha anestesiados.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/12/2014

50 anos celebrando o Amor

Monsenhor Jonas Abib está celebrando 50 anos de ordenação sacerdotal. Nascido em Elias Fausto, o menino que, em São Paulo, estudou com os Salesianos no Liceu Coração de Jesus teve em seu coração o ardente desejo de servir a Deus cuidando dos jovens. Enfrentou doenças, dificuldades, pedras tantas que lhe roubaram lágrimas, mas nunca a fé. A fé guiou seus passos para criar uma pequena comunidade que se tornou gigante e está presente em diversos países no mundo todo. A Canção Nova surgiu de um sonho do Padre Jonas de “formar homens novos para um mundo novo”. Homens e mulheres que soubessem encontrar um sentido para viver. Homens e mulheres que experimentassem a real felicidade de viver o cristianismo.

Começou pregando em retiro de jovens. Revolucionário, usava o violão em suas celebrações. Compunha lindas canções que tocavam a alma e apresentavam um Deus capaz de nos surpreender, de nos alimentar de esperança e de fazer preservar em nós a alegria. Conceitos que o embalaram. Sintática da inesquecível homilia do Papa Francisco, muitos anos depois,  na Missa de Aparecida.

O jovem Jonas Abib ficou doente, tuberculoso, e aproveitou o momento para cantar com os internos do sanatório e celebrar com eles a missa de natal. Preparou entre os tuberculosos o aniversário do menino Jesus. Jesus, o Deus que Se fez homem e que jamais discriminou ninguém, nem os que mais sofriam preconceitos, em Sua época, como os tuberculosos.

Jesus amou as mulheres em tempos difíceis para elas. Padre Jonas quis começar sua comunidade com mulheres e homens, juntos, convivendo em harmonia. Alguns estranharam. O que fariam esses jovens vivendo juntos? Ele via além. Fariam o bem. Experimentariam a vida comunitária como os primeiros cristãos. Viveriam a pedagogia do encontro. E, no encontro com Deus, seriam capazes de comunicar ao mundo a verdade que os embalava.

Padre Jonas começou seu programa de rádio, no início da Comunidade Canção Nova, falando em Sistema Canção Nova de Comunicação. Uma rádio que só pegava na minha amada Cachoeira Paulista, minha cidade natal. Mas os olhos do profeta do Amor queriam mais. Queriam que sua mensagem chegasse a outros cantos. Principalmente nos cantos de dor em que jovens desesperados corriam os riscos de renunciar à liberdade para viver nas presas da violência, das drogas, da ausência de amor. Seu lema: “Não desista de ninguém, pois Deus não desiste de nós”.

O tempo foi passando.
 
Suas canções falam de sua entrega, da liberdade que em Deus ele encontra:
 
Quero transformar numa canção,
As juras de amor por Ti, meu Deus.
Entraste em minha vida sedutor,
Já não sei viver sem Teu amor.

Tudo Te entreguei, nada me restou,
Livre eu fiquei para Te amar, meu Deus.
Tudo me pediste, nada eu Te neguei,
Hoje eu sou feliz assim, tenho a  Ti,  meu Deus. 
 
Suas canções trazem a poética do encontro. O necessário silêncio. A oração que nos aproxima de nós mesmos, que nos conduz ao âmago do que nos realiza:
 
Ouço Teu silêncio, meu Senhor, para distinguir só Tua voz.
Busco meu cantinho sem ninguém para só Contigo eu ficar.
Eu Te busquei no barulho, só encontrei solidão.
Eu quis me encher de prazeres e mais vazio fiquei, meu Senhor.
Mas hoje Te encontro na flor, nas ondas do mar, no azul deste céu.
Hoje Te encontro, meu Deus, num gesto de amor sem nada esperar.
 
Monsenhor Jonas Abib celebra 50 anos de padre. Ainda tem a vivacidade e a esperança de um menino.  O mesmo entusiasmo. Tem as mãos e o coração plenos de Deus. Sua sabedoria mescla-se com sua simplicidade. A simplicidade de um homem que tem fé, que crê nas possibilidades, que acredita que o reino de Deus começa aqui e agora. Uma vida inteira dedicada ao bem. Com leveza, com suavidade, com coragem.

Em um mundo carente de referenciais, é bom conhecer um pouco mais a sua história. É bom saber que existe água no deserto, que se avista luz na escuridão, que se tem esperança na dor. Aliás, dor e esperança coexistem. Basta compreender. Para isso, Monsenhor Jonas ensina: “A vida não terminou. E já dizia o poeta ‘ que os sonhos não envelhecem’”.
 
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 7/12/2014

A educação de todo dia

Um carro passa com a janela aberta. Alguém joga algo na rua. Fato do cotidiano. Fato feio do cotidiano. Não importa se o carro é de luxo ou não. Se seus ocupantes têm mais ou menos dinheiro, se têm formação universitária ou não. O que chama a atenção é a ausência de cidadania. É o descuido com o espaço público. É o desrespeito ao outro.

Quantas vezes, ao dar a última aula, pedi aos alunos que olhassem ao seu redor. Eram papéis espalhados pelo chão, restos de lápis, papéis de bala, entre outras coisas. Pedia-lhes que pensassem no pessoal da faxina vendo aquela sujeira. Seria correto deixar para o outro o dever de cada um de nós de jogar o próprio lixo no lixo? E, então, juntos, recolhíamos tudo. O resultado era surpreendente. Nas aulas seguintes, não se via mais sujeira pelo chão. Acredito na educação que provoca reflexão e transforma atitudes. Quando nos preocupamos em ensinar as teorias matemáticas ou geográficas, estamos certos. Ou teorias de química e física. Ou o apuro para a compreensão das múltiplas linguagens que a arte nos proporciona: teatro, cinema, música, artes plásticas, etc. Tudo isso é fundamental para preparamos os profissionais que comandarão pessoas e organizações. Mas a educação vai além. É o hábito de fazer o correto, no dia a dia, em qualquer situação. É a riqueza de ensinar pelos bons exemplos.

Carros em filas duplas, vagas de pessoas com deficiência ou de idosos ocupadas de forma inadequada, comportamento violento nos esportes, descumprimento das regras, zombaria às pessoas, piadas preconceituosas, ausência de civilidade no trato com o outro. Tudo isso deseduca e compromete as relações humanas. Um filho que assiste a uma atitude não cidadã de seus pais vai imitá-los, certamente. É preciso lhes oferecer, com amor e responsabilidade, água limpa e cristalina para ser absorvida. É nosso dever optar pela verdade, pelo ético, pelo bem comum. Sempre. Pelos bons exemplos que educam, que elevam, que enriquecem a convivência.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 5/12/2014

 

O amor em qualquer idade

Está em cartaz nos cinemas brasileiros um filme delicado, bem dirigido e com uma temática atualíssima: o amor. O amor na maturidade. O amor capaz de tudo para surpreender e alimentar os sonhos de uma vida inteira. Elsa e Fred.

Elsa, interpretada por Shirley MacLaine, é uma mulher romântica que mistura ficção com realidade (é mais elegante dizer assim do que falar que, não poucas vezes, ela mente) e que sonha em recriar a clássica cena de “A Doce Vida”, de Frederico Fellini, na Fontana di Trevi. É mãe protetora. É mulher apaixonada. Entrega-se à vida e aos seus encantamentos. Fred, interpretado por Christopher Plummer, é um homem ainda de luto pela recente viuvez. Pacato. Hipocondríaco. Para Elsa, cada dia, é uma oportunidade de viver. Para ele, é só mais um dia. Essa história de amor começa com a mudança de Fred, a contragosto, para um apartamento arranjado pela filha que gostaria de tomar conta do pai. Estão os dois no mesmo prédio, Elsa e Fred. E, depois de um pequeno acidente, acabam se encontrando. Totalmente diferentes, vão se completando pelas surpresas que a vida oferece e pela capacidade de reinventar a própria história.

Elsa está doente, com gravidade. Fred quer dar a ela a oportunidade de realizar seu sonho de entrar na Fontana di Trevi, em Roma, revivendo Anita Ekberg e Marcello Mastroianni, no filme de Fellini, que marcou a história do cinema.

Além de estar em cartaz nos cinemas, essa refilmagem do longa argentino de 2005, dirigido e roteirizado por Marcos Carnevale, está também no teatro com dois atores geniais: Suely Franco e Umberto Magnani. A história é a mesma. Há momentos muito divertidos. Suely leva a plateia às gargalhadas. E há momentos profundamente emocionantes e educativos. A relação da mãe com os filhos e a do pai com a filha rendem boas reflexões.

É interessante como vêm fazendo sucesso essas histórias de amor que quebram os clichês do mocinho e da mocinha jovens, lindos, perfeitos. Talvez isso aconteça porque o público se identifica com essas histórias, tão próximas da vida real. Todos queremos alimentar a esperança de que não deixaremos de amar quando os tempos da juventude já tiverem se despedido.

Palavras de amor

As palavras contagiam. E os sentimentos vividos por personagens do cinema e da literatura permanecem conosco. Nos minutos seguintes e pelo resto dos nossos dias. Mesmo que inconscientemente. E a literatura, assim como a dramaturgia, nos presenteia com histórias de amor vividas durante a melhor idade. Em “Carta a D.”, André Gorz, autor de tratados sobre filosofia e sociologia, escreveu sobre o amor pela sua esposa, Dorine. Em suas páginas, vemos o amor de uma vida inteira transformar-se em palavras tão belas quanto o sentimento que as inspira. “Eu gostava da sua fragilidade superada, admirava sua força frágil. Nós éramos, eu e você, filhos da precariedade e do conflito. Fomos feitos para nos proteger mutuamente contra ambos, e precisávamos criar juntos, um pelo outro, o lugar no mundo que originalmente nos tinha sido negado. Para isso, no entanto, seria necessário que o nosso amor fosse também um pacto para a vida inteira.”

Depois de quase sessenta anos juntos, Gorz reconstrói a história dos dois nesta carta, endereçada a D. e a todos os que amam. Este livro não é mais uma história bonita entre duas pessoas que se amam. É um verdadeiro tratado sobre o mais nobre e transformador dos sentimentos humanos. As páginas avançam permeadas de afeto, de reflexões, de cumplicidade, de magnetismo. De amor de verdade. E como tudo o que é verdadeiro, o amor de André Gorz e de Dorine desafia o tempo, suas destemperanças, e nos contagia mostrando uma nova face desse sentimento. A sua beleza na maturidade.

As cartas também exerceram um papel importante na união de um casal clássico da literatura universal. Em “O amor nos tempos de cólera”, do mestre do realismo mágico, Gabriel García Márquez, Florentino apaixona-se por Fermina e, após um longo período de troca de correspondências, declara seu amor por ela. A vida não permitiu que essa união fosse selada durante a juventude. Mas o amor venceu o tempo, e Florentino esperou sua “deusa coroada” por 51 anos. O tempo é sempre generoso com quem o respeita. Com quem reconhece que não existe hora certa para viver uma história de amor. Com quem descobre que o amor é ainda mais belo na maturidade e que sempre é tempo para findar o tempo das ausências.

 

“Elsa & Fred” nos cinemas:

Dirigido por Michael Radford. Com Shirley MacLaine e Christopher Plummer, interpretando Elsa e Fred, respectivamente.

 

“Elza & Fred” no teatro:

Direção: Elias Andreato

Com: Suely Franco e Umberto Magnani, Mayara Magri e outros

Texto: Marcos Carnevale, Lily Ann Martín e Marcela Geraghty

Tradução: Rodrigo Paz

Em cartaz até 21/12, no Teatro Folha

Teatro Folha: Av. Higienópolis, 618, terraço – Consolação.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/11/2014

Tempo de delicadeza x Tempo de horror

De tempos em tempos, surgem pesquisas mostrando dados alarmantes sobre a violência contra a mulher. E, de tempos em tempos, crio a expectativa de que o tempo da delicadeza vença o tempo do horror, da covardia, mas não é isso o que vem ocorrendo. Infelizmente.

Dados recentes da ONU mostram que uma a cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual. Mais de 100 milhões de mulheres e meninas sofreram mutilação genital. No Brasil, segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres, a cada 12 segundos, uma mulher sofre violência sexual. Há outro dado, também assustador, que aponta que mais de 70% das agressões contra a mulher ocorrem no domicílio da vítima: pelos pais, irmãos, tios, padrastos etc. Não raro, os abusos desses homens são de conhecimento até mesmo de outra mulher da família que, por medo ou por vergonha, encobre o agressor. Muitos desses homens violentos justificam sua ação perversa e covarde como ato de amor. Amor? Quem ama respeita. Quem ama cuida. 

Quem decide partilhar a vida com alguém precisa compreender que momentos de instabilidade surgirão, mas que não serão resolvidos pela violência. Somos seres inteligentes, capazes de dialogar, aptos a compreender as nossas diferenças. É preciso acabar com essa história de maldade, de dor, de desrespeito. E as mulheres também têm um papel fundamental nessa batalha. Tolerar qualquer gesto de violência, por menor que ele pareça ser, é abrir as portas para agressões mais sérias. Brincadeiras em que o outro se torna o brinquedo não devem frequentar o convívio humano. É bom ver ONGs se mobilizando, a mídia alertando, a sociedade compreendendo e agindo.

Toda atitude machista é vergonhosa. Uma atitude violenta, além de criminosa, é horrenda. Mostremos a nossa melhor face. A face dos que caminham de mãos dadas, sem tempo nem disposição para atirar pedras.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/11/2014

 

A consciência livre do poeta

Uma reflexão sobre o dia da Consciência Negra

Era um sonho dantesco”. Assim o poeta da liberdade e dos escravos, Castro Alves, descreve a infernal cena dos escravos acorrentados na enorme embarcação negreira. Da metáfora à crueldade de dias sombrios em nossa história. Homens, mulheres, jovens e crianças arrancadas de sua terra natal, feitos escravos, sem o direito de sequer sonhar. “Ontem a Serra Leoa,/ A guerra, a caça ao leão,/O sono dormido à toa/Sob as tendas d’amplidão! /Hoje… o porão negro, fundo,/Infecto, apertado, imundo,/ Tendo a peste por jaguar…”.  Muitos morriam pelo caminho, encarcerados num porão fétido, lúgubre e desumano, sem ar suficiente para respirar. Centenas de homens negros amontoados como bichos, castrados de sua dignidade que se esvaía pelo mar. A vida, ali, confundia-se com a morte. Homens vivos sem vida. Homens mortos sem dó. “Nem são livres p’ra morrer.”

No meio do doloroso inferno misturado ao vermelho sangue, algozes brancos e ferozes, desafiando a irmandade entre os homens, entre todos os homens, açoitavam – impiedosamente – os impotentes escravos. “ No entanto o capitão manda a manobra,/ ‘Vibrai rijo o chicote, marinheiros! /Fazei-os mais dançar!…”. Mulheres e homens negros debaixo de chibatadas, destinados à miséria humana de servirem de escravos classificados apenas pela cor de sua pele. Nascidos para sofrer, sem direito à escolha, sem direito ao amor, sem direito à liberdade. 

Como um pássaro que sobrevoa o mar, avistando o solitário navio, o eu-lírico parece aproximar-se da cena, como se não fosse possível acreditar no que ali acontecia: “Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras! /É canto funeral! … Que tétricas figuras! … /Que cena infame e vil…/ Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”. A indignação do poeta diante daquela atrocidade persiste muitos anos depois. O poema foi escrito há 146 anos.  Há poucos 51 anos, Martin Luther King, líder negro norte-americano, declarou em um discurso de paz e indignação diante das leis segregacionistas que negavam iguais direitos aos negros de seu país: “Eu tenho o sonho de ver um dia meus quatro filhos vivendo numa nação em que não sejam julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo seu caráter.” No final do século XX, outro grande líder negro, Nelson Mandela, proclamou-se, também, diante do preconceito injusto contra os negros africanos: “Ninguém nasce odiando outras pessoas pela cor da sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Questionava ele sobre o fato de os homens aprenderem a voar como pássaros e a nadar como peixes e não aprenderem a conviver como irmãos!

Indignemo-nos. Sempre. Os navios negreiros foram proibidos, a escravidão foi abolida e a consciência negra de Castro Alves fez história. E a de tantos outros líderes que dedicaram suas vidas à luta pela liberdade. Pelo direito de cada homem ser o que é. Com dignidade. Todos os homens são iguais. Um homem jamais foi superior ao outro. Não há, nem nunca houve, homens de primeira nem de segunda categoria. 

O sonho libérrimo desses homens permanece. O nosso também. Vivemos em uma sociedade que não pode suportar o preconceito em nenhuma situação. Que a celebração da data da Consciência Negra seja de reflexão, de união, de solidariedade.  De respeito aos nossos irmãos negros que ajudaram a construir a identidade desta nação. De pedir perdão às dores e aos horrores a eles causados. É um dia de esperança. A esperança de que, um dia, não precisemos mais de um dia dedicado à Consciência Negra. Que as tintas que pintaram quadros de crueldade humana componham, nestes tempos, um cenário de diversidade harmoniosa e cúmplice. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/11/2014

 

 

Lágrimas milagrosas

No final da semana passada e no início desta, proferi várias conferências na Região Nordeste e Norte de nosso país. Estive em Recife, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Macapá e Belém do Pará. Fiquei emocionado com o carinho dos professores e dos alunos. Aprendi muito. E ouvi muitas histórias. Quando estou com professores, alimento-me de vida, de vida generosa.

Depois da palestra em Juazeiro do Norte, fui visitar a estátua do Padre Cícero e a Igreja onde ele está enterrado. Lá conheci Cícero. Nascido em Palmeira dos Índios, Alagoas, Cícero vive, hoje, em Juazeiro. E gosta das rezas, disse-me ele, sorrindo. E gosta de velório. Não perde um. Acha que deveria haver uma lei que obrigasse as pessoas a ir a velórios. Contou-me que é “sentinela de velório”, eu não sabia o que isso significava. Cantou-me algumas músicas populares, tristes. Uma para cada ocasião. Quando morre o pai, é um tipo de música; quando morre a mãe, é outro. “Quando morre o filho, é dor doída demais”, confidenciou-me Cícero. Disse-me que seus irmãos não gostam dele. Que o acham atormentado. Mas que ele não se importa. Que é feliz assim. Cantando. Rezando. Chorando. Lembrou-me Morte e Vida Severina, de João Cabral. A singeleza das ladainhas e a riqueza da crença popular. 

Contou-me ainda que chorava sempre, pois todo velório é triste. Mas revelou: “o velório mais triste da minha vida foi o que eu não fui: o de minha mãe”. Seus irmãos não o avisaram. E, até hoje, ele sente essa dor. Sua mãe foi o que de melhor ele teve na vida. E se tivesse oportunidade de chorar, de chorar lágrimas milagrosas, ele choraria sem parar para trazê-la de volta. Deu-me um abraço forte e chorou.

A missa começou e eu fiquei olhando seus gestos de  fé. E de outros que ali estavam trazendo suas dores, suas lágrimas e seus sonhos. Eu também rezei e pedi a Deus o dom da simplicidade. Em um mundo tão cheio de irracionalidades, é bom conhecer alguns Cíceros e aprender com eles. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/11/2014

O último voo do poeta

Nosso poeta Manoel de Barros voou. Estamos comovidos, em silêncio, buscando ouvir o último ruflar de suas asas. Nosso poeta desejou tanto usar “palavras de ave para escrever”; mas cometeu muito mais do que isso: suas palavras se fizeram asas para além do voo. E permanecem no ar, ora soltas, ora em frases, desafiando-nos a capturá-las. O poeta, que nasceu menino, partiu menino. Fez de sua maturidade a sua segunda infância; uma vida em poesia. Fez de sua arte um brinquedo. Despojado de regras e convenções, desconstruiu a linguagem, poetizou a natureza e o mundo, vestiu de singeleza as palavras. Fez da vida sua arte de simplicidade. Dizia que sua poesia era difícil de ser compreendida, embora fosse feita com palavras simples. Muitos não entendiam essa declaração. Mas é preciso fazer-se criança para compreender. Admirar-se. Encantar-se. Desinventar-se. 

Manoel de Barros nasceu às margens de um rio, cresceu menino do mato e amigo do silêncio. A palavra sempre foi seu jogo predileto. Durante a semana, a escola ocupava seu tempo, mas, nos fins de semana, eram os jogos de futebol e os livros do padre Antônio Vieira que o envolviam. Mas antes de testar em versos os “seus deslimites”, estudou Direito, formou-se e passou por uma dezena de empregos. Não via prazer em nada daquilo. Queria mesmo era “usar palavras de ave para escrever”. Ter liberdade para redescobrir a vida em versos. A vida de amor ao lado de dona Stella, sua doce e cuidadosa ‘Dona Pássara’. Quando se conheceram, há mais de 60 anos, Manoel era vendedor de imóveis. Stella estava decidida a não se casar. Procurava um lugar para morar sozinha. Manoel, em vez de encontrar um apartamento para ela, abriu as portas de uma vida a dois. Foram para o Pantanal. Cultivaram a terra e seus frutos. Um deles, o tempo para a literatura. Manoel passava os dias em seu escritório. No seu “lugar de ser inútil”, como gostava de dizer. O desabrochar de seus poemas se dava nos blocos de papel que ele mesmo fazia. Passava horas para desenhar um verso. A lápis. Livre de qualquer paradigma. E, assim, voava observando pedras, sapos, galinhas e amanheceres. Coisas “desimportantes”, segundo ele.

Manoel de Barros colhia na natureza a singeleza da vida e a beleza de seus poemas. Desejava que um “passarinho escolhesse a sua voz para seus (meus) cantos”. Acreditava que “falar a partir de ninguém faz comunhão com as árvores/ Faz comunhão com as aves/ Faz comunhão com as chuvas (…)”. Ele olhava para o que poucos percebem. E assim aumentava o mundo e sua singeleza. Em seus versos, as coisas, a natureza e os homens se misturam em uma sinestesia de cores com cheiros, de olhares que falam. Depois de seus poemas, somos outros, alargamo-nos. Entramos riacho e saímos rio. Sua arte muda nosso jeito de ver. De sentir. De viver. Manoel era de sorriso largo. De esticar horizontes. Cresceu menino. E, menino, despediu-se de nós, na última quinta-feira, aos 97 anos. O poeta que nunca gostou que colocassem data na existência vive, para sempre, no quando.

Enquanto ele nos faz saudade, certamente, está dando boas risadas, “conversando sobre nada e passarinhos”, de olhos dados com seu grande e amado amigo Bernardo, personagem de tantos de seus escritos. O pássaro voltou ao ninho e, de lá, pousado em algum tronco de árvore, ainda nos ensina a compor silêncios com suas palavras.   

 

As bênçãos 

 

Não tenho a anatomia de uma garça pra receber

em mim os perfumes do azul.

Mas eu recebo.

É uma bênção.

Às vezes se tenho tristeza, as andorinhas me

namoram mais de perto.

Fico enamorado.

É uma bênção.

Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro

para que se tornem peregrinos do chão.

Eles se tornam.

É uma bênção.

Até alguém já chegou de me ver passar

a mão nos cabelos de Deus!

Eu só queria agradecer.

Manoel de Barros

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/11/2014 | Foto: Divulgação