O aprendizado das “cinzas”

A quarta-feira de cinzas tem um significado especial no calendário litúrgico. Ela inaugura o tempo da Quaresma, o tempo de preparação para a Páscoa. Na celebração, o sacerdote diz, enquanto faz um sinal da cruz com as cinzas nas testas dos fiéis: “Lembra-te que és pós e que ao pó voltarás”.

As cinzas nos trazem um aprendizado essencial. A humildade. A consciência de que não temos o direito de nos sentirmos superiores a ninguém. Viemos e voltaremos, sem levarmos bens ou glórias. Toda nossa aparente força ou poder se vai no instante em que os nossos órgãos vitais deixarem de nos sustentar. Uma doença. Um acidente. Uma queda. Mais ou menos jovens. Em dias chuvosos ou ensolarados. Depois de alguma incursão triste ou feliz. Partiremos. E não há poder que nos faça prosseguir nesta vida. Podemos cuidar e prolongar nossa permanência. Mas, um dia, voltaremos ao pó.

 Essa certeza deveria nos ajudar a viver melhor. A saber que excessos não contribuem para uma jornada mais feliz. A não desperdiçamos tempo ou forças com nada que nos prenda. O pó é tão livre que escapa sem muito esforço de nossas mãos e vai ao sabor do vento, quando há vento. Os ventos não nos fragilizam quando sabemos nos deixar levar. Choramos nossos mortos. Sentimos as despedidas, mesmo sabendo que a regra é esta. Partir. E partir sem nada. Sem nada material. O que podemos é partir com o acúmulo de amores, de felicidades construídas na generosidade das convivências. Mas partir. Como as cinzas. Sem nada.

Todas as vezes em que me pego envolto em preocupações exageradas, em problemas que com o tempo não serão nada, cinzas talvez, tento me convencer desses ditos. Dessas celebrações que me embalam para errar menos e me preparar mais para o que acredito. Somos cinza e, ao mesmo tempo, somos amor. Sobre isso, já escrevi: “Matérias-primas de que somos feitos são duas, paradoxalmente duas: pó e amor! O pó nos iguala. O amor nos identifica.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/02/2016

Leave a comment