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O perfume de Yasmin

Eu tive um irmão com síndrome de Down. Era o terceiro de quatro filhos, e eu era o caçula. Meu irmão cantava e dançava boa parte do dia. Tinha também os seus brinquedos e todo o nosso afeto. Naquela época, a inclusão era ainda uma utopia. Frequentar escolas com outras crianças, aprender e ensinar, conviver,  era, praticamente, um tabu. Minha mãe dedicou a vida a cuidar dele, e nós o amávamos muito.

Dia desses, conheci Yasmin, uma menina com Down que estuda em uma escola municipal e que conversa e que abraça e que ri de pequenas coisas, porque percebe que, nas pequenas coisas, está a alegria. Yasmin me abraçou fortemente, quis ficar no meu colo, encostou a cabeça no meu ombro e, quando a professora quis levá-la, ela explicou: “está bom aqui”. Yasmin trouxe a memória afetiva do meu irmão. Ele faleceu com 33 anos. Cedo demais. Ele foi o meu companheiro de tantas brincadeiras infantis e a minha inspiração para alguns dos meus primeiros escritos. Júnior era o seu nome. O nome de meu pai, um homem bom, que cuidou de todos nós e nos ensinou a amar as diferenças e a compreender a beleza que há nelas.

Sempre defendi a bandeira da inclusão. Alunos com deficiência convivendo com outros alunos, aprendendo juntos o valor da solidariedade, do respeito;  e desenvolvendo habilidades que, todos nós, com maior ou menor dificuldade, somos capazes. Yasmin transmitia a espontaneidade e a alegria tão comuns nas crianças com Down. A professora levou-a com delicadeza, dizendo-me, “essa menina é um presente”. Meu pai dizia isso do meu irmão: “Meu filho Júnior é especial, um presente especial de Deus”.

Há muito a ser feito pelas pessoas com deficiência. A verdadeira inclusão depende de ações concretas em todos os ambientes que eles têm o direito de frequentar. Se olharmos para trás, já evoluímos muito. E assim tem que ser. O perfume de Yasmin frequentou a minha alma naquele dia. Saudade do meu irmão.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/03/2015 

Um punhado de atenção

Tenho percorrido as diversas regiões da cidade de São Paulo, visitando escolas. Em cada uma delas, tenho conversado com professores, alunos, pais, diretores e com todos os outros colaboradores do universo escolar. Em uma das minhas visitas, ouvi esta história de uma funcionária. Muito sorridente, ela se aproximou e foi se apresentando. Disse que trabalha em escolas há mais de 30 anos. E que é feliz com o que faz. Que, assim como eu, ela também gosta de conversar com as crianças, com os professores, com as famílias. Falou que se acostumou com alguns que reclamam muito e com outros que estão sempre dispostos a ajudar. E foi me ensinando que ajudar alguém é a melhor coisa que se pode fazer na vida. Disse que não teve muita oportunidade de estudo. Que fez o básico. Mas que aprendeu com a vida e com a mãe, que criou onze filhos sozinha, depois que o marido faleceu.

Contou-me uma história do tempo em que ainda vivia em Minas Gerais, onde nasceu. Certo dia, um vizinho veio pedir um punhado de feijão. Coisa comum em cidade pequena. Vizinhos se ajudando. Disse ela que estava ajudando a mãe na cozinha. Apressada. Com vontade de terminar logo para passear. O vizinho bateu palmas, era assim que se fazia antes de criarem a campainha, e trouxe uma vasilha na mão. Ela logo abriu o recipiente e colocou o feijão, com rapidez, para se ver livre e voltar ao que estava fazendo. A mãe quis saber quem era e qual o motivo de sua pressa. Ela explicou, e a mãe a repreendeu: “Todas as vezes que damos um punhado de alguma coisa para alguém saiba que, junto, temos que dar um punhado de atenção”.

“Aprendi”, disse-me a funcionária, “e nunca mais esqueci”, completou. Agradeci a boa prosa, concordando. Nos dias corridos, nas tarefas em excesso, na impaciência, desperdiçamos belas oportunidades. Encontros valorosos estão à nossa espera. É preciso prestar atenção.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/02/2015

 

 

Solo sagrado

Ouvi esta história de uma secretária de educação. Numa cidade do interior deste imenso país, crianças esperavam, com ansiedade, a inauguração de uma escola. Estudavam elas em espaços improvisados. Sem nenhum conforto nem estrutura. Mas estudavam. Ao lado, o novo prédio ia se erguendo. O tempo parecia não passar, mas, enfim, chegara o dia da inauguração. Festa da comunidade. A escola é um centro de luz que irradia saberes e futuros. Que prepara para a vida. Que edifica os alicerces de um mundo em construção. Famílias estavam presentes. Educadores entusiasmados. 

Algumas semanas depois, a secretária foi visitar a escola. Quando estava chegando, viu a cena que a comoveu. Um menino simples, que viera caminhando em ruas de terra, tirou um pano da bolsa surrada que trazia algum material e limpou a sola dos chinelos antes de pisar no solo sagrado da escola. Não reparou que estava sendo observado. Fez isso por convicção. A secretária o abordou querendo saber onde ele aprendera aquilo. Ele, pleno de simplicidade, explicou que, naquele espaço, ele se preparava para crescer, para ser um homem de verdade, para dar orgulho aos seus pais que nunca puderam estudar e para cuidar deles, retribuindo todo o esforço que fizeram e ainda faziam por ele.

Ela me contou essa história com lágrimas nos olhos, dizendo que nos surpreendemos, todos os dias, com o que aprendemos com nossos alunos. Na simplicidade de um menino que reconhece o esforço dos pais e que se alimenta dos sonhos de amanhãs, preenchemo-nos de responsabilidades cientes de nosso poder de fazer a diferença na educação. Ter olhos de ver o que, de fato, acontece ao nosso redor, no solo sagrado de cada escola, na transformação cotidiana que somos capazes de realizar, na decisão inegociável de jamais desistir de nenhum aluno. É assim que educamos. É assim que renovamos nossos votos de que ser professor é professar a crença de que cada pessoa humana merece a oportunidade de ser feliz.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/01/2015

 

Gabriel Chalita toma posse como Secretário Municipal de Educação

Novo titular estará à frente de 2.800 escolas, 911 mil alunos e 84 mil servidores, sendo 60 mil professores.

Aconteceu nesta quinta, 15, a solenidade de posse de Gabriel Chalita como titular da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. A cerimônia lotou o auditório da Prefeitura, localizado no Viaduto do Chá, região central da cidade.

Compuseram a mesa o Prefeito Fernando Haddad, a Vice-Prefeita, Nádia Campeão, o Secretário de Coordenação das Subprefeituras, Francisco Macena e o Presidente do Tribunal de Justiça, José Renato Nalini.

Também participaram da cerimônia a primeira-dama da Cidade de São Paulo, Ana Estela Haddad, o Diretor da Divisão de Orientação Técnico-Pegagógica (DOT-P) da Secretaria Municipal de Educação (SME), Fernando Almeida, a escritora Lygia Fagundes Telles, o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, além de familiares e demais amigos do novo Secretário Municipal de Educação.

Por: Assessoria de Imprensa (Secretaria Municipal de Educação de São Paulo) | 15/01/2015

Discurso de posse de Gabriel Chalita, novo secretário municipal de Educação de São Paulo

Paulo Freire, que já ocupou a pasta que, honrosamente, hoje, assumo, fez uma opção clara pela vida. Mormente pela vida dos esquecidos, dos injustiçados, dos invisíveis. A educação era, para ele, a arma mais significativa para significar as relações, para diminuir o fosso vergonhoso que separa os que têm dos que não têm oportunidades.

Educação. Estamos aqui para reverenciar essa política pública que é a base para as demais. Estamos aqui para centrar nossas convicções na construção de um processo educativo que não exclua ninguém.

Peço licença para valer-me da semântica de três palavras que me conferem voz para expressar o que sinto neste dia.

A primeira palavra é gratidão. Gratidão a Deus, Autor da Vida. Vida que se embala em paradoxos, em face da liberdade humana. Bondade e perversidade, verdade e mentira, indiferença e compaixão.

Gratidão à minha família, berço que lapidou o meu caráter. Minha mãe me ensinou a ser correto e meu pai me mostrou um amor sem economias.

Gratidão aos meus professores, que semearam em mim o desejo de ser professor por toda a vida.

Gratidão ao governador Franco Montoro, que, um dia, me viu falando em uma Igreja em Bananal, cidade do interior paulista, e me abriu as janelas das possibilidades.

Gratidão ao governador Geraldo Alckmin, que me deu a oportunidade de ser o seu secretário de Educação. Tenho a convicção de que fizemos um grande trabalho. Foi uma gestão da qual muito me orgulho. Na época, o instituto Datafolha indicou que a área mais bem avaliada do governo Alckmin era a educação.  

Gratidão ao PMDB, o meu carinho e respeito ao presidente Michel Temer e aos vereadores do meu partido: Calvo, George, Nelo e Ricardo. Meu partido que me deu a oportunidade de ser candidato a prefeito desta gigante cidade. De conhecer mais de perto as veias abertas da dor e os pulmões de energia da maior e mais importante cidade da América Latina.

Gratidão aos meus escritores amados da Academia Paulista de Letras, que acabaram de me eleger seu presidente. Lygia Fagundes Telles, a menina Lygia de tantas personagens e enredos, o príncipe dos poetas Paulo Bomfim, o pensador da ética José Renato Nalini, permitam-me, em seus nomes, expressar o quanto sou grato, eu, o caçula daquela casa, aprendendo a compreender o tempo e o seu senhorio.

Gratidão ao prefeito Fernando Haddad. Prezado prefeito, que honra ser o seu secretário, que honra trabalhar sob o seu comando. Nós nos conhecemos quando o senhor era secretário-executivo do MEC e eu, presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação. Trabalhamos juntos. E o fruto está aí. O Fundeb ampliou o conceito da educação que não exclui ninguém.

Quantas discussões fizemos sobre a importância da educação de 0 a 3 anos, etapa primeira e imprescindível na construção de princípios fundamentais ao ser humano: autonomia, cooperação, solidariedade, respeito à adversidade. A educação de jovens, de jovens e adultos. A educação especial. A educação indígena. As várias formas de acesso ao ensino superior. O senhor, Excelência, marcou a história no Ministério da Educação de nosso país. Hoje, estamos aqui. Juntos. E eu lhe sou grato. Sua gestão é moderna, honesta e corajosa. Honra-me compor, humildemente, o quadro dos seus auxiliares.

A segunda palavra é respeito. A palavra respeito, de origem latina, significa “olhar outra vez”. Algo que merece um segundo olhar é digno de respeito. Olhos de ver porque atentos e porque comprometidos com quem se vê. Respeito as crianças que estão nas escolas e as que ainda não estão. Em minha gestão, tivemos a mais baixa taxa de evasão escolar da história.

No ensino fundamental, passamos de 2.9% para 1.6%, sendo que nas séries iniciais chegamos a 0.4%. Índices impressionantes para uma rede da complexidade do Estado de São Paulo. No Ensino Médio, passamos de 8.3% para 5.6%. Melhoramos em todos os índices de qualidade: Saresp e Ideb. No ano de 2007, que mediu o ano de 2006, o último em que estive na secretaria, cumprimos as metas do Ideb. Construímos 500 escolas em tempo integral e um projeto inovador, o “Escola da Família”, atendendo milhões de pessoas que iam às escolas conviver e aprender nos finais de semana. Esse programa, premiado pela ONU, reduziu em até 80% o índice de violência escolar. Criamos o “Bolsa-mestrado” para os professores, o “Caminho das Artes” levando cinema, teatro e música para o cotidiano de professores e alunos.

Respeito o trabalho correto e competente do secretário Cesar Callegari e de toda a sua equipe. Lamentei muito, secretário, ao ver o que fizeram na rede estadual com os programas que vinham melhorando a educação no nosso estado. Não farei isso. Respeito o seu trabalho e o de sua equipe. Vamos continuar e vamos avançar. Quando a presidenta Dilma fala em “pátria educadora”, ela reconhece a importância do tema e o quanto ainda é preciso fazer para melhorar a nossa educação.

Prezado prefeito, gostaria de dizer ao senhor que vamos resolver o problema de vagas nas nossas creches para que nenhuma criança fique esquecida. Sei o quanto já foi feito e o quanto precisamos fazer. Mas sei dos entraves burocráticos. O que posso prometer é que não descansarei enquanto uma criança estiver desassistida. Cuidar e educar é um binômio indissociável na construção da identidade humana.

Respeito as mães que trabalham, os pais que querem o melhor para os seus filhos e é por isso que temos de perseguir a melhoria da qualidade do ensino. É inadmissível convivermos com realidades educacionais em que crianças vão para a escola e não aprendem. Se a cultura da repetência em exagero era danosa, a cultura dos que passam de ano sem nada saber também o é. Ambas excluem os alunos. Uma escola acolhedora deve cumprir o seu papel constitucional de formar a pessoa, de prepará-la para a vida, para o exercício da cidadania e para o mercado de trabalho.    

As escolas precisam ser um centro gerador de uma cultura de paz no seu entorno.

A terceira palavra é generosidade. Peço licença, professor Haddad, para render as minhas homenagens aos nossos irmãos de ofício, os professores. Tenho profundo respeito pelo magistério. Tive a honra de presidir a Comissão de Educação da Câmara Federal na época em que elaboramos o Plano Nacional de Educação. Avançamos muito nos direitos e na importância de quem todos os dias professa a crença na pessoa humana e comunga a generosa convicção de que podemos dar aos nossos alunos o passaporte da autonomia, da vida digna, feliz.

Aos professores, coloco-me como parceiro disposto a aprender e a ensinar, disposto ao diálogo constante. Precisamos de vocês. São Paulo precisa dos seus professores para educar com excelência os seus alunos. Meu respeito aos professores, àqueles que, no chão da escola, conhecem os problemas e os caminhos para melhorar nossa educação.

A arte de educar requer generosidade. Partilhamos o que somos e o que acumulamos com as experiências que a vida nos proporcionou.

Gratidão, respeito, generosidade. Confesso que, como gosto das palavras, gostaria de falar um pouco mais. Mas deixemos que o nosso trabalho diário, convicto da oportunidade e da responsabilidade que assumimos, fale por nós.

“São Paulo, comoção da minha vida”, dizia Mário de Andrade. A cidade que nos amedronta e nos apaixona. Não. Não somos medrosos. Se fôssemos, não estaríamos aqui. Apaixonados, sim. É o que nos move.

Obrigado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: assessoria de imprensa) | Data: 15/01/2015

As crianças que não voltaram

Não conheço as crianças mortas em uma escola no Paquistão. Não sei sequer os seus nomes. Não conheço suas famílias, suas casas. Como não conheço os professores também mortos nesse horrendo atentado. Mas sei de algumas coisas. Vivemos em um mesmo mundo, em uma mesma época. O Sol que aquece esse lado é o mesmo que aquece o outro lado. A Lua que nos inspira a escrever, a namorar, certamente inspirou os seus pais, em algum momento, mas não inspirará essas crianças que, em um dia comum, saíram de casa para aprender algo bom e não voltaram.

A dor dessas famílias não se descreve em pedaços de papel. Os quartos com os ausentes. As lembranças de ontem, quando eles ainda estavam ali, alimentando de vida os seus, prometendo cumprir o ofício de crescer e de prosseguir, mesmo diante de alguns percalços em uma região tão triturada pelo desamor. Crianças, apenas. É o que eram. Vítimas de radicalismos, de ódios que segregam, de bestialidade humana. Não há religião que justifique ações dessa natureza.

Imagino os professores em suas salas de aula. Cada qual ensinando o que lhe competia. Dizendo sobre histórias, geografias, letras, números, gentes. Olhando para os seus alunos e oferecendo a eles o conhecimento como passaporte para dias melhores. Escolheram ser professores por fazerem uma opção pela vida, por acreditarem na generosidade dos saberes e dos encontros. Foram-se eles também. Prematuramente, partiram sem entender as razões. Razão não há para atitudes assim. Nem lá. Nem aqui. Nem em qualquer tempo ou espaço. É de vida que precisamos. E a vida se plenifica na paz. A paz que nasce no coração dos homens e que harmoniza a convivência.

Que as crianças que não voltaram nos alimentem de intenções e de ações de amor. Ou isso ou a barbárie.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/12/2014
 

 

 

 

A educação de todo dia

Um carro passa com a janela aberta. Alguém joga algo na rua. Fato do cotidiano. Fato feio do cotidiano. Não importa se o carro é de luxo ou não. Se seus ocupantes têm mais ou menos dinheiro, se têm formação universitária ou não. O que chama a atenção é a ausência de cidadania. É o descuido com o espaço público. É o desrespeito ao outro.

Quantas vezes, ao dar a última aula, pedi aos alunos que olhassem ao seu redor. Eram papéis espalhados pelo chão, restos de lápis, papéis de bala, entre outras coisas. Pedia-lhes que pensassem no pessoal da faxina vendo aquela sujeira. Seria correto deixar para o outro o dever de cada um de nós de jogar o próprio lixo no lixo? E, então, juntos, recolhíamos tudo. O resultado era surpreendente. Nas aulas seguintes, não se via mais sujeira pelo chão. Acredito na educação que provoca reflexão e transforma atitudes. Quando nos preocupamos em ensinar as teorias matemáticas ou geográficas, estamos certos. Ou teorias de química e física. Ou o apuro para a compreensão das múltiplas linguagens que a arte nos proporciona: teatro, cinema, música, artes plásticas, etc. Tudo isso é fundamental para preparamos os profissionais que comandarão pessoas e organizações. Mas a educação vai além. É o hábito de fazer o correto, no dia a dia, em qualquer situação. É a riqueza de ensinar pelos bons exemplos.

Carros em filas duplas, vagas de pessoas com deficiência ou de idosos ocupadas de forma inadequada, comportamento violento nos esportes, descumprimento das regras, zombaria às pessoas, piadas preconceituosas, ausência de civilidade no trato com o outro. Tudo isso deseduca e compromete as relações humanas. Um filho que assiste a uma atitude não cidadã de seus pais vai imitá-los, certamente. É preciso lhes oferecer, com amor e responsabilidade, água limpa e cristalina para ser absorvida. É nosso dever optar pela verdade, pelo ético, pelo bem comum. Sempre. Pelos bons exemplos que educam, que elevam, que enriquecem a convivência.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 5/12/2014

 

O que a Finlândia tem a ensinar

País que é referência em educação também se destaca em direitos sociais, política e inovações, como um chiclete que, em vez de provocar, evita cáries.

Na terra do Papai Noel, o presente é a educação: gratuita e de qualidade, independentemente de classe social. É no ensino que a Finlândia estabeleceu o alicerce para erigir, em um rincão de inverno gélido ao norte da Europa, uma das sociedades mais desenvolvidas do mundo.

Bem colocado em rankings de educação, qualidade de vida e combate à corrupção, o país nórdico arquitetou seu sucesso. Com um quarto do território acima do Círculo Polar Ártico e um histórico de séculos de dominação dos vizinhos suecos e russos, a Finlândia (independente desde 1917)apostou em uma rede de proteção social, no planejamento e na educação para assegurar o bem-estar de 5,4 milhões de habitantes, menos da metade da população gaúcha e apenas 2,6% da brasileira.

– Éramos um país paupérrimo, dominado pela Suécia e depois pela Rússia, que enfrentou uma Guerra Civil, sofreu até o pós-guerra e conseguiu se tornar um lugar próspero – orgulha-se IIkka Taipale, médico, professor universitário e ex-membro do Parlamento Nacional, editor do livro 100 Inovações Sociais da Finlândia.

Um simpático senhor de barbas e cabelos brancos, Taipale apresentou a coletânea de inovações em um seminário realizado pela embaixada do país em Brasília: licença maternidade de 11 meses, chiclete que ajuda a prevenir cáries, primeiro parlamento a aceitar mulheres, bebês que dormem em uma caixa de papelão…

O pilar desta sociedade de bem-estar é a educação, sem relação com métodos pedagógicos revolucionários. Pelo contrário, a Finlândia indica um caminho que pode ser seguido em qualquer país: um sistema uniforme e gratuito dos anos iniciais à universidade, o que inclui merenda, material e bolsas de estudo, além de professores qualificados e bem remunerados. Meio de alcançar avanços sociais e tecnológicos, como o pioneirismo da Nokia na telefonia móvel.

– Os melhores alunos da escola querem ser professores, é uma profissão de destaque na sociedade. A educação é encarada como forma de resolver problemas. Não adotamos o modelo de passar 10 horas por dia lendo e decorando assuntos. Há tempo para o lazer, música, esporte – explica a ex-ministra de Assuntos Sociais e Saúde do país, Vappu Taipale.

Ex-secretário de Educação do Estado de São Paulo, o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) elogia o modelo de ensino finlandês, em especial pela valorização aos professores, a maior parte com qualificação equivalente ao mestrado. Situação oposta à vivenciada no Brasil na educação básica.

– Temos de aprender a valorizar o professor em três lugares: na cabeça, no coração e no bolso. Cabeça é formação, coração é respeito, e bolso é um salário digno – defende.

Chalita também chama atenção para o incentivo que os finlandeses dão à permanência dos pais em casa – para o deputado, por melhor que seja uma escola, ela não supre a carência deixada por uma família ausente.

Já na sala de aula, as crianças compreendem a importância de uma sociedade com baixa desigualdade, em um país onde os bairros são planejados para que ricos e pobres sejam vizinhos. Infraestrutura, investimentos em mobilidade urbana e sustentabilidade também são prioridades ensinadas e materializadas pelos governos de coalizão, que asseguram a Executivo e Legislativo tranquilidade para desenvolver políticas públicas mantidas independentemente dos resultados eleitorais.

Não à toa, a Finlândia tem um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta: 0,879, ante 0,744 do Brasil. O IDH leva em conta três fatores: renda per capita, escolaridade e expectativa de vida. Quanto mais próximo de 1, melhor a avaliação. Tanta prosperidade exige uma das taxas de impostos mais altas do mundo. Tributos pagos sem resmungos.

– Somos contribuintes felizes – diz Ilkka Taipale.

Por: Guilherme Mazui – colaborou Mônica Bidese (especial) | Zero Hora | 30/11/2014

Macapá e Belém recebem Gabriel Chalita

Gabriel Chalita ministra palestras para professores e estudantes na região norte do país. Acadêmicos de Macapá e de Belém participam desses encontros em que a educação e o crescimento integral dos alunos são basilares.

Segundo Chalita, “educar é fazer do conhecimento um aliado para o desenvolvimento pessoal e profissional.” Além de refletir sobre questões inerentes às regiões visitadas, Chalita aborda aspectos fundamentais para o crescimento crítico do indivíduo, dentro de princípios sociais, éticos, solidários e justos. 

Fonte: assessoria de imprensa

 

 

Nita e Paulo Freire, um livro sobre o amor

Nita Freire nos presenteou com os detalhes cotidianos do apaixonado Paulo Freire. Conta que estavam os dois vivendo o luto da despedida. Ela havia enviuvado, depois de um casamento de quase 30 anos. Ele havia perdido Elza, de quem fora cúmplice de sonhos e afagos durante 42 anos. Encontraram-se nos desencontros. Encantaram-se.

Os relatos trazem a adolescência da paixão nos anos de maturidade. Não há idade para amar. Nita revigora uma frase corriqueira na vida de Paulo Freire: “eu optei por viver”. Bilhetes em cardápios de avião, em guardanapos. Poemas lidos com vagar nos telefonemas apaixonados, quando estavam distantes. Paulo, o patrono da educação brasileira, era um homem romântico. Com as mulheres que amou e com as causas que abraçou.

No pouco convívio que tive com Paulo Freire, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o que mais me chamava atenção era o seu “gostar de viver”. Não pode ser educador quem não gosta de viver. Gostar de viver é permitir que o encantamento do encontro revele-se aos aprendizes e os prepare para os encontros tantos que a vida há de proporcionar. Fala Paulo Freire em esperança, em autonomia, em tolerância, em boniteza. A vida é bonita, mesmo diante das feiuras que insistimos em construir. “A vida é bonita, é bonita e é bonita”, cantava o poeta Gonzaguinha que ficava “com a pureza da resposta das crianças”. Paulo Freire é puro, sem ser ingênuo. É crente, sem ser estreito. É livre, sem ser descompromissado. Conquistou os educadores do Brasil e de tantos outros cantos do mundo. Do quintal de sua pequena Jaboatão aos quintais do mundo, sua curiosidade buscou, incansavelmente, caminhos de justiça para a concretização de seu sonho maior: uma educação igualitária. Foi criticado por aqueles que não compreenderam a dimensão dos seus ditos, o protagonismo da sua aspiração. Mas encarava com leveza: “Nita, não importa o que fazem com o que digo e com o que penso e faço. Se me distorcem, o problema não é meu, é de quem o faz!”. Críticos, há por todos os lados; Paulo Freire, não. É único. E é nosso, um brasileiro.

Queria ele uma educação libertadora. Que desse a todos as condições para o desenvolvimento do seu talento. Sem discriminação. Sem exclusão. Defendia os professores como multiplicadores dessa boa nova que é a educação. A que forma as gentes, a que prepara para os fatos corretos. Nita nos revela que Paulo Freire foi um eterno menino, até o momento de sua morte: “Paulo nunca quis perder sua alegria-menina e sua enorme tolerância com relação a fragilidades humanas. Em certos momentos, pensei que seria importante chamar-lhe a atenção sobre esse jeito sem limites de generosidade de entrega aos outros e outras, aliás, devo reconhecer, uma de suas maiores virtudes, mas ele não me dava ouvidos.” . Um homem sério, com a alma inocente e a boa fé de um menino.

Quando participo, hoje, de congressos internacionais e vejo tantas teses atuais sobre a prática educativa, sobre o sonho de uma educação para todos, sobre o amor pelo ofício de professor, lembro-me, com orgulho e respeito, de Paulo Freire. O homem que amava as coisas do povo. O homem da antevisão. Disse tanto. Fez tanto. E jamais negligenciou a responsabilidade de cuidar das pessoas. Educar é isto. É não desistir nunca do outro.

Descrição

Nós dois é um convite aos leitores de Paulo Freire e de Nita Freire, para que conheçam um pouco mais sobre a vida e a história de amor do casal. Uma reunião de cartas, bilhetes, fotos que nos ajuda a reconstruir a trajetória de encantamento que uniu os dois. Uma experiência que merece ser dividida para que mais pessoas percebam o quanto uma união calcada no respeito e na admiração pode transformar duas vidas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/11/2014