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Alegria sobre três patas

Não sei bem a raça do cachorro que vi passeando com sua dona. Não sei se tem pedigree. Não sei nada da vida de ambos – a mulher e o cachorro.

Eu estava correndo, quando vi a alegria daquele pequeno cachorro com três patas. Ele saltitava chamando sua dona para continuar a caminhada. Latia. Reclamava, talvez. Tinha pressa de viver. Tinha vontade de sentir outros cheiros, de encontrar outros companheiros que, por aquela via, também passeavam.

O dia estava bonito. Os dias são bonitos quando estamos bem. Pessoas corriam. Outras caminhavam. Algumas conversavam. Outras ouviam alguma canção. Canções nos remetem a tempos e a pessoas. Histórias que, algum dia, vivemos ou gostaríamos de tê-las vivido. Os pensamentos também correm.

Continuei observando o cachorro, enquanto diminuía o meu ritmo. Encontrou um outro, um pouco maior. Era fêmea. Ele, macho. Menores possibilidades de disputas, de brigas. Cheiraram-se. Ameaçaram pular um no outro. Brincaram e se despediram, forçosamente, já que os seus donos continuavam a caminhar. Entre os cachorros, nenhum comentário sobre a ausência de uma das patas. A cadela pareceu nem ter reparado. Depois, ainda vi o encontro entre ele e um filhote. Risco menor ainda de alguma contenda. Os cachorros maiores respeitam os filhotes. Há uma lei que não precisou ser escrita e a que todos eles obedecem. Não podem brigar. Podem e devem brincar. Rolaram-se no chão. Abraçaram-se à sua maneira. Lambidas e partida. E nada de perguntas sobre a ausência da pata.
A dona comprou uma água de coco. Dividiu com o seu cachorro que não cabia em si de tanta gratidão. Olhavam-se com cumplicidade. Sabiam quanto eram importantes um ao outro.

O que vi termina aí.

O que imaginei foi além.

O cachorro sofreu um acidente? Teve alguma doença? Teve a pata amputada? Nasceu sem uma pata? O que importa? Alguém resolveu cuidar do bichinho. Dar a ele o direito de viver com as patas de que ele dispunha. Passear com ele. Permitir que ele pudesse fazer companhia. Brincar de viver. De viver sem os pesos e sem as responsabilidades das comparações. Quem tem cachorro sabe do que estou falando. É bom chegar em casa e ser recebido com festa. É bom sentir-se importante quando, por exemplo, arrumamos a mala e eles nos olham com olhares que podem significar – “De novo? vai viajar novamente? E eu?”.

Não se importam se erramos ou acertamos. Se nossos “pés de galinha” já chegaram para ficar, se engordamos um pouco ou se emagrecemos, se o que esperávamos não vai chegar. Não importa se o dia está mais nublado ou se há sol em abundância. Percebem eles nossas tristezas. Certamente. Se, por um lado, eles não se preocupam com as aparências, preocupam-se com os nossos sentimentos. Uma pata a mais ou a menos não merece tanta observação. Uma lágrima que cai merece uma brincadeira surpreendente, um deitar-se pedinte. As carícias que dispensamos a eles nos abastecem de companheirismos.

Alguns criticam que há pessoas que cuidam melhor dos cachorros que dos humanos. Eu discordo. Cada um tem o seu espaço. E, se somos capazes de desenvolver nossa sensibilidade com os animais, faremos o mesmo com maior facilidade com os humanos. O inverso também é verdadeiro. Quem agride um tem maior chance de agredir o outro.

Terminei a corrida. Fiquei com a imagem daquele cãozinho. E de sua alegria. E dos outros que o encontraram e o festejaram do jeito que ele é. E da sua dona. A mulher que com ele dividiu sua água. Ela tinha os pés e as mãos. Mas, certamente, como todos nós, também tinha suas ausências.

Era definitivamente um dia bonito.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 30/10/2016

O silêncio e as eleições

Muitas cidades no Brasil voltam às urnas no domingo. Como no primeiro turno, há pouca movimentação. E mais uma vez as abstenções, os votos nulos e brancos podem ser os vitoriosos. O que leva alguém a não votar ou a anular o voto ou a votar em branco? Um protesto? Um silencioso protesto? As cidades assistiram a debates entre os candidatos. Acusações têm sido mais fortes do que propostas. O eleitor olha, não se sente representado e fica em silêncio. Qual a razão dessa apatia? O excesso de partidos, a falta de debates democráticos entre eles, a ausência de causas, de bandeiras, de sonhos?

O que é a política, afinal? A palavra vem de “polis”, cidade. Do cuidar da cidade, do melhorar a cidade, do fazer com que a cidade seja cada vez mais do cidadão. De todos os cidadãos. O que me leva a votar neste candidato ou naquele ou a não votar? Terá a mídia alguma responsabilidade nessa apatia? Dificilmente boas práticas das gestões públicas são divulgadas. Práticas que, independentemente de quem as executa, poderiam ser replicadas em outros cantos. Não que não se deva criticar as ações dos que ingressam na área pública. Mas e o outro lado? E os que trabalham com a consciência de que ocupam cargos para melhorar as cidades e os cidadãos? Criminalizar a todos, diminuir a todos, contribui para quê? Serão todos os políticos frutos de uma mesma árvore de oportunismos e desonestidades? A generalização é um caminho para a injustiça. E para o silêncio. Há muitos com muitos talentos que contemplam o cenário e decidem: não quero fazer parte desse espetáculo. Não quero colocar em risco a minha vida, a minha reputação por algum fabricador de dossiês. E há outros que tendo participado decidem sair. Querem a liberdade de caminhar por outros caminhos. De conviver menos com as injustiças e as hipocrisias. E a política perde com isso.

Há o bom silêncio, o que leva à tomada consciente de decisão. Depois, é preciso agir. Ou isso ou a política será ainda pior amanhã.

Um doce para digerir

Era final de um almoço e ela pediu um doce. Disse, justificando: “Doce é bom. Ajuda na digestão”. Eu discordei dando algum espaço para alguma explicação. “Doce ajuda na digestão? Imagine! Pelo contrário. Doce acumula gordura. Doce tem calorias. Doce engorda. Bem, a não ser que tenham descoberto alguma nova teoria. Descobriram?”. Perguntei e um filme passou pela minha cabeça de tantas teorias surgidas e desaparecidas que criaram mitos na alimentação. O ovo, por exemplo, já foi vilão antes de ser o queridinho dos que querem um corpo escultural. A manteiga e a margarina. As misturas proibidas e depois liberadas de alguns alimentos. Ah, lembrei até do leite com manga. Alguns se contorciam de medo das reações quando viam um desavisado tomar suco de leite com manga. E os regimes inusitados. O da Lua. O do limão.

“Teoria?” – ela perguntou, interrompendo minha viagem, mas também viajando. Olhando ao longe. Não era, na verdade, uma pergunta de alguém que buscava uma resposta. Era uma tentativa de revelação. “Queria entender alguma teoria que me explicasse as escolhas erradas que eu fiz na vida”. E foi assim que, antes do doce, ela revelou o seu amargor.

O marido não tinha escrúpulos em humilhá-la. O tempo cobrou o seu preço. Ela já não era a menina que o conhecera em um jogo de tênis. Não sei sua idade. Ela não revela e não acho necessário perguntar. Pois bem, entre pausas e soluços, ela disse do medo da solidão, do medo de buscar outra vida, sem as humilhações, do medo, inclusive, de não saber o que fazer sem elas. “Os meus seios não são os mesmos de quando nos conhecemos”.

Contou-me dos 3 filhos. Falou que agora cada um vivia as suas escolhas. Estavam apenas os dois em casa. Ela e o marido. Ela e o marido e os monstros das comparações. Diz o marido que não tem desejo por ela. Que seu corpo perdeu todos os atrativos. Enquanto fala, arruma o cabelo e se olha no espelho que esta atrás da poltrona em que estou sentado. Eu digo que a acho uma mulher muito bonita. Ela não dá ouvidos e prossegue. “Ele faz piadas com os amigos sobre mim. Diz coisas que me depreciam. E eu rio. Rio de tristeza. Rio de medo. Rio de vergonha”.

“E os filhos?”, pergunto. Ela explica que não sabem, que não têm tempo para observar, que estão distantes. Ela fica distante. “Ele já me bateu. Ninguém sabe. Foram poucas vezes. Mas ele me bateu”.

Ficamos em silêncio.

Entro no assunto da atitude covarde e criminosa. Das delegacias em que mulheres podem contar o seu martírio. Ela me interrompe e diz que decidiu nada fazer porque não deveria ter sido feito e que ela tinha as suas razões. Olha, novamente, no espelho. Passa o dedo pelos olhos, buscando as rugas. Volta a mexer no cabelo. “Há muito tempo que sou infeliz. Não acredito, aliás, em felicidade”. Tento discordar, mas ela me lembra que sou jovem demais para compreender. “Eu já fui apaixonada por ele. Já senti muito prazer. Já sonhei com uma velhice terna”. Mais uma vez no espelho. Agora estica um pouco a pele. “Não tem volta. Se tivesse volta, eu teria sido mais cuidadosa. Eu deveria ter impedido que ele começasse a me destratar. Agora é tarde”.

Eu fico um pouco mais enfático para não ser interrompido como nas outras tentativas e insisto que nunca é tarde para escolher outro caminho, para deixar quem merece ser deixado, para dizer a si mesmo que a vida é curta para ser desperdiçada. Ela ri da minha ênfase e diz que gostaria de ser novamente jovem. Eu digo que as pessoas vivem mais.

“Ontem, ele me disse, com aspereza, que eu o incomodava com minhas histórias intermináveis”.

Ela me diz que realmente tinha lindos seios. E eu digo que os seus seios agora têm muito mais histórias dos que os seios de antigamente. Ela os toca com algum carinho. E ri. Eu digo que espero ainda ter o prazer de comemorar sua alforria.

“Alforria?”

Chegou o doce. Ela olhou aquele doce com tanto prazer, com tanta necessidade, que me arrependi de minhas teorias nutricionais.

“Como é bom um doce para digerir”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/10/2016

O ódio na rede

A rede informacional vem mudando nossas formas de relacionamento. As românticas cartas deram lugar aos e-mails que deram lugar às mensagens em facebook, twitter, instagram, entre outros. Os pagamentos feitos em agências bancárias deram lugar à agilidade de transferências online. As pesquisas nas velhas enciclopédias foram perdendo espaços para o google. E outros tantos caminhos poderiam ser visitados. Na medicina. Nos laboratórios e na fabricação de remédios ou carros. Nas planilhas de custos. Nos projetos. Nas escrituras de livros ou de quaisquer outras informações. Na comunicação com o outro – facetime, whatsapp, messenger – e na relação com o conhecimento.

Mas essas conquistas trazem problemas. E muitos. Há um deles que vem chamando a atenção de pesquisadores do comportamento humano. O ódio na rede. O ódio na internet. Sempre ouve atiradores de pedras. Alguns se revestindo de poder religioso, outros na clandestinidade de algum grupo radical, outros no criminalidade pura de um nada puro jeito de se dar bem na vida. As pedras na internet, ou o ódio, são facilmente observáveis. Em uma notícia em um site qualquer sobre qualquer assunto, geralmente há, nos comentários dos que o visitaram, mais ódio do que generosidade. Nas discordâncias ideológicas em redes sociais, há agressões inimagináveis. Muitas anônimas. Covardemente anônimas. O ódio ao que ou a quem nem se conhece. Bauman, o sociólogo polônes, chama a isso de “ativismo de sofá”, pessoas fechadas em suas zonas de conforto que usam a rede não para unir nem para ampliar seus horizontes, mas para buscar ecos de suas vozes, reflexos de seus pensamentos: “As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha”.

Tempos perdidos de quem passa tempos a expelir o seu pior. Há tratamento? Sem querer respostas apressadas, uma mera sugestão. Saia do mundo virtual, entre no mundo real e ajude alguém. A generosidade tem o poder de transformar humores e comportamentos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/10/2016

O professor e Drummond

Um amigo meu, Carmo, contou-me esta história. Carmo não é seu primeiro nome, nem o último. É o nome do meio. “No meio do caminho havia uma pedra”, explicava Drummond. No meio de tanta gente, havia um professor. Sempre há um professor. Este, o professor do Carmo, gostava de poemas, gostava de Drummond. Certa feita, explicava o professor, ele mandou alguns de seus rabiscos para o poeta maior. Enviou em folhas brancas preenchidas com sua letra. Nada de máquinas de escrever ou de computador. O poeta merecia ler os seus textos inéditos. Evidentemente, ele os copiou. Guardaria no caso de uma publicação. Era um professor do interior. E, do seu interior, nasciam letras e palavras e frases. Pois bem, revela o meu amigo que o dito professor gostava de contar sua história com Drummond. Explicava ele com detalhes que demorou muito a se decidir se enviava ou não a tal carta com os tais poemas. Conseguiu o endereço do poeta. Investigou para saber se ele mesmo costumava ler as cartas que recebia. Quis saber de alguém se alguém já havia recebido alguma resposta. As informações eram vagas, mas ele decidiu prosseguir. E mandou. Lá se foram os dias de comedimento e a inauguração da ousadia. O maior poeta vivo haveria de ler, enfim, os seus poemas. Ficaria ele surpreso? Ficou relendo o que Carlos Drummond escrevera quando pela primeira vez leu o texto de Cora Coralina:

“Cora Coralina.

Não tenho o seu endereço, lanço estas palavras ao vento, na esperança de que ele as deposite em suas mãos. Admiro e amo você como alguém que vive em estado de graça com a poesia. Seu livro é um encanto, seu verso é água corrente, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais. Ah, você me dá saudades de Minas, tão irmã do teu Goiás! Dá alegria na gente saber que existe bem no coração do Brasil um ser chamado Cora Coralina. Todo o carinho, toda a admiração do seu. Carlos Drummond de Andrade”

O professor contou que a resposta do poeta veio. E veio delicada. Não quis revelar os entremeios do que disse. Apenas falou do início e do final. O início começava com “Estimado professor” e, a seguir, elogios à nobre profissão de quem semeia amanhãs. E, ao final, encerrava, antes da assinatura, com um carinhoso “abraços saudosos”. “Abraços saudosos”, repetia o professor.Insistia que era muita honra essa distinção. “Abraças saudosos” significaria, escreva-me mais, continue com sua obra poética, não me esqueça. O professor dizia e se emocionava.

Os alunos nem sempre são inocentes. O professor poeta já não gozava de boa memória. E não se sabe o tempo que a tal missiva de Drummond o havia emocionado. Quando o professor entrava na sala de aula, algum aluno o interpelava perguntando: “Professor, é verdade que o próprio Drummond lhe escreveu uma carta?”. O professor enchia-se de orgulho e com modéstia iniciava: “Eu não contei para vocês? Não conto para não me gabar, mas foi verdade, sim. E sabe como ele terminou a carta? Abraços saudosos, abraços saudosos” E lá iam detalhes e mais detalhes da dúvida em enviar, do envio e do recebimento da carta do poeta.

Quando os alunos inquiriam sobre novas cartas ou sobre a publicação dos poemas, o professor olhava ao longe, dava uma pausa, e prosseguia o ofício. Carmo não gostava do que os alunos faziam. Tinha vontade de dizer ao professor que ele contava a mesma história toda a aula. Mas vivia em dúvida. Era tanta felicidade daquele velho mestre em contar o seu dia de glória, ao abrir a tal carta, que, talvez, não tivesse ele o direito de endireitar as coisas. À esquerda daquele peito, um coração batia feliz, por um tempo que talvez tivesse existido. Algumas vezes, ele terminava a aula com um poema seu. Eram bons, revela Carmo. Outras, dizia algo de Cora Coralina ou do seu amigo Drummond. E se emocionava como só acontece a um poeta.

Cartas são objetos não tão comuns. Professores prosseguem com seus saberes e com suas ausências. São humanos, afinal.

Ontem, foi dia do professor. Histórias como estas preenchem cada canto deste país. Mulheres e homens se desnudam para cobrir de futuro os alunos. Aos meus irmão de ofício, o meu respeito, o meu carinho.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 16/10/2016

Sua Excelência, o Professor

O que leva alguém a abraçar a carreira de professor? O que leva uma pessoa a se decidir por um ofício que exige disposição cotidiana para ensinar, envolver, surpreender, confirmar que o futuro existe?

Hoje, é dia do professor.

Hoje e todo dia. Porque todo dia, no “chão da escola”, há uma troca de experiências que instiga os alunos a perceberem que podem mais. Há desafios de envolver as famílias para que estejam presentes, de trabalhar currículos para que sejam significativos, de compreender heterogeneidades. Os alunos são únicos. As turmas não se repetem. Portanto, a formação continuada do professor é fundamental para o seu ressignificar. Nós nos reinventamos para surpreender. Aos nossos alunos e a nós mesmos.

É preciso gostar do que se faz. E de fazer coletivamente. Evidentemente, não se deve ter a ingenuidade de achar que basta o amor pelo ofício. É preciso pensar no sistema, na carreira. A carreira, aliás, está longe de ser atrativa no aspecto financeiro.

No passado, quando poucos tinham acesso à escola pública, um professor ganhava como um juiz de direito. Hoje, vejam quanto ganha um juiz, um promotor de justiça e um professor. Por que tanta diferença? O piso do magistério foi uma conquista, mas está longe do ideal.

Além do salário, falemos de respeito. Vejam quantas reformas já foram propostas em âmbito federal, estadual e municipal. Em muitas delas, esqueceu-se de “sua excelência, o professor”. Como podemos reformar o ensino sem envolver quem está nas escolas todos os dias? De forma vertical, de cima para baixo, nunca dará certo.

Costumamos usar exemplos internacionais mesmo sem conhecê-los com profundidade. Mas o fato é que Finlândia ou Espanha, Coréia ou Japão, Hong Kong ou Israel têm em comum o profundo respeito ao professor. E à sua autonomia. É o seu agir que desperta a criatividade e o protagonismo dos alunos.

O melhor presente para os professores no dia do professor é jamais deixá-lo de lado. A bandeira da educação tem que tremular acima de bandeiras ideológicas ou partidárias. As mudanças educacionais não podem servir a governos, mas ao Estado Brasileiro. A educação é o caminho para reduzir as desigualdades e permitir que filhos de ricos ou pobres, nascidos no Sul ou no Nordeste, imigrantes ou indígenas, brancos ou negros, tenham direito a revelar seus talentos. Os maestros sabem disso. Só que, às vezes, não são ouvidos.

O que leva, então, alguém a abraçar a carreira de professor? Talvez a teimosia, ou resistência, ou um sonho coletivo de continuar professando a crença na humanidade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Imparcial – Araraquara) | Data: 15/10/2016

Aparecida, a fé que comove

Desde criança, frequento a Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Um Santuário da Fé. Vou até lá para rezar, para visitar a casa da mãe, para dizer os meus agradecimentos e pedidos. Aparecida é bem próxima a Cachoeira Paulista, a cidade em que nasci. Fica no vale do Paraíba. Abençoado vale que repousa entre as serras do mar e da mantiqueira. Tenho saudade daquele chão. E de tantas pessoas boas que ali alimentaram minha fé.

Estou longe, mas perto. Nas lembranças e na presença, quando posso. Vou em família, muitas vezes. Minha mãe se emociona sempre. Meu pai que gostava tanto de ir, hoje, já não está mais por aqui. A Igreja é acolhedora. Pessoas chegam por todos os lados. Ônibus lotados, carros e até mesmo a pé. Peregrinos que caminham dias e dias por um milagre. Outros em agradecimento à graça alcançada. Chegam em busca de conforto, de abrigo, de colo sagrado. E é bonito de se ver os fiéis desfilando suas dores e seus sonhos.Fico observando a simplicidade das pessoas. Os olhos suplicantes. Os joelhos no chão. As canções que saem da alma.Uma mãe pedindo pela cura do filho. Um filho pedindo pela cura da mãe. Uma mulher dizendo que vai se submeter a uma cirurgia e lembrando que tem filhos para ver crescer. Um pai prometendo uma vela gigante se o filho for curado do câncer.

Crianças ali são batizadas. Casamentos são celebrados. É o Brasil e o mundo que para e olha para a Padroeira. A imagem encontrada por pescadores. A santa que compreende os pecadores. A mãe de Jesus com o título de Aparecida. É uma só. A de Nazaré, a Piedade, a de Fátima, a de Lourdes, a da Glória e tantas outras. A mesma. Que aparece e diz: “Estou aqui para te ajudar”. Só a simplicidade nos empresta olhos de ver. Olhos de ver. Vez ou outra, revisito esses espaços e esses tempos. Servem de alimento. Para prosseguir. Para compreender que é no ordinário, não no extraordinário, da vida que se é feliz. Aparecida, a fé que comove.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/10/2016

Francisco pai, Francisco filho

Foi no dia 4 de outubro, dia de São Francisco, que estes dois me surpreenderam.

Antes da missa, houve um acolhimento. Um aspirante (um jovem que se prepara para ser sacerdote franciscano) percorria a Igreja entregando pequenas flores. A Igreja cantava “Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar nesta manhã, pois renasceu mais uma vez a criação nas mãos de Deus . Irmã, flor que mal se abriu, fala do amor que não tem fim, água irmã que nos refaz e sai do chão cantando assim…”. Abaixei-me para pegar a pequena flor que caiu do pequeno Francisco. Ele estava em uma cadeira de rodas. Sorria muito. Mexia-se como podia. Pouco. A doença roubara-lhe muitos movimentos. Mas a alegria que brotava dos seus olhos e o esforço para algo conseguir cantarolar deixava o pai orgulhoso. “É meu filho. Meu lindo filho”. “Estou vendo”. “Chama-se Francisco”. “É um lindo nome”. “Também me chamo Francisco. Meus santos pais souberam escolher”.

Apenas sorri. O pai tinha as mãos grossas de um trabalhador acostumado às rudezas. Um chapéu ficava sobre o banco. Um pano grande também estava ali. Depois, vi que ele servia para cobrir a cabeça do filho para percorrem as ruas até a casa. “Moramos aqui perto. Francisco gosta muito de missa”, justificou. O filho me olhava. Olhos lindos. Sons difíceis de serem ditos. Cabeça de um lado a outro, com esforço. Eu sorria apenas. A missa estava começando. Olhava para o altar e para os Franciscos. A flor caiu novamente. Eu abaixei para pegar. O pai, também. Ele me autorizou a fazer o gesto e eu coloquei novamente na cadeira do seu filho, próxima de suas mãos quase imóveis. Ele olhou para mim. Um olhar de gratidão. Olhamo-nos mais um pouco. Quis dizer al go. Ele, também. Decidimos que não era necessário. Era bom estarmos ali. Durante as músicas, dos seus olhos escorriam lágrimas. Olhos do filho. Olhos do pai.

“Somos muito emotivos”. Eu acenei com a cabeça concordando: “Que bonito!”. “Bonito é ser pai. É ser pai do Francisco”.

No ofertório, ele tirou algumas moedas e depositou num cesto que passava. Olhou para mim e explicou: “Gostaria de ter mais para ajudar mais, mas é o que eu posso”. O pai falava e o filho olhava. Alguns sons apenas e o sorriso.

A missa terminou. Algumas pessoas vieram conversar comigo. Os dois continuaram ali. Pareciam não ter pressa. O tempo da oração era sagrado. Saímos juntos. Contou-me o pai que o filho nascera vivo graças a um milagre de São Francisco. Com algumas doenças, mas vivo. Com algumas limitações, mas vivo. A mãe já morreu. Há uma outra irmã, mais velha, que vive com eles e os ajuda muito. O pai trabalha de dia. Ela trabalha à noite. É enfermeira. Portanto, sempre há alguém em casa para cuidar de Francisco. Ele disse que experimenta, todos os dias, um prazer único: “Não há preço que pague o sorriso de Francisco, quando abro a porta e entro em casa”.

Fiquei imaginando a cena. O cotidiano. O exercício do cuidar. O padre, na missa, havia falado sobre o legado de Francisco de Assis. O santo que nos inspira a viver o amor. “Onde há amor e sabedoria, não há medo nem ignorância”. Enquanto o padre falava, o Francisco pai, sentado, levava o chapéu até o seu peito. E, vez ou outra, passava a mão na cabeça do seu filho, Francisco. O filho sorria, demonstrando gratidão a Deus por ter um pai assim, santo, imaginava eu.

Na saída da Igreja, despedimo-nos. Beijei os dois. Senti tanta paz! Na missa e naquele encontro. Enquanto via aquele homem com o chapéu levando o filho pelas calçadas, fiquei pensando nas minhas lamúrias. Reclamações desnecessárias. A imagem da porta se abrindo e do menino sorrindo sem poder dizer o que gostaria – mas não era necessário, o pai sabia. O sorriso daqueles dois foi um presente do Santo. No seu dia. Para prosseguir. A pequena flor, que algumas vezes caiu, estava nas mãos do pai. Haverá de encontrar algum espaço para deixá-la perfumando o paraíso daqueles dois. Ou melhor, dos três. A irmã chama-se Teresinha. Dia primeiro de outubro, foi dia dela. A santa da delicadeza.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 09/10/2016

A reforma do ensino médio

É senso comum que é preciso melhorar a educação no Brasil. Aliás, precisará sempre. Os indicadores de quantidade e qualidade mostram que demos alguns saltos importantes. Mas falta muito. E esse muito tem que ser feito de forma responsável. Fórmulas mágicas não existem. Acompanhei com muita atenção a proposta de reforma do ensino médio. Trago algumas reflexões para ajudar o debate. A escolha de reformar o ensino médio por meio de Medida Provisória parece-me não ser o melhor caminho. É preciso envolver os sujeitos do processo educativo. Esqueceram a “Sua Excelência, o Professor”. São os professores que, todos os dias, no chão da escola, realizam o ofício do ensinar e do aprender, da troca, da cumplicidade. São eles, portanto, que têm condições de sugerir e construir a melhor reforma. Os jovens também têm ideias e ideais. E, também, seus pais. E, também, a comunidade científica que se debruça sobre o tema.

Há outros aspectos. Artes e atividades físicas compõem currículos dos principais países em que a educação vem atingindo patamares de qualidade. Alunos não são máquinas em que programamos saberes e pronto. O saber é construído no dia a dia. O diálogo com outras áreas é essencial. Aprende-se português, por exemplo, também em filosofia, história, sociologia.

Compreendo a necessidade de minimizar a compartimentação das matérias. É preciso instigar os alunos para que pensem e resolvam problemas, com autonomia. E que encontrem a necessidade e o prazer de pesquisarem sempre, de aprenderem sempre. Não esqueçamos, ainda, dos quase 25% dos alunos que estudam apenas à noite. Defendo a proposta de escola em tempo integral desde a educação infantil até o ensino médio. Consecutivamente. Inverter essa sequência é desconhecer os enormes fossos de desigualdade no nosso país. Que se tenha a maturidade de compreender que nenhuma política educacional pode ser imposta de cima para baixo, mas deve ser construída coletivamente.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/10/2016

Medo de Avião

Seu nome era Néia. Só o publico porque ela me autorizou. Escrevi este artigo ainda no voo. E li para ela. Sorriu encabulada. Parece que gostou. Sentou-se ao meu lado. Eu tinha um livro na mão. Delicadamente, ela puxou conversa. Delicadamente, pediu desculpas no caso de estar me incomodando. Fechei o livro. Pessoas são mais importantes que livros, embora os livros nos ajudem a entender as pessoas.

“Tenho muito medo de avião” – disse-me com voz embargada, olhar suplicante, cabeça meneada. Eu disse que era comum as pessoas terem medo de avião, que eu também tinha um pouco, mas que havia me acostumado. E racionalizei dizendo qualquer coisa como que o avião era o meio de transporte mais seguro. Só perdia para o elevador. Ela fez uma pausa e diminuindo a tonalidade da voz, disse em confidência: “Tenho muito medo de elevador”. “É mesmo?”, eu disse e logo tentei amenizar meu espanto: “Sabe que meu pai tinha medo de escadas rolantes?!”. Ela respondeu: “Eu também não gosto. Mas prefiro escadas rolantes a elevador. Em elevador, eu não entro”.

O avião começava a desfilar pela pista. Ela foi ficando inquieta com a movimentação. Pediu-me autorização para pegar na minha mão. Eu consenti. Fechou os olhos. Prendeu a respiração. Fiquei em dúvida se puxava alguma conversa ou se a deixava ali, em seu silêncio, em sua oração, talvez, até que o avião atingisse altura. Ela mesma quebrou a pausa: “Já rezei”. “Que ótimo! Então não vai acontecer nada”. “Espero que não. É tanta gente pedindo coisa, né?” E soltou um sorriso faceiro. “Mas Deus é Deus. Ele consegue ouvir todo mundo”. “Eu sei”.

Contou-me que era seu primeiro voo. Que a filha se mudara do interior de São Paulo para Recife. Que era um presente da filha que ela fosse visitá-la. Filha única. Não havia como não atender, embora tivesse postergado algumas vezes. Falou-me de doenças. “Sofro dos nervos, sabe? Tem dia que choro o dia inteiro. Mas cada um tem a sua cruz”. Falou-me de tecnologias. Aprendeu a usar alguns aplicativos que a aproximam da filha. “Imagina, ela lá em Recife e eu na minha casa, uma olhando para outra. Parece milagre, né?”. Contou, ainda, que não divide as tristezas com a filha. Melhor dividi-las com Deus. Deus não se incomoda em ser incomodado. Até gosta. Foi me explicando esses detalhes. Lembrei-me da minha mãe que viajou uma vez ou outra de avião e, depois, decidiu não ir mais.

Passou o carrinho com comida. Ela perguntou baixinho. “Será que é muito caro? Estou com um pouco de fome”. Eu expliquei que era de graça. Ela estranhou. Eu disse que algumas companhias aéreas cobravam, mas que aquela servia de graça. Ela piscou para mim e disse que a filha era esperta ao ter escolhido aquela companhia. E começou a elogiar a filha. E chorou alguma lágrima quando falou que a criou sozinha. Que o marido partiu logo que a filha chegou. Voltou ao texto de que cada um tem sua cruz. Falou-me das vizinhas, das comadres, do padre, dos preços das comidas, das modernidades dos jovens, da falta de amor aos velhos. Explicou que a filha era diferente. Que era o seu orgulho. Que estudou o que ela não pôde estudar. Que era uma executiva importante. Disse isso e sorriu. “Eu nem sei direito o que isso significa”. Eu sorri também. Lembrei-me do meu pai que dizia às pessoas que eu fazia mestrado. E, quando queriam saber o que era, ele coçava a cabeça sem cabelos e soltava algo como “É uma coisa tão difícil e tão importante que pouca gente faz”.

O avião ia descer. Néia já estava tão senhora da situação que nem se incomodou. Pela janela, mostrei a ela o mar do Recife. Ela olhou para o mar, olhou para o céu e soltou “E tem gente que não acredita em Deus!”.

Saímos juntos do avião. Ela tinha um pouco de dificuldade em andar. Foi no seu passo. Eu estava sem pressa. Tinha, ainda, algumas horas para começar minha palestra. Tive curiosidade em conhecer a filha. Fiquei feliz com aquele encontro. Néia chorou, a filha a envolveu em um abraço bom. Convidou-me para comer alguma coisa. Agradeci. Já estava alimentado com aquela prosa. A simplicidade é um dos mais lindos valores que aquecem a natureza humana.

Fazia calor no Recife. Era a palestra e eu já teria que retornar. Nem seria possível um banho de mar. Fiquei com a frase de Néia depois do seu encantamento diante da paisagem: “E tem gente que não acredita em Deus!”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia e Diário de S. Paulo) | Data: 02/10/2016