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A idade do amar

11.07.2021

Gabriel Chalita

Ela mora em frente à minha casa. Falamos pouco. É Darcy o seu nome. O meu, também.
Não faz muito tempo, a surpreendi com um daqueles cigarros que se faz com as mãos. 
Ela, na janela. Eu, também.

Ao longe, observei o desleixo com a vida. O vestido com algum remendo. O lenço por sobre os cabelos mal colocado. A tristeza do mundo inteiro morando em um olhar.

Viúvo, também sou. Minha Adélia se foi dessa doença terrível que silenciou a humanidade. Ainda sofro a ausência do cheiro que me perfumava de alegria. Era descrente Adélia de que o vírus roubaria vidas. Era crente na fala errática dos que brincaram com a vida dos outros. Cuidou pouco de si mesma e se foi, tristemente, sem despedidas. Dizia ela que Deus ajeitaria para que nada de mal acontecesse, e eu dizia que Deus nos deu a inteligência para não cobrarmos Dele o que nós mesmos podemos fazer.

Minha Adélia levou um pedaço de mim. Éramos diferentes até nas escolhas políticas, éramos um na cumplicidade humana de amar sem exigências.  Quando doente ela ficou, preferi que fosse comigo. Desacreditei da vida, quando a vi sem vida. Choro ainda a não conversa, a não presença, o não abraço em anos de noite esquentando a mesma cama de amor. 

Darcy tem a beleza escondida nos seus mistérios. Conheci o Armando, seu marido. Homem de sussurros. Vi nada dos seus dizeres nem dos seus carinhos com a mulher. O cumprimento era com o olhar e, vez ou outra, um aceno discreto.

Fui ao enterro do falecido. E desacreditei de alguma dor maior em sua mulher. Parecia satisfeita com o desfecho. Quem sabe o que vive junto um casal? 

Darcy tem uma filha que mora fora. E que estudou com a minha filha que, também, não mora por aqui. Vive ela só. Eu, também.
Ainda tenho a idade do amar. Darcy mora no número 57. E eu no 66. A soma dá 12. Cismei que significa alguma coisa. 

Não poucas noites, acordei surpreendido com um sonho bom em que fazíamos juntos o cigarro de palha e que, depois, sorríamos como um convite. Na primeira noite, pedi desculpas para Adélia. Sei lá se os mortos entram nos sonhos da gente. Fazia uma semana que ela havia me deixado. Achei que, pelo menos, deveria esperar 12 dias para sonhar com outra mulher.

Se me perguntarem se tem Darcy atrativos que despertem uma paixão, respondo nada. Não sou das externalidades. Cultivo o que mora dentro. E, no silêncio de Darcy, há algo que barulha os meus sentimentos.

O dia em que ela estava com uma garrafa térmica de café servindo a si mesma em uma pequena xícara, fiquei observando a fumaça subindo livremente. O silêncio daquele ritual foi quebrado por um carro de som oferecendo pamonhas. 
Acenei para o vendedor e comprei duas.
Pedi que atravessasse a rua e entregasse uma a ela.  Ela pegou e negou qualquer sorriso. Não comeu na minha frente. Prosseguiu no café e no olhar misterioso. 

Há uma figueira esguia que sombreia minha janela e tenho a impressão de que é para os seus galhos que olha Darcy. Ou então, disfarça ela, de mim, os seus sentimentos.
Percebo que as plantas da entrada de sua casa estão mal cuidadas. Há algumas samambaias que, se podadas, ganhariam mais beleza. Gosto de como elas caem, despreocupadas, pintando de verde as paredes.

Sou bom no cuidar. Pensei em oferecer o que sei, mas voltei a ser o adolescente medroso de antes de Adélia aparecer e nada disse. Pensei em escrever a Darcy, explicando que, talvez, estejam Armando e Adélia conversando por lá. Achei desnecessário.  Estou esperando uma ocasião para atravessar a rua e entrar em seu silêncio. Quem sabe ela tenha uma tosse e eu corra, rapidamente, com um pote de mel?! Ou, então, eu corrija alguma goteira que, em dia de chuva mais forte, perturbe o seu teto?

Nossas idades pouco importam. Importam as carícias que temos condensadas em compartimentos possíveis de serem abertos. Sonho com um caminhar de mãos dadas até a praça que fica na rua de cima.
Sonho em desajeitar os passos para confundir os paralelepípedos que sustentam paradas as nossas vidas.

Gosto  do movimento, do sorvete e do beijo de amor. Dizia Adélia que era eu um romântico das antigas.  Dirá alguma coisa Darcy? Sei que tenho me aprumado melhor. Que voltei a comprar camisas novas e que me barbeio com finalidades maliciosas.  Quero encostar no rosto de Darcy a pureza de um amor na melhor idade.

E quem disse que não há beleza no entardecer?

E quem disse que os sorrisos, nos inícios, não podem ser para dentro?

Frio no jardim

04.07.2021

Gabriel Chalita

De onde estou, vejo o frio e vejo o silêncio.
O cansaço me tira outra visão. E o conforto de pouco me mexer me desmobiliza de ir em busca de aquecimentos.

O jardim aquietado pouco perfuma. As rosas, antes tão luminosas, se perdem na timidez dos desânimos. As árvores, podadas pelos enganos, já não se comunicam como antes.  É inverno no tempo e na alma dos irmãos meus.

Há pássaros que trazem esperanças, mas são logo espantados por gritos histéricos de vermes rastejantes. Quem deu a eles tamanho? Quem a coragem ofereceu para rasgarem os disfarces e as almas de tantos irmãos meus? São preconceitos que voltaram a ocupar o jardim. São pragas que disseminam desamor. São cadafalsos de tempos que anunciavam vir tão mais felizes.

Onde estávamos, ontem, que não limpamos antes? E por que foi que nos desmobilizamos?

Vejo o sol ao longe, mas minhas mãos desabituaram de pegar o seu brilho. Envelheci antes, certamente. Descri da chegada de algum calor. Fico aguardando que cantem por mim, enquanto vivo a mudez. Lembro de tantos que já se foram e que rasgaram as mãos, limpando a vida do que a vida ameaçava. Eram fortes pela ausência de descanso. Eram valentes pela causa que anunciavam. E a sonoridade das notas de suas vidas aqueciam todo o jardim.

De onde estou, pouca disposição tenho para me preocupar com as sementes. Erro meu. Engordo de distrações os dias que deveriam entregar, às minhas mãos, água, pá e vontade. Fecho os olhos e olho dentro de mim, procurando o que perdi. Grito para dentro, exigindo alguma reação.

Teria dado eu poder demais ao medo? Teria me convencido de que um lavrador sozinho não muda a terra? E quem disse que sozinho estaria, se me levantasse rumo à coragem? É isso que grito, de mim para mim, para que alguma lucidez espante o desânimo que me mantém vendo apenas frio.

O frio no jardim mata os desagasalhados e nada faço para agasalhar. O frio no jardim faz marchar os que pisoteiam a verdade. O frio no jardim estende os mastros da injustiça como bandeiras de um povo incauto e inculto.

Busco, nas gavetas em mim, as argamassas de tempos novos, de primaveras do conhecimento, de encontro das diferenças fazendo canção. É de cultura que falo. De cultuar e cultivar a terra, o jardim, a alma dos irmãos meus. Mesmo dos que desalmados ficaram pelo engano dos dias.

Os gritos confundem, as ameaças atormentam, e o silêncio protege os vermes que vão crescendo de tamanho e de coragem. Sei que é  inverno, mas isso nunca foi desculpa para acomodar a estação.

Ao longe, o barulho de um trem, como nos tempos em que eu saía e visitava um museu cheio das coragens dos meus antepassados. 
Estariam eles sentados na vida, enquanto vidas partem prematuramente?

Volto ao meu interior para me aquecer e ouço um pássaro que persiste cantando, mesmo em meio ao gritos dos vermes. Agora, outro pássaro. E mais um. E, então, eu me alimento dos necessários incômodos que, com o frio, haviam partido. Mais um pássaro resolve correr o risco do congelamento e canta. Canta ele, cantam eles, uma canção que me comove, que me move.

Amanhã, espero escrever de um outro lugar. Não do que vejo acomodado, mas do que desacomoda os tempos para deixar o jardim ser jardim.

Frio no jardim

04.07.2021

Gabriel Chalita

De onde estou, vejo o frio e vejo o silêncio.
O cansaço me tira outra visão. E o conforto de pouco me mexer me desmobiliza de ir em busca de aquecimentos.

O jardim aquietado pouco perfuma. As rosas, antes tão luminosas, se perdem na timidez dos desânimos. As árvores, podadas pelos enganos, já não se comunicam como antes.  É inverno no tempo e na alma dos irmãos meus.

Há pássaros que trazem esperanças, mas são logo espantados por gritos histéricos de vermes rastejantes. Quem deu a eles tamanho? Quem a coragem ofereceu para rasgarem os disfarces e as almas de tantos irmãos meus? São preconceitos que voltaram a ocupar o jardim. São pragas que disseminam desamor. São cadafalsos de tempos que anunciavam vir tão mais felizes.

Onde estávamos, ontem, que não limpamos antes? E por que foi que nos desmobilizamos?

Vejo o sol ao longe, mas minhas mãos desabituaram de pegar o seu brilho. Envelheci antes, certamente. Descri da chegada de algum calor. Fico aguardando que cantem por mim, enquanto vivo a mudez. Lembro de tantos que já se foram e que rasgaram as mãos, limpando a vida do que a vida ameaçava. Eram fortes pela ausência de descanso. Eram valentes pela causa que anunciavam. E a sonoridade das notas de suas vidas aqueciam todo o jardim.

De onde estou, pouca disposição tenho para me preocupar com as sementes. Erro meu. Engordo de distrações os dias que deveriam entregar, às minhas mãos, água, pá e vontade. Fecho os olhos e olho dentro de mim, procurando o que perdi. Grito para dentro, exigindo alguma reação.

Teria dado eu poder demais ao medo? Teria me convencido de que um lavrador sozinho não muda a terra? E quem disse que sozinho estaria, se me levantasse rumo à coragem? É isso que grito, de mim para mim, para que alguma lucidez espante o desânimo que me mantém vendo apenas frio.

O frio no jardim mata os desagasalhados e nada faço para agasalhar. O frio no jardim faz marchar os que pisoteiam a verdade. O frio no jardim estende os mastros da injustiça como bandeiras de um povo incauto e inculto.

Busco, nas gavetas em mim, as argamassas de tempos novos, de primaveras do conhecimento, de encontro das diferenças fazendo canção. É de cultura que falo. De cultuar e cultivar a terra, o jardim, a alma dos irmãos meus. Mesmo dos que desalmados ficaram pelo engano dos dias.

Os gritos confundem, as ameaças atormentam, e o silêncio protege os vermes que vão crescendo de tamanho e de coragem. Sei que é  inverno, mas isso nunca foi desculpa para acomodar a estação.

Ao longe, o barulho de um trem, como nos tempos em que eu saía e visitava um museu cheio das coragens dos meus antepassados. 
Estariam eles sentados na vida, enquanto vidas partem prematuramente?

Volto ao meu interior para me aquecer e ouço um pássaro que persiste cantando, mesmo em meio ao gritos dos vermes. Agora, outro pássaro. E mais um. E, então, eu me alimento dos necessários incômodos que, com o frio, haviam partido. Mais um pássaro resolve correr o risco do congelamento e canta. Canta ele, cantam eles, uma canção que me comove, que me move.

Amanhã, espero escrever de um outro lugar. Não do que vejo acomodado, mas do que desacomoda os tempos para deixar o jardim ser jardim.

Gostar de viver

Conheci Içami Tiba apresentado pelo seu filho André, meu aluno na PUC. Foi um almoço agradável. Falamos de temas recorrentes no complexo universo da educação. Tiba teve uma formação sólida. Era um cientista respeitado na universidade. Médico, formado pela USP, especializou-se em psiquiatria no Hospital das Clínicas-SP, onde foi professor.  Mas tinha  a preocupação de escrever e falar com simplicidade o que realmente importava nas relações humanas. Nesse almoço, falamos do texto que estudávamos em classe: “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles. Nicômaco era filho do filósofo e ganhou do pai um tratado sobre o “bem-viver”, “a ética”, “a felicidade”. Na obra, Aristóteles disserta sobre o conceito do “bem” e a importância da educação para que se encontre a aspiração da vida. A razão e a emoção compõem a tessitura que nos forma no dia a dia. O hábito nos molda. Aprendemos a tocar cítara tocando cítara. Aprendemos a ser honestos sendo honestos. Quantos séculos se passaram e continuamos desafiados a educar para o bem. A buscar o equilíbrio entre o “sim” e o “não”. Tiba insistia na tese de que é muito mais difícil, aos pais,  dizer “não” do que “sim”. Os filhos expressam os mais tenros olhares em busca do “sim”. Mas o “não” é essencial. Ouvir “não” é um aprendizado para toda a vida. Em muitos momentos, fará toda diferença dizermos “não”. “Não” ao que violenta a nós mesmos e ao outro. “Não” à mentira, mesmo a que nos leva a patamares superiores na escala do aplauso social. “Não” aos excessos, aos nossos rumores inquietos e a muitos de nossos desejos que podem nos roubar ou nos desviar das escolhas corretas rumo à nossa aspiração de vida.

A vida nos proporcionou muitos outros encontros em tantos eventos de educação por esse país afora. Tiba tinha um humor inteligente. Era um homem que, decididamente, gostava de viver. Disse-lhe isso, certa vez, e ele sorriu aprovando minha conclusão. “Como não gostar?” E prosseguiu: “Sou apaixonado por minha mulher, tenho um família linda, faço o que gosto e ainda ganho por isso”. Tem razão. Como não gostar de viver?

Tiba viveu ensinando vidas a gostarem da vida. Vidas inspiradoras de vidas. Dizia que não há um manual que organize todas as ações dos pais nas relações com os filhos, seu tema preferido. Há pistas. Há troca de experiências. Há caminhar juntos em um tema que não se esgota, em um mundo em que a mudança não se esgota. Cada tempo tem sua dificuldade e seu sabor. Os educadores, de hoje, debruçam-se sobre as novidades incorporadas ao cotidiano: novas formações familiares, novos mecanismos de acesso às informações, novas formas de relacionamento. Incorporar esse repertório nos ajuda a continuar a fremente aventura de curiosidade tão essencial a quem educa

Fui ao velório de Içami Tiba prestar minha homenagem. Abracei sua mulher que, entre lágrimas de saudade, confidenciou-me: “O que me conforta é saber que ele conseguiu o que sempre sonhou: contribuiu para melhorar o mundo”. Cada ser humano é um mundo de possibilidades. E nós, educadores, não podemos descansar enquanto não abrirmos as janelas do futuro a todos para que cada um desenvolva seu talento. O que propicia o protagonismo de alguns não é o fato de terem mais ou menos inteligência, tese ultrapassada; é o de terem mais ou menos possibilidades de desenvolvimento dessas inteligências. Afinal, se gostamos de viver, gostamos dos que vivem conosco e, como dizia o mestre, “quem ama educa”. Para o bem, para a felicidade. 

(Publicado na Folha de São Paulo, em 12/08/2015) 

 

 

 

Globalização da indiferença

Acompanhei o prefeito Fernando Haddad em um evento com o Papa Francisco, na última semana, no Vaticano. Estavam prefeitos e outras lideranças de várias partes do planeta.

O Papa convidou a todos para refletir sobre a vida nas cidades e as consequências da globalização da indiferença. O encontro tinha como base a Encíclica Laudato si que traduz a voz do Sumo Pontífice sobre a Casa que é de todos.

Nos pronunciamentos, o cenário de um mundo repleto de desafios. O prefeito de Roma falou do terrível comércio de órgãos para transplantes. A cada hora, um órgão é vendido no mundo. Pessoas pobres que retiram uma parte do corpo em troca de dinheiro. No comércio ilegal de órgãos, os rins representam 75%. A prefeita de Paris falou da responsabilidade que têm os países mais ricos em socializar a tecnologia com os mais pobres para que não destruamos ainda mais a natureza. Insistiu ela que os mais ricos gastaram, irresponsavelmente, os recursos naturais e, agora, querem exigir que os mais pobres não façam a mesma coisa. Para isso, é preciso ajudá-los. A recém-eleita prefeita de Madrid discorreu sobre as modernidades necessárias para que as vidas nas cidades sejam melhores. Juíza de carreira, ela insistiu nos exemplos que os governantes precisam dar para quem os elegeu. O prefeito de Medellín falou sobre o problema das cidades quando das expansões que segregam os mais pobres. Falou também sobre a importância da mobilidade e da requalificação dos espaços públicos. A prefeita de Gana ponderou sobre políticas afirmativas para as mulheres. Elas representam 65% da população e são vítimas de todas as formas de violência. O prefeito de São Paulo relacionou a melhoria das questões sociais com as questões ambientais, mostrando que é mais fácil lutar por aquilo que me atinge do que por aquilo que atinge aos outros. O meio ambiente é uma preocupação de todos. A fome não pode ser uma preocupação apenas daqueles que passam fome.

Alguns depoimentos de vítimas da escravidão moderna emocionaram os participantes do evento. Meninas escravizadas para o sexo ou para o trabalho forçado. Vidas dolorosas covardemente usadas por outras pessoas.

O papa Francisco, com uma simplicidade contagiante, falou dos seus sonhos de que os homens de boa vontade não permitam que os seus irmãos sofram. O tráfico de pessoas, a escravidão disfarçada dos nossos tempos, o uso irresponsável dos recursos que são de todos, e tudo isso agravado pela globalização da indiferença.

O que é a indiferença? É o lavar as mãos, como fez Pilatos, para os problemas dos outros. É o egoísmo, um dos piores vícios do ser humano. É o acomodar-se diante do incômodo do outro. No mundo em que vivo, crianças são destruídas e eu não me importo; mulheres são violentadas e eu não me importo. Irmãos nossos morrem em travessias clandestinas para fugir das guerras ou da miséria de seus países. Fogem em busca de liberdade, em busca de paz. Alguns morrem na travessia. Outros encontram cenários por vezes tão perversos quanto aqueles que deixaram. Dores de alma. E os indiferentes preferem nem ouvir falar sobre isso.

A globalização da indiferença aponta um pecado comum. Eu não quero cuidar do meu irmão. Porque me dá trabalho. Porque não tenho tempo. Porque tenho outras preocupações na vida. Então, o melhor é nem ficar sabendo.

Mas a indiferença não mora apenas naqueles que nada fazem por um irmão que arranca um órgão do próprio corpo para vender a alguém, por necessidade de ter dinheiro. A indiferença também está na falta de compaixão com o meu próximo mais próximo. Aquele que vive comigo, que é meu pai, minha mãe, meu irmão ou a pessoa que trabalha na minha casa. Aquele com quem eu convivo no dia a dia da minha profissão. Ou o amigo que a vida me deu e que, por alguma razão, eu vou ficando indiferente à sua dor. E a dor é uma senhora insistente que visita todos em muitos momentos da vida. E como é bom quando há por perto quem socialize a amizade, a generosidade, o cuidar. Eis a vacina contra a indiferença. Um remédio poderoso chamado Amor. Mesmo que nos sintamos impotentes diante de tantas agruras que destroem cidadãos dos nossos tempos, façamos nossa parte.

Descruzemos os braços e calcemos as sandálias para entrar no território sagrado do encontro. Encontremos quem de nós precisa – e há tantos – e, ao menos desses, cuidemos. É esse o primeiro passo para os outros que surgirão. O primeiro abraço em tantos que em nós poderão ver acesos os luminares da própria esperança.

Voltei de Roma com este desejo. Persistir na determinação de não permitir que nenhuma força do mal roube a crença de que posso tornar o mundo melhor. Todo mundo pode.

A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. (…) Nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se. (Laudato si – Papa Francisco)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/07/2015

Conviver

Nesta semana, lançamos o programa “Recreio nas férias”. São inúmeras atividades de lazer e aprendizagem para crianças e adolescentes. As escolas são espaços privilegiados de convivência. Estava em um CEU, quando ouvi uma mãe dizendo ao filho: “Nossa, como é difícil conviver com você, somos muito diferentes”. Olhei e vi o menino inquieto e a mãe emburrada. Conversei com os dois. Disse que ficava muito feliz em ver os pais frequentando as escolas. Que isso é fundamental, pois, por melhor que seja a escola, ela nunca substitui o espaço da família e não resolve as carências deixadas pelas ausências.

Fiquei pensando nas palavras ditas por aquela mãe a seu filho. É verdade. Conviver não é fácil. Talvez seja, exatamente, pelo fato de sermos diferentes. Todos nós. E as diferenças se alargam quando convivemos mais proximamente. Quantos amigos se estranham em viagens, quando se deparam com as surpresas do dia a dia. Quantas inquietações há nas cobranças de uma relação amorosa, se um não faz o que o outro sonhou. Da lembrança de datas especiais à desatenção na mudança de penteado. Projeto no outro o que gostaria que o outro acrescentasse em mim. Mas o outro não sou eu e, por isso, me frustro. Conviver exige compreensão das imperfeições e dos sonhos de cada um. É difícil; porém, belo. Porque exige arte. Paciência. E um pouco de sabedoria. Compreender o tempo e as escolhas individuais é uma grande aprendizagem. Mãe e filho são diferentes, mas o amor entre eles é como um cimento poderoso que resolve as saliências e edifica construções bonitas de histórias de vida. 

Conviver sem amar é um desperdício. É o amor que ressignifica as relações e cria espaços saudáveis nos ambientes tantos que temos de frequentar. Casa, escola, trabalho, espaços públicos, mundos virtuais. Conviver sem amar pode ser inóspito, desagradável e desrespeitoso. O amor amplia minha visão sobre o outro e sobre a beleza das diferenças. Convivamos, pois, com amor e respeito. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/07/2015

 

 


A verdade e as miopias

Miopia é uma anomalia da refração ocular que faz com que a visão à distância seja comprometida. Falta nitidez, clareza, certeza na visão de um objeto.

O poeta Carlos Drummond de Andrade fala sobre a miopia em um belo poema em que descreve as dificuldades de encontrar a verdade.

A porta da verdade estava aberta


mas só deixava passar


meia pessoa de cada vez.



Assim não era possível atingir toda a verdade,


porque a meia pessoa que entrava


só conseguia o perfil de meia verdade.


E sua segunda metade


voltava igualmente com meio perfil.


E os meios perfis não coincidiam.



Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.


Chegaram ao lugar luminoso 


onde a verdade esplendia os seus fogos.


Era dividida em duas metades


diferentes uma da outra.



Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.


Nenhuma das duas era perfeitamente bela.


E era preciso optar. Cada um optou


conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(Drummond)

A verdade é profundamente desafiadora. Conhecer a verdade requer muito cuidado, muito respeito, muita determinação. Vivemos tempos fugidios, fluidos, pouco reflexivos. Acreditamos na primeira história que nos contam. Aceitamos, passivamente, a primeira impressão que alguém foi capaz de criar em nós. Não conhecemos e não gostamos de fulano. Não lemos e desprezamos o livro ruim de certo autor. Nunca o vimos e descrevemos com detalhes o que nos incomoda no outro. Não é estranho? Não é pouco racional termos opinião sobre o que não tivemos tempo de conhecer?

A informação rápida nos rouba, desprevenidos, a chance de nos aprofundarmos. Ouvimos uma notícia e, imediatamente, nos prostramos como seus servos necessitados de propagá-la. E o fazemos sem o crivo da verdade. Mas o que é a verdade? Como entrar por sua porta, como queria o poeta, e conhecê-la? Como fazer uma opção sabendo que os caprichos, as ilusões e a miopia nos acompanham nessas escolhas?

Vejam a responsabilidade que tem um juiz ao julgar, tendo como objetivo maior a concretização da justiça. A responsabilidade que tem um jornalista quando ouve um relato e precisa decidir se há verdade ou não. Quando sabe que, de seu teclar, vidas poderão ser atingidas. Um marido que fica sabendo da vida paralela de sua mulher. Será verdade? Quantas histórias de amor acabaram por interferências mentirosas de terceiros?

No domingo passado, fui assistir a um filme, “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos”, que traz o tema da verdade com um enredo muito bem escrito. Fui com uma amiga jornalista. Saímos e fomos prosear sobre a verdade. Fiquei feliz ao ver sua preocupação com a vida dos outros, com os erros que a imprensa comete quando descuida da ética e da perseguição implacável pela verdade. Quando o que perseguem é alguém, por interesses menores, pouco honestos. Porque, também na imprensa, há ausência de ética. Disse-me ela que os jornalistas deveriam  lembrar os sonhos que os motivaram a ingressar em uma profissão tão essencial para a verdade. Para a defesa dos que não têm voz. Para ser a porta aberta àqueles que, sozinhos, não chegariam a lugar algum. Enquanto nos alimentávamos da conversa e de uma boa massa, o garçom que nos atendia explicou que, “para falar a verdade”, o abacaxi, sobremesa que havíamos escolhido e perguntado se estava doce, não estava tão saboroso.  Eu brinquei dizendo que era bom saber que ali morava a verdade. Ele sorriu e disse que não adiantaria mentir, pois logo descobriríamos. Como é bom quando se tem a esperança de que a verdade não tardará a chegar. Quantas dores seriam evitadas, quantas injustiças seriam minimizadas com a sua chegada.

Míopes somos nós quando acreditamos em algo que não conhecemos. Quando nos convencemos, utilizando os argumentos mais duvidosos, apenas para insistir em nossa teimosia. É melhor não dar opinião do que opinar irresponsavelmente. No filme “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos”, os que optaram por uma vida errática não se deram bem. Prefiro acreditar que na vida real pode ser assim. Que o mal não vence o bem, que a mentira não prevalece sobre a verdade, que os que respeitam o outro acabam compreendendo que assim é que se faz para se ter felicidade, paz.
Viva a verdade. Quanto à miopia dos olhos, há remédio: cirurgia, óculos, lentes de contato. Já a miopia da alma, essa dá mais trabalho de curar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/07/2015

Sobre a paciência

Uma das frases que ficaram na minha caixa de memórias dentre tantas outras ditas pelo meu saudoso pai é: “Tenha paciência, meu filho”. Meu pai era um homem paciente. Era um homem generoso. O tempo foi seu bom companheiro. Ele envelheceu com sabedoria. E fez de tudo para que nós pudéssemos compreender que a paciência nos ajudaria a navegar, com mais leveza, a nossa nau.

Vejo com perplexidade o tanto de irritação que assalta as pessoas. De coisas corriqueiras a ações covardes. Da buzina desnecessária ao desrespeito com a demora de alguém. Da tentativa de levar vantagem furando a fila ao ataque nada correto nas redes sociais. O outro me irrita por alguma razão. Será que a irritação vem do outro ou das ausências de pensamento, de reflexão, de enredo da minha própria vida? A incapacidade de conviver com pessoas diferentes me torna um ser violento. Assistimos, recentemente, a cenas bárbaras de pedras jogadas em seres humanos. Irmãos nossos. Até onde vai a nossa intolerância! A que ponto chegamos! Nos tempos de absolutismos, senhores podiam valer-se da vida de seus servos. O ódio religioso, social, político, entre outros, já martirizou mulheres e homens bons. Não tiveram a paciência sequer de tentar entender as razões das acusações. Lançaram ao fogo ou pregaram na cruz ou lançaram fora a cabeça ou apenas fizeram desaparecer os que pareciam representar algum perigo.

Falamos, hoje, em dignidade da pessoa humana, em evolução, em respeito ao outro, em convivência pacífica. E, na prática, reproduzimos erros do passado. Meu pai nunca perdeu a fé. Era simples e grande. Foi se fazendo aos poucos. Foi construindo sua trajetória em cima do solo da dor e do afeto. Bebo dessa água e partilho da sua fé. Apesar de, muitas vezes, ficar impressionado com os estranhamentos que nos fazem tão pouco humanos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/06/2015

 

Lembra de mim?

Ouço com alguma frequência esta pergunta: “Lembra de mim?”.  Às vezes, lembro. Às vezes, não, como todo mundo. Fico um pouco preocupado em responder que não lembro. Acho deselegante, afinal, a pessoa vem com tanta expectativa que não me parece correto desapontá-la. Mas também não gosto de mentir. Então, fico revirando minha caixa de memórias para tentar identificar o meu interlocutor. Exatamente como na divertida crônica de Luis Fernando Veríssimo: O grande Edgar. Só que, nessa história, a confusão era ainda maior, pois o interpelado não era quem o interpelador pensava que fosse.

De qualquer forma, quando sou surpreendido com a fatal pergunta, costumo sorrir, esperando  que a pessoa diga, naturalmente, de onde nos conhecemos. Algumas me salvam nessas embaraçosas situações, dizendo: “Lembra de mim? Fui seu aluno na PUC!”.  Ufa, fica mais fácil.

Dia desses, um homem me abordou e demorou a dizer de onde nos conhecíamos. Ele falou: “Professor, não tem como o senhor se lembrar de mim. Fui seu aluno no Colégio Friburgo, em Santo Amaro, há mais de 20 anos. Eu era um adolescente e nunca mais me esqueci de suas aulas”. Contou-me algumas histórias que eu contava, lembrou-me de alguns projetos. Fiquei comovido. Disse-me ele que tinha muitos medos e que eu fui significativo em sua transformação.

Sou muito grato por esse ofício de ser professor. Não sei com quantos alunos, em todos esses anos, tive a honra de conviver. Sei do poder que temos quando entramos em uma sala de aula e nos deparamos com mulheres e homens carentes de espaços e de orientação para que protagonizem a própria história. Lembro-me de professores inesquecíveis que me alimentaram de futuro e que me ajudaram a compreender que eu poderia fazer escolhas corretas. Ao final da conversa, agradeci o carinho e disse-lhe que, agora, seria eu a não me esquecer de sua gratidão. Coisas da vida. Como diria Guimarães Rosa, “Mestre não é aquele que ensina, mas quem de repente aprende”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/05/2015

Onde anda a verdade?

Bons tempos os nossos em que as mídias sociais surgiram para democratizar a informação e aproximar as pessoas. Com alguns toques, podemos divulgar uma ideia, um evento, um chamamento a uma causa. Em pouco tempo, milhões de pessoas poderão se conectar com o que se quer apresentar. De lançamento de livros a defesa de conceitos. Desde a mobilização para uma caminhada em defesa de algum ideal até a venda de móveis ou imóveis. E tantas outras benesses. Podemos pesquisar sobre pessoas com as quais vamos nos encontrar. Sobre temas. É muita mudança em pouco tempo. Esse é o lado bom. Mas há um outro lado e, sobre esse, é preciso nos debruçarmos com alguma frequência, pois se refere a um valor que é essencial para a vida em sociedade: a verdade.

Onde anda a verdade nestes tempos virtuais? Quantas histórias absurdas são acessadas por pessoas, de todos os cantos, que acreditam no que é absolutamente mentiroso? Desde o erro até a perversidade. O erro pode ser um texto atribuído a Clarice Lispector, por exemplo, e que ela nunca tenha escrito. E de um em um, a mentira vai ficando verdadeira. Pode ser que o primeiro a afirmar tenha feito não por maldade, mas por descuido. E há o perverso. Aquele que quer destruir a imagem de alguém e que cria histórias mentirosas para que os que sofrem com a ausência de senso crítico as divulguem. Tenho escutado as mais absurdas histórias de pessoas que leram no Facebook ou no Twitter, ou em algum blog, alguma informação sobre alguém e resolveram acreditar e decidiram espalhar. Cenários ruins para quem preza a verdade.  

Podemos criticar, opinar, convergir ou divergir; tudo isso enriquece a democracia. Mas inventar é tosco, desonesto e só colabora para que o erro se sobreponha ao correto. Antes de espalhar o que se lê, não custa um pouco de cuidado. Estamos falando de vidas humanas e de seus ideais. De pessoas e de biografias que têm sentimentos e serviços prestados a uma causa. Um pouco de cuidado não faz mal a ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/05/2015