Tag: Diário de S. Paulo

Domingo no táxi

Tem gente que não gosta de domingo. Tem gente que atribui ao domingo certa melancolia. Eu gosto de domingo. E, vez em quando, também gosto, não de melancolia, mas de alguma nostalgia. Baús, acolhedores do tempo, que continuam em nós e que visitamos e dos quais nos alimentamos. Alimento do passado que nos fortalece para o futuro.

Domingo passado, depois de uma longa caminhada a pé por São Paulo, peguei um táxi para voltar para casa. Quando entrei, o taxista gentilmente me cumprimentou e perguntou se eu me importava com a música. Eu disse que não. E que, aliás, gostava muito da música que estava tocando.

 

Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou 

Com uma carta na mão 

Ante surpresa tão rude, nem sei como pude 

Chegar ao portão

Lendo o envelope bonito e no seu sobrescrito

Eu reconheci 

A mesma caligrafia, que disse-me um dia 

Estou farto de ti 

Porém não tive coragem de abrir a mensagem 

Porque na incerteza 

Eu meditava e dizia: 

Será de alegria? 

Será de tristeza? 

Quanta verdade tristonha ou mentira risonha 

Uma carta nos traz 

E assim pensando rasguei tua carta e queimei 

Para não sofrer mais

O taxista cantarolava junto com Isaurinha Garcia. E comentava os trechos da música. Dizia da beleza das letras de antigamente.  Em cada música, uma história. Parece que o romantismo não tinha timidez e nos surpreendia. Imagine não abrir a carta? Não saber do conteúdo da sua mensagem. Mas havia uma razão, justificava o taxista, as histórias de dor causadas pelo remetente. Abrir para quê? Para sofrer mais?

Eu fiquei impressionado com a juventude do taxista e o seu tempero musical. Disse-me ele que o pai é cantador. Assim mesmo. Que canta o que aprendeu com o avô. Apenas em casa. Moram na Zona Sul de São Paulo. E ainda têm o hábito dos almoços de domingo em que a família se reúne e, sem televisão ligada, conversam e depois cantam.

Na sequência musical do taxista, uma outra canção. Dessa vez, na voz de Linda Batista:

 

Eu gostei tanto,

Tanto quando me contaram

Que lhe encontraram

Bebendo e chorando

Na mesa de um bar,

E que quando os amigos do peito

Por mim perguntaram

Um soluço cortou sua voz,

Não lhe deixou falar.

Eu gostei tanto,

Tanto, quando me contaram

Que tive mesmo de fazer esforço

Pra ninguém notar.

O remorso talvez seja a causa

Do seu desespero

Ela deve estar bem consciente

Do que praticou,

Me fazer passar tanta vergonha

Com um companheiro

E a vergonha

É a herança maior que meu pai me deixou;

Mas, enquanto houver força em meu peito,

Eu não quero mais nada

Só vingança, vingança, vingança

Aos santos clamar

Ela há de rolar como as pedras

Que rolam na estrada

Sem ter nunca um cantinho de seu

Pra poder descansar.

Disse ele que essa música já o acalentou em momentos de fossa. Dor de paixão. Eu quis saber se era bom nos alimentarmos de vingança, como diz a canção. Ele sorriu. E confessou que vez ou outra, sim. Dói demais saber que a mulher que nos amou está feliz nos braços de outro. E a prosa prosseguia entre as canções de outros tempos. Dos nossos tempos. Dos tempos de delicadeza. Quando desci do táxi, era essa a música que tocava, na voz de Chico Buarque:

Prometo te querer

Até o amor cair

Doente, doente

Prefiro, então, partir

A tempo de poder

A gente se desvencilhar da gente

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei

Como encantado ao lado teu

Disse o taxista que sua mulher está esperando o primeiro filho. E que ele gosta de cantar para a criança que ainda não nasceu. Canta encostado na barriga da amada. E sente que o filho gosta. Delicadezas de cantos desta grande cidade. Achei que deveria pagar um pouco mais a corrida. Mas tive receio de ofendê-lo. Elogiei a leveza e a alegria com que ele exercia seu ofício. E desci. 

Fiquei pensando em quantas histórias instigantes partem com os taxistas no momento em que seus passageiros descem. Conversas nervosas, conversas engraçadas, conversas de dor, conversas do dia a dia. Lembrei-me da coluna chamada “Táxi”, no Diário Nacional, em que Mário de Andrade, de 1929 a 1932, publicava suas crônicas. Não eram histórias como essa que conto aqui, mas igualmente prosaicas, sobre as acontecências do dia a dia das gentes de uma cidade que já se anunciava metrópole. Caleidoscópica. Aquecida pelos encontros inusitados de cada uma de suas esquinas. De cada uma de nossas corridas de táxi.

Tempos de delicadeza assim, num domingo ou em qualquer outro dia, embalam-nos canções mais sensíveis em tempos de pouca prosa.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/02/2015

 

O futuro de meu filho

Uma amiga me convidou para um jantar filosófico que, mensalmente, faz em sua casa. Convidou-me para falar sobre Kant e a ética dos costumes para cerca de 30 pessoas que haviam lido alguns textos do filósofo. A conversa foi agradável e as perguntas iam desde os temas da metafísica, das críticas da razão pura, até o dia a dia das famílias. Foi quando o assunto chegou à educação dos filhos. Um pai quis saber se era correto escolher a profissão dos filhos. Perguntou, já argumentando que era natural que um pai médico quisesse ter o filho médico, trabalhando com ele. Que o mesmo poderia ocorrer com uma família dona de uma empresa. Tudo seria mais fácil se os filhos dessem continuidade ao legado dos pais. Alguns concordaram; outros, não. Falamos como a teoria de Kant poderia nos inspirar: “Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal.” Age de tal modo que seu agir, se visto por outros, não lhe cause constrangimento. Isto é, faça o correto mesmo que ninguém esteja olhando.

A filosofia preocupa-se mais com perguntas do que com respostas. Uma das mães tentou ajudar. “Não tenho o direito de decidir o futuro de meus filhos. Já decidi o meu. Quero que eles tenham consciência para decidir o deles. Se forem médicos como nós, os pais, será ótimo. Se não forem, será ótimo também. O que quero, inclusive inspirada na teoria de Kant, é que sejam bons. Isso é o mais importante”. Que os filhos sejam bons. Inspirados em Kant ou, melhor ainda, nos pais. Os exemplos são combustíveis de vida. Garantem o mínimo para o percurso que teremos de cumprir. O resto fica para a nossa liberdade. Há muitos caminhos, há muitas possibilidades de exercitar o talento no mundo do trabalho. O mais importante é ser bom.

Na sobremesa daquele jantar, senti um gosto de esperança. Pais preocupados com filhos. Amigos exercendo a prosa filosófica para conviver com leveza. Retratos de um mundo que pode ser melhor. Se exercitarmos a bondade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/02/2015

A idade de aprender

Encontrei, no final do ano, uma senhora sorridente em uma das calçadas de São Paulo. Apresentou-se, desejou-me boas festas e falou de seu orgulho de ser recém-formada. Julia, é esse o seu nome, formou-se aos 72 anos de idade. É, agora, nutricionista. Falou-me de alimentação, de cuidados que precisamos ter para que as crianças adquiram bons hábitos, do comer apressado, da falta de tempo para prestar atenção às coisas e às pessoas. Disse-me que quer muito escrever um livro. Um livro simples sobre o que aprendera. Foi além, afirmando ser o escritor um generoso em essência. Porque partilha o que sabe. Porque permite que outras pessoas participem de suas ideias e de seus conceitos.

Eu a incentivei. E quis saber o que a levara a cursar a faculdade. Ela falou-me de um programa de rádio em que uma senhora que havia se formado aos 90 anos estava dando uma entrevista, contando da sua emoção e dizendo que a idade de aprender, para ela, era qualquer idade. Julia, na época com sessenta e poucos anos, sentiu-se uma menina e decidiu concluir o ensino médio e cursar a faculdade. “Gostaria de um dia encontrar essa senhora para lhe agradecer. Ela mudou minha vida com seu depoimento”. Conversamos mais um pouco. Ela falou, novamente, sobre o primeiro livro que não quer demorar a escrever e a lançar. Porque quer publicar outros. Tem muitos planos. Muita vontade de viver. Falou-me do marido que morreu cedo. Da ausência de filhos, mas da presença de tantos amigos que ela fizera na faculdade, que ela faz na vida. Conversamos mais um pouco, caminhando. Fui bebendo de sua alegria e ouvindo seus tantos projetos que faziam seus olhos de menina, de menina de 72 anos, brilhar.

Convidou-me para uma festa naquela noite. Agradeci. “Festa”, repetiu ela, pronunciando sorridente e com vagar essa palavra cheia de significados. E concluiu: “A vida é uma festa”. Concordei. Depende da nossa disposição. E, para isso, não há idade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/01/2015

Compaixão e generosidade, da literatura para a vida

Compaixão é ter a capacidade de se colocar no lugar do outro e de sentir a sua paixão, a sua dor. É compreender o estado emocional daquele que padece e, em outras palavras, enxergá-lo.

A generosidade é a virtude de acrescentar algo ao outro, de partilhar, de deixar um pouco de si para preencher o que falta na outra pessoa. São complementares. Filhas do amor. Irmãs da bondade. A literatura é rica em personagens que nos desconcertam pelo onírico concerto de afinar o mundo.

Um dos meus livros preferidos da literatura universal é “Os miseráveis”, de Victor Hugo. Uma obra recheada do melhor fermento de sonhos e canções de vida em um mundo destroçado por guerras, autoritarismos e violência.

A obra, composta de cinco volumes, foi publicada quando Victor Hugo tinha 60 anos, mas o fio da narrativa começa a germinar quando, aos 22 anos, o jovem escritor se incomoda com a situação dos prisioneiros da colônia penal de Toulon, de onde saíam os remadores para os trabalhos forçados nas galés, onde remavam com os pés atados em correntes. Tristes cenas. Restos humanos lambuzados de humilhações e dor.  

O tema social, a miséria dos excluídos, marcou a trajetória política e literária de Victor Hugo. Charles Dickens já havia mostrado uma Inglaterra diferente das cortes. Sua denúncia chegava aos que viviam invisivelmente nos submundos de Londres. 

Victor Hugo faz o mesmo em “Os miseráveis”. Dramas chocantes de mulheres e homens alijados de bens materiais e de amparos humanos.

A personagem central é Jean Valjean, órfão de pai e de mãe, que foi criado por uma irmã mais velha que tinha sete filhos. Quando ela enviuvou, o menino Jean passa a ser o homem da casa. Em um dia, desesperado, sem ter dinheiro para comprar pão para a irmã e para os seus filhos, Jean furta um pão, o que lhe rende dezenove anos de prisão (cinco pelo pão e quatorze por tentar fugir). Jean passa sua juventude na prisão.

Quando, enfim, deixa o cárcere, perambula por vilarejos em busca de trabalho. É humilhado e temido por ser considerado um bandido perigoso. As portas se fecham na frieza de uma sociedade que não tolera erros alheios, embora seja farta de erros próprios, escondidos. Na sarjeta do abandono, um homem o acolhe, o Monsenhor Bienvenu (que significa bem-vindo). Ele o retira das ruas e o traz para casa para que tenha uma refeição decente e uma cama limpa para dormir. Jean come como um bicho esfomeado e fica arredio. Não acredita que alguém pudesse ser, com ele, generoso. Compaixão, ele certamente só conhecera nos idos da infância quando a irmã o acolhera.

Durante a noite, resolve furtar o Monsenhor. Recolhe o que estava à vista e sai pelas ruas frias de uma noite angustiante. É preso e os soldados o trazem para a casa do Monsenhor para que devolva o que ele furtou. Jean sabia que ficaria o resto da sua vida na prisão. Seria agora um reincidente. Se já era considerado um homem perigoso por ter furtado um pão para alimentar os sobrinhos, imagine agora que teve a ousadia de furtar um homem que lhe dera abrigo, que lhe dera alimento e conforto. Um homem importante. 

Jean está apavorado, amarrado, humilhado pelos guardas quando chega a casa do Monsenhor. Percebendo a situação, o Monsenhor agradece o trabalho dos guardas, mas diz que a prataria que o homem carregava não fora objeto de furto, mas de um presente que ele havia lhe dado. Jean arregala os olhos, desconcertado com a bondade do Monsenhor que pega mais algumas peças que, supostamente, Jean havia “esquecido”. “Use a prata para se tornar um homem honesto”, foi o que Jean Valjean ouviu daquele homem e o que remoeu para sempre em sua consciência.

Aqui, nesse ato de compaixão, dá-se a transformação de muitas vidas. A de Jean Valjan e a de todos os que, posteriormente, foram abraçados por sua generosidade. 

 

Da compaixão, nasce uma nova história

 

A compaixão é um sentimento essencial da convivência. Olhos de ver. Paciência. Tempo de silêncio para que a voz do outro tenha alguém onde depositar sua necessidade. Tempo de fala para que o silêncio do outro não se transforme em solidão. Presença que ameniza ausências. É como estar no deserto da dor e ver surgir o cortejo da esperança.  

Foi assim que floresceu um novo homem. Quem é Jean Valjan? Depois de conhecer o Monsenhor, é um homem sempre pronto para revelar a nobreza dos sentimentos.

Há muitas outras personagens e tramas nesse enredo fantástico de Victor Hugo. E a generosidade de Jean permeia todos os núcleos dessa narrativa. Há uma mãe solteira, Fantine, que fora abandonada pelo homem que tanto amou e que confia a criação de sua filha a um casal que, aparentemente, proporcionaria mais conforto em sua criação. Ela trabalha para pagar esse casal. Para que cuidem bem de sua filha. Somente para isso. Imaginem o que era ser mãe solteira naquela época. A filha, Cosette, na verdade, vive frágil e assustada, porque é maltratada.  Mesmo assim, canta ela a canção da esperança. Quando Fantine morre, Cosette é criada por Jean Valjan até se casar com o idealista Marius Pontmercy, um jovem que sobrevive ao sonho e à utopia de destronar o rei. Aliás, a narrativa de “Os miseráveis” ocorre entre dois episódios históricos: a batalha de Waterloo e os motins de junho de 1832, em que jovens morreram sonhando com um mundo sem privilégios nem preconceitos.

A obra é extensa, mas há um filme recente, de 2012, dirigido por Tom Hooper, que é fiel a essa linda história. Um elenco de peso com atuação irretocável: Hugh Jackman, Russell Crowe, Amanda Seyfried, Samantha Barks, Anne Hathaway, Eddie Redmayne, entre outros. 

Outros filmes e peças de teatro no mundo inteiro mostraram a ousadia de Victor Hugo em revelar a miséria humana, o abandono, a saga dos invisíveis e, mesmo assim, alimentar-nos de esperança. No final, a canção de uma vitória que não cabe nesse mundo. 

Jean Valjan aprende com o lindo gesto do Monsenhor e transforma sua vida em uma vida capaz de cuidar de outras vidas. Até mesmo diante de seu maior perseguidor, o inspetor Javert, consegue ser generoso, compreende as amarras que o impedem de entender o verdadeiro sentido da justiça. Javert se desconcerta frente ao olhar compassivo do homem que ele perseguiu a vida toda. “Ninguém pode ser tão bom quanto Jean Valjan”, rumina ele. Pode sim, especialmente se tiver em seu caminho um Monsenhor Bienvenu.

Bem-vindas a compaixão e a generosidade neste início de mais um ano. Incomodemo-nos com o aprendizado que a literatura nos proporciona. E que mais livros nos aqueçam e ampliem o nosso repertório e a nossa capacidade de contemplar e de transformar o mundo. Feliz 2015.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/01/2015

 

O dia da paz

Ontem, foi o dia da paz. 

Essa dada foi instituída, em 1968, pelo Papa Paulo VI. O Dia Mundial da Paz. Por que precisamos de um dia da paz? Porque ainda estamos longe de compreender o seu significado e de viver a sua plenitude. Paz não é ausência de guerras, apenas. Paz é presença de amor. É crença e ação.

O papa Francisco propôs, em mensagem especialmente escrita para essa data, uma reflexão sobre os conflitos, sobre a perversidade e sua superação: “já não escravos, mas irmãos”.  

Perversidade. O que fazer para aplacar essa fúria que permite que irmão destrua irmão?

Ainda há escravidão. Ainda há exploração de toda ordem. Ainda há violência, opressão. Ainda não aprendemos a conviver com as diferenças. E o que dizer da miséria em um mundo rico ou do abandono em meio a tanta fartura? E os “invisíveis” que parecem filhos de outra espécie, porque preferimos não os enxergar. Estão sujos de ausências, carentes de quem lhes estenda a mão para um novo caminhar.

A paz é atitude de boa vontade. É compreensão de que somos atores de um espetáculo, sem ensaios, que se encadeia dia a dia, podendo descortinar a tragédia ou a comédia. Depende de nós. A dor ou o riso. As mãos que agridem ou as que acolhem. Os pés que nos levam para longe ou os que servem para nos aproximar. 

Sem pretensões de mudar o mundo, mudemos o mundo em que vivemos, a nossa aldeia, como diria Pessoa. O rio de sua aldeia, os próximos da nossa aldeia. Pessoas que me veem e que eu deveria vê-las também. 

Paz é presença de amor. É crença e ação. Repito. Quando temos os valores corretos, é mais fácil agir corretamente. Basta não nos acomodarmos. Paz no nosso silêncio e paz no necessário ruído de nosso agir. Que o que vemos nos comova e que a comoção nos mova para cuidar. Do próximo. Esse é um bom começo para que o dia da paz não seja apenas o dia de ontem. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/01/2015

O primeiro amor

Há livros, à exaustão, que falam do primeiro amor e que nos enveredam pelos mais auspiciosos sentimentos do romantismo. Há canções de amor para todos os gostos. Canções que nos ajudam a atar os olhares e as promessas de amanhãs. Há canções e poemas de recomeços, desabafos exagerados de vida que segue sem as amarras de um amor que findou ou que nem chegou a existir. Embalava o amor em versos, Drummond, nosso poeta:

“Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?”

(…)

“Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.”

O primeiro amor não se trata apenas de Eros, o deus brincalhão que nos fere com sua flecha e nos impede o raciocínio. Paixão que nos embriaga de necessidades, de reciprocidades, de dizeres que nos acalmem. O primeiro amor trata-se, também, de primeiro desejo ou mais profundamente de primeira aspiração.

Imagine um cantor que foi trocando os chuveiros pelos palcos. Mesmo os modestos. E que, a cada show, se lembrava da impressão primeira de subir em um palco e cantar. Ou o artista em sua estreia e nas tantas outras apresentações que se sucederam em sua carreira. Mas sempre com o sabor da primeira impressão, do primeiro amor ao palco.

Sou um artesão das letras e sou grato a todas as pessoas que me deram oportunidade de juntar palavras expressando os significados que brotam das minhas crenças. Crenças que aprendo com os meus irmãos de ofício, lendo os que se foram e os que ainda estão por aqui. Meu primeiro amor, meu primeiro livro, meu primeiro contato com alguns leitores que comentavam as personagens que eu criava e crio.

Sou grato a este jornal, O “Diário de São Paulo”, por permitir que, nestas linhas, eu me comunique com leitores que generosamente usam parte do seu tempo para ler os meus escritos. Honra minha. Responsabilidade também.

Neste espaço, durante este ano, falei algumas vezes sobre um homem que, com sua simplicidade e decisão, vem nos servindo de referencial. O Papa Francisco. E, nesta semana, ele falou em “primeiro amor” quando usou algumas incisivas reflexões para os seus irmãos no sacerdócio. Falou o papa em “Alzheimer espiritual” ou esquecimento do primeiro amor de um religioso com a história da sua entrega ao Senhor. Um sacerdote que se distancia do Senhor transforma suas atividades em atos mecânicos. Repete como uma máquina, sem refletir sobre o significado de suas orações. Foi mais a fundo o Santo Padre, falou dos que se sentem imortais ou insubstituíveis e os convidou a visitarem os cemitérios para se lembrarem de que “somos pó e ao pó voltaremos”. Falou em empedernimento ou perda da sensibilidade. “É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem os ‘sentimentos de Jesus’ porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e ao próximo”. Falou em esquizofrenia espiritual, em hipocrisia, em rivalidade e vanglória. Criticou a sisudez e elogiou o bom humor. Criticou as torpes palavras que servem para destruir o outro, a fofoca, o maldizer e abençoou os encontros generosos.

Há tanto de sabedoria nos dizeres desse homem que impressiona o mundo com sua capacidade de fazer pontes, de dialogar, de unir os homens nos mais elevados sentimentos de compaixão e amor.

O primeiro amor é combustível para que os vícios nos abandonem. Se o discurso do papa se dirigia aos membros da cúpula do Vaticano, é útil para qualquer cidadão que se esquece do primeiro amor e vive das migalhas que sobram dos ódios lançados contra o seu irmão. 

Quão nobre é o ofício do médico ou do enfermeiro que cuidam de vidas e quão tosca é sua atuação quando se transformam em burocratas de procedimentos e se esquecem das razões que os motivaram a dedicar a vida a amenizar a dor. 

O fim do ano é tempo de agradecimentos e de propósitos. Para agradecer, é preciso recordar. Lembrar o que se foi e que merece ser revisitado. Agradecer o que se conquistou e às pessoas que foram essenciais nessa conquista. Agradecer o que se perdeu porque talvez não coubesse junto com outras conquistas que vieram. Lembrar os inícios. Do primeiro amor que gerou uma família ou uma amizade ou uma profissão ou uma incursão por uma ação que mudou a vida de pessoas. E ter propósitos. Que o primeiro amor se converta em um eterno amor. “O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos”, poetizou Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Nos enlaces de Eros, a paixão vai se transformando em cumplicidade que desafia o tempo. Como é lindo ver um casal que se reinventa nos ditos românticos depois de 20, 30, 40 anos ou mais de relação. Como é bonito ver um juiz que, depois de 30 anos de carreira, ainda se lembra do primeiro amor em um primeiro julgamento em que foi capaz de fazer justiça. Ou de um construtor que nunca esquece a primeira edificação. 

Edifiquemos no próximo ano, junto ao altar das nossas capacidades, a nossa disposição de vencer as doenças da alma que nos afastam do outro e de nós mesmos. 

Ao primeiro amor, o brinde de ano novo! 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/12/2014

A educação de todo dia

Um carro passa com a janela aberta. Alguém joga algo na rua. Fato do cotidiano. Fato feio do cotidiano. Não importa se o carro é de luxo ou não. Se seus ocupantes têm mais ou menos dinheiro, se têm formação universitária ou não. O que chama a atenção é a ausência de cidadania. É o descuido com o espaço público. É o desrespeito ao outro.

Quantas vezes, ao dar a última aula, pedi aos alunos que olhassem ao seu redor. Eram papéis espalhados pelo chão, restos de lápis, papéis de bala, entre outras coisas. Pedia-lhes que pensassem no pessoal da faxina vendo aquela sujeira. Seria correto deixar para o outro o dever de cada um de nós de jogar o próprio lixo no lixo? E, então, juntos, recolhíamos tudo. O resultado era surpreendente. Nas aulas seguintes, não se via mais sujeira pelo chão. Acredito na educação que provoca reflexão e transforma atitudes. Quando nos preocupamos em ensinar as teorias matemáticas ou geográficas, estamos certos. Ou teorias de química e física. Ou o apuro para a compreensão das múltiplas linguagens que a arte nos proporciona: teatro, cinema, música, artes plásticas, etc. Tudo isso é fundamental para preparamos os profissionais que comandarão pessoas e organizações. Mas a educação vai além. É o hábito de fazer o correto, no dia a dia, em qualquer situação. É a riqueza de ensinar pelos bons exemplos.

Carros em filas duplas, vagas de pessoas com deficiência ou de idosos ocupadas de forma inadequada, comportamento violento nos esportes, descumprimento das regras, zombaria às pessoas, piadas preconceituosas, ausência de civilidade no trato com o outro. Tudo isso deseduca e compromete as relações humanas. Um filho que assiste a uma atitude não cidadã de seus pais vai imitá-los, certamente. É preciso lhes oferecer, com amor e responsabilidade, água limpa e cristalina para ser absorvida. É nosso dever optar pela verdade, pelo ético, pelo bem comum. Sempre. Pelos bons exemplos que educam, que elevam, que enriquecem a convivência.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 5/12/2014

 

Tempo de delicadeza x Tempo de horror

De tempos em tempos, surgem pesquisas mostrando dados alarmantes sobre a violência contra a mulher. E, de tempos em tempos, crio a expectativa de que o tempo da delicadeza vença o tempo do horror, da covardia, mas não é isso o que vem ocorrendo. Infelizmente.

Dados recentes da ONU mostram que uma a cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual. Mais de 100 milhões de mulheres e meninas sofreram mutilação genital. No Brasil, segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres, a cada 12 segundos, uma mulher sofre violência sexual. Há outro dado, também assustador, que aponta que mais de 70% das agressões contra a mulher ocorrem no domicílio da vítima: pelos pais, irmãos, tios, padrastos etc. Não raro, os abusos desses homens são de conhecimento até mesmo de outra mulher da família que, por medo ou por vergonha, encobre o agressor. Muitos desses homens violentos justificam sua ação perversa e covarde como ato de amor. Amor? Quem ama respeita. Quem ama cuida. 

Quem decide partilhar a vida com alguém precisa compreender que momentos de instabilidade surgirão, mas que não serão resolvidos pela violência. Somos seres inteligentes, capazes de dialogar, aptos a compreender as nossas diferenças. É preciso acabar com essa história de maldade, de dor, de desrespeito. E as mulheres também têm um papel fundamental nessa batalha. Tolerar qualquer gesto de violência, por menor que ele pareça ser, é abrir as portas para agressões mais sérias. Brincadeiras em que o outro se torna o brinquedo não devem frequentar o convívio humano. É bom ver ONGs se mobilizando, a mídia alertando, a sociedade compreendendo e agindo.

Toda atitude machista é vergonhosa. Uma atitude violenta, além de criminosa, é horrenda. Mostremos a nossa melhor face. A face dos que caminham de mãos dadas, sem tempo nem disposição para atirar pedras.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/11/2014

 

O último voo do poeta

Nosso poeta Manoel de Barros voou. Estamos comovidos, em silêncio, buscando ouvir o último ruflar de suas asas. Nosso poeta desejou tanto usar “palavras de ave para escrever”; mas cometeu muito mais do que isso: suas palavras se fizeram asas para além do voo. E permanecem no ar, ora soltas, ora em frases, desafiando-nos a capturá-las. O poeta, que nasceu menino, partiu menino. Fez de sua maturidade a sua segunda infância; uma vida em poesia. Fez de sua arte um brinquedo. Despojado de regras e convenções, desconstruiu a linguagem, poetizou a natureza e o mundo, vestiu de singeleza as palavras. Fez da vida sua arte de simplicidade. Dizia que sua poesia era difícil de ser compreendida, embora fosse feita com palavras simples. Muitos não entendiam essa declaração. Mas é preciso fazer-se criança para compreender. Admirar-se. Encantar-se. Desinventar-se. 

Manoel de Barros nasceu às margens de um rio, cresceu menino do mato e amigo do silêncio. A palavra sempre foi seu jogo predileto. Durante a semana, a escola ocupava seu tempo, mas, nos fins de semana, eram os jogos de futebol e os livros do padre Antônio Vieira que o envolviam. Mas antes de testar em versos os “seus deslimites”, estudou Direito, formou-se e passou por uma dezena de empregos. Não via prazer em nada daquilo. Queria mesmo era “usar palavras de ave para escrever”. Ter liberdade para redescobrir a vida em versos. A vida de amor ao lado de dona Stella, sua doce e cuidadosa ‘Dona Pássara’. Quando se conheceram, há mais de 60 anos, Manoel era vendedor de imóveis. Stella estava decidida a não se casar. Procurava um lugar para morar sozinha. Manoel, em vez de encontrar um apartamento para ela, abriu as portas de uma vida a dois. Foram para o Pantanal. Cultivaram a terra e seus frutos. Um deles, o tempo para a literatura. Manoel passava os dias em seu escritório. No seu “lugar de ser inútil”, como gostava de dizer. O desabrochar de seus poemas se dava nos blocos de papel que ele mesmo fazia. Passava horas para desenhar um verso. A lápis. Livre de qualquer paradigma. E, assim, voava observando pedras, sapos, galinhas e amanheceres. Coisas “desimportantes”, segundo ele.

Manoel de Barros colhia na natureza a singeleza da vida e a beleza de seus poemas. Desejava que um “passarinho escolhesse a sua voz para seus (meus) cantos”. Acreditava que “falar a partir de ninguém faz comunhão com as árvores/ Faz comunhão com as aves/ Faz comunhão com as chuvas (…)”. Ele olhava para o que poucos percebem. E assim aumentava o mundo e sua singeleza. Em seus versos, as coisas, a natureza e os homens se misturam em uma sinestesia de cores com cheiros, de olhares que falam. Depois de seus poemas, somos outros, alargamo-nos. Entramos riacho e saímos rio. Sua arte muda nosso jeito de ver. De sentir. De viver. Manoel era de sorriso largo. De esticar horizontes. Cresceu menino. E, menino, despediu-se de nós, na última quinta-feira, aos 97 anos. O poeta que nunca gostou que colocassem data na existência vive, para sempre, no quando.

Enquanto ele nos faz saudade, certamente, está dando boas risadas, “conversando sobre nada e passarinhos”, de olhos dados com seu grande e amado amigo Bernardo, personagem de tantos de seus escritos. O pássaro voltou ao ninho e, de lá, pousado em algum tronco de árvore, ainda nos ensina a compor silêncios com suas palavras.   

 

As bênçãos 

 

Não tenho a anatomia de uma garça pra receber

em mim os perfumes do azul.

Mas eu recebo.

É uma bênção.

Às vezes se tenho tristeza, as andorinhas me

namoram mais de perto.

Fico enamorado.

É uma bênção.

Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro

para que se tornem peregrinos do chão.

Eles se tornam.

É uma bênção.

Até alguém já chegou de me ver passar

a mão nos cabelos de Deus!

Eu só queria agradecer.

Manoel de Barros

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/11/2014 | Foto: Divulgação

 

O filho da mãe

A mãe é cozinheira em casa de família. Não pensa em aposentadoria, embora esteja perto dos 70 anos. Gosta do que faz. O filho único é advogado. Estudou em uma universidade particular paga pela mãe. Formado há alguns anos, tem clientes importantes. Veste-se bem. Mora em um bom apartamento. A mãe preferiu ficar no seu canto. Um canto distante do trabalho e da vida do filho. Não reclama. Comenta que o transporte público está melhorando. No percurso, tem tempo para pensar, para rezar, para agradecer a Deus por sua vida. Ficou viúva muito nova. Com um problema sério na coluna, quase morreu no único parto. Resistiu e resiste às dores que surgem. Sem lamentos, sem queixumes.

O filho não a visita muito. Diz que falta assunto, que vivem em mundos diferentes. Ele é casado, e a esposa acha estranho ter uma sogra cozinheira. E não acha bom que os filhos convivam com a avó. “Muito rústica”, na opinião da nora.

Conheci essa cozinheira. Sua patroa é um encanto e foi ela quem me contou a história do filho. Por acaso, eu também o conheço. Um dia nos encontramos em uma universidade e disse a ele que conhecera sua mãe. Ele corou, constrangido. Pediu-me que perdoasse a simplicidade dela. E buscou todo tipo de desculpas por ter nascido em um lar tão acanhado. Ouvi com tristeza e tentei ajudá-lo. Falei de meu pai que conheci empresário, mas que, antes, fora servente de escola e feirante, e que era profundamente simples. Disse que foi ele o maior mestre que tive na vida. Quisera eu ter a mansidão, a generosidade, a sabedoria de meu pai! Ele ouviu e falou que gostaria muito de tê-lo conhecido. Eu não desperdicei a oportunidade, “Sabe que sua mãe lembra muito meu pai?”.

Não os encontrei mais, mas conheço histórias semelhantes. Filhos que se envergonham dos pais, porque frequentam ambientes requintados, têm amigos importantes etc. Tristes árvores que negam as raízes. Sentimentos mesquinhos de quem pouco entende de sentimentos. Saudade de meu pai!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/11/2014