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Misericórdia

O Papa Francisco nos convida a viver o Ano Santo da Misericórdia.
Por meio da Bula Papal Misericordiae Vultus (O Rosto da Misericórdia), Francisco fala da missão do cristão em ser misericordioso.

O que significa a misericórdia? A origem da palavra nos remete a, pelo menos, duas possibilidades que se complementam:
Miser  (pobre) e  cordis (coração), portanto, coração de pobre.
Miseratio (compaixão) e cordis (coração), coração compadecido.

O sentido de “coração de pobre” é ter a consciência de que todos nós somos pobres, necessitados, carentes de algo. Todos nós. Não há ninguém que viva sem carências. As carências são diferentes. Há carências materiais, afetivas, espirituais e outras. Carecemos do outro como essência da nossa existência. E careceremos sempre. Ninguém chegará ao patamar da satisfação absoluta.

Da mesma forma que, por mais que já tenhamos nos alimentado fisicamente todos os dias, precisaremos continuar a nos alimentar, isto é, careceremos de alimentos, assim também acontece nas relações humanas. Ninguém poderá dizer que já foi muito amado, e isso o alimentou de tal forma que nunca mais precisará de amor. Careceremos de amor para sempre. Essa é uma boa condenação. Estamos condenados a precisar de amor e de amar. Sem isso, nossos dias perderão o significado e fenecerão. Há várias formas de amar. O que não há é a possibilidade de viver dignamente sem amor.

A primeira reflexão de misericórdia refere-se, portanto, ao universo individual. A consciência de que essa boa limitação é para todos. Somos limitados às nossas necessidades. Pobres. Carentes. Necessários de alimentos físicos e afetivos.
A segunda reflexão, como consequência da primeira, refere-se ao coletivo. Se sou carente e o outro também é, é preciso que nos unamos em nossas carências e que fortaleçamos os nossos vínculos. Um coração compadecido é um coração que sofre com o sofrimento do outro, que enxerga o outro que, portanto, não lhe é indiferente. A indiferença é uma falha grave no tribunal dos afetos. Deixar de enxergar, de compreender, de acolher o outro é prova de ausência de humanidade. Vivemos tempos de cobranças, de julgamentos, de achincalhes. Criticamos quem nem conhecemos. Empenhamo-nos em exercer o triste ofício de carrascos de irmãos nossos. Sim, somos irmãos, independentemente de origens, crenças, religiões. Somos irmãos no sentido humano. Nascemos da mesma terra e nutrimo-nos das mesmas necessidades.

A abertura do Ano Santo da Misericórdia coincide com os cinquenta anos do encerramento do Concílio Vaticano II. O Papa do Concílio – hoje,  São João XXIII – declarou que: “em nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade…”. Redescobrir o valor do perdão, dos ensinamentos da parábola do filho pródigo, do pai que acolhe o filho que errou e o encoraja a corrigir a rota e a seguir no caminho do bem. Redescobrir o valor do cuidar, a bela história do bom samaritano, que para, que enxerga o irmão ferido e que cuida dele.
Quantos ensinamentos há para serem incorporados no nosso dia a dia para vivermos a misericórdia! Palavras ganham significado quando são vividas. Eis a bela expressão da caridade que nos ensina São Paulo. Precisamos de uma fé com obras. Com obras de misericórdia, com obras de amor.

Algumas pessoas se diminuem quando imaginam que, em um mundo tão errático, fazer o bem não faz a diferença. O mundo é formado por muitos mundos. Cada ser humano é um mundo que convive com outros mundos. Antes de pensarmos no mundo inteiro, pensemos nos mundos com os quais os nossos mundos convivem. É assim, na simplicidade de um cuidar, que mundos se elevam e que a misericórdia se realiza.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/01/2016

“Acabou o meu mundo”

Essa foi a frase proferida pelo índio Arcelino Pinto. Esse foi o grito que brotou do coração de um pai desolado. Mataram seu filho. Um menino de 2 anos e meio. O curumim Vítor.  Era forte o sol do meio-dia. Brincava Vítor sob uma árvore, na companhia da mãe que, pacientemente, o alimentava. O pai havia saído com os dois filhos mais velhos para vender o produto do seu trabalho. São índios artesãos. Vivem da sua arte. Da sua cultura. Das suas tradições. No verão, deslocam-se para o litoral a fim de vender seu artesanato. Neste ano, a família sonhava em comprar uma geladeira com o dinheiro das vendas.

 Hora do almoço. Arcelino parou com os filhos para comer algo. Soube da tragédia pela TV pendurada no teto de um bar. Olhos fitos na tela, ficou atônito diante da reportagem que falava sobre o brutal assassinato de uma criança indígena, sem se dar conta de que a vítima era o seu pequeno Vítor. Sentiu dor ao imaginar o que a família daquela criança estaria sofrendo. Mal sabia que era a sua família que vivia aquele drama. Seu filho apenas brincava feliz, à sombra daquela árvore. Alguém se aproximou, acariciou a criança e a degolou com um estilete! A mãe, em desespero, pegou o filho no colo, chorou o choro mais doído de sua vida. Conseguiu alguma ajuda, mas não evitou a morte de seu filho. Conta a pobre índia que tudo pareceu um sonho. Não era. Era um pesadelo. Os irmãos sentem falta do caçula. O povo Kaingang chora a partida prematura de seu membro. Indignado. Ferido. Revoltado.

Como pode alguém ser capaz de uma atrocidade dessas?  Para onde vamos? Não é só o mundo desse pai que acabou. Os mundos nossos acabam quando vivemos essas experiências. Tristes experiências de ausência de amor. Horrores gerados no horror do ódio. Infelizmente, o mal existe. Mas ainda há bondade por aí. Naquelas tribos e nas nossas. Continuo acreditando que o bem é mais forte do que o mal. Apesar de tudo o que vejo, continuo acreditando. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/01/2016

Recomeços

O que é um recomeço?

Diz a canção de Ivan Lins: “Começar de novo e contar comigo, vai valer a pena ter amanhecido”. Fala o compositor sobre um amor que talvez não tenho amado o suficiente. Prossegue ele em seu grito de satisfação pelo recomeço da vida sem o incômodo do tal amor não amado:

“Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido”.

As dores de amor são dolorosas demais. Quem já passou sabe. Há funduras na nossa alma que parecem não ter fim. Vazios. Pensamentos roubados de outros assuntos quaisquer. O fio condutor dos nossos dias acaba sendo a busca desse amor, de alguma atenção, de algum sinal luminoso na escuridão dos nossos sentimentos. Por vezes, um aceno, apenas, ameniza as dores que sentimos. Mas passa. E é isso que diz a canção quando fala em “ter me debatido”, “ter sobrevivido”, “ter me conhecido”, “ter me socorrido”.

Os sofrimentos nos ajudam a nos conhecermos melhor. As dores podem nos humanizar se soubermos com elas conviver. A solidão nem sempre é um mal. Abandonados a nós mesmos, socorremo-nos. E, por tudo isso, “vai valer a pena ter amanhecido”.

Talvez fosse uma reflexão interessante a de nos perguntarmos por que vale a pena amanhecer? Para encontrar um amor? Para cuidar dos filhos? Para trabalhar? Para tomar o café da manhã? Para sair com um amigo? Para viajar a viagem dos sonhos? Sonhos?! E quem já não sonha mais? Valerá a pena amanhecer?

Os recomeços necessários em histórias de amor sem amor também servem para outras razões dos nossos amanheceres. Há amigos que provaram não serem amigos. Talvez valha a pena recomeçar com outros. Há trabalhos que não nos realizam e que nos emaranham em fios sem fim de desânimos. Vale a pena continuar? Não seria melhor administrar a própria carreira, estudar um pouco mais, buscar outra alternativa? O trabalho nos dignifica, se não nos sentimos dignos no que fazemos é melhor buscarmos outro caminho. Um pouco de coragem e sabedoria nos ajuda a decidir e a mudar.

É preciso valer a pena cada amanhecer. É preciso recomeçar a gostar de viver. Em cada relação, em cada profissão. Não que não tenhamos de conviver com pessoas e situações que, às vezes, não nos agradem. Isso faz parte do nosso viver. Mas não pode ser só isso. Há uma necessidade real de nos encontrarmos nos nossos encontros, sejam eles pessoais ou profissionais. Faz toda a diferença sentirmo-nos amados por pessoas com as quais convivemos. Como pode um amor ridicularizar o seu amor? Desprezá-lo? Compará-lo a outros? Como pode um profissional ser humilhado no seu espaço sagrado de trabalho? Como pode se sentir inútil com tantas utilidades necessárias?

Recomeços são necessários. “Virar a mesa”, “virar o barco” e prosseguir de um outro jeito. No mundo dos negócios, há muitos que faliram em algumas tentativas e, depois, deram certo. Nas relações de trabalho, há muitos que se sentiam incompetentes pelo tratamento que recebiam e pelas poucas oportunidades de criar e, depois, encontraram a realização; na vida amorosa, também. Depois de algum término, de algum conhecimento, de alguma coragem, um novo encontro ajudou a encontrar o que de mais bonito havia e que ainda ninguém havia encontrado, a própria essência.

O que é um recomeço?

É uma ação de corajosos. Dos que não aceitam o que não realiza. Dos que se rebelam contra o que desumaniza. Dos que sabem que podem mais e, mesmo machucados, cantam no seu dia a dia: está valendo a pena ter amanhecido. É desse sabor que precisamos junto com a primeira refeição. O alimento que nos faz sorrir com sinceridade pelo dia que ainda está espreguiçando. E será o mesmo sabor da última refeição do dia que se despede, cansado talvez, mas satisfeito. Vai valer a pena ter adormecido. Com a boa sensação de que fizemos alguma diferença no dia que se foi. Cansaços não nos diminuem. Ausências de sonhos, sim.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 10/01/2016

Os reis e o rei

A tradição da festa de reis é antiga. Há países, no Oriente, em que a troca de presentes se dá no dia de reis e não no natal, porque foi nesse dia que o Menino Jesus recebeu os presentes carregados de simbolismo: o ouro, o incenso e a mirra.
Quem eram esses reis?  Seus nomes eram Belchior, Baltazar e Gaspar. Vieram do Oriente. Dentro deles, havia sonhos. Não se sabe muito sobre os seus povos, os seus reinados, sabe-se que, guiados por uma estrela, perseguiam eles a esperança.
Esses reis do Oriente se encontraram com um outro rei, Herodes. Quem era esse rei? Fraco, medroso, cruel, perverso. Herodes, quando soube que os reis vieram adorar um Menino e que esse Menino não pertencia a sua família e que aquele desconhecido poderia colocar em risco o seu poder, resolveu matar o Menino.
Disse aos reis que, se encontrassem o Menino, lhes comunicassem porque também ele queria prestar sua homenagem. Eis outras características de Herodes: dissimulado, falso, mentiroso.

 Esse encontro é muito significativo. Ele se repete nos nossos dias. Esqueçamos a coroa. Falemos de pessoas.
Quantas são aquelas que vibram pela novidade de alguém que traz alguma boa nova, uma boa notícia? E quantas gostariam de eliminar aquela boa notícia porque não advém de seu poder, e temem que outros o roubem? Quantas têm a generosidade de vibrar pelo sucesso do outro e quantos se incomodam com isso? Quantos aplaudem e quantos buscam apequenar?

Esses sentimentos, os bons e os ruins, vivem com a gente. É melhor saber cultivar os que, de fato, nos elevam. O tempo é um bom juiz. O que diz a história sobre Herodes? A estrela que guiou aqueles reis ainda existe. Mora alto, não nas baixezas dos falsos poderes, mas na simplicidade, na generosidade de quem acredita que um Menino bom nasce todos os dias para nos lembrar de que ser bom ainda é o melhor reinado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/01/2016

Agradecer

É início de mais um ano.

As culturas diferentes propõem diferentes comemorações.

Celebramos rituais desejando ter um ano melhor. O ano velho já se foi. Agora, é o ano novo que nos desafia. É isso o que dizem.

Mas é bom olhar para trás e agradecer.

Permitam-me, neste primeiro domingo do ano, fazer alguns agradecimentos a vocês que me dão a honra de ler histórias e ideias que escrevo por aqui.

2015 foi um ano muito bom.

 Agradeço o privilégio de escrever duas vezes por semana no Diário de São Paulo.

Agradeço a toda equipe do Jornal.

Agradeço a Rede Vida de Televisão pelo meu programa. É bom entrar na casa das pessoas e conversar com elas. E saber que, modestamente, podemos contribuir para que elas sejam mais felizes.

Nesse ano, lancei 5 novos livros, a coleção “Filosofia e Vida” para crianças.

Lancei o meu primeiro livro traduzido para o árabe, “Sócrates e Tomas More – correspondências imaginárias”.

Tive a honra de ser um dos escritores convidados para escrever uma carta a Deus na obra “CARTAS A DIOS DESDE AMÉRICA LATINA”, de CÁRITAS AMÉRICA LATINA Y EL CARIBE.

Vivi a emoção de ter duas peças minhas em cartaz. Uma, no Rio de Janeiro, a adaptação de um conto meu chamado “O menino que queria ver o sol”, e a outra, em São Paulo, “O Semeador”, dirigido pelo competente Hudson Glauber e que teve as atuações impecáveis de Genézio de Barros e Thiago Mendonça.

Nesse ano, recebi o convite do prefeito Fernando Haddad para ser secretário da educação do Município de São Paulo. Cargo que já foi ocupado, além de outros grandes nomes, por Paulo Freire. Percorri a cidade ouvindo e aprendendo com os professores, dialogando com pais e alunos, trabalhando por uma educação melhor. Conseguimos quase 40 mil novas vagas de creches. O número é surpreendente. 40 mil crianças que estavam fora das escolas agora podem estudar. E não descansaremos enquanto não tivermos condições de cuidar de todas. Criamos programas significativos como o “Na mesma mesma” em que professores e alunos partilham juntos a refeição e o “Canta São Paulo” que traz a música para todas as escolas da rede municipal. Construímos juntos um currículo de tempo integral. Mais de 100 escolas (entre EMEFs e EMEIs ) serão de tempo integral neste novo ano. Há muito a se fazer para melhorar a educação, e o único caminho é um agir coletivo, democrático,.

Na Academia Paulista de Letras, conseguimos, com vários outros parceiros, criar o EMIL  – Encontro Mundial de Invenção Literária,  com mais de 200 horas de programação em 4 dias com 120 escritores de quatro continentes.

Agradeço aos amigos que partilharam comigo esses e outros projetos. Nada é possível se não caminharmos de mãos dadas. Para um programa ir ao ar, é preciso tanta gente. Para um livro ser feito, também. Para construirmos projetos, são reuniões e equipes e debates e sonhos se realizando.

Também tive dias difíceis nesse ano. Os perversos são incansáveis. Sofri mentiras que verdades já haviam enterrado. As injustiças são dolorosas. Mas estão aí. Não apenas comigo. Não sou melhor do que ninguém para  passar ao largo dos maus. Eles existem, mas continuo acreditando na bondade como decisão de vida.

Nesse ano, tive também a honra de acompanhar o prefeito Fernando Haddad em um encontro com o papa Francisco. Pude estar ao lado dele, ouvi-lo falando sobre a “globalização da indiferença” e sobre a destruição de nossa casa comum. Bebi de sua simplicidade e sabedoria. Que homem bom!

Foi um ano de amizades boas, como todos os anos. Um ano em que, por causa da secretaria de educação, viajei menos para dar palestras. Mas as que pude dar foram gratificantes. O Brasil é incrivelmente fascinante. Que honra saber que as pessoas saem de casa para me ouvir falar. E quantas. E quanto carinho.

Perdi amigos queridos nesse ano. As ausências são sempre dolorosas. Amigos que deixaram o seu legado e partiram para a eternidade.

Aprendi muito com as gentes que me surpreendem no cotidiano. Gosto de observar as pessoas, de conviver com elas, de ouvir suas histórias e suas impressões sobre o mundo.

Agradecer é um valor do qual não podemos abrir mão. É bom olharmos para trás e compreendermos os caminhos necessários para chegarmos até aqui. E os caminhantes que nos fizeram companhia. E prosseguir.

Que nesse novo ano, continuemos juntos. Sofrendo. Sorrindo. Celebrando a vida. E preenchendo o tempo com o que dá, ao tempo, significado.

Para, quem sabe, dizermos como Clarice Lispector: “Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito”.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/01/2016

 

Ano novo

Que seja um ano bom.

Que saibamos ressignificar gestos simples que nos trouxeram e nos trarão alegria.

Que encontremos mais razões para fincar raízes na solidez dos afetos que nos mantêm firmes.

Neste novo ano, também teremos dores, também sofreremos ausências, também choraremos as despedidas ou as emoções. Mas será diferente. Sempre é diferente.

Que estejamos mais maduros. Esse é um presente que o tempo nos dá.

 Que sejamos mais fortes depois de termos experimentado o que parecíamos não suportar. Suportamos.

Que compreendamos mais as nossas limitações. Sem perder a ânsia de voar.

A liberdade é uma experiência que precisa ser vivida todos os anos. Quebrar correntes ou gaiolas ou grades que nos prendem é essencial.

Que tenhamos a coragem de dizer palavras de amor.

Que tenhamos a delicadeza de abrir as portas de nosso recanto e convidar outros amigos para a celebração da vida.

Que tomemos a água da bondade, todos os dias, sem comedimentos.

Vencer o mal é uma necessidade que urge. Eles estarão por aí, neste novo ano, tentando roubar nossa preciosa paz. Resistamos.

Que amanheçamos decididos a caminhar, mesmo em dias de ausência de sol.

Que compreendamos os entardeceres e até agradeçamos o dia que se despede.

Que possamos dormir sonos bons e que sonhemos com cirandas de gente.

A arte pode ser uma boa companheira para resgatarmos a sensibilidade perdida. Para que encontremos prazer no ver, no sentir, no experimentar.

É mais um ano e isso importa muito.

Estamos aqui.

Permanecemos.

Permaneçamos com as boas aprendizagens e reinventemos o que for necessário para prosseguir.

Feliz 2016.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/01/2016

 

Vai dar tudo certo

Contou-me um amigo esta história. Conto-a, agora, a vocês.

Estava ele em uma farmácia, aguardando para comprar remédios. Pensava distante. Olhava para dentro de si mesmo e lamentava o diagnóstico. Teria de se medicar. Teria de mudar alguns hábitos. Seria preciso cuidar da saúde. O tempo passa e cobra o seu preço.  Pensava também em outras coisas. Na avó que estava doente e que já não reconhecia as pessoas que dela se aproximavam. Pensava em um amigo que se acidentou em uma moto e que ainda aguardava sua vez de se submeter a uma cirurgia e salvar sua perna. Problemas da saúde pública, pensava ele no calor. E tentava se lembrar em que lugar lera que esse verão será mais quente do que o outro. Sempre gostou do calor, mas, com tantos problemas, mudou de opinião.  Não havia espelhos para que visse sua expressão. Não percebera se, de fato, o seu olhar revelara alguma coisa. Foi quando uma senhora se aproximou e disse:

 

– Vai dar tudo certo.

– Como? – ele quis saber.

– Vai dar tudo certo. Às vezes, demora um pouco. Não é no nosso tempo. Mas vai dar tudo certo.

 

Ele não expressou grande reação. Olhou para aquela mulher com as pernas grossas, cheias de varizes, acima do peso, um pouco suada, e com uma beleza nos olhos de dar gosto.

 

 – Vai dar tudo certo? – ele perguntou.

– Vai sim. No fim, dá certo. É preciso apenas um pouco de paciência, filho.

 

Filho. Meu amigo não tem mãe. Tem apenas avó. Fazia muito tempo que ninguém o chamava de filho. E com aquela candura no olhar. Ficou pensando nos problemas daquela mulher. Seria bom se ela operasse as varizes. Voltou a pensar no amigo. Talvez ela também esteja em alguma fila, aguardando a sua vez.  Pensou em dizer a ela que deveria cuidar melhor da alimentação. Excesso de peso não faz bem. Ainda mais no calor. Desistiu de dizer esse texto. Nem sabe de onde tirou essa ideia.

 

– Cada um tem uma doença, filho. Às vezes, imaginamos que só nós temos problemas. Os problemas são democráticos. Pertencem a todos.

– É que uns são maiores do que os outros, a senhora não acha?

– Não sei, filho. Só sei que sempre dá certo para quem é bom. E você é bom.

– Eu sou bom? Como a senhora sabe?

– Seus olhos.

 

Roubou-me um sorriso aquela mulher. Sorri sem receios. Sorri em retribuição ao afeto. Paguei os meus remédios, abracei aquela mulher e voltei para o meu mundo. Naquele dia, pelo menos, meus pensamentos viajaram para outras paisagens.

Minha avó, que agora diz pouca coisa, dizia que nossa ansiedade faz com que soframos antes de o sofrimento chegar. É preciso aguardar. E acreditar que vai dar tudo certo. Fico pensando em quantos sofrimentos nos atingiram pelos medos dos sofrimentos que nem vieram. Quantos sorrisos desperdiçados por não conseguirmos limpar os nossos pensamentos. Vão eles se acumulando de desnecessárias preocupações. Está nos evangelhos a linda reflexão sobre as aves do céu e os lírios do campo. Não se preocupam com o amanhã. E tem o que comer e se vestem com uma beleza sem igual. Evidentemente, temos de planejar nossa vida com responsabilidade. Mas sem exageros. Sem excessos de lamentações pelo que não veio ou pelo que poderá não vir.

Agradeça e, se possível, faça como fez aquela senhora ao meu amigo na farmácia. Roube um sorriso de alguém. Ajude a retirar o cargo que pesa. Porque vai dar tudo certo. Um detalhe desde que a intenção e a ação sejam boas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/12/2015

Feliz Natal

Feliz natal para todos os que sabem o significado desse dia.

Feliz natal para os que precisam aprender e para os que nunca terão tempo de pensar sobre isso.

Feliz natal para os que já tiveram uma experiência de amor com o Menino nascido para ensinar a amar.

Feliz natal para os que nunca abriram os olhos para essas imagens.

 Feliz natal para os que sabem o valor da solidariedade e se desdobraram para ajudar alguém a ser mais feliz como um presente ao aniversariante.

Feliz natal para os que desconhecem o prazer do cuidar, do partilhar o que se é e o que se tem com quem precisa.

Feliz natal para os que caminham de mãos dadas, para os que aceitam ir mais devagar quando o outro está machucado ou precisando de descanso.

Feliz natal para os que preferem ir sozinhos, competindo o tempo todo para mostrar que são velozes e vitoriosos e perfeitos.

Feliz natal para os que veem beleza nas imperfeições e que se descobrem crescendo a cada dia.

Feliz natal para os que não entendem dessas coisas e cobram de si e dos outros que só tenham certezas.

Feliz natal para aqueles que não escondem as lágrimas e os afetos e as demonstrações de amor.

Feliz natal para os que temem borrar a maquiagem ou demonstrar alguma fraqueza.

Feliz natal para os que se assumem fracos e carentes e necessitados dos outros.

Feliz natal para os que resistem a deitar em um colo de mãe e agradecer.

Feliz natal para todos os que entoam canções de gratidão e prosseguem, independentemente das dores e das despedidas.

Feliz natal para os que emudecem e tentam emudecer os outros com o seu grito de arrogância.

Feliz natal para os que creem em Deus e no ser humano e que fazem da vida um projeto de amor.

Feliz natal para aqueles que precisam isso descobrir, se formos capazes de os convencer.

Feliz natal.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/12/2015

É quase Natal

Mais um aniversário para o Menino Jesus. Mais uma oportunidade para olhar para a manjedoura e ressignificar a vida. Vida brotada de um sopro de amor do Criador. Vida nascida de águas santas que jorram a esperança de um curso mais limpo. A natureza é prova disso. Das nascentes, prova-se água pura;  no percurso, os entulhos, as poluições, os pedaços de insanidades, vão deformando a pureza do que, antes, se bebia.

Com os homens, também é assim. Nascem as crianças e os seus entornos cuidam de roubar delas os futuros bons. Mas é mais um Natal que se aproxima. Quem sabe das lamas bolorentas de tantos ódios jorrados sem compaixão brotem algumas nascentes, miraculosas nascentes com o intuito de limpar o rio. Quem sabe nos ressignificados possíveis olhemos sem pressa para a manjedoura e nos afeiçoemos com a imagem do Amor feito menino. Menino que riu, que chorou, que surpreendeu, que se assustou, que se inspirou na carpintaria do mundo pelas mãos habilidosas de seu pai. Um bom José.

 Menino feito homem que ouviu de sua mãe, Maria, que havia acabado vinho naquela festa. Que havia acabado alegria. Sabia ela que, tudo guardava no coração, que sua missão era restabelecer a alegria. Ele fez o que devia ter feito. E surpreendeu.

Que o natal nos surpreenda. Não nas expectativas do que os outros possam trazer para as nossas vidas. Não nas esperas de milagres que limpem as águas cujas nascentes eram belas, como dissemos. Que o natal nos surpreenda pela nossa capacidade de compreender o poder que temos de dar às nossas vidas o verdadeiro sentido do natal. Uma vida que surge e que surpreende um mundo marcado por guerras, ódios, intolerâncias, perversidade. Era assim no tempo de Jesus. É assim nos nossos tempos.

Mulheres eram apedrejadas. Mulheres são apedrejadas. Mentiras eram espalhadas. Mentiras são espalhadas. Ausências de amor traziam dor. Ausências de amor trazem dor. E o mundo não compreendeu Jesus. Alguns queriam vê-Lo no poder. No tipo de poder que acreditavam. Outros O desprezaram quando mentiras foram espalhadas sobre Ele. Outros apenas assistiram sem entender o real significado da compaixão.

É mais um Natal. Tempo da alegria. Tempo do nascimento. Tempo de presentes que trazem significado. Tempo de ser presente nas ausências e de dar ao menino o presente que ele merece. 

Razões há para o pessimismo, o curso está sujo;  razões há para o desânimo, mulheres e homens não se cuidam mutuamente e o rio segue distante da nascente. Mas é Natal. Deixemos de lado o que causou estranheza e prossigamos. Lembrando a pureza da nascente, da vida brotada do Sopro do Criador, do Menino rindo e chorando, nascendo. É aniversário do Menino Jesus. Deixemos que Sua simplicidade inspire o encontro. Exageros não combinam com a manjedoura. Na receita da ceia, não pode faltar ternura; o resto é menos importante. 

Renasçamos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/12/2015

Amizade sincera

Há uma canção de Renato Teixeira que começa assim: “A amizade sincera é um santo remédio. É um abrigo seguro”. Remédio cura doença ou ameniza a dor. Abrigo seguro é espaço de aconchego, do descanso, do restabelecimento das forças.

Prossegue a canção: “Os melhores amigos/Não trazem dentro da boca/Palavras fingidas ou falsas histórias”. E como saber o que é fingimento? Como discernir o verdadeiro do falso? Os antigos falavam que era preciso tomar cuidado com os lobos que se vestem de cordeiros. Não é fácil distingui-los. Há muita maquiagem disponível no mercado dos descartáveis. Há tantos que se aproximam com estranhas intenções. Há tantos que se valem da fragilidade das nossas sinceridades. Há tantos que tramam pelo fim da paz. Estranhos sentimentos movem essas pessoas. Priorizam superficialidades em detrimento dos laços humanos. Laços de cumplicidade, de acolhimento, de afeto, de verdades. Mas nada de desânimos. Diz o poeta cantador: “Por isso mesmo apesar de tão raros/Não há nada melhor do que um grande amigo”. Um grande e verdadeiro amigo está sempre pronto. Para a partilha da tristeza. Para a celebração da alegria. Para a vibração pela vitória do outro. Amigos verdadeiros doam-se sem esperar nada em troca. Doam-se pelo simples fato de que se doar é o que dá significado à amizade.

 Tenho amigos. Verdadeiros. Humanos. Que seguram na minha mão quando me falta o chão. Que caminham comigo. Que ora me guiam e que ora conduzo. Agradeço a Deus pelos amigos que dividem o espaço da existência e que olham para frente sabendo que sempre valerá a pena viver a vida digna, honesta, amorosa. Amigos que foram chegando e ficando e se aquecendo nos nossos abraços. Braços dados para enfrentar o que for necessário. Há sujeiras no percurso. Limpemo-las. Com bons amigos. Os que cantam e os que compreendem as canções. As bonitas como esta: a da amizade sincera.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/12/2015