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Liberdade, profissão inegociável

Em uma roda de jovens, a discussão sobre o mercado de trabalho e as novas profissões tomou um rumo muito interessante. As incertezas sobre que caminho seguir na vida sempre povoaram a mente daqueles que, ávidos por um futuro, têm a preocupação de não errar nas escolhas. Antigamente, parecia mais definitivo. Cursar uma faculdade era renunciar a qualquer outra possibilidade. Parecia ser aquela a profissão que exerceria a vida toda. Hoje, há maior flexibilidade. Cursar mais de uma faculdade é possível, há cursos de pós-graduação para áreas tão distintas. Há graduações à distância. Mudar de emprego e de área também não é mais incomum. Em outros tempos, os sonhos das famílias para o destino dos seus filhos eram restritos a áreas como medicina, direito, engenharia e algumas poucas outras. Ser doutor era quase uma exigência. Hoje, há incerteza nos pais até na compreensão do que faz o profissional de áreas como mecatrônica, medicina nuclear, ecogastronomia, entre outros. Os cursos de gastronomia, turismo, hotelaria vão ganhando mais adeptos. As áreas todas de tecnologia mostram-se como caminhos interessantes de sucesso profissional. A criatividade, o design, a moda ganham mais força.

Falavam sobre essas questões aqueles estudantes, quando um disse da preocupação com outros jovens que não tinham qualquer preocupação. Daqueles que trilhavam caminhos sem volta. Comentavam sobre os tantos tipos de vícios. Dos amigos que se perdem. Foi quando um deles ensinou: “Ainda não sei que vestibular prestar. Tenho muitas dúvidas. Gosto de muitas coisas. Agora, de uma coisa, eu não abro mão. Da minha liberdade. Liberdade é uma profissão inegociável. O resto, a gente ajeita”.

É isso. Às vezes, há excesso de preocupação com profissões que remuneram mais ou menos e há falta de cuidado com a essência da realização humana. É preciso educar nossos jovens para que saibam dizer “não” a tudo o que retira deles o que de mais precioso eles têm: a liberdade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/03/2015

De mãos dadas

“O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. (Mãos Dadas – Carlos Drummond de Andrade)

Relacionamentos são a base da vida em sociedade. Relacionamo-nos o tempo todo, em todos os ambientes que frequentamos. Como somos diferentes, temos reações diferentes nos diferentes momentos da nossa vida. Não somos previsíveis. Mesmo quando repetimos alguns comportamentos, estamos expostos a surpresas e não imaginamos como vamos agir. Nos momentos em que os problemas não parecem tão significativos, conseguimos caminhar sem grandes percalços. Mas quando surgem as adversidades, somos, muitas vezes, vítimas de desejos que não controlamos com tanta facilidade.

Muitos pais se preocupam com a inteligência dos seus filhos. Alguns têm conclusões apressadas, comparando irmãos. Julgando que um filho é mais inteligente do que o outro, porque tem mais facilidade para essa ou para aquela matéria, ou porque é capaz de memorizar textos, ou números, ou dados. Estudos recentes descartam essa métrica de definição de quem é mais ou menos inteligente. As inteligências são múltiplas. E os múltiplos momentos da vida é que oportunizam suas manifestações.

Há uma base de conteúdos que se imagina necessária com a qual cada aluno, em cada etapa da vida, deve trabalhar. Nas diversas profissões também é assim. Há instrumentos que nos permitem trabalhar nesse ou naquele campo. Um médico precisa desenvolver habilidades e competências que nos deem segurança para uma intervenção cirúrgica, por exemplo. E, para isso, estuda com esse foco. Um engenheiro dialoga com números e projetos, e plantas, e possibilidades, cotidianamente. Um artista estuda escolas de dramaturgia para que sua intuição se una a tantas técnicas no ofício de fazer nascer personagens e momentos. E assim se multiplicam as profissões e as suas exigências. Avalia-se o preparo para o trabalho. Mas há algo comum e necessário a qualquer atividade profissional e pessoal, a necessidade de nos relacionarmos.

Valores desenham a face humana que enxerga e é enxergada. Que fala e ouve. Que diz “sim” ou “não”; que escolhe, portanto. Que é capaz de gestos de generosidade e compreensão. No desenvolvimento do trabalho, o jogo da convivência é essencial. Um precisa do outro. Um precisa ouvir o outro – talento difícil em tempos tão apressados e egoicos. Parece que o que outro vai dizer nada tem a acrescentar em meu repertório. Ledo engano. Aprendemos o tempo todo com outras pessoas.

Em uma peça de teatro, cada personagem é fundamental para que a arte cumpra o seu papel. Em um jogo de basquete, também. Em uma agência de viagens ou em um banco ou em uma construção, cada um tem sua função.

Deve nos preocupar o excesso de diálogo com os meios tecnológicos e a ausência das prosas nas relações humanas. Tempos sombrios estes em que nos silenciamos diante do outro. Não praticamos o silêncio da atenção, da escuta, mas o silêncio do aborrecimento, da impaciência, da arrogância. 

O escritor Carlos Drummond de Andrade narra a história de um jardineiro, muito amável, que cuidava com amor e extrema dedicação das flores. Conversava com elas, contava história, ouvia lamúrias de algumas, guardava confidências de outras. Mas tinha problemas com o girassol, que não ia muito com a cara do jardineiro. Mas mesmo assim, ele não deixava de regá-lo e de afofar-lhe a terra. O patrão, incomodado com o longo tempo que o funcionário dedicava às plantas, resolveu demiti-lo. Moral da história:

Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido?” “Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava”. (Maneira de Amar – C.D. de Andrade)

A delicada metáfora drummondiana robustece nossa certeza de que as relações ficam muito mais saudáveis quando estamos dispostos a conviver sem a petulância de saber mais que o outro. É com o outro que tenho a nobre missão de caminhar de mãos dadas para não me perder neste mundo tão grande. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/03/2015

E nasceu a mulher

No livro do Gênesis, há o relato da criação da mulher. Nos mitos antigos, também. Deusas e mulheres ocupando espaços. A bela Afrodite que emergiu das espumas das águas do mar. Psiquê que foi se apaixonar pelo homem errado. Ou não. Eros era um deus eternamente menino ou eternamente belo. Adoecido, fez com que o amor desistisse de habitar os homens. E, sem amor, o que somos?

A mulher nasceu muitas vezes. Nas histórias tantas que nos contaram, a mulher teve diferentes papéis. Sofreu as dores de parir e de ser parida em uma sociedade falocrática. O homem era quem saía para a caça e, portanto, tinha a mulher como um objeto seu. Houve sociedades matriarcais, mas em menor escala. As mulheres de Atenas pouco participavam do berço da democracia. Eram os homens que divagavam em elucubrações filosóficas e decidiam nos negócios do Estado. Mulheres medievais, mortas acusadas de feitiçaria. Mulheres escravas, vítimas das dores horrendas e dos flagelos que vinham de todos os lados. De outras mulheres, inclusive. Das sinhás que odiavam as mais belas – cenas de arcadas dentárias arrancadas para que morressem de hemorragia. Tristes marcas de tempos não tão distantes. Sofrem, ainda hoje, as mulheres. Vítimas de estupros em cantos diversos desse planeta. Vítimas de companheiros violentos. Vítimas de condições desiguais no mercado de trabalho. Vítimas, enfim, de preconceitos de uma sociedade que se acostumou a privilegiar o homem.

As leis trouxeram significativo avanço, mas a prática ainda é perversa. Comportamentos inadequados demonstram uma ignorância na relação entre homens e mulheres. Discursos aparentemente generosos colocam a razão no universo masculino e a emoção no feminino. Por quê? Os homens não têm o direito de se emocionar? As mulheres não têm a capacidade de serem racionais? Tratadas como frágeis e necessitadas de cuidados são as mulheres objetos de seus “protetores”. Frágeis, somos todos nós, os viventes. E necessitamos também de cuidados, mulheres e homens. Sem que isso signifique que tenhamos um dono.

Mulheres nasceram e nascem, também, na literatura, na música, nas artes. Protagonistas de dores e amores. De odiosidades e invejas. São Capitus, Dorotéias, Marias, Macabéas, Lucíolas, Beatrizes, Cinderelas, Teresas, Gabrielas. E muitas, muitas outras. Patroas. Amantes. Amadas. Ousadas. Dissimuladas. Musas. Amaldiçoadas. Vítimas ou algozes das paixões. Ditas em versos, em verbos e palavras. “Mulher é desdobrável. Eu sou”, proclama a poeta Adélia Prado. A mulher nasceu para gerar ideias, conceitos, relações, pessoas. Mãe de seus filhos e de seus temas. Sonhadora romântica com companheiros que compreendem o chorar e o sorrir e que, também, expressem sem receios de interpretações apressadas suas dores e utopias. Na literatura de Clarice Lispector, “O destino de uma mulher é ser mulher”, vencendo os obstáculos e a complexidade de ser. Apenas ser. 

Seja o que você quer ser,

porque você possui apenas uma vida

e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. 

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.

Dificuldades para fazê-la forte. 

Tristeza para fazê-la humana. 

E esperança suficiente para fazê-la feliz. 

Clarice Lispector

As mulheres nascem todos os dias. Ou, no dizer de Simone de Beauvoir, “tornam-se”. Mulheres nascem quando assumem o comando da própria história com a liberdade de trilhar os tantos caminhos que a conduzem ao templo da felicidade. Acompanhadas ou não. Solitárias por decisão. Mães por escolha. Livres para esculpir a profissão que lhes convém sem necessidade de autorização. A não ser aquela consentida de partilhar um projeto comum.

As mulheres nascem quando rompem os grilhões do medo de assumir o leme. De levar a nau para onde decidirem. De alcançarem patamares que, até ontem, eram de exclusividade masculina. Chegaram ao mercado de trabalho por luta e por merecimento. Tiveram que provar que são competentes. Provas tidas como desnecessárias aos homens. Mas não se importaram com isso e nasceram para um novo tempo.

Nascerão ainda, sonhamos todos, para tempos que hoje parecem frequentar as utopias, tempos de igualdade real, tempos de respeito, tempos de paz.

Que pretendes, mulher?

Independência, igualdade de condições…

Empregos fora do lar?

És superior àqueles

que procuras imitar.

Tens o dom divino

de ser mãe

Em ti está presente a humanidade.

 

Mulher, não te deixes castrar.

Serás um animal somente de prazer

e às vezes nem mais isso.

Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.

Tumultuada, fingindo ser o que não és.

Roendo o teu osso negro da amargura. 

Cora Coralina

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/03/2015 

 

O jardim da infância, o palco da vida

“Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído, é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.” Rubem Alves

Tenho vivido experiências intensas de escuta e de aprendizado nas diversas regiões desta imensa cidade de São Paulo. Encontros com educadores, pais e alunos têm aumentado minha fome de trabalho pela educação. O carinho e a confiança dessa gente aumentam a responsabilidade e a necessidade de prosseguir com coragem e com muita humildade. Humildade de quem aprende com as palavras, com os gestos e com as emoções que têm tornado tão ricos esses momentos. Em um desses encontros com a rede, ao chegar ao CEU Vila Curuçá, um aluno, Nathan Viana, de 13 anos, quis ler um poema seu. Atentamente, eu o ouvi declamar: 

A vida é como lugares,

E esses lugares têm que ser bem utilizados.

 

O primeiro lugar é um jardim

Um jardim bem florido

Quem não aproveitou, errou.

 

O segundo é um túnel com dois caminhos

Certo e errado, muita gente seguiu o errado

Agora está soterrado.

 

O terceiro não tem jardim nem túnel

Ele é só trabalho, só trabalho…

Ele é o lugar para ver se você aproveitou os outros lugares.

 

E o quarto lugar é outro jardim,

Mas é de orquídeas que quando são tocadas fortemente

Suas pétalas caem,

Mas quando são tocadas suavemente se sentem emocionadas.

 

Devemos respeitar esses lugares e cuidar deles,

Porque eles são a nossa vida.

Deu-me o livro de presente, coordenado por duas educadoras, Maria Gorete Cordeiro e Rosmari Pereira de Oliveira. Li vários outros poemas nascidos, certamente, de várias outras experiências de vida. E alimentei-me de esperança. Saraus literários, contação de histórias, violeiros que iluminam as palavras com suas canções. Projetos nascidos da inspiração de professores, bibliotecários, alunos.

Olhei para o Nathan, tão menino e tão cheio de familiaridade com as palavras. Um jardim florido na infância de todos nós, celeiro dos frutos que daremos, dos fluxos que haveremos de viver. Fala o pequeno poeta em escolhas erradas, em trabalho, em suavidade.

Vi-me, ali, na minha infância, quando comecei a escrever. E, em pensamento, fui conduzido pelos versos do Príncipe dos Poetas, Paulo Bomfim. 

EU SOU AQUELE MENINO

Eu sou aquele menino

Que o tempo foi devorando,

Travessura entardecida,

Pés inquietos silenciando

Na rotina dos sapatos,

Mãos afagando lembranças,

Olhos fitos no horizonte

À espera de outras manhãs

(…)

Que varandas me convidam

A ser criança de novo,

Que mulheres, só meninas,

Me tentam cabular

As aulas do dia a dia?

Eu sou aquele menino

Que cresceu por distração.

Nesses encontros, contemplo os talentos que se revelam e me preocupo em abrir as cortinas do palco da vida  para que cada um desempenhe o seu papel. Que se tornem protagonistas da própria história, com um repertório ampliado que lhes possibilite escolher, com uma postura ética, que os ajude a perceber que conviver com respeito é o melhor caminho para a construção de uma sociedade de paz.

Há muitos que ainda estão à margem. Há muitos que padecem da ausência de afetos dentro das próprias casas. Há muitos que engatinham sem perspectivas de levantar porque lhes falta a mão necessária. O amanhã depende do hoje, dos alicerces que estamos levantando. É a educação a política pública garantidora das demais. Todo esforço é essencial para não deixar ninguém para trás. 

Agradeço aos educadores e aos alunos desta rede imensa pela valentia de persistir, de realizar e de sonhar. E pelos jardins que plantam em minha alma.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/03/2015 

Um punhado de atenção

Tenho percorrido as diversas regiões da cidade de São Paulo, visitando escolas. Em cada uma delas, tenho conversado com professores, alunos, pais, diretores e com todos os outros colaboradores do universo escolar. Em uma das minhas visitas, ouvi esta história de uma funcionária. Muito sorridente, ela se aproximou e foi se apresentando. Disse que trabalha em escolas há mais de 30 anos. E que é feliz com o que faz. Que, assim como eu, ela também gosta de conversar com as crianças, com os professores, com as famílias. Falou que se acostumou com alguns que reclamam muito e com outros que estão sempre dispostos a ajudar. E foi me ensinando que ajudar alguém é a melhor coisa que se pode fazer na vida. Disse que não teve muita oportunidade de estudo. Que fez o básico. Mas que aprendeu com a vida e com a mãe, que criou onze filhos sozinha, depois que o marido faleceu.

Contou-me uma história do tempo em que ainda vivia em Minas Gerais, onde nasceu. Certo dia, um vizinho veio pedir um punhado de feijão. Coisa comum em cidade pequena. Vizinhos se ajudando. Disse ela que estava ajudando a mãe na cozinha. Apressada. Com vontade de terminar logo para passear. O vizinho bateu palmas, era assim que se fazia antes de criarem a campainha, e trouxe uma vasilha na mão. Ela logo abriu o recipiente e colocou o feijão, com rapidez, para se ver livre e voltar ao que estava fazendo. A mãe quis saber quem era e qual o motivo de sua pressa. Ela explicou, e a mãe a repreendeu: “Todas as vezes que damos um punhado de alguma coisa para alguém saiba que, junto, temos que dar um punhado de atenção”.

“Aprendi”, disse-me a funcionária, “e nunca mais esqueci”, completou. Agradeci a boa prosa, concordando. Nos dias corridos, nas tarefas em excesso, na impaciência, desperdiçamos belas oportunidades. Encontros valorosos estão à nossa espera. É preciso prestar atenção.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/02/2015

 

 

Para que servem as cinzas?

O pó futuro, em que nos havemos de converter é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade?   (Padre Antônio Vieira)

Na quarta-feira de cinzas, fui à missa e observei uma conversa entre uma criança e sua mãe. A criança, cheia de curiosidade, quis saber o significado das cinzas. E se poderia tirar as cinzas com um papel e, caso não pudesse, como deveria fazer durante o banho. A mãe explicou que não havia problema de tirar as cinzas. Que era apenas um símbolo. A criança não entendeu. A mãe tentou usar a explicação do padre de que todos nós somos pó e, ao pó, voltaremos. Piorou. A criança mexia a cabeça de um lado para o outro, expressando sua mais absoluta incompreensão. A mãe disse que isso nos faz lembrar que vamos morrer. A criança ficou quieta, pensativa e voltou a perguntar. “E por que devemos lembrar que vamos morrer”? A mãe fez um sinal de que era preciso ficar em silêncio e acompanhar a missa. Achei a última resposta da mãe simples de se compreender. E creio que a criança havia começado a entender, mas ainda ficou com gosto de “quero mais”.

Lembrar que vamos morrer. Como isso é fundamental! Quantas descomplicações ganharíamos com essa reflexão. Quantas agressões a nós mesmos e aos outros seriam evitadas. Bastam alguns sinais de nossa vulnerabilidade para mudarmos o comportamento. Gostamos de abrir os exames médicos e observar que nossa saúde está ótima. Mas nem sempre é assim. E, quando percebemos que estamos doentes e que podemos morrer, nossa atitude muda. Sobreviventes de um acidente também tendem a mudar. Pessoas que perdem entes que amaram profundamente ficam tempos tentando entender as razões da finitude. Nossa passagem por aqui é temporária. Não há dinheiro ou poder que nos garanta permanecer. A medicina pode nos garantir alguns anos a mais, mas não pode impedir que viremos pó.

Um dia chega o dia de partir. Pensar sobre isso, certamente, nos ajuda. Somos frágeis, incapazes de dominar nossos sentimentos, vulneráveis a tantos desejos que surgem, sem que saibamos de onde, e que permanecem por mais tempo do que gostaríamos. Talvez o importante não seja impedir o desejo, mas saber o que fazer com ele. Do desejo das paixões que parecem não ter saída aos ódios que nos fazem desperdiçar instantes preciosos na busca pela vingança. Bobagens de teimosias insanas. Há tanto a ser vivido, a ser contemplado, a ser sentido. Se um amor findou, outros poderão surgir. Se um amor morreu, choremos o tempo certo, mas com a consciência de que morreremos também. Certamente, não terminamos aqui. Há muitas moradas que nos aguardam na Casa de Deus, ensinou-nos Jesus. Também Ele chorou. Também Ele sofreu a proximidade do sofrimento. Mas sabia Ele da vitória da vida sobre a morte.

A quarta-feira de cinzas marca o início da quaresma. Um tempo de reflexão sobre a morte e sobre a vida. Sobre o fato de sermos pó e, ao mesmo tempo, complexos seres humanos capazes de lindos gestos de generosidade. 

Somos filhos da terra e também do céu. Somos do barro e das utopias. Viver, sabendo que iremos morrer, talvez nos ajude a compreender o que fazer com o tempo. Tempos de gentileza nos alimentam mais do que tempos de violência. O barro do qual viemos não nos moldou para a destruição. Há alguma perversão nossa que nos leva aonde não deveríamos ir, distantes de nós mesmos. Pensar na morte nos ajuda a voltar para o lugar de onde nunca deveríamos ter saído, o solo sagrado da humildade, o húmus que nos originou, a terra, os pés no chão, sangrando ou não, que nos levam aonde nossa liberdade decidir. A jornada não é tão longa. É preciso aproveitar. Viver cada instante como se fosse o último, porque pode, de fato, ser. Quem sabe a hora em que voltaremos a ser pó?

                                                                                        Somos Pó

                                              Esta nossa chamada vida, não é mais do que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno outros   mínimo: De  utero translatus ad tumulum: Mas ou o caminho seja largo, ou breve, ou brevíssimo; como é círculo de pó a pó sempre e em qualquer parte da vida somos pó. Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, quanto mais se aparta dele, tanto mais se chega para ele: e quem, quanto mais se aparta, mais se chega, não se aparta. O pó que foi nosso princípio, esse mesmo e não outro é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele: o passo que nos aparta, esse mesmo nos chega; o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz; e como esta roda que anda e desanda juntamente, sempre nos vai moendo, sempre somos pó. 

(Padre Antônio Vieira)

A mãe, a que estava na missa com a filha, poderia ter completado a explicação. Lembrar que vamos morrer nos faz mais humildes, mais compreensivos com o outro, menos arrogantes, menos pretensiosos. O padre, nessa missa, falou em acolhimento. Disse que a Igreja não é juíza. É mãe. Que está aberta para todos os que erram, porque todos erram, mas como mãe, educa, ensina o caminho, e compreende que a decisão é do filho. A de recobrar o sentido da vida ou a de continuar errante, desperdiçando o tempo da felicidade.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/02/2015

A fraternidade e o servir

“Eu vim para servir”, é esse o lema da Campanha da Fraternidade de 2015. No Evangelho de São Marcos, está a narrativa do contexto em que Jesus disse essa frase. Falava ele com seus discípulos e seguidores sobre vários temas, entre eles, as crianças: “Todo o que não receber o Reino de Deus com a mentalidade de uma criança, nele não entrará”. Discorreu, ainda, sobre os ricos que são apegados demais para compreender as lições do amor, sobre homens que abandonam suas mulheres sem a elas devotar ternura e respeito.

É esse o contexto em que Jesus nos ensina a servir. Suas ações eram culminadas pelo serviço a favor do próximo. Para que todos “tivessem vida e a vida em abundância”. Tratou feridas, libertou presos, curou cegos e trouxe luz às cegueiras. Cegueiras pelo poder, pelos aduladores que convencem alguns de serem superiores, pelas circunstâncias que conduzem uns a serem maltratados por outros. Homens cegos diante da transitoriedade dos cargos, cegos diante de um movimento ininterrupto do tempo. Os apegos, as arrogâncias nos apequenam, roubam de nós a mentalidade de uma criança, que não complica a vida, que não destrói o outro.

A Campanha da Fraternidade deste ano nos conduz à reflexão. Independentemente de nossas profissões, trabalhos ou estudos, conviver é uma arte complexa e necessária. Desenvolvemo-nos nas teias das relações, no caminhar de mãos dadas. Precisamos uns dos outros. A experiência do servir nos liberta e amplia a visão sobre a vida, a nossa e a de nossos irmãos. É desafiador. Talvez tenhamos aprendido errado o significado de ter sucesso na vida. Crescer, ter dinheiro, ter poder, mandar nas outras pessoas. Jesus, o líder, desconcerta-nos ensinando o oposto. Na singeleza de uma criança, na fraternidade do compreender que somos todos irmãos, na humildade do servir, está o segredo para viver o Reino. O de hoje e o que há de vir. Que, em nossa travessia, compreendamos o verdadeiro valor da fraternidade, da generosidade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/02/2015

 

Um carnaval que “não” passou em minha vida

Há uma canção de carnaval, de Paulinho da Viola, em que, ao declarar seu amor pela Portela, fala de sua mania de amar e de um rio que passou em sua vida. A primeira estrofe é uma homenagem ao coração que tem mania de amor, de amar. 

“Se um dia

Meu coração for consultado

Para saber se andou errado

Será difícil negar

Meu coração

Tem mania de amor

Amor não é fácil de achar

A marca dos meus desenganos

Ficou, ficou

Só um amor pode apagar”

Prossegue a canção, fazendo uma homenagem à sua escola do coração, aos sentimentos despertos ao ver a agremiação entrando na avenida. Carnaval é a celebração da alegria, as tristezas precisam respeitar esses dias. Nos tamborins, na marcação da bateria, no samba-canção, nos passistas que aguardam esse momento para desfilar, nos olhares atentos, ávidos de surpresas. Como virá a minha escola este ano? Qual será sua história, capaz de afogar minhas mágoas em um ano que poderá não ter sido tão bom? Não. Não se trata de ingenuidades, de fuga da realidade. Trata-se de emoção. E é isso que nos move.

“Porém! Ai, porém!

Há um caso diferente

Que marcou num breve tempo

Meu coração para sempre

Era dia de Carnaval

Carregava uma tristeza

Não pensava em novo amor

Quando alguém

Que não me lembro anunciou

Portela, Portela

O samba trazendo alvorada

Meu coração conquistou…

Ah! Minha Portela!

Quando vi você passar

Senti meu coração apressado

Todo o meu corpo tomado

Minha alegria voltar

Não posso definir

Aquele azul

Não era do céu

Nem era do mar

Foi um rio

Que passou em minha vida

E meu coração se deixou levar!”

Os carnavais trazem manifestações de arte e de música em diferentes estilos por este gigante país. Ritmos, poses, passos, cada estado, cada região, cada bairro, em alguns casos, têm o seu. Das escolas de samba aos trios elétricos, das marchinhas às batidas com quase nenhuma letra, do romantismo à curtição breve. É assim o carnaval.

Há exageros e eles, geralmente, estragam a festa. Bebidas em excesso, euforias incontidas de foliões deseducados que invadem o direito do outro, tristes cenas que extrapolam o sentido da festa. Acidentes de carro em decorrência do álcool. Brigas por ciúme. Agressões desnecessárias – aliás, agressões são sempre desnecessárias. Tirando esses desajeitamentos, o jeito é brincar o carnaval. Mesmo que, em casa, ouvindo algumas músicas com a família ou acompanhado por lembranças de algum tempo. Cada um escolhe a sua folia.

Tenho muitas lembranças de carnaval. Algumas da minha infância em Cachoeira Paulista, cidade pequena do interior de São Paulo. Cidade grande de histórias que compuseram o enredo da minha vida. Minha mãe tinha uma amiga que faleceu no último ano. Mina. Ela gostava de carnaval. E gostava de gostar. Ela nos surpreendia, a mim e aos meus primos, crianças que se aninhavam para ouvir suas histórias e ver seus disfarces. Vestia-se de Charles Chaplin, o artista que trouxe tanta alegria na sua profunda tristeza. Que disse o não dito com gestos e com arte. Mina vestia-se assim. E se pintava, maquiando-se de alegria. E ficava nas esquinas da pequena cidade assustando com delicadeza os passantes. E nós ríamos. E corríamos atrás dela. E brincávamos de chamar as pessoas para ver o desfile de imitações que ela fazia. Dias de carnaval. Vidas carnavalizando-se. Fui crescendo e participando dos blocos da minha cidade. Depois, de algumas escolas de samba do Rio e de São Paulo. Outros mundos. Dimensões diferentes. Preparação de um ano inteiro para contar uma história em alguns minutos na mágica avenida. A vida de uma comunidade desfilando. Homenageados emocionados. Enredos que marcam. Fantasias de dias que comovem turistas de todas as partes do mundo. O carnaval é uma parte do Brasil. Já estive nos carnavais da Bahia e do Recife. Os blocos que não terminam. A dança que mistura tradição com o tempero do novo, que esbanja nossa criatividade. Mas os carnavais da minha infância nunca saíram de mim. Não sabia, na época, quem era Charles Chaplin, o homem que nos ensinou que “a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”, que nos falou de bondade e de ternura como uma necessidade, “Pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá.”

Não sei se Mina conhecia os seus pensamentos. Talvez, não. Dedicava-se ela a cuidar dos pais, era essa sua profissão. E dos amigos para os quais não economizava em canções de prontidão. Porque é de presença que a amizade se alimenta. Este ano, vou passar escrevendo. Irei apenas um dia ao sambódromo de São Paulo. Nos outros, vou aproveitar para colocar meus textos em dia. E, no escrever, as lembranças de tantos carnavais. De Mina, a que se foi, em 2014, e – quem sabe – lá no Céu esteja dançando como Chaplin, orando como uma santa, cuidando como uma amiga que nunca passou. Amores que não duram apenas a folia do carnaval, mas que permanecem no fluxo de nossa história. Viver com gosto de futuro nos alimenta de amanhãs, mas relembrar o passado acalenta as nossas mais nobres emoções. Saudade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/02/2015

 

São Paulo do amanhã

Há diversas definições para o ato de educar. Gosto da que reverencia o professor como o que atua na garantia do direito ao futuro, da construção dos amanhãs. Tenho visitado as escolas de São Paulo e presenciado a ação digna de mulheres e homens que cuidam de nossas crianças. Tenho ouvido sugestões de diretores, professores, funcionários, pais e alunos sobre o que fazer para que nossas escolas sejam melhores. São eles os que têm as melhores observações, porque vivem o dia a dia da sala de aula. Sabem que há muito a ser celebrado e que há muito a ser conquistado. 

A experiência do ouvir é enriquecedora. Fico atento aos detalhes, porque nos meus dois ofícios, de professor e de escritor, alimento-me desses instantes. E fico feliz quando vejo crianças sugerindo, opinando, exercendo a cidadania, enfim, e seus professores orgulhosos disso. Ouvi de um aluno que, na alimentação escolar, é melhor quando eles se servem, porque podem colocar a quantidade de comida que querem e, assim, não há sobras nem desperdícios. Uma menina acrescentou que essa era, também, uma forma de aprender a escolher umas coisas e deixar outras para trás. A professora abriu um sorriso e não se conteve: aplaudiu o texto correto dessa pequena cidadã. Cotidiano de mestres e aprendizes que, nessa cidade imensa, preparam a São Paulo do amanhã. Deixar de cuidar dessas crianças é negar a elas o direito de serem protagonistas de suas histórias e de terem a autonomia das ações acertadas, do futuro planejado. 

Ser professor é viver essas experiências, professando a certeza de que fazemos a diferença nos degraus cotidianos do conhecimento e nos encontros com vidas em construção. E construímo-nos porque aprendemos todos os dias. É isso que nos garante o sabor do saber, a alegria de ver que escolhemos a profissão certa e que, a ela, dedicamos nossa vida. Somos protagonistas dos tempos que virão, porque cuidamos do hoje. É a esperança o alimento que escolhemos. Talvez porque, um dia, um professor também nos aplaudiu, reconhecendo os talentos que nasciam de nossas singelas conquistas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/02/2015

 

 

Domingo no táxi

Tem gente que não gosta de domingo. Tem gente que atribui ao domingo certa melancolia. Eu gosto de domingo. E, vez em quando, também gosto, não de melancolia, mas de alguma nostalgia. Baús, acolhedores do tempo, que continuam em nós e que visitamos e dos quais nos alimentamos. Alimento do passado que nos fortalece para o futuro.

Domingo passado, depois de uma longa caminhada a pé por São Paulo, peguei um táxi para voltar para casa. Quando entrei, o taxista gentilmente me cumprimentou e perguntou se eu me importava com a música. Eu disse que não. E que, aliás, gostava muito da música que estava tocando.

 

Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou 

Com uma carta na mão 

Ante surpresa tão rude, nem sei como pude 

Chegar ao portão

Lendo o envelope bonito e no seu sobrescrito

Eu reconheci 

A mesma caligrafia, que disse-me um dia 

Estou farto de ti 

Porém não tive coragem de abrir a mensagem 

Porque na incerteza 

Eu meditava e dizia: 

Será de alegria? 

Será de tristeza? 

Quanta verdade tristonha ou mentira risonha 

Uma carta nos traz 

E assim pensando rasguei tua carta e queimei 

Para não sofrer mais

O taxista cantarolava junto com Isaurinha Garcia. E comentava os trechos da música. Dizia da beleza das letras de antigamente.  Em cada música, uma história. Parece que o romantismo não tinha timidez e nos surpreendia. Imagine não abrir a carta? Não saber do conteúdo da sua mensagem. Mas havia uma razão, justificava o taxista, as histórias de dor causadas pelo remetente. Abrir para quê? Para sofrer mais?

Eu fiquei impressionado com a juventude do taxista e o seu tempero musical. Disse-me ele que o pai é cantador. Assim mesmo. Que canta o que aprendeu com o avô. Apenas em casa. Moram na Zona Sul de São Paulo. E ainda têm o hábito dos almoços de domingo em que a família se reúne e, sem televisão ligada, conversam e depois cantam.

Na sequência musical do taxista, uma outra canção. Dessa vez, na voz de Linda Batista:

 

Eu gostei tanto,

Tanto quando me contaram

Que lhe encontraram

Bebendo e chorando

Na mesa de um bar,

E que quando os amigos do peito

Por mim perguntaram

Um soluço cortou sua voz,

Não lhe deixou falar.

Eu gostei tanto,

Tanto, quando me contaram

Que tive mesmo de fazer esforço

Pra ninguém notar.

O remorso talvez seja a causa

Do seu desespero

Ela deve estar bem consciente

Do que praticou,

Me fazer passar tanta vergonha

Com um companheiro

E a vergonha

É a herança maior que meu pai me deixou;

Mas, enquanto houver força em meu peito,

Eu não quero mais nada

Só vingança, vingança, vingança

Aos santos clamar

Ela há de rolar como as pedras

Que rolam na estrada

Sem ter nunca um cantinho de seu

Pra poder descansar.

Disse ele que essa música já o acalentou em momentos de fossa. Dor de paixão. Eu quis saber se era bom nos alimentarmos de vingança, como diz a canção. Ele sorriu. E confessou que vez ou outra, sim. Dói demais saber que a mulher que nos amou está feliz nos braços de outro. E a prosa prosseguia entre as canções de outros tempos. Dos nossos tempos. Dos tempos de delicadeza. Quando desci do táxi, era essa a música que tocava, na voz de Chico Buarque:

Prometo te querer

Até o amor cair

Doente, doente

Prefiro, então, partir

A tempo de poder

A gente se desvencilhar da gente

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei

Como encantado ao lado teu

Disse o taxista que sua mulher está esperando o primeiro filho. E que ele gosta de cantar para a criança que ainda não nasceu. Canta encostado na barriga da amada. E sente que o filho gosta. Delicadezas de cantos desta grande cidade. Achei que deveria pagar um pouco mais a corrida. Mas tive receio de ofendê-lo. Elogiei a leveza e a alegria com que ele exercia seu ofício. E desci. 

Fiquei pensando em quantas histórias instigantes partem com os taxistas no momento em que seus passageiros descem. Conversas nervosas, conversas engraçadas, conversas de dor, conversas do dia a dia. Lembrei-me da coluna chamada “Táxi”, no Diário Nacional, em que Mário de Andrade, de 1929 a 1932, publicava suas crônicas. Não eram histórias como essa que conto aqui, mas igualmente prosaicas, sobre as acontecências do dia a dia das gentes de uma cidade que já se anunciava metrópole. Caleidoscópica. Aquecida pelos encontros inusitados de cada uma de suas esquinas. De cada uma de nossas corridas de táxi.

Tempos de delicadeza assim, num domingo ou em qualquer outro dia, embalam-nos canções mais sensíveis em tempos de pouca prosa.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/02/2015