No final da semana passada e no início desta, proferi várias conferências na Região Nordeste e Norte de nosso país. Estive em Recife, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Macapá e Belém do Pará. Fiquei emocionado com o carinho dos professores e dos alunos. Aprendi muito. E ouvi muitas histórias. Quando estou com professores, alimento-me de vida, de vida generosa.
Depois da palestra em Juazeiro do Norte, fui visitar a estátua do Padre Cícero e a Igreja onde ele está enterrado. Lá conheci Cícero. Nascido em Palmeira dos Índios, Alagoas, Cícero vive, hoje, em Juazeiro. E gosta das rezas, disse-me ele, sorrindo. E gosta de velório. Não perde um. Acha que deveria haver uma lei que obrigasse as pessoas a ir a velórios. Contou-me que é “sentinela de velório”, eu não sabia o que isso significava. Cantou-me algumas músicas populares, tristes. Uma para cada ocasião. Quando morre o pai, é um tipo de música; quando morre a mãe, é outro. “Quando morre o filho, é dor doída demais”, confidenciou-me Cícero. Disse-me que seus irmãos não gostam dele. Que o acham atormentado. Mas que ele não se importa. Que é feliz assim. Cantando. Rezando. Chorando. Lembrou-me Morte e Vida Severina, de João Cabral. A singeleza das ladainhas e a riqueza da crença popular.
Contou-me ainda que chorava sempre, pois todo velório é triste. Mas revelou: “o velório mais triste da minha vida foi o que eu não fui: o de minha mãe”. Seus irmãos não o avisaram. E, até hoje, ele sente essa dor. Sua mãe foi o que de melhor ele teve na vida. E se tivesse oportunidade de chorar, de chorar lágrimas milagrosas, ele choraria sem parar para trazê-la de volta. Deu-me um abraço forte e chorou.
A missa começou e eu fiquei olhando seus gestos de fé. E de outros que ali estavam trazendo suas dores, suas lágrimas e seus sonhos. Eu também rezei e pedi a Deus o dom da simplicidade. Em um mundo tão cheio de irracionalidades, é bom conhecer alguns Cíceros e aprender com eles.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/11/2014
