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Faz diferença, sim!

Gosto de correr na rua, em São Paulo. Gosto de cumprimentar as pessoas e de, ao final da corrida, gastar algum tempo com alguma prosa não combinada. 

Domingo passado, corri no Minhocão e depois subi um pedaço da Consolação até chegar à Maria Antônia, rua de tantas lembranças para nossa democracia. Foi quando uma senhora bem vestida, acompanhada de outra também muito elegante, abordou-me dizendo que eu precisava avisar o prefeito de que a cidade estava muito suja. Como eu estava correndo, diminuí o ritmo, dei alguma atenção e prossegui. Ela falou algo que não ouvi, e eu virei para ver se era comigo que continuava a falar. De repente, vi a senhora que clamava pela limpeza da cidade jogando no chão a embalagem de uma barrinha de cereais. Não tive dúvidas. Voltei e peguei o lixo, fazendo algum barulho para que ela notasse. Ela me viu abaixando e foi logo justificando: “Eu só joguei no chão, porque a cidade está suja, se não, não jogaria, mas um papelzinho não faz diferença”. Eu não quis ser grosseiro. Achei que ela já ficara suficientemente constrangida pela falta de educação. Respondi, educado: “Faz, sim”. E continuei correndo. E pensando em como é difícil fazer com que as pessoas reflitam sobre suas ações. Exigir do poder público é mais fácil do que agir corretamente. Criticar. Falar em ética. Em cidadania. Em respeito aos espaços públicos. Parece simples. Dar o exemplo no dia a dia é um pouco mais complicado. Mas é disto que precisamos. Fazer com que esse clamor pela ética, pela honestidade, converta-se em atos concretos. A educação tem um papel fundamental nessa mudança de comportamento. Querer levar vantagem, mentir, tentar dar um jeitinho na solução de um problema, tentar corromper, furar fila, jogar papel no chão… tudo isso faz diferença, sim!

A cidade gasta 1 bilhão por ano para recolher o lixo que jogamos nas ruas. Há cidades no mundo que nem lixeira têm. Nem lixo. Cada um leva o que produziu no bolso ou numa sacola e deposita no local certo, sabendo que é preciso cuidar da casa em que vivemos. Para nós e para os que virão.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/04/2015 

 

Urgente é amar

Uma mulher me disse de sua tristeza ao saber que estava com câncer no seio. Entre lágrimas, explicou-me: “Como é bom abrir um exame e ver que a gente não tem nada. Que temos saúde de ferro! Terei que operar com urgência. O caroço não é tão pequeno”. Ouvi e tentei ajudá-la. Disse-lhe que as possibilidades de cura, hoje, são muito grandes. A medicina evoluiu. As cirurgias são menos invasivas. E lhe contei o caso de minha tia. Ela também soube que estava com câncer e que teria que operar o seio direito. O médico disse que era um tumor maligno que deveria ser retirado imediatamente. Ela me ligou chorando. Reclamou do médico, pois ele nem a examinara. Apenas olhara os exames. A consulta foi rapidíssima, e o doloroso diagnóstico foi dado friamente. Fomos a outro médico. Ela tremia de medo e tristeza. Mas ele logo a acalmou. “É um pequeno tumor! Não se preocupe. A cirurgia será simples e, quem sabe, a senhora até encontre algum enfermeiro bonitão, já que é viúva?”, brincou. Ela sorriu, disse que não queria saber de homem e contou a história do falecido marido. Queria apenas saber se a cirurgia era urgente. O médico disse que não. Que poderia ser quando ela quisesse. E continuou a conversa sem pressa. Aos poucos, sugeriu: “Hoje é segunda, a senhora já fez os exames, que tal operarmos na quarta? Assim, no domingo, a senhora já estará em casa, poderá fazer um delicioso almoço árabe e me convidar. E já tira isso da cabeça!”. Ela me olhou e disse: “Embora não seja urgente, é melhor fazer logo, você não acha”?

Hoje, ela está bem. Isso foi há alguns anos e, quando me lembro de que os dois médicos disseram a mesma coisa de formas diferentes, entendo que, em qualquer circunstância, o urgente é amar. Mulheres com câncer de mama, há todos os dias. O ofício da medicina exige conhecimento e amor. As dores na alma também nos fazem mal. Abracei a mulher com carinho. Ela sorriu com um olhar de esperança. Essas pedras que surgem em nossa travessia nos machucam muito. Mas elas existem. O importante é prosseguir.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/04/2015

 

Chacrinha, o musical! Genial!

“O Velho Guerreiro” marcou a história da televisão brasileira. Sua irreverência, criatividade, ousadia fizeram dele um dos maiores comunicadores do nosso tempo. Frases suas eram repetidas (e ainda são) no cotidiano das pessoas. “Quem não se comunica se trumbica”. Comunicou ao Brasil os novos talentos que desfilavam em seu programa. Artistas que ainda hoje fazem sucesso emocionam-se ao lembrar a primeira chance, o primeiro contato com a massa pela magia da televisão.

“Vocês querem bacalhau?” E o bacalhau se esgotava nas prateleiras dos supermercados. Gênio do marketing, ele dizia: “Eu não vim para explicar, eu vim para confundir”. 

José Abelardo Barbosa de Medeiros ou Abelardo Barbosa ou Chacrinha nasceu em Surubim, em 30 de setembro de 1917, e morreu em 30 de junho de 1988, no Rio de Janeiro. O musical que está em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo, narra sua trajetória de fantasias e dores. O texto é de Pedro Bial e Rodrigo Nogueira. A trilha sonora, com arranjos e direção de Delia Fischer, reúne mais de 60 grandes sucessos da nossa música. A direção é de Andrucha Waddington. 

Os atores, bailarinos cantores, estão impecáveis, mas é preciso uma menção especial, honrosa, a dois brilhantes atores de gerações diferentes que encarnam Chacrinha. O primeiro é Leo Bahia que faz o menino Abelardo Barbosa. Leo começou a chamar a atenção por seu talento na Casa de Cultura Julieta de Serpa, no Rio de Janeiro. Interpretando cantores e canções de épocas e estilos diferentes foi ganhando visibilidade. Na UNIRIO, levava a plateia ao delírio no excelente musical The Book of Mormon. Aos 23 anos, Leo Bahia vive a personagem com uma carga dramática invejável. Faz rir e faz pensar. No primeiro ato, é ele quem interpreta as peripécias do menino pobre de Surubim, Pernambuco, em seus devaneios provocados por um vulcão que os artistas do interior geravam em seu interior. O pai faliu. A mãe o incentivou. Quis ser médico. Encantou-se com o rádio. Quis ser músico. Quis comunicar. E foi tudo isso do seu jeito. 

O Chacrinha adulto é vivido por Stepan Nercessian. Genial ator brasileiro que conseguiu encarnar brilhantemente cada gesto do Velho Guerreiro. O final do primeiro ato, quando Stepan deixa de ser o artista inspirador do menino Abelardo para ser Chacrinha, é mágico. No segundo ato, vem a lembrança dos programas de auditório. “Stepan é o meu pai”, dizia emocionado o filho de Chacrinha, Leleco Barbosa. “Ele anda como meu pai, ele senta como meu pai, ele fica parado como meu pai, ele ri e se entristece como meu pai”. Esse é o maior prêmio que um ator pode receber. Generosamente, morre o ator para nascer a personagem.

Abelardo, na vida pessoal, não era tão feliz quanto na televisão. Seus medos o sufocavam. Suas dúvidas o preenchiam e roubavam dele a alegria. Cobrava a si mesmo uma perfeição difícil de alcançar. Queria audiência, mas queria mais do que isso, queria a compreensão das pessoas pelas escolhas que fez na vida. Traumas pessoais acompanham a todos nós e com ele não foi diferente. Dores dos filhos. Brigas com os que mandavam na televisão. Inseguranças. Chacrinha era humano como todos nós. E o enredo traz esse cotidiano que destoa um pouco da irreverência e da alegria na cena da televisão. Isso tudo sem apelos, sem exagero. Afinal, qual ser humano não fica nu diante das dores impossíveis de serem esquecidas na vida? Somos paixão e desilusão. Festa e solidão. Entusiasmo e medo. Brincar de viver é algo sério, e ninguém passa impune a essa ventura. Mostrar o artista – e mostrar também o homem – é uma feliz escolha da narrativa do espetáculo.

As músicas muito bem interpretadas fazem uma viagem ao nosso baú de afetos. Roberto Carlos, Ney Matogrosso, Rosana, Ritchie, Lilian, Gretchen, Gilberto Gil, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Sidney Magal, Fábio Júnior, Clara Nunes, Dorival Caymmi, Wanderléa entre outros, desfilam em seu Cassino ou Discoteca. Na estreia, em São Paulo, Fábio Júnior fez uma participação especial. Seu olhar para Stepan era quase de espanto, de admiração profunda, de recordação de um tempo em que o Velho Guerreiro abriu para ele e tantos outros as janelas dos sonhos possíveis, daqueles que nos fazem voar nas asas dos nossos talentos, mas que se não descobertos ficam para sempre adormecidos.

Encontrei, ao final do espetáculo, uma ex-chacrete que chorou muito lembrando os seus tempos ao lado dele, o homem mito, o que foi chamado pelo filósofo francês Egdar Morin de “fenômeno da comunicação em massa”. Na época, desabafou Chacrinha: “Quero ver o que vão dizer agora os críticos brasileiros que me chamam de débil mental”?

Fica a dica. Assistir “Chacrinha, o Musical”. E aplaudir o talento do artista brasileiro.

Abelardo Barbosa

Está com tudo e não está prosa

Menino levado da breca

Chacrinha faz chacrinha

Na buzina e discoteca

Ó Terezinha, ó Terezinha

é um barato o cassino do Chacrinha

Ó Terezinha, ó Terezinha

é um barato o cassino do Chacrinha!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/04/2015

 

 

A lente do medo

A guerra sempre nos mostra a face embrutecida da humanidade. Pretensos líderes que se acham conhecedores do “bem e do mal”. Comeram eles a árvore do fruto proibido, como narra o Gênesis. Alguns imaginam que a proibição de Deus para Adão e Eva era para roubar-lhes a liberdade. Não era. Comer o tal fruto proibido significaria comer um ao outro com os dentes do ódio, com a boca da destruição, com a intenção do apequenamento. Assim nasceu o pecado. O homem e a mulher podem tudo, menos destruir o outro ou a si mesmo, porque isso nos desumaniza. No texto bíblico, ficaram eles envergonhados depois de comer o que a serpente ofereceu. Envergonhados por saberem-se ávidos pela destruição do outro. Envergonhados deveríamos ficar cada um de nós com esses mesmos pecados de destruição que nos acometem.

Uma cena chocante correu mundo afora. Comoveu, revoltou, indignou. Um fotógrafo, Osman Sagirli, estava na Síria, a 10 km da fronteira com a Turquia, no local em que milhares de refugiados, amedrontados pela sombra da destruição, buscavam sobrevivência.  Seu objetivo era registrar rostos comuns, de adultos e crianças que se perdiam naquela multidão. Foi quando, ao tentar fotografar uma menina de quatro anos, a pequena Hudea, percebeu sua estranha reação. A menina levantou as mãos pensando ser a câmera uma arma. Mordeu os lábios de pavor. Olhou tão assustada que ele teve o ímpeto de abraçá-la, de aconchegar a dureza de sua trajetória. Tão menina e tão cheia de marcas. Sangues jorram naquela região há muito tempo. Famílias destruídas. Túmulos que não dão conta dos tantos que perderam o direito ao futuro.

Como corrigir isso? Como voltar ao paraíso e encontrar mulheres e homens vivendo em harmonia? Cenas assim são comuns nas guerras que sabemos e nas outras que, no escuro dos lares, roubam a inocência de crianças. Exatamente daqueles que deveriam ser os mais cuidados, os mais protegidos, os mais amados.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Foto: Osman Sagirli Data: 10/04/2015

 

Páscoa, passagem

Páscoa é passagem. Passagem da morte para a vida. Passagem da escravidão para a libertação. Passagem para um novo começo. Momento de renovação. Na Páscoa antiga, celebrava-se o fim dos tempos duros no Egito e o início de uma nova caminhada sem a opressão de dono algum. Moisés conduziu o povo com a fé no amanhã, com a esperança dos novos ventos. E o mar se abriu diante daquela gente valente que trocou as correntes pelo desconhecido. Na Páscoa nova, a ressurreição de Cristo, a força que rasga a morte, inaugura um tempo novo para aqueles que compreendem que mal algum supera o Bem. Na madrugada do domingo, a esperança se reacende, após o período da escuridão gerado por homens mal informados, mal formados, mal amados. O calvário de Cristo se repete ainda hoje. Cruzes são carregadas por mulheres e homens de todos os cantos que aguardam um canto novo para viver. 

Em sua mensagem de Quaresma, papa Francisco nos alerta: “Fortalecei os vossos corações”. Vivamos este momento como o tempo de formação de nossos corações, tomando por inspiração o amor humilde derramado por Cristo sobre nós. “Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador, mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro”.

Façamos esse percurso, hoje, no dia da Páscoa, tempo de celebração da vida. Recusemos as atitudes individualistas anunciadas pela temerosa globalização da indiferença. Persigamos as sendas do amor ao próximo, aos mais necessitados que nos revelam quão frágil é a vida. Somos todos irmãos. Cada vida cuidada sinaliza nossa presença, nossa intervenção na humanidade. Nossa ação de fé.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas”, é essa a promessa do Filho de Deus. É a fé que nos abre as portas dos Céus. Temos inseguranças diante da morte: medo, lamentação. O útero materno que nos acolheu durante nossa gestação foi nosso primeiro espaço seguro. Dele partimos para onde estamos hoje. Choramos a insegurança diante do novo. O mundo em que vivemos é um novo útero que, apesar dos solavancos todos, nos acolhe. E, desse útero, iremos para onde não sabemos, assim como foi com o nosso nascimento. A crença na ressurreição nos anima a não nos desesperarmos. 

A Páscoa tem símbolos que expressam todos esses significados. O ovo é sinal de vida. Vida que se renova quando se compreende, quando se sente. Ressignificar a própria vida nos ajuda a ser mais doces. Ovos de chocolate. A docilidade diante do outro, a bondade, a generosidade, a compreensão de que nossas relações podem fertilizar uma terra melhor, sem as escravidões contemporâneas. Fertilidade é o símbolo do coelho. Capaz de gerar vidas. Geramos vida não apenas no nascimento de novas pessoas, mas no nascedouro de ideias que combatem a escravidão. O ódio é uma forma de escravidão, a apatia também. As drogas que interrompem a vida jovem é uma escravidão. As lícitas e as ilícitas. O amargor é uma escravidão assim como o é a ausência de sonhos. 

O povo que saiu do Egito significa muito. Sair do comodismo, da alienação, da mentira, da corrupção. E acreditar no novo. Acreditar em um tema que alimente de vida a nossa vida. Os profetas antigos serviam para manter aceso esse tema. Os profetas de hoje nos inspiram com seus atos. Fazem-nos continuar acreditando no ser humano, apesar dos deslizes. Recobram-nos o barro de que fomos feitos. Francisco, o líder católico, alimenta-nos: “Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.” Que o domingo de Páscoa seja a renovação de nossa força, de nossa fé, de nosso amor. Feliz Páscoa!

 

Renova-te.

Renasce em ti mesmo. 

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado, 

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro. Mas sempre alto.

Sempre longe. E dentro de tudo.

Cecília Meireles

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/04/2015

E nasceu a mulher

No livro do Gênesis, há o relato da criação da mulher. Nos mitos antigos, também. Deusas e mulheres ocupando espaços. A bela Afrodite que emergiu das espumas das águas do mar. Psiquê que foi se apaixonar pelo homem errado. Ou não. Eros era um deus eternamente menino ou eternamente belo. Adoecido, fez com que o amor desistisse de habitar os homens. E, sem amor, o que somos?

A mulher nasceu muitas vezes. Nas histórias tantas que nos contaram, a mulher teve diferentes papéis. Sofreu as dores de parir e de ser parida em uma sociedade falocrática. O homem era quem saía para a caça e, portanto, tinha a mulher como um objeto seu. Houve sociedades matriarcais, mas em menor escala. As mulheres de Atenas pouco participavam do berço da democracia. Eram os homens que divagavam em elucubrações filosóficas e decidiam nos negócios do Estado. Mulheres medievais, mortas acusadas de feitiçaria. Mulheres escravas, vítimas das dores horrendas e dos flagelos que vinham de todos os lados. De outras mulheres, inclusive. Das sinhás que odiavam as mais belas – cenas de arcadas dentárias arrancadas para que morressem de hemorragia. Tristes marcas de tempos não tão distantes. Sofrem, ainda hoje, as mulheres. Vítimas de estupros em cantos diversos desse planeta. Vítimas de companheiros violentos. Vítimas de condições desiguais no mercado de trabalho. Vítimas, enfim, de preconceitos de uma sociedade que se acostumou a privilegiar o homem.

As leis trouxeram significativo avanço, mas a prática ainda é perversa. Comportamentos inadequados demonstram uma ignorância na relação entre homens e mulheres. Discursos aparentemente generosos colocam a razão no universo masculino e a emoção no feminino. Por quê? Os homens não têm o direito de se emocionar? As mulheres não têm a capacidade de serem racionais? Tratadas como frágeis e necessitadas de cuidados são as mulheres objetos de seus “protetores”. Frágeis, somos todos nós, os viventes. E necessitamos também de cuidados, mulheres e homens. Sem que isso signifique que tenhamos um dono.

Mulheres nasceram e nascem, também, na literatura, na música, nas artes. Protagonistas de dores e amores. De odiosidades e invejas. São Capitus, Dorotéias, Marias, Macabéas, Lucíolas, Beatrizes, Cinderelas, Teresas, Gabrielas. E muitas, muitas outras. Patroas. Amantes. Amadas. Ousadas. Dissimuladas. Musas. Amaldiçoadas. Vítimas ou algozes das paixões. Ditas em versos, em verbos e palavras. “Mulher é desdobrável. Eu sou”, proclama a poeta Adélia Prado. A mulher nasceu para gerar ideias, conceitos, relações, pessoas. Mãe de seus filhos e de seus temas. Sonhadora romântica com companheiros que compreendem o chorar e o sorrir e que, também, expressem sem receios de interpretações apressadas suas dores e utopias. Na literatura de Clarice Lispector, “O destino de uma mulher é ser mulher”, vencendo os obstáculos e a complexidade de ser. Apenas ser. 

Seja o que você quer ser,

porque você possui apenas uma vida

e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. 

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.

Dificuldades para fazê-la forte. 

Tristeza para fazê-la humana. 

E esperança suficiente para fazê-la feliz. 

Clarice Lispector

As mulheres nascem todos os dias. Ou, no dizer de Simone de Beauvoir, “tornam-se”. Mulheres nascem quando assumem o comando da própria história com a liberdade de trilhar os tantos caminhos que a conduzem ao templo da felicidade. Acompanhadas ou não. Solitárias por decisão. Mães por escolha. Livres para esculpir a profissão que lhes convém sem necessidade de autorização. A não ser aquela consentida de partilhar um projeto comum.

As mulheres nascem quando rompem os grilhões do medo de assumir o leme. De levar a nau para onde decidirem. De alcançarem patamares que, até ontem, eram de exclusividade masculina. Chegaram ao mercado de trabalho por luta e por merecimento. Tiveram que provar que são competentes. Provas tidas como desnecessárias aos homens. Mas não se importaram com isso e nasceram para um novo tempo.

Nascerão ainda, sonhamos todos, para tempos que hoje parecem frequentar as utopias, tempos de igualdade real, tempos de respeito, tempos de paz.

Que pretendes, mulher?

Independência, igualdade de condições…

Empregos fora do lar?

És superior àqueles

que procuras imitar.

Tens o dom divino

de ser mãe

Em ti está presente a humanidade.

 

Mulher, não te deixes castrar.

Serás um animal somente de prazer

e às vezes nem mais isso.

Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.

Tumultuada, fingindo ser o que não és.

Roendo o teu osso negro da amargura. 

Cora Coralina

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/03/2015 

 

Um punhado de atenção

Tenho percorrido as diversas regiões da cidade de São Paulo, visitando escolas. Em cada uma delas, tenho conversado com professores, alunos, pais, diretores e com todos os outros colaboradores do universo escolar. Em uma das minhas visitas, ouvi esta história de uma funcionária. Muito sorridente, ela se aproximou e foi se apresentando. Disse que trabalha em escolas há mais de 30 anos. E que é feliz com o que faz. Que, assim como eu, ela também gosta de conversar com as crianças, com os professores, com as famílias. Falou que se acostumou com alguns que reclamam muito e com outros que estão sempre dispostos a ajudar. E foi me ensinando que ajudar alguém é a melhor coisa que se pode fazer na vida. Disse que não teve muita oportunidade de estudo. Que fez o básico. Mas que aprendeu com a vida e com a mãe, que criou onze filhos sozinha, depois que o marido faleceu.

Contou-me uma história do tempo em que ainda vivia em Minas Gerais, onde nasceu. Certo dia, um vizinho veio pedir um punhado de feijão. Coisa comum em cidade pequena. Vizinhos se ajudando. Disse ela que estava ajudando a mãe na cozinha. Apressada. Com vontade de terminar logo para passear. O vizinho bateu palmas, era assim que se fazia antes de criarem a campainha, e trouxe uma vasilha na mão. Ela logo abriu o recipiente e colocou o feijão, com rapidez, para se ver livre e voltar ao que estava fazendo. A mãe quis saber quem era e qual o motivo de sua pressa. Ela explicou, e a mãe a repreendeu: “Todas as vezes que damos um punhado de alguma coisa para alguém saiba que, junto, temos que dar um punhado de atenção”.

“Aprendi”, disse-me a funcionária, “e nunca mais esqueci”, completou. Agradeci a boa prosa, concordando. Nos dias corridos, nas tarefas em excesso, na impaciência, desperdiçamos belas oportunidades. Encontros valorosos estão à nossa espera. É preciso prestar atenção.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/02/2015

 

 

A fraternidade e o servir

“Eu vim para servir”, é esse o lema da Campanha da Fraternidade de 2015. No Evangelho de São Marcos, está a narrativa do contexto em que Jesus disse essa frase. Falava ele com seus discípulos e seguidores sobre vários temas, entre eles, as crianças: “Todo o que não receber o Reino de Deus com a mentalidade de uma criança, nele não entrará”. Discorreu, ainda, sobre os ricos que são apegados demais para compreender as lições do amor, sobre homens que abandonam suas mulheres sem a elas devotar ternura e respeito.

É esse o contexto em que Jesus nos ensina a servir. Suas ações eram culminadas pelo serviço a favor do próximo. Para que todos “tivessem vida e a vida em abundância”. Tratou feridas, libertou presos, curou cegos e trouxe luz às cegueiras. Cegueiras pelo poder, pelos aduladores que convencem alguns de serem superiores, pelas circunstâncias que conduzem uns a serem maltratados por outros. Homens cegos diante da transitoriedade dos cargos, cegos diante de um movimento ininterrupto do tempo. Os apegos, as arrogâncias nos apequenam, roubam de nós a mentalidade de uma criança, que não complica a vida, que não destrói o outro.

A Campanha da Fraternidade deste ano nos conduz à reflexão. Independentemente de nossas profissões, trabalhos ou estudos, conviver é uma arte complexa e necessária. Desenvolvemo-nos nas teias das relações, no caminhar de mãos dadas. Precisamos uns dos outros. A experiência do servir nos liberta e amplia a visão sobre a vida, a nossa e a de nossos irmãos. É desafiador. Talvez tenhamos aprendido errado o significado de ter sucesso na vida. Crescer, ter dinheiro, ter poder, mandar nas outras pessoas. Jesus, o líder, desconcerta-nos ensinando o oposto. Na singeleza de uma criança, na fraternidade do compreender que somos todos irmãos, na humildade do servir, está o segredo para viver o Reino. O de hoje e o que há de vir. Que, em nossa travessia, compreendamos o verdadeiro valor da fraternidade, da generosidade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/02/2015

 

Um carnaval que “não” passou em minha vida

Há uma canção de carnaval, de Paulinho da Viola, em que, ao declarar seu amor pela Portela, fala de sua mania de amar e de um rio que passou em sua vida. A primeira estrofe é uma homenagem ao coração que tem mania de amor, de amar. 

“Se um dia

Meu coração for consultado

Para saber se andou errado

Será difícil negar

Meu coração

Tem mania de amor

Amor não é fácil de achar

A marca dos meus desenganos

Ficou, ficou

Só um amor pode apagar”

Prossegue a canção, fazendo uma homenagem à sua escola do coração, aos sentimentos despertos ao ver a agremiação entrando na avenida. Carnaval é a celebração da alegria, as tristezas precisam respeitar esses dias. Nos tamborins, na marcação da bateria, no samba-canção, nos passistas que aguardam esse momento para desfilar, nos olhares atentos, ávidos de surpresas. Como virá a minha escola este ano? Qual será sua história, capaz de afogar minhas mágoas em um ano que poderá não ter sido tão bom? Não. Não se trata de ingenuidades, de fuga da realidade. Trata-se de emoção. E é isso que nos move.

“Porém! Ai, porém!

Há um caso diferente

Que marcou num breve tempo

Meu coração para sempre

Era dia de Carnaval

Carregava uma tristeza

Não pensava em novo amor

Quando alguém

Que não me lembro anunciou

Portela, Portela

O samba trazendo alvorada

Meu coração conquistou…

Ah! Minha Portela!

Quando vi você passar

Senti meu coração apressado

Todo o meu corpo tomado

Minha alegria voltar

Não posso definir

Aquele azul

Não era do céu

Nem era do mar

Foi um rio

Que passou em minha vida

E meu coração se deixou levar!”

Os carnavais trazem manifestações de arte e de música em diferentes estilos por este gigante país. Ritmos, poses, passos, cada estado, cada região, cada bairro, em alguns casos, têm o seu. Das escolas de samba aos trios elétricos, das marchinhas às batidas com quase nenhuma letra, do romantismo à curtição breve. É assim o carnaval.

Há exageros e eles, geralmente, estragam a festa. Bebidas em excesso, euforias incontidas de foliões deseducados que invadem o direito do outro, tristes cenas que extrapolam o sentido da festa. Acidentes de carro em decorrência do álcool. Brigas por ciúme. Agressões desnecessárias – aliás, agressões são sempre desnecessárias. Tirando esses desajeitamentos, o jeito é brincar o carnaval. Mesmo que, em casa, ouvindo algumas músicas com a família ou acompanhado por lembranças de algum tempo. Cada um escolhe a sua folia.

Tenho muitas lembranças de carnaval. Algumas da minha infância em Cachoeira Paulista, cidade pequena do interior de São Paulo. Cidade grande de histórias que compuseram o enredo da minha vida. Minha mãe tinha uma amiga que faleceu no último ano. Mina. Ela gostava de carnaval. E gostava de gostar. Ela nos surpreendia, a mim e aos meus primos, crianças que se aninhavam para ouvir suas histórias e ver seus disfarces. Vestia-se de Charles Chaplin, o artista que trouxe tanta alegria na sua profunda tristeza. Que disse o não dito com gestos e com arte. Mina vestia-se assim. E se pintava, maquiando-se de alegria. E ficava nas esquinas da pequena cidade assustando com delicadeza os passantes. E nós ríamos. E corríamos atrás dela. E brincávamos de chamar as pessoas para ver o desfile de imitações que ela fazia. Dias de carnaval. Vidas carnavalizando-se. Fui crescendo e participando dos blocos da minha cidade. Depois, de algumas escolas de samba do Rio e de São Paulo. Outros mundos. Dimensões diferentes. Preparação de um ano inteiro para contar uma história em alguns minutos na mágica avenida. A vida de uma comunidade desfilando. Homenageados emocionados. Enredos que marcam. Fantasias de dias que comovem turistas de todas as partes do mundo. O carnaval é uma parte do Brasil. Já estive nos carnavais da Bahia e do Recife. Os blocos que não terminam. A dança que mistura tradição com o tempero do novo, que esbanja nossa criatividade. Mas os carnavais da minha infância nunca saíram de mim. Não sabia, na época, quem era Charles Chaplin, o homem que nos ensinou que “a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”, que nos falou de bondade e de ternura como uma necessidade, “Pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá.”

Não sei se Mina conhecia os seus pensamentos. Talvez, não. Dedicava-se ela a cuidar dos pais, era essa sua profissão. E dos amigos para os quais não economizava em canções de prontidão. Porque é de presença que a amizade se alimenta. Este ano, vou passar escrevendo. Irei apenas um dia ao sambódromo de São Paulo. Nos outros, vou aproveitar para colocar meus textos em dia. E, no escrever, as lembranças de tantos carnavais. De Mina, a que se foi, em 2014, e – quem sabe – lá no Céu esteja dançando como Chaplin, orando como uma santa, cuidando como uma amiga que nunca passou. Amores que não duram apenas a folia do carnaval, mas que permanecem no fluxo de nossa história. Viver com gosto de futuro nos alimenta de amanhãs, mas relembrar o passado acalenta as nossas mais nobres emoções. Saudade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/02/2015

 

São Paulo do amanhã

Há diversas definições para o ato de educar. Gosto da que reverencia o professor como o que atua na garantia do direito ao futuro, da construção dos amanhãs. Tenho visitado as escolas de São Paulo e presenciado a ação digna de mulheres e homens que cuidam de nossas crianças. Tenho ouvido sugestões de diretores, professores, funcionários, pais e alunos sobre o que fazer para que nossas escolas sejam melhores. São eles os que têm as melhores observações, porque vivem o dia a dia da sala de aula. Sabem que há muito a ser celebrado e que há muito a ser conquistado. 

A experiência do ouvir é enriquecedora. Fico atento aos detalhes, porque nos meus dois ofícios, de professor e de escritor, alimento-me desses instantes. E fico feliz quando vejo crianças sugerindo, opinando, exercendo a cidadania, enfim, e seus professores orgulhosos disso. Ouvi de um aluno que, na alimentação escolar, é melhor quando eles se servem, porque podem colocar a quantidade de comida que querem e, assim, não há sobras nem desperdícios. Uma menina acrescentou que essa era, também, uma forma de aprender a escolher umas coisas e deixar outras para trás. A professora abriu um sorriso e não se conteve: aplaudiu o texto correto dessa pequena cidadã. Cotidiano de mestres e aprendizes que, nessa cidade imensa, preparam a São Paulo do amanhã. Deixar de cuidar dessas crianças é negar a elas o direito de serem protagonistas de suas histórias e de terem a autonomia das ações acertadas, do futuro planejado. 

Ser professor é viver essas experiências, professando a certeza de que fazemos a diferença nos degraus cotidianos do conhecimento e nos encontros com vidas em construção. E construímo-nos porque aprendemos todos os dias. É isso que nos garante o sabor do saber, a alegria de ver que escolhemos a profissão certa e que, a ela, dedicamos nossa vida. Somos protagonistas dos tempos que virão, porque cuidamos do hoje. É a esperança o alimento que escolhemos. Talvez porque, um dia, um professor também nos aplaudiu, reconhecendo os talentos que nasciam de nossas singelas conquistas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/02/2015