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A fraternidade e o servir

“Eu vim para servir”, é esse o lema da Campanha da Fraternidade de 2015. No Evangelho de São Marcos, está a narrativa do contexto em que Jesus disse essa frase. Falava ele com seus discípulos e seguidores sobre vários temas, entre eles, as crianças: “Todo o que não receber o Reino de Deus com a mentalidade de uma criança, nele não entrará”. Discorreu, ainda, sobre os ricos que são apegados demais para compreender as lições do amor, sobre homens que abandonam suas mulheres sem a elas devotar ternura e respeito.

É esse o contexto em que Jesus nos ensina a servir. Suas ações eram culminadas pelo serviço a favor do próximo. Para que todos “tivessem vida e a vida em abundância”. Tratou feridas, libertou presos, curou cegos e trouxe luz às cegueiras. Cegueiras pelo poder, pelos aduladores que convencem alguns de serem superiores, pelas circunstâncias que conduzem uns a serem maltratados por outros. Homens cegos diante da transitoriedade dos cargos, cegos diante de um movimento ininterrupto do tempo. Os apegos, as arrogâncias nos apequenam, roubam de nós a mentalidade de uma criança, que não complica a vida, que não destrói o outro.

A Campanha da Fraternidade deste ano nos conduz à reflexão. Independentemente de nossas profissões, trabalhos ou estudos, conviver é uma arte complexa e necessária. Desenvolvemo-nos nas teias das relações, no caminhar de mãos dadas. Precisamos uns dos outros. A experiência do servir nos liberta e amplia a visão sobre a vida, a nossa e a de nossos irmãos. É desafiador. Talvez tenhamos aprendido errado o significado de ter sucesso na vida. Crescer, ter dinheiro, ter poder, mandar nas outras pessoas. Jesus, o líder, desconcerta-nos ensinando o oposto. Na singeleza de uma criança, na fraternidade do compreender que somos todos irmãos, na humildade do servir, está o segredo para viver o Reino. O de hoje e o que há de vir. Que, em nossa travessia, compreendamos o verdadeiro valor da fraternidade, da generosidade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/02/2015

 

Um carnaval que “não” passou em minha vida

Há uma canção de carnaval, de Paulinho da Viola, em que, ao declarar seu amor pela Portela, fala de sua mania de amar e de um rio que passou em sua vida. A primeira estrofe é uma homenagem ao coração que tem mania de amor, de amar. 

“Se um dia

Meu coração for consultado

Para saber se andou errado

Será difícil negar

Meu coração

Tem mania de amor

Amor não é fácil de achar

A marca dos meus desenganos

Ficou, ficou

Só um amor pode apagar”

Prossegue a canção, fazendo uma homenagem à sua escola do coração, aos sentimentos despertos ao ver a agremiação entrando na avenida. Carnaval é a celebração da alegria, as tristezas precisam respeitar esses dias. Nos tamborins, na marcação da bateria, no samba-canção, nos passistas que aguardam esse momento para desfilar, nos olhares atentos, ávidos de surpresas. Como virá a minha escola este ano? Qual será sua história, capaz de afogar minhas mágoas em um ano que poderá não ter sido tão bom? Não. Não se trata de ingenuidades, de fuga da realidade. Trata-se de emoção. E é isso que nos move.

“Porém! Ai, porém!

Há um caso diferente

Que marcou num breve tempo

Meu coração para sempre

Era dia de Carnaval

Carregava uma tristeza

Não pensava em novo amor

Quando alguém

Que não me lembro anunciou

Portela, Portela

O samba trazendo alvorada

Meu coração conquistou…

Ah! Minha Portela!

Quando vi você passar

Senti meu coração apressado

Todo o meu corpo tomado

Minha alegria voltar

Não posso definir

Aquele azul

Não era do céu

Nem era do mar

Foi um rio

Que passou em minha vida

E meu coração se deixou levar!”

Os carnavais trazem manifestações de arte e de música em diferentes estilos por este gigante país. Ritmos, poses, passos, cada estado, cada região, cada bairro, em alguns casos, têm o seu. Das escolas de samba aos trios elétricos, das marchinhas às batidas com quase nenhuma letra, do romantismo à curtição breve. É assim o carnaval.

Há exageros e eles, geralmente, estragam a festa. Bebidas em excesso, euforias incontidas de foliões deseducados que invadem o direito do outro, tristes cenas que extrapolam o sentido da festa. Acidentes de carro em decorrência do álcool. Brigas por ciúme. Agressões desnecessárias – aliás, agressões são sempre desnecessárias. Tirando esses desajeitamentos, o jeito é brincar o carnaval. Mesmo que, em casa, ouvindo algumas músicas com a família ou acompanhado por lembranças de algum tempo. Cada um escolhe a sua folia.

Tenho muitas lembranças de carnaval. Algumas da minha infância em Cachoeira Paulista, cidade pequena do interior de São Paulo. Cidade grande de histórias que compuseram o enredo da minha vida. Minha mãe tinha uma amiga que faleceu no último ano. Mina. Ela gostava de carnaval. E gostava de gostar. Ela nos surpreendia, a mim e aos meus primos, crianças que se aninhavam para ouvir suas histórias e ver seus disfarces. Vestia-se de Charles Chaplin, o artista que trouxe tanta alegria na sua profunda tristeza. Que disse o não dito com gestos e com arte. Mina vestia-se assim. E se pintava, maquiando-se de alegria. E ficava nas esquinas da pequena cidade assustando com delicadeza os passantes. E nós ríamos. E corríamos atrás dela. E brincávamos de chamar as pessoas para ver o desfile de imitações que ela fazia. Dias de carnaval. Vidas carnavalizando-se. Fui crescendo e participando dos blocos da minha cidade. Depois, de algumas escolas de samba do Rio e de São Paulo. Outros mundos. Dimensões diferentes. Preparação de um ano inteiro para contar uma história em alguns minutos na mágica avenida. A vida de uma comunidade desfilando. Homenageados emocionados. Enredos que marcam. Fantasias de dias que comovem turistas de todas as partes do mundo. O carnaval é uma parte do Brasil. Já estive nos carnavais da Bahia e do Recife. Os blocos que não terminam. A dança que mistura tradição com o tempero do novo, que esbanja nossa criatividade. Mas os carnavais da minha infância nunca saíram de mim. Não sabia, na época, quem era Charles Chaplin, o homem que nos ensinou que “a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”, que nos falou de bondade e de ternura como uma necessidade, “Pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá.”

Não sei se Mina conhecia os seus pensamentos. Talvez, não. Dedicava-se ela a cuidar dos pais, era essa sua profissão. E dos amigos para os quais não economizava em canções de prontidão. Porque é de presença que a amizade se alimenta. Este ano, vou passar escrevendo. Irei apenas um dia ao sambódromo de São Paulo. Nos outros, vou aproveitar para colocar meus textos em dia. E, no escrever, as lembranças de tantos carnavais. De Mina, a que se foi, em 2014, e – quem sabe – lá no Céu esteja dançando como Chaplin, orando como uma santa, cuidando como uma amiga que nunca passou. Amores que não duram apenas a folia do carnaval, mas que permanecem no fluxo de nossa história. Viver com gosto de futuro nos alimenta de amanhãs, mas relembrar o passado acalenta as nossas mais nobres emoções. Saudade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/02/2015

 

São Paulo do amanhã

Há diversas definições para o ato de educar. Gosto da que reverencia o professor como o que atua na garantia do direito ao futuro, da construção dos amanhãs. Tenho visitado as escolas de São Paulo e presenciado a ação digna de mulheres e homens que cuidam de nossas crianças. Tenho ouvido sugestões de diretores, professores, funcionários, pais e alunos sobre o que fazer para que nossas escolas sejam melhores. São eles os que têm as melhores observações, porque vivem o dia a dia da sala de aula. Sabem que há muito a ser celebrado e que há muito a ser conquistado. 

A experiência do ouvir é enriquecedora. Fico atento aos detalhes, porque nos meus dois ofícios, de professor e de escritor, alimento-me desses instantes. E fico feliz quando vejo crianças sugerindo, opinando, exercendo a cidadania, enfim, e seus professores orgulhosos disso. Ouvi de um aluno que, na alimentação escolar, é melhor quando eles se servem, porque podem colocar a quantidade de comida que querem e, assim, não há sobras nem desperdícios. Uma menina acrescentou que essa era, também, uma forma de aprender a escolher umas coisas e deixar outras para trás. A professora abriu um sorriso e não se conteve: aplaudiu o texto correto dessa pequena cidadã. Cotidiano de mestres e aprendizes que, nessa cidade imensa, preparam a São Paulo do amanhã. Deixar de cuidar dessas crianças é negar a elas o direito de serem protagonistas de suas histórias e de terem a autonomia das ações acertadas, do futuro planejado. 

Ser professor é viver essas experiências, professando a certeza de que fazemos a diferença nos degraus cotidianos do conhecimento e nos encontros com vidas em construção. E construímo-nos porque aprendemos todos os dias. É isso que nos garante o sabor do saber, a alegria de ver que escolhemos a profissão certa e que, a ela, dedicamos nossa vida. Somos protagonistas dos tempos que virão, porque cuidamos do hoje. É a esperança o alimento que escolhemos. Talvez porque, um dia, um professor também nos aplaudiu, reconhecendo os talentos que nasciam de nossas singelas conquistas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/02/2015

 

 

Domingo no táxi

Tem gente que não gosta de domingo. Tem gente que atribui ao domingo certa melancolia. Eu gosto de domingo. E, vez em quando, também gosto, não de melancolia, mas de alguma nostalgia. Baús, acolhedores do tempo, que continuam em nós e que visitamos e dos quais nos alimentamos. Alimento do passado que nos fortalece para o futuro.

Domingo passado, depois de uma longa caminhada a pé por São Paulo, peguei um táxi para voltar para casa. Quando entrei, o taxista gentilmente me cumprimentou e perguntou se eu me importava com a música. Eu disse que não. E que, aliás, gostava muito da música que estava tocando.

 

Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou 

Com uma carta na mão 

Ante surpresa tão rude, nem sei como pude 

Chegar ao portão

Lendo o envelope bonito e no seu sobrescrito

Eu reconheci 

A mesma caligrafia, que disse-me um dia 

Estou farto de ti 

Porém não tive coragem de abrir a mensagem 

Porque na incerteza 

Eu meditava e dizia: 

Será de alegria? 

Será de tristeza? 

Quanta verdade tristonha ou mentira risonha 

Uma carta nos traz 

E assim pensando rasguei tua carta e queimei 

Para não sofrer mais

O taxista cantarolava junto com Isaurinha Garcia. E comentava os trechos da música. Dizia da beleza das letras de antigamente.  Em cada música, uma história. Parece que o romantismo não tinha timidez e nos surpreendia. Imagine não abrir a carta? Não saber do conteúdo da sua mensagem. Mas havia uma razão, justificava o taxista, as histórias de dor causadas pelo remetente. Abrir para quê? Para sofrer mais?

Eu fiquei impressionado com a juventude do taxista e o seu tempero musical. Disse-me ele que o pai é cantador. Assim mesmo. Que canta o que aprendeu com o avô. Apenas em casa. Moram na Zona Sul de São Paulo. E ainda têm o hábito dos almoços de domingo em que a família se reúne e, sem televisão ligada, conversam e depois cantam.

Na sequência musical do taxista, uma outra canção. Dessa vez, na voz de Linda Batista:

 

Eu gostei tanto,

Tanto quando me contaram

Que lhe encontraram

Bebendo e chorando

Na mesa de um bar,

E que quando os amigos do peito

Por mim perguntaram

Um soluço cortou sua voz,

Não lhe deixou falar.

Eu gostei tanto,

Tanto, quando me contaram

Que tive mesmo de fazer esforço

Pra ninguém notar.

O remorso talvez seja a causa

Do seu desespero

Ela deve estar bem consciente

Do que praticou,

Me fazer passar tanta vergonha

Com um companheiro

E a vergonha

É a herança maior que meu pai me deixou;

Mas, enquanto houver força em meu peito,

Eu não quero mais nada

Só vingança, vingança, vingança

Aos santos clamar

Ela há de rolar como as pedras

Que rolam na estrada

Sem ter nunca um cantinho de seu

Pra poder descansar.

Disse ele que essa música já o acalentou em momentos de fossa. Dor de paixão. Eu quis saber se era bom nos alimentarmos de vingança, como diz a canção. Ele sorriu. E confessou que vez ou outra, sim. Dói demais saber que a mulher que nos amou está feliz nos braços de outro. E a prosa prosseguia entre as canções de outros tempos. Dos nossos tempos. Dos tempos de delicadeza. Quando desci do táxi, era essa a música que tocava, na voz de Chico Buarque:

Prometo te querer

Até o amor cair

Doente, doente

Prefiro, então, partir

A tempo de poder

A gente se desvencilhar da gente

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei

Como encantado ao lado teu

Disse o taxista que sua mulher está esperando o primeiro filho. E que ele gosta de cantar para a criança que ainda não nasceu. Canta encostado na barriga da amada. E sente que o filho gosta. Delicadezas de cantos desta grande cidade. Achei que deveria pagar um pouco mais a corrida. Mas tive receio de ofendê-lo. Elogiei a leveza e a alegria com que ele exercia seu ofício. E desci. 

Fiquei pensando em quantas histórias instigantes partem com os taxistas no momento em que seus passageiros descem. Conversas nervosas, conversas engraçadas, conversas de dor, conversas do dia a dia. Lembrei-me da coluna chamada “Táxi”, no Diário Nacional, em que Mário de Andrade, de 1929 a 1932, publicava suas crônicas. Não eram histórias como essa que conto aqui, mas igualmente prosaicas, sobre as acontecências do dia a dia das gentes de uma cidade que já se anunciava metrópole. Caleidoscópica. Aquecida pelos encontros inusitados de cada uma de suas esquinas. De cada uma de nossas corridas de táxi.

Tempos de delicadeza assim, num domingo ou em qualquer outro dia, embalam-nos canções mais sensíveis em tempos de pouca prosa.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/02/2015

 

O futuro de meu filho

Uma amiga me convidou para um jantar filosófico que, mensalmente, faz em sua casa. Convidou-me para falar sobre Kant e a ética dos costumes para cerca de 30 pessoas que haviam lido alguns textos do filósofo. A conversa foi agradável e as perguntas iam desde os temas da metafísica, das críticas da razão pura, até o dia a dia das famílias. Foi quando o assunto chegou à educação dos filhos. Um pai quis saber se era correto escolher a profissão dos filhos. Perguntou, já argumentando que era natural que um pai médico quisesse ter o filho médico, trabalhando com ele. Que o mesmo poderia ocorrer com uma família dona de uma empresa. Tudo seria mais fácil se os filhos dessem continuidade ao legado dos pais. Alguns concordaram; outros, não. Falamos como a teoria de Kant poderia nos inspirar: “Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal.” Age de tal modo que seu agir, se visto por outros, não lhe cause constrangimento. Isto é, faça o correto mesmo que ninguém esteja olhando.

A filosofia preocupa-se mais com perguntas do que com respostas. Uma das mães tentou ajudar. “Não tenho o direito de decidir o futuro de meus filhos. Já decidi o meu. Quero que eles tenham consciência para decidir o deles. Se forem médicos como nós, os pais, será ótimo. Se não forem, será ótimo também. O que quero, inclusive inspirada na teoria de Kant, é que sejam bons. Isso é o mais importante”. Que os filhos sejam bons. Inspirados em Kant ou, melhor ainda, nos pais. Os exemplos são combustíveis de vida. Garantem o mínimo para o percurso que teremos de cumprir. O resto fica para a nossa liberdade. Há muitos caminhos, há muitas possibilidades de exercitar o talento no mundo do trabalho. O mais importante é ser bom.

Na sobremesa daquele jantar, senti um gosto de esperança. Pais preocupados com filhos. Amigos exercendo a prosa filosófica para conviver com leveza. Retratos de um mundo que pode ser melhor. Se exercitarmos a bondade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/02/2015

Ode a Mário de Andrade

“São glórias desta cidade

Ver a arte contando história…” (Mário de Andrade)

Sem a beleza da senhora Palavra, as tardes de quinta-feira não seriam tão generosas comigo. Há uma década, tenho a honra de desfrutar, na Academia Paulista de Letras, espetáculos grandiosos de sabedoria. No tradicional encontro dos Acadêmicos, a prosa faz reverências às nossas origens com reflexões que resgatam o sentido primeiro das palavras, as vozes poetizam as verdades, as memórias são desveladas, ora com dor ora com amor, e a sabedoria faz-se dona dos momentos de leveza. Das horas de descuido, como diria Guimarães Rosa. Enlevo-me. Admiro. Aprendo. Ensino. A Academia vive, e seus moradores são artífices engenhosos e brilhantes de sua majestade, a Palavra. Representantes das Letras. Gigantes da generosidade. 

Neste enredo, como uma grande família, em nossa casa do Largo do Arouche, respiramos diversidade e convergência. Em cada cadeira que ocupamos, resgata-se uma história eternizada por enlaces culturais. Das diferenças, nasce o aprendizado. Aquele que permanece em nosso olhar. Filho mais novo, sinto-me privilegiado por renascer nessa fonte. Tão fecunda. E desafiado na função de gerenciar os sonhos dessa família. Ilustre. Digna. Amorosa.

Inicio essa jornada como presidente da Academia Paulista de Letras como intuito de multiplicar o que resgatamos desse convívio. Abrir as portas da Academia, do espaço que herdamos dos antigos confrades, das histórias vistas e vividas ali, tesouros à espera de curiosidades. A Academia dos paulistas, de todos os paulistas, inaugura o novo ano, em prosa e em poesia, para que todos possam vivenciar o que, há mais de 100 anos, nós, Acadêmicos, compartilhamos: cultura, conhecimento, amizade, encantamento. 

2015, um ano em homenagem a Mário de Andrade

Na próxima quinta-feira, dia 05 de fevereiro, inauguraremos o Ano Literário 2015. Para esse encontro, convidaremos para a prosa o Acadêmico Mário de Andrade e sua eterna vanguarda. Mário, nosso confrade, deixou-nos há 70 anos, mas a audácia e o espírito renovador de sua arte permanecem em seus livros, em sua história, em sua vida. Vida que Mário amava viver, conforme confessou a Drummond, “Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente.” 

Mário que já havia se imortalizado nas linhas das Pauliceias Desvairadas e nas geniais desventuras de Macunaíma passou a ocupar a cadeira no3 da Academia Paulista de Letras, em 1934. São inúmeros os artigos, nas edições da “Revista da Academia Paulista de Letras”, que delineiam as características desse homem audacioso, artista de muitas artes. Em uma dessas páginas, sua pluralidade. Em uma carta escrita em 1944, Mário revela ao confrade René Thiollier:” (…) você deve estar lembrado que já uma vez eu quis me retirar da Academia por me reconhecer incapaz dela. Eu não tomo posse. Por que não tomo? Porque não tomo. Não tenho jeito, sou infenso a academias, e cada vez estou mais bicho do mato, malcriado, aceitando mil convites e faltando a todos. Eu gosto da “nossa” Academia, isso gosto. Mas sou assim, me xingo, mas fico assim.” 

É esse nosso Mário de Andrade. Homem de genialidades, que ousa imaginar-se incapaz de ser acadêmico. Que rompe barreiras narrativas e lexicais. Que norteia, ainda, os que vivem da literatura. Professor a que tantos de nossos escritores submetiam seus fazeres literários: “É preciso colocar responsabilidade humana nos escritos”, alertava. Coerente na irreverência. O paulista e paulistano que distribuiu, em vida e em versos, partes de seu corpo a cada canto desta imensa e arlequinal cidade. São Paulo, comoção de sua vida. É esse Mário que estará presente em nossos encontros. Nos encontros dos Acadêmicos e nos encontros que a “casa” dos paulistas no Largo do Arouche, proporcionará a todos que se alimentam de cultura. Sigamos com seu espírito, Mário. Contestador. Transgressor do trânsito pacífico das artes. Das letras. Da vida. 

 

”Minha casa…

Tudo caiado de novo!

É tão grande a manhã!

É tão bom respirar!

É tão gostoso gostar da vida!…”

(Mário de Andrade)

 

Academia Paulista de Letras

Largo do Arouche, 312/ 324

República, São Paulo

Telefone: 3331.7222

www.academiapaulistadeletras.org.br

 

Principais obras de Mário de Andrade

Pauliceia Desvairada

Lira Paulistana

Amar, Verbo Intransitivo

Macunaíma

Contos Novos

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | 01/02/2015 | Foto: Jorge de Castro (divulgação)

Ele disse bom-dia

Frequento, há algum tempo, uma academia de ginástica  do meu bairro. As pessoas que lá trabalham são extremamente competentes e simpáticas. Nesta semana, quando cheguei, bem cedo, os funcionários da portaria diziam: “Ele disse bom-dia”. E repetiam quase que atônitos: “Ele disse bom-dia”. Entrei na sala de musculação, e os comentários de alguns professores iam na mesma direção: “Que estranho. Ele disse bom-dia”. Gosto da prosa, mas não dedico muito tempo a investigar vidas alheias; entretanto, curioso, quis saber. Contaram-me que um homem, que nunca cumprimentava ninguém, entrou na academia dizendo bom-dia. Apenas uma vez. Mas pegou todos de surpresa. Uma funcionária havia dito que, no início, todos diziam bom-dia a ele. Depois, acharam deselegante incomodá-lo, já que ele não respondia. E, naquele dia, ele, enfim, dissera bom-dia.

Parece estranho um simples dizer causar tanto movimento nos movimentos cotidianos. A ausência de polidez é um desperdício na arte do convívio. As pessoas não fazem parte da paisagem. Elas existem. Gostam de ser acolhidas. O que leva alguém a não retribuir um simples “bom-dia”? Superioridade? Timidez? Contenção de sentimentos?

Ao sair da academia, parei para conversar com os atendentes. Todos muito simpáticos, como já disse. Foi justamente quando o homem estava indo embora. Um atendente lhe disse, “Tenha um bom-dia”. Ele não respondeu. Não olhou para trás. E saiu decidido a viver sem essas interferências desnecessárias. Um olhou para o outro e tentaram entender o que acontecera. “Será que ele não disse e nós pensamos ouvir? Será que ele ganhou na Mega-Sena e resolveu, então, dar bom-dia? Mas foi apenas um! Não, o ganhador da Mega- Sena desta semana é de Sorocaba. Certamente, essa não foi a razão”. Estranhos comportamentos de quem convive com pessoas. Gestos de gentileza, mesmos os mais singelos, têm muito poder. O poder de nos sabermos frutos da mesma espécie. Da que precisa de afeto.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/01/2015

 

 

São Paulo em palavra, em poesia

“Alguma coisa acontece no meu coração” (Sampa, Caetano Veloso)

Adoniran Barbosa, “dá licença de contá” a sua São Paulo. A nossa São Paulo. A cidade que há 461 anos, numa colina entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, nasceu para ensinar. Antes de ser cidade, São Paulo foi escola. E continua sendo. Não sobrevivemos ilesos aos seus paradoxos, tão cristalizados e dolorosos. Crescemos com eles. São José de Anchieta versificou as marcas de algumas de nossas injustiças em seu nascedouro. As mesmas que, tanto tempo depois, sobrevivem nos livros e nas ruas de Ferréz e seu Capão Redondo, “Capão pecado”.

Ah! São Paulo que desperta paixões. De poesia e poeira. De rimas e desencontros. A “São, São Paulo”, de Tom Zé. A cidade que vem “morrendo a todo vapor” em abismos culturais, econômicos, sociais. Em abismos viscerais. Palco das “Diretas Já” e de tantos desalentos. Da Semana de Arte Moderna e das crianças abandonadas à sorte. Mário de Andrade, escritor que protagonizou o movimento modernista, declara, em diversos fragmentos de sua obra, seu fascínio pela “Pauliceia desvairada”. Cidade colcha de retalhos. Que desperta risos e lágrimas. “Arlequinal”. Mas, em seu “Prefácio Interessantíssimo”, Mário adverte-nos: “versos não se escrevem para leitura de olhos mudos”. Cada nuance de sua musa inspiradora, a cidade de São Paulo, é revelada no dito e no não-dito de sua obra. E sua poesia lapida nosso olhar. Nas ruas e nos livros.

Ah! São Paulo, comoção da vida de Mário de Andrade, comove também o príncipe dos poetas, Paulo Bomfim, que declara: “Pelo crime de seres boa, pelo pecado de tua grandeza, pela loucura de teu progresso, pela chama de tua história – eu te amo, São Paulo!”. Novamente, a dualidade. O sentimento dual é reiteradamente (e encantadoramente) declarado por escritores, músicos e por todos nós que descortinamos sua verdade. Moramos em São Paulo e ela mora dentro de nós. Como canta Tom Zé, “com todo defeito/ Te carrego no meu peito/ São, São Paulo/ Meu amor”.

Fomos forjados pelo sangue de trabalhadores que não temeram nem a garoa nem o futuro. Acolhemos imigrantes, como retrata Alcântara Machado em “Brás, Bexiga e Barra Funda”; e por vezes, nos distanciamos de nós mesmos. São Paulo, uma cidade que não rejeita ninguém. Nesse barro, fomos criados. Com trabalho e lirismo; acolhimento e coragem. Em São Paulo, encontramos os becos do Brasil e as marcas mais valiosas de Milão. A São Paulo que puxa o “r” para explicar o “porquê” de tudo fala também todas as línguas. Aqui, vive um mundo. Pelo caminho, encontram-se os contrastes que compõem o nosso mosaico cotidiano. As histórias que vivem rentes à nossa pele. Como a de Carolina Maria de Jesus. Ela era negra, pobre, mãe solteira, catadora de papel e foi muito discriminada até descobrirem sua palavra, sua confidência. Sua história de vida sai da extinta favela do Canindé, “o quarto de despejo da cidade,” e chega às bibliotecas e estantes de vários países no livro “Quartos de despejo”. Seu calvário, igual ao de tantos outros. 

As astúcias poéticas que permeiam a história de nossa cidade e que cantam os versos do nosso dia a dia são inúmeras. São mais de 10 milhões de histórias que pulsam com encantamento e dor. A São Paulo de Adoniran, São José de Anchieta, Ferréz, Tom Zé, Mário de Andrade, Paulo Bomfim, Alcântara Machado e Carolina Maria de Jesus é tão minha quanto sua. É dos paulistas e de todo o mundo. Parabéns, São Paulo. 461 anos da capital da esperança.

 

Livros e músicas

“Sampa”, de Caetano Veloso

“Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa

“São, São Paulo”, de Tom Zé

“Capão pecado”, de Ferréz

“Pauliceia Desvairada”, Mário de Andrade

“Insólita metrópole”, de Paulo Bomfim 

“Brás, Bexiga e Barra Funda”, de Alcântara Machado

“Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus

 

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/01/2015

 

Solo sagrado

Ouvi esta história de uma secretária de educação. Numa cidade do interior deste imenso país, crianças esperavam, com ansiedade, a inauguração de uma escola. Estudavam elas em espaços improvisados. Sem nenhum conforto nem estrutura. Mas estudavam. Ao lado, o novo prédio ia se erguendo. O tempo parecia não passar, mas, enfim, chegara o dia da inauguração. Festa da comunidade. A escola é um centro de luz que irradia saberes e futuros. Que prepara para a vida. Que edifica os alicerces de um mundo em construção. Famílias estavam presentes. Educadores entusiasmados. 

Algumas semanas depois, a secretária foi visitar a escola. Quando estava chegando, viu a cena que a comoveu. Um menino simples, que viera caminhando em ruas de terra, tirou um pano da bolsa surrada que trazia algum material e limpou a sola dos chinelos antes de pisar no solo sagrado da escola. Não reparou que estava sendo observado. Fez isso por convicção. A secretária o abordou querendo saber onde ele aprendera aquilo. Ele, pleno de simplicidade, explicou que, naquele espaço, ele se preparava para crescer, para ser um homem de verdade, para dar orgulho aos seus pais que nunca puderam estudar e para cuidar deles, retribuindo todo o esforço que fizeram e ainda faziam por ele.

Ela me contou essa história com lágrimas nos olhos, dizendo que nos surpreendemos, todos os dias, com o que aprendemos com nossos alunos. Na simplicidade de um menino que reconhece o esforço dos pais e que se alimenta dos sonhos de amanhãs, preenchemo-nos de responsabilidades cientes de nosso poder de fazer a diferença na educação. Ter olhos de ver o que, de fato, acontece ao nosso redor, no solo sagrado de cada escola, na transformação cotidiana que somos capazes de realizar, na decisão inegociável de jamais desistir de nenhum aluno. É assim que educamos. É assim que renovamos nossos votos de que ser professor é professar a crença de que cada pessoa humana merece a oportunidade de ser feliz.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/01/2015

 

Ignácio de Loyola Brandão – o interior e seu menino

José Maria Ferreira Brandão foi marceneiro, seleiro, barbeiro e delegado de polícia. Foi, também, avô de um dos maiores nomes da literatura contemporânea, Ignácio de Loyola Brandão. 

Com mais de 40 livros publicados em diversas línguas, Ignácio, saído de sua querida Araraquara, ganhou o mundo. Morou fora do Brasil. E viaja muito. Vive de cidade em cidade cumprindo sua agenda com a palavra. Onde quer que esteja, leva consigo sua história. E ela começa em um lugar de onde ele nunca saiu. De um lugar que vive no tempo. Nas rodas de cadeira e de conversa que se espalhavam pelas calçadas. No cheiro do café e do bolo que se misturava às aventuras da infância na sua terra natal. Época em que via caminhão, casas e chafariz nos pedaços de madeira do barracão do avô, o José de tantos talentos. Pai de seu pai. 

Nesse “lugar mágico que cheirava a madeira”, havia de tudo. Lixas, porcas, lápis quadrado vermelho de marceneiro, alicates, limas, verniz. E lá no fundo, uma caixa vermelha. Vermelha, empoeirada. Coberta pela fuligem e repleta de memórias. Tantas e tão importantes que ninguém podia chegar perto. E isso era o bastante para despertar a curiosidade das crianças. Principalmente a do menino Ignácio, o preferido de seu avô. Em uma manhã, o velho José entrou na oficina, pegou a chave, abriu a caixa vermelha e gritou. A caixa estava vazia. Alguém a abrira e retirara de dentro “os olhos cegos dos cavalos loucos”, os olhos de vidro dos cavalos do carrossel. Um carrossel de madeira que girava pelas cidades e que trouxera alegria à vida de seu José. Das lembranças dos melhores anos vividos pelo avô, sobrara o que estava naquela caixa. Agora, só memórias. Agora, as majestosas memórias. E a vida toda para recordá-las. Memórias registradas nas histórias que Ignácio de Loyola Brandão, o menino e o escritor, compartilha conosco em seu novo livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos” (Moderna, 2014) e em tantos outros. 

O menino e seu interior

A infância é um terreno sempre fértil. Vive para sempre em nossa maneira de ver o mundo.  Em nosso olhar curioso de criança que quer sempre mais do mundo e dos homens. Passa o tempo, mas não se perde o que passou. São as memórias que nos mantêm vivas as sensações, as emoções e aqueles que se vão, sem nunca nos deixar. 

O menino Ignácio perdeu, em um jogo com os amigos, as bolinhas brancas, os olhos dos cavalos do carrossel. Entristeceu seu avô. Mas Ignácio, o escritor, publicou, neste livro, seu pedido de desculpas ao velho José. Mostrou o seu menino. A sua infância. O seu interior. Mundo de menino vivido e revivido pelo homem Ignácio, menino que nasceu com nome de santo.  Santificou e santifica a sua vida rendendo homenagens à sua excelência, como gostava de dizer Tatiana Belinky, a palavra. Sua prosa encanta crianças e adultos. Seu humor tributa a vida. E tudo nasceu no interior. No circo, na cerca, na roda de conversa.  “Do circo de cavalinhos de pau sobraram os olhos. E agora os olhos se foram. Se foram como todos nós vamos.” As memórias ficam. Do avô. De Ignácio. De todos nós.

 

Principais obras de Ignácio de Loyola Brandão

Bebel que a cidade comeu 

Zero 

Dentes ao sol 

Não verás país nenhum 

O verde violentou o muro

O beijo não vem pela boca 

O homem que odiava a segunda-feira

O anônimo célebre 

Veia bailarina

O menino que vendia palavras

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/01/2015 | Foto: André Brandão (divulgação)