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Entre o amor e as sinceridades

31.01.2021

Gabriel Chalita

Seu Tomás trabalha na portaria do prédio em que minha mulher e eu moramos. 

Gosta ele das conversas e das verdades que diz, sem muitos filtros. É assim nos assuntos da política, do futebol, da religião e da vida das pessoas. 

Foi na semana passada, em que ele gastou alguns segundos me olhando, enquanto eu aguardava o elevador, que ele incendiou minhas preocupações:

“Engordou, hein, doutor?!”.

Antes da porta se abrir e antes que eu pudesse conferir no espelho a sua verdade, tentei explicar dizendo que havia operado o joelho que estava sem correr, que já havia voltado, que, enfim, tudo voltaria ao seu lugar. 

Ele ouviu, meneando a cabeça, e lascou: “É, mas se não fechar a boca, não resolve”.

Ri e disse nada. Entrei no elevador e fiquei medindo o que estava fora do lugar. 

Vida dura a de médico. Pouco tempo para cuidados necessários. Vou voltar a correr, sim. E vou voltar a viver sem as gorduras que perturbam o seu Tomás. 

No mesmo dia, recebemos um casal de amigos para jantar. Minha mulher gosta de fazer pizza. Temos um forno na varanda de casa. Soraia é uma amiga querida que, há muito, não nos visitava. 

Seu marido é um diplomata da elegância. Pensa em cada palavra que vai dizer. Tem a humildade de ouvir antes de opinar.

Ajudava Verônica, minha esposa, a preparar as pizzas, enquanto ouvíamos Chico Buarque e falávamos amenidades.

Soraia parecia satisfeita com os pedaços que comia. Perguntava eu os sabores, e ela aceitava todos. Marguerita. Muçarela. Burratta. 

Ríamos de lembranças do ontem, comentávamos a genialidade de Chico de compor tão único e tão diverso.  Foi quando ela olhou para minha mulher e falou: “Agora, depois do sexto pedaço, posso confessar, não gosto de pizza”. O marido, elegante, tossiu engasgado. Quis explicar: “Meu amor, – prosseguiu ela – fui sincera! Se eu soubesse que era pizza, nem teria vindo, é que gostei tanto que fui comendo”.

Minha mulher ofereceu fazer outra coisa. Ele disse que não, que queria mais um pedaço de Marguerita. E depois comeu mais uns três ou quatro. E eu estou sendo tão sincero quanto ela e o Seu Tomás, sem exageros nem interpretações. E ainda perguntou se faríamos uma pizza doce para terminar. 

O marido lembrou que eles haviam trazido uns chocolates para a sobremesa. Que era desnecessário. “Eu prefiro a pizza doce, se não for dar trabalho”, disse, selando o seu dito com um beijo no marido que aquiesceu. 

E assim foi feito.

Eles se despediram e antes de nos amarmos, Veronica e eu brincamos de revisitar o dia. Contei do Seu Tomás e disse que, no dia seguinte, sairia escondido, depois de tanta pizza. E agradecemos o privilégio de, em tempos tão maquiados, conviver com a sinceridade.

Entre sorrisos gentis, a verdade é sempre bem-vinda.

Ouvindo Chico que cantava: “E me beija com calma e fundo até minha alma se sentir beijada”,  eu beijava minha mulher que não tinha os mesmos incômodos do porteiro.

Penso eu. 

Mas amanhã volto a correr.

Os cachorros têm lugar no céu

24.01.2021

Gabriel Chalita

O sol rachava a caminhada no janeiro do Rio, e a prosa soprava uma brisa metafísica sobre os nossos entendimentos. Júlio e Breno, de assunto em assunto, estacionaram as emoções para falar de Kush.

Kush era um cachorro. Chegou tímido tateando os cheiros da casa. E da gata. Sim, havia uma gata, Taga. Taga parecia professorar os jeitos de Kush. Ele se movimentava quase que deslizando. E, se não a via,  escondida que gostava de ser,  procurava-a sem incômodos nos poucos cômodos onde moravam. Quem disse que cão e gata precisam brigar? Que precisam se estranhar?

Os anos de alegria vão se desligando, e outros se ligam sem que possamos decidir. Do jeito filhote ao entardecer cansado, ele ocupava aquele mundo. Era preto como as asas da graúna e foi se esbranquiçando como acontece com as forças que se despedem. 

Na caminhada, uma água para refrescar os pensamentos. E o pensamento nele prosseguia no dizer daqueles dois.  Ele gostava de gente. Esmerava-se em desfilar com elegância e olhava, em pose de atenção, para receber elogios. Os passeios com ele eram obrigação de amor. Nos movimentos de saída, ele já aguardava na porta, ensinando gratidão. Sua felicidade dissipava qualquer antônimo. E o dia começava bem. No pôr do sol, ele admirava como gente. E, como gente, olhava as expressões dos que sabem se expressar quando conseguem ver o espetáculo único de todos os dias. 

Júlio se emociona para falar da despedida. Pede desculpas. Eu digo, em sorriso, que compreendo o amor que eles nos dão e a dor de quando se vão. Conto dos meus cachorros que se foram. De um que partiu o ano passado. Do último abraço no tapete da sala, do último olhar, das primeiras lágrimas sem ele. 

Breno pede que Julio conte da missa. “Fomos à Igreja de São Judas Tadeu, e o padre, quando começou a ler as intenções, disse: 

– Missa de sétimo dia de Maria Antonia e de… me desculpem, mas tem um nome aqui que não consigo pronunciar. Deixa eu soletrar K U S H. Tem alguém da família?

E eu, com riso nervoso e os olhos marejados, expliquei que era o meu cachorro. E achei que ganharia uma reprimenda. Ocorreu o contrário, o padre me acolheu com sorriso. Tempos depois, nos encontramos na rua e ele se lembrou de mim e disse: “Viu que até o Papa Francisco disse que os cachorros têm lugar no céu?”.

Algum silêncio nos encontrou, enquanto minha imaginação brincava de desenhar palavras. Como é bom encontrar pessoas que não têm medo de demonstrar os sentimentos. O que é o viver sem o sentir?

No mosaico dos sentimentos, encontramos recados todos os dias. Misteriosamente, eles aparecem tentando fazer desaparecer nossas insensibilidades. São trechos de vidas, são dizeres de encantamento, são silêncios reveladores.  Por isso presto tanto atenção ao que os outros me dizem. Abro os compartimentos da escuta para que histórias de amor me preencham.

Por pessoas, por animais, pelos dias, pelas causas. 

No fim da caminhada, nos despedimos e voltei para a vida imaginando Kush brincando em algum jardim das transcendências. E abanando uma alegria capaz de ultrapassar o invísivel.

Alegre, terminei o meu dia.

Um céu para Anna

“Um céu para Anna” é o título de minha crônica publicada,  hoje, no Jornal O Dia RJ:

Um céu para Anna

Gabriel Chalita

Eram os dias finais do ano que já se findou quando recebi a notícia. Nesse dia, estava de folga, ajeitando a vida, que deixo de lado, quando estou no hospital.

Sou enfermeira e, no cuidar, descobri o meu lugar no mundo. E foi assim que conheci Anna Maria Martins, a escritora.

O primeiro dizer daquela bela mulher de 96 anos foi, “Minha querida, estou sendo muito bem tratada aqui, agradeço a amabilidade de todos, mas, infelizmente, vou ter que ir embora, compreende?”. A filha sorria com o dizer da mãe. As palavras, companheiras de toda uma vida, não aconteciam sem cerimônias. Eram pensadas antes de ganharem vida. 

Acho linda a vida de um escritor e quis saber mais. Um pouco ela mesma me disse, feliz com minha curiosidade. Outro tanto fui pesquisando e me encantando com aquela mulher. O marido era, também, escritor. E, também, a filha. Ela gostava de dirigir a vida, inclusive. Mas me contou que, aos 90, ainda ia interior afora visitar parentes. E gostava da liberdade. E ria dizendo que, vez ou outra, extrapolava os limites da velocidade, “Que minha filha não me ouça!”, soletrava brincadeiras. 

Os livros tomavam horas de seus dias. Era ciosa na arte de traduzir, engenhosa na arte de inventar personagens ou de relatar acontecimentos. Os seus pares a tinham como a dama da elegância ou da delicadeza ou da generosidade. Meu Deus, por que demorei tanto para conhecer essa mulher?

Já disse que gosto do cuidar, e esse é o meu manifesto de que não desisti da humanidade. Mas me pego absorvida de horror quando vejo as violências. Há mulheres que chegam ao hospital rabiscadas de um escrito covarde que agride partes do corpo e que diminui a alma. A alma, vocacionada para as grandezas. Brigas tolas que geram ferimentos, por homens armados de ódio. No trânsito. Na vizinhança. No bar. 

Há outras provas da violência onde trabalho. Os abandonados. Os que melhorariam mais rapidamente se tivessem o amor dos seus. Essas imagens sempre me visitaram. E me entristeceram. E, jamais, me desanimaram. 

Meu ânimo hoje é outro. A tristeza da despedida de Anna e a certeza de que o que ela falou era mais profundo do que ir para casa. “Agradeço a amabilidade de todos, mas, infelizmente, vou ter que ir embora”.

Ela foi embora. Infelizmente, ela foi embora. Embora tenha ido feliz. Não que a vida não a tivesse ferido, mas tinha ela, na gentileza, o poder cicatrizante dos dias.
Quem a conheceu,  há mais tempo, dizia que os dias ao lado dela eram mais leves. Que ela plantou delicadezas em todos os palcos em que representou com mestria o viver pela palavra.

“Sou uma escritora”, dizia ela, “Sou da literatura, sou das histórias bem contadas, dos laços que unem vidas e que proporcionam felicidades”.

Decidi que vou ler mais em gratidão aos poucos dias em que pude ouvir a sonoridade da sua voz dizendo belezas.
Fico imaginando como deve ser um céu para Anna. Terá ela um clube de leituras para explicar o amor, a amizade, a bondade? Terá ela outros escritores para inspirar os dias? Terá ela alguma enfermeira como eu para acariciar a alma cuidando e sendo cuidada?

Sou uma mulher de fé. E isso me basta para dizer que não sei como é a vida depois que a vida se despede. Só sei que não pode ser ruim para quem foi bom. 
Anna, ainda nos encontraremos…

Carta aberta para minha mãe

Gabriel Chalita faz uma singela homenagem a sua mãe, que saiu jovem da Síria, de navio, rumo a um país completamente desconhecido para ela: o Brasil.

Em um relato delicado, o autor não apenas relembra alguns momentos de sua vida ao lado da mãe, mas também reflete sobre o significado de ser mãe, a responsabilidade de ser um exemplo para os filhos, a cumplicidade no convívio amoroso, a incondicionalidade da proteção. 

Um porto seguro? Um amor absoluto? Uma fonte de sabedoria? A união soberana de todas as virtudes?

O livro é também uma homenagem a todas as mulheres que gestam a vida, que se dedicam incansavelmente a seus filhos e que amam muito.

Editora Planeta, 2012 (observação: a primeira edição da obra foi lançada em 2006).

A sedução no discurso

Ao abordar a importância do discurso no tribunal do júri, o livro revela características que fazem dele uma eficiente ferramenta de convencimento; destaca, em particular, diferentes aspectos emocionais explorados por advogados e por promotores com o intuito de convencer os jurados da validade de seu papel e de suas argumentações.

Para ilustrar as questões compreendidas nesse processo, o autor vale-se da literatura, do cinema e de casos reais julgados em tribunais brasileiros. Assim, faz do livro uma obra dinâmica, em que o conhecimento e o prazer da leitura se enlaçam de forma inequívoca.

Editora Planeta, 2012 (observação: a primeira edição da obra foi lançada em 2004).

A escola dos nossos sonhos

Dos tempos primitivos à contemporaneidade, esta planta baixa delineia a história da educação. Como quem observa uma paisagem secular, quase contemplativo, o autor deixa escapar, a cada página, breves comentários sobre os principais pensadores, suas ideias e práticas pedagógicas.

Contudo, esse retrato do tempo histórico ganha ao longo do traçado suas cores próprias, especialmente quando a pena que escreve vislumbra o futuro e entrevê uma escola onde alunos e professores sintam-se acolhidos.

Famílias que educam

Diferentes casos, extraídos da literatura e do cotidiano, compõem a viva figura da relação entre pais e filhos, desde a infância até a juventude.

Com uma linguagem ágil, temperada de otimismo e esperança, o autor chama cada um   – pais e professores  – à responsabilidade de educar, com firmeza e amor. Em um passeio em torno da arte da vida, surgem pistas para o ato de conviver bem em famílias e em sociedade. 

Semeadores da esperança

Nesta obra, que busca as raízes do ser, o professor é insistentemente convidado a manter acesa a chama do sonho primeiro de educar; é preciso manter a esperança no aluno, na melhoria da vida, na modificação do mundo.

Assim, confirma a necessidade da humildade para renovar sempre o seu ofício, independentemente das adversidades. Escrito de forma quase poética (apesar de ser prosa), nele cada professor se reconhece um pouco nos comentários, nas situações apresentadas, nos questionamentos e, especialmente, no desafio de se reencontrar com a alegria.

Cozinhando com poesia

Neste livro, textos poéticos de Gabriel Chalita dialogam com deliciosas receitas da chef Eliane Carvalho, do Brie Restô. Entre poemas e reflexões, você encontra 49 pratos feitos com peixes, carnes e muita criatividade. Tudo para que seu momento especial seja recheado de bom gosto e sofisticação.

O tempo da sabedoria

Maria é o seu nome. Moradora da Tijuca. Observadora do comportamento humano. Das mudanças que o tempo é capaz de proporcionar.

Tempo de vida, ela tem. No mês que vem, celebra 96 anos de idade. Maria tem gestos marcantes. Anda com cuidado. Já percebeu que a pressa traz tropeços dolorosos. Come vagarosamente. Sabe o valor de cada mastigar. De cada experimentar.

O café fumegante faz Maria esperar. Enquanto isso, corta, vagarosamente, o pão. E sorri o sorriso dos que amam a vida. Maria já teve suas perdas. Uma filha lhe foi tirada por um câncer apressado. Um genro se foi, prematuramente, por um coração que teimou em parar antes.

O marido, ah, sobre o marido, ela tece uma história na outra. “Miguel sempre fez minha vontade”. E, enquanto molha o pão no café, emenda: “Claro que minhas vontades eram sempre boas para a família”.

Fala do pai que já morreu há muito. Conta com detalhes os seus últimos dias. Os filhos, os setes filhos, estavam com ele. Conta que um demorou a chegar. E o pai esperou. Só adormeceu em seus braços para não mais acordar quando estava completo o álbum do amor.

Come um pedaço de pão. A conversa vai para os problemas de hoje. Maria apenas ouve. A filha fala das preocupações de ser mãe, da violência da cidade, do futuro. Maria ouve. Uma amiga diz sobre o mundo que está se perdendo. Maria, depois de um gole de café, participa da história. “Precisamos ter paciência. Aos poucos, tudo se ajeita”. Um sorriso. E o prosseguir: “Oração, falar com Deus ajuda muito”.

Eu observava as suas mãos. As marcas do tempo não tiraram a beleza. Observava o seu olhar enquanto os outros falavam. A atenção ao outro é prova de amor e de sabedoria. Observava o seu texto mesmo quando discordava do que alguém havia dito. Cuidadoso. Sinal de respeito.

Falamos sobre a formatura da neta. Certamente irá ao baile. Sim. “Os acontecimentos da vida devem ser celebrados”. Quando falaram de doenças, ela não alimentou as importâncias. Elas vêm e vão. “Os remédios certos, a paciência e a fé em Deus ajudam muito”. Depois, explicou que a ordem correta é, primeiramente, a fé em Deus.

Maria é uma mulher de fé. O seu apartamento é habitado por histórias lindas e por despedidas. Há pouco tempo, ela fez uma reforma. É preciso pintar as paredes. É preciso distribuir o que não se usa. Nada de acúmulos a não ser o aprendizado que o tempo pode nos proporcionar. Se estivermos atentos.

Estive atento naquele café. Na rua, os barulhos não nos dispersavam. Há barulhos por todos os lados.

Antes de me despedir, ela me pediu que voltasse sempre. Como pede sempre. Eu sempre volto. Porque aprendo. Porque compreendo o tempo da sabedoria. Porque amo estar ali.

Alguns jovens têm nenhuma paciência com os mais velhos. Desperdício. O entardecer nos confere espetáculos grandiosos. É o poder do dia antes das despedidas. Ontem mesmo fiquei mais uma vez extasiado diante de um pôr do sol nas montanhas dos meus sonhos.

Maria é o seu nome. Mora na Tijuca. Mora em muitos outros lugares e está pronta para ensinar. Feliz nome.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 01/07/2018