O tema da pena de morte sempre volta às rodas de conversa, principalmente quando o alimento é alguma ação bárbara de algum criminoso.

É comum os defensores da pena de morte apelarem para o individual e para as emoções geradas nas dores individuais. Deixe-me esclarecer um pouco melhor o que quero dizer com indivíduos e emoções. Uma mãe que sabe que seu filho foi assassinado por causa de um celular terá razões de sobra para desejar a morte de quem a morte trouxe para o seu filho. Um pai que teve uma filha violentada teria razões para querer matar quem roubou a inocência da filha. Os defensores da pena de morte vão além. Dizem que são favoráveis à pena de morte apenas em alguns casos. Casos graves. Casos que trouxeram dor. Dor ocasionada por quem não tem solução.

Os contrários à pena de morte têm outros argumentos. Citam figuras históricas vítimas da pena de morte. Jesus Cristo e seus apóstolos, Joana D’ Arc, Tiradentes e até Sócrates. Citam erros no judiciário. E como erram os nossos operadores do Direito! Pessoas que, injustamente, são condenadas. Precisam elas do tempo para trazer a verdade. Se forem mortas, não terão esse tempo. Fatos assim ocorreram aos montes em países que, ao perceberem o erro, indenizaram as famílias. Imaginem uma mãe recebendo uma indenização pelo erro da justiça que levou à morte do filho!

Há outros argumentos contrários à pena de morte. Se por um lado é compreensível que um pai queira se vingar de quem matou o seu filho, exatamente para que isso não ocorra é que há o Estado. Se todas as pessoas resolvessem se vingar da injustiça que sofreram, o Estado perderia sua razão de existir e a sociedade se transformaria em um caos.

O papa Francisco, recentemente, pediu aos governos que busquem caminhos mais inteligentes para a punição e a recuperação das pessoas. Pediu o papa que, em nenhum lugar do planeta, exista a pena de morte. Falou o pontífice em misericórdia. Mesmo que alguém tenha cometido uma atrocidade, há caminhos, por quem faz uma opção pela vida, mais eficientes do que eliminar essa pessoa. Um erro não justifica outro. Justiceiros são antagônicos aos justos. A justiça precisa de serenidade, de conceitos corretos, de tempo para as arrumações que se fazem necessárias após o erro.

Inocentes são mortos por criminosos, isto é fato. Mas o Estado não pode agir da mesma forma. Punir esses criminosos ajuda a pacificar as relações sociais. Tem a pena o caráter da recuperação, mas tem, também, o do exemplo. A impunidade é um caminho ruim para que outros cidadãos se percam nas mesmas sombras. O Sol da justiça precisa brilhar mais forte. Sem ódio. Sem exageros. Apenas para afinar o que está desafinado. É preciso tomar muito cuidado com discursos simplistas na solução de problemas complexos. Eliminar vidas nunca será o melhor caminho.

O papa Francisco demonstra mais uma vez sabedoria e coragem. Sabedoria do pastor que opta pela vida de seu rebanho. E coragem por tocar em um tema que divide muito as pessoas. Há muito ódio sendo disseminado. Falar de perdão, de misericórdia, de amor parece desconhecimento do lamaçal que nos oprime. Mas qual o caminho, então? Lama não se limpa com lama.

Cuidemos dos nossos sentimentos. Eles têm o poder de nos elevar ou de nos apequenar. Cuidado com o barulho intermitente dos que gritam como gritaram aqueles homens do passado ao mais limpo de todos os homens: “Crucifica-O”. Espelhemo-nos nesse mesmo Homem que, assim, respondeu: “Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/03/2016

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