A linguagem dos sentimentos

19.09.2021

Gabriel Chalita

Vivi o dia nas histórias da minha tia. Dia pleno que rompe as cronologias e que coloca todos os tempos na linguagem dos sentimentos.

O passado é terra de nascimentos. De pessoas. De encontros. De despedidas.
Casou minha tia depois do desmanchar da juventude. Era mulher decidida ao solteirismo quando uma amiga, em prontidão para morrer, entregou o pedido, que casasse minha tia com o marido que, em pouco, enviuvaria.

Sem pensar em desobedecer ao desejo, aceitou. E enfeitou os dias com um amor maduro. Viveram de cuidados, de gestos brandos, de presentes. Depois dele se despedir,  mudou ela para viúva o estado civil. 

Conto eu sobre os sobressaltos que vivo. Que vive a humanidade. Ouve ela com os ouvidos experimentados pelos sons dos barulhos e do silêncio. Gosto das suas mãos delicadas acariciando minhas preocupações. Lutamos lutas decididas por outros. Tememos perder a batalha imaginária. Perdem todos quando não usam as mãos dadas para o caminhar, mesmo que mais lentamente. Os passos da minha tia combinam com suas ausências de pressa. “Que bonito eles cantando”,  explica ela os passarinhos na janela, “Eles gostam da nossa companhia”, prossegue com sua simplicidade orgulhosa. 

No almoço, do dia pleno, comemos a saudade. Fotos espalhadas pelos cômodos da casa registram amores que não mais vivem conosco. Só na caixa que ressoa beleza dentro de nós.

Brinca minha tia com as rugas. Uma a uma foram chegando, enquanto o tempo ia partindo. O tempo que temos, e que é pleno, é Kairos. Não sobra e não falta. É o presente de um dia amanhecendo sem pressa nem preguiças.
 
Minha tia é a infância renascendo em mim. Lia ela livros cujas palavras ainda não significavam. Eu passava os dedos, enquanto ela dizia as histórias. E eu pedia mais. Se havia tristeza na história, eu sentia. Se havia alegria, também. De história em história, fui escrevendo a minha. O verdume das frutas explica que ainda falta. A lagarta ainda há de ser borboleta. Tudo ontem era promessa. E tudo poderia não ser. Ou quebrar. Ou, diz minha tia, sobre uma velha amiga japonesa, Kiome, que falava sobre uma arte de restaurar cerâmicas quebradas. Há força na imperfeição, decido eu.

“Kintsugi, lembrei” comemora ela. Há um vaso bonito que minha mãe guardava como lembrança da mãe de sua mãe. E há flores que nos perfumam por enquanto. Que hoje estão. Que amanhã não estarão. Olho para o vaso com respeito. E, ao lado dele, encontro um candelabro que, tantas vezes, vi emprestando firmeza para as velas iluminarem.

Deito o cansaço no colo da minha tia e fecho as preocupações que carrego sem muita explicação.  Adormeço e sonho o sonho bom do amor. Quando acordar, será hora de partir. Primeiro, um bolo de cheiro de tantas mãos que prepararam o meu alimento.  Depois, a partida física, com as lembranças agradecendo uma pausa na quentura das cansaços. 

Acordo com o barulho dos passarinhos e com minha tia respirando paz. Desperdiçar um dia desses? 

A primavera de Tarcísio

12.09.2021

Gabriel Chalita

É ainda inverno. Dia quente de inverno e o coração de Tarcísio Padilha vai se despedindo do lado de cá do mistério. Do lado de lá, já é primavera. Do lado de lá, é sempre primavera.

A morte é a primavera da alma. Difícil compreender, simples acreditar. Do lado de cá, as árvores se vestem de morte no inverno e, depois, desacreditando a lógica, ressurgem perfumando de esperança o mundo.

Tarcísio é o filósofo da esperança. É, com o verbo conjugado no presente. A morte não deposita a vida no passado. Tarcísio é.

Viajo em mim e encontro Tarcísio e Ruth, a mulher tão amada, sentados no conforto da bondade. Os bons não têm as perturbações dos que se amarram ao passado, por descuido com a vida. Encontro os dizeres garimpados para preencher o encontro de beleza. Enquanto falam, sentados um ao lado do outro, as mãos deslizam em cumplicidade. São setenta anos de casamento. São geradores de vida:  de filhos e de pensamentos de crença na humanidade.

Conversa ele sobre os filósofos humanistas. Conversa ela sobre a memória do marido tão preenchida de bons temas.
Conversa ela sobre os filhos e o futuro dos dias que virão. Conversa ele sobre lucidez e serenidade. Júlio, o mineiro entregador de alegrias, brinca de explicar o que é admirar, “olhar com amor”. E, dos seus olhos, nascem gratidão. E, então, a fumaça do café sobe, simbolizando o prazer de saber que nada sabemos sobre o que vive além do que vemos. Do café, entretanto, as delícias de mais um instante fugidio. Gratidão é estar ali. 

No dia do despedir do coração humano de Tarcísio, Ruth também estava no hospital.
Os dois em espaços diferentes tratando enfermidades do corpo.  O vírus silencioso, que calou a humanidade, desrespeitou aquele lar tão bonito. Ruth e Tarcísio não estavam em espaços separados para os que compreendem os cômodos do amor. Nunca estiveram, desde que decidiram formar um, sem deixar de ser dois.

Os filósofos estoicos diziam que viver é aprender a morrer. E outros repetiram. E podemos nós aprender. Tarcísio viveu a vida plenificando vida por onde passava. Alunos seus se referem ao professor como um professador da fé em uma humanidade que pode ser melhor.

O dia quente de inverno no verão causa um certo estranhamento em quem presta atenção às estações. Mas os estranhamentos maiores são as dores que os homens são capazes de gerar nos próprios homens. Homens deveriam gerar vida, mas se perdem. E, na vida, há homens que servem para nos ajudar a encontrar.

Professor Padilha, a primavera do lado de cá ainda não chegou. Mas vai chegar. Quem crê sabe disso. E, quando chegar, saiba que um pouco da desabrochada beleza nasceu dos seus ditos tão cuidadosos com a vida.

Obrigado, amigo, que tardiamente conheci, mas que reconheci desde o primeiro encontro como uma luz iluminadora de esperanças.

Boas aulas do lado de lá, amado professor Tarcísio Padilha.  

O acariciar das mãos

05.09.2021

Gabriel Chalita

Foi em um dia triste quando, tristemente, senti o peso das mãos duras de um professor.

Era um escolher de crianças para algumas canções que encerrariam o ano em uma escola pequena do interior. E eu queria ser escolhido. Sorri as horas que separavam a hora da decisão. Arrumei o melhor de mim para ser visto e, talvez por isso, exagerei quando ele pediu a voz.


Sem envelopar as palavras, depositou a pesada mão sobre o meu ombro e explicou que o meu problema não era apenas cantar mal. Era cantar mal e alto. Abaixei o volume do entusiasmo e me sentei embaixo de uma árvore que nos escondia do calor dos dias de verão do fim do ano. 

No silêncio do “não” recebido, esqueci que eu era criança e que crianças são ensinadoras de prazeres cotidianos. Pensei em pedir para que devolvessem meu sorriso. Desisti. Sozinho, pensava em meu pai. Eu havia dito a ele que cantaria na festa do fim de ano, e ele sorriu orgulhoso.

Na parte da aula depois do intervalo, intervalei nada as minhas tristezas. Não culpo o professor. Faz tempo demais para julgamentos. 

Andei da escola até minha casa. Meu pai me viu da loja e me chamou com sorrisos. Leitor dos detalhes dos sentimentos, ele viu meu vazio. “Filho, venha ficar comigo um pouco, preciso de você”. Foi dizendo e acariciando o meu rosto com suas generosas mãos. Não me perguntou da dor, apenas me apresentou novamente a alegria.

Olho as minhas mãos gastas de tempo e viajo em seus significados. Quantas carícias fui capaz de oferecer? Quantas atenções desperdicei ao negar as minhas mãos aos agachados das dores da vida?
Construí, com ela, caminhos. Coloquei tijolos sobre tijolos na argamassa dos “sins” e dos “nãos”, das pontes e dos muros. 
Acenei aliviando medos, mas, com ela, ameacei, quando, medroso, esqueci pensamentos.

Escolhi dedo para apontar, demonstrando arrogâncias. Errei. Com elas, pedi perdão, quando amadureci. Que beleza a arquitetura das mãos.  As mãos do pianista que antecipam o paraíso. As mãos do cirurgião que arrancam males que arrancam vidas. As mãos calejadas dos colhedores de esperança, aliviadas pela alegria das mudanças de estação.

Meu pai me chamou para a horta. E, antes do jantar, apanhamos verdes. E falamos da terra. Subindo a escada, ele emprestou sua mão para chegarmos juntos. Com a outra, o que colhemos. Minha mãe limpava o feijão em uma mesa iluminada pela sua alegria. Ao lado de Rosa, que trabalhava conosco e que, desde sempre, nos enfeitou a vida. As mãos do meu pai e da minha mãe se encontraram e os dizeres combinaram com os seus gestos.

Lavei as mãos, mas não o constrangimento do não recebido antes do jantar. E, então, minha mãe fez a pergunta que eu não gostaria sobre o coral. E só perguntou de tanto que eu havia dito antes, tamanha era minha empolgação em fazer parte. E eu pensei em mentir. E eu abaixei a cabeça e apartei as mãos de raiva de mim por não ser cantor. 

Meu pai entendeu e disse: “Melhor não participar esse ano, assim temos mais tempo para plantar, você me ajuda com a horta, não é meu filho?”.  E o assunto ganhou despreocupação. Meu pai piscou para mim e prosseguiu agradecendo as mãos de minha mãe capazes de nos alimentar com tanto sabor.

Disse eu, depois, a ele do professor. Quis dizer alguns dias depois. Valorizou nada a minha voz boa ou ruim. Disse não entender de canções, mas de sentimentos. E que ele me amava muito. Sem compreender muitas teorias, plantou em mim a certeza de que o amor não exige perfeições. 

Anos depois, minhas mãos foram as últimas a segurar a cabeça do meu pai. Em um quarto de despedidas. Ele teve forças de sorrir para mim antes de plantar gentilezas no outro lado dos mistérios. 

Uso, hoje, as minhas mãos para escrever. Olho para elas e me lembro das mãos grandes do meu pai. Ah, tempo indomável. Os dias jovens foram escapulindo das minhas mãos e me permitindo apenas segurar as lembranças. 

Hoje,  canto a canção da vida no tom que consigo, que compreendo ser capaz de aliviar outras vidas das mãos pesadas dos que não prestam atenção na dor alheia. 

 

 

A roleta dos dias

29.08.2021

Gabriel Chalita

Desci do carro e desliguei a teimosa paciência de prosseguir tentando. Ele disse apenas da liberdade, do espaço do respiro. Eu disse nada. Fiquei  procurando o dia em que impedi alguma liberdade, em que invadi alguma respiração. Encontrei nada.

Encontrei os dias de malfeitos no tema do respeito. A traição doeu, e eu desculpei aceitando a inaceitável desculpa de um deslize. Um?  Tolerância desnecessária. Justificou ele que, por eu ser mulher, é difícil compreender carência masculina e chorou o futuro sem mim.

Teimoso medo o meu da solidão. Aceitei a volta. Rolei para outros dias. Encontrei um em que o meu aniversário foi ocasião nenhuma. Esperei o dia seguinte. Reclamei com calma. E ele culpou o pai, tão esquecido das datas. Foi essa a herança que ele recebeu? A distração? As divisões nenhumas de tarefas. Os olhos fitos em programa qualquer na televisão, e eu no exercício de satisfazer vontades.

Sou mulher realizada que pouco fala das próprias conquistas. Percebo que ele despreza, se incomoda. Será difícil, ainda hoje, a um homem conviver com uma mulher que ganhe mais? Que tenha mais sucesso profissional? Bobagem. Fosse ele um homem bom, desligaria as diferenças e prosseguiria amando. 

Rolo novamente a roleta dos dias e encontro brigas nascidas de alguma ferida narcísica. Era eu elogiada, era ele trancado em humor duro de conviver. E eu, então, inventava partida e tentava preenchê-lo de felicidade. Sorrisos nascidos de nervosismos os meus. Tinha medo de algum dito fora de lugar e íamos embora.

Fiz as vezes de mãe para as duas filhas dele. Fiz as vezes de filha para a mãe tão reclamosa do filho. Fiz as vezes de mulher, mesmo no cansaço, mesmo nos acúmulos de incompreensões que moravam em mim diante das suas atitudes.

E ele, novamente, diz que precisa de um tempo. E, então, eu saio do carro e olho para o sol que queima o dia e peço aquecimento. E me lembro de Clarice, a escritora que escreveu epifanias. E me lembro de que, na roleta dos dias que ainda virão, posso até encontrar dor, mas depois encontrarei a mim mesma, devolvida. Posso me desencontrar nas carências, que todo  mundo tem. Posso, sim! Poder não tenho para dizer ao sofrimento que parta. Estanco, entretanto, as gotas de dignidade que pingam de mim cada vez que ele me desmancha. E eu permito.

Tive mãe feliz no casamento. Tive independência cedo. Estudei o mundo para medicar as dores do corpo. Acordo cedo e preencho os dias atendendo doentes.

Doente está minha alma. Não por ele. Por mim. Por aceitar um amor sem amor. Por compreender o incompreensível desrespeito. Ou há amor ou não há nada. Migalhas alimentam pássaros que têm o céu inteiro para compensar. Preciso eu de plenitude. Perfeição, nunca exigi, nem dele, nem  de ninguém. Sou das que contemplam as rasuras que nos fazem encontrar outras palavras para seguir o texto da vida.

Rolo a roleta e limpo o passado, pelo menos na intenção do agora. Caminho firme pelas ruas de pedra que já serviram a outras dores. Passo por um ipê desabrochando amarelo, explicador de beleza, e paro agradecendo a sombra que me alivia a pressa. Pudera eu apressar o tempo e esquecer logo os sentimentos que não são bons. Não posso. O que posso é prosseguir vivendo. Curando os outros, enquanto me curo. Olhando paisagens em busca da vida que me escapa, quando outras vidas me atropelam. 

Estou inteira, eu sei. Mesmo em pedaços. É a epifania que me faz olhar um pé de goiaba, logo adiante, e que me adianta os dias futuros lembrando o passado, quando, descalça, subia na árvore e comia a alegria numa fruta qualquer. 

Por ora estou bem, cantarolando a liberdade que virá. 
 

A fundura da memória

22.08.2021

Gabriel Chalita

Há tanto de mim em mim. Há tanto dos que foram e que não foram. Há um devagar dos dias e um depressa dos anos me explicando sem explicar que mando nada no que penso.
E, então, me afundo no fundo de mim e expando a atenção para compreender por que penso o que não teria precisão de pensar. Isso, quando me aborreço com distrações.

Sou do silêncio e falo nada de mim a quem se aproxima. Desconfio dos certificados em conhecimento. Conhecer exige bondade. É assim que aprendi com o finado professor Amaury.

Dia desses, uma foto me falou daquele tempo. Eu era magro demais e alto demais para ser aceito. Aluno novo vindo de escola velha e sentando em lugar errado. Riram de mim e, de mim, fizeram troça.

Errei nas contas. Era novo demais para acertar a matemática do mundo. Amaury me olhou na alma e me acalmou os medos. Mostrou a lousa do tempo disfarçando a luz do futuro que espantaria qualquer dissabor daqueles dias.

Fui me ajeitando na nova escola. Querendo ser ele. Até o imitava na solitária varanda que dava para dentro de casa. Rasguei a timidez no dia certo, nem antes, nem depois, e expliquei as somas que os sonhos e os esforços eram capazes de alcançar. 
Minha avó, em silêncio amoroso, ouvia as minhas aulas. Sem dormir. Sem desviar o olhar. Era companheira dos inícios. E teimava em aplaudir, quando eu dava por encerrada a lição daquele fim de tarde. 

Morreu minha avó em um dia triste. Faltei à escola, mas já era escola dos grandes. 
Juntos aos andarilhos que subiam ao cemitério, na pequena cidade, estava ele, o professor Amaury, e a sua mulher, dona Diva, que nos oferecia doces de pote para amainar os azedumes da vida.

Tempos antes da formatura, um dos nossos morreu no mergulho arriscado de uma cachoeira grande. A dor avisou à nossa idade que a morte existe.

Deixei o interior para ser professor na capital. Casei com os livros e com a intenção de adoçar de conhecimento a vida. Moro em uma das tantas periferias que, de central, tem as ausências.

Dia desses, entrei em uma sala e encontrei um riso sem amor contra um aluno perdido nas atitudes. Observei com calma e viajei no tempo em que de mim cuidaram, quando o respeito faltou. Falei bondades ao aluno, contei de mim, ofereci a lousa cheia de possibilidades para escritos seus e corrigi as rasuras que se causam ao outro, quando o outro é diferente do que sabemos nós.

A diretora da escola teima comigo que tem gente boa e tem gente ruim no mundo. Eu ouço e silencio e, quando antevejo uma trilha segura, caminho cuidadosamente sobre seus pensamentos e explico os meus, “gente ruim é plantio malfeito”. E dou exemplos. Ela ora acredita, ora desacredita dela mesma na árdua tarefa de educar os deseducados. “Bom seria se os pais educassem primeiro”, resmunga ela já andando para longe de minhas insistências.

Entro na sala dos professores e me alimento da saudade dos doces de pote da dona Diva. Tinha de leite, de figo, de abóbora e de laranja. O sabor valia menos que a intenção. A casa deles era quase em frente à escola e a mesa grande em que cabia o mundo ficava embaixo de uma árvore que atingia o céu.

Está tudo na fundura de mim. Tanto o futuro que me antecipa a ultrapassagem do presente em dias estranhos, como o passado que, quando perco a luminosidade, me lembra das gentes boas que ficaram em mim.

Entre retalhos

15.08.2021

Gabriel Chalita

Luciana tem mistério nos olhos e tem cheiro de amanheceres no sorriso. E eu tenho medo e silencio.

Trabalhamos na mesma loja. Outros, também. Outros trabalham. Ficamos fechados um tempo. Tempo de pausas. A pausa em mim dura desde que desisti de insistir em Sílvia. Foram anos de uma espera e de desenhos de palavras nunca ditas. Era minha vizinha. Sorríamos nos encontros e mais nada.

Entre as cortinas,  eu vigiava sua saída e saía, e a minha rapidez nos passos não se convertia nas falas. Que, quando vinham, eram tímidas e vagarosas. E, quase sempre, solitárias. 

Dei sorte uma vez em que ela deixou cair um livro. Era um livro que trazia amor no título. Deitei minhas mãos no chão e consegui dar a ela apenas o livro. Ensaiei um improvisado comentário que não saiu. Disse ela “Quanta gentileza!”, e disse, também, um sorriso. Respondi nada. Só depois, diante do espelho, fiquei repetindo o que poderia ter dito.

Quando falo em Sílvia, distraio os pensamentos de Luciana. Um dia, vi Sílvia beijando, no portão da casa, um homem que não era eu. Fechei a porta de mim e fiquei semanas e meses brigando com o que não saía.

E, então, veio Luciana. Entrou depois de mim na loja. E o amor entrou junto. Medroso, nos inícios. Medroso até hoje.
Usa óculos a Luciana. Usa mais de um. São coloridos. Colorem de tentativas os meus dias. Retiram de mim poemas ensaiados, um a um, em frente ao mesmo espelho que conheceu tudo de Sílvia. O que mais digo é um que intitulei “Entre retalhos”. É sobre a loja. É sobre os panos. É sobre os esconderijos a que viajamos, quando sentimos.

Descobri ouvindo que, há não muito, ela terminou uma relação. “Desacredito dos homens”, foi o que recebi de textos pouco compreensíveis pela distância que nos separava. A esperança conversou comigo e explicou que seria uma questão de tempo. Bastava o esquecimento da dor, e ela estaria pronta para vivermos nossa história.

Decidi o regime, a caminhada, a mudança do corte do cabelo, a compra de algumas roupas novas, a limpeza dos dentes, a limpeza de tudo e o sorriso. 

Horário triste o de fechar a loja e caminhar sem ela pelas ruas anoitecidas do bairro. Moramos em lados opostos. Comprei, outro dia, uma caixa de morangos, de um vendedor de rua. Cheguei decidido a oferecer. Achei atrevimento. Passei o dia inventando um jeito de dividir aquele sabor. Saber ausente. Fiz pouco da intenção e, no caminho de casa, dei a um homem mais faminto do que eu, que estendia as mãos em uma calçada com pouca luz.

Na pouca luz do meu quarto, só há pensamentos. A noite indormida repete os tempos de Sílvia. O que é melhor, então? Encerrar a vida com cortinas pesadas de segurança? Não é isso o que quer a luz que atravessa a fresta que deixei aberta para o acordar. Acordei a vida, quando a vida de Luciana entrou naquela loja. 

Luciana é da conversa. Fala sobre um cliente que reservou um corte. E corta para outro assunto. Fala de pessoas que desconheço e prolonga a conversa, enquanto não entra outro cliente. Um dia, me disse: “Mudo, você”! E riu.  Fiquei pensando no “mudo”, se era de mudança de atitude ou de ausência de fala. Vasculhei o dia inteiro os meus pensamentos e resolvi dizer.  Soltei um “Está frio, né?”. E a resposta veio  em uma velocidade que nunca tive. “Claro que não, Geraldo”. E, antes de eu concordar, com a tesoura cortando um tecido, ela olhou disfarçando os óculos e continuou: “Está uma delícia”.

E, então, entrou alguém. E era minha vez. E vendi um pano para cortinas. Um pano para esconder a parte de dentro da casa ou para enfeitar de alguma cor a sala interna de alguém. “Está uma delícia”, era sobre o quê? O dia? O nosso encontro em uma loja de bairro? O futuro que nos esperava juntos? Sobre o que seria aquele dito?
Resolvi resolver ir com ela pelas ruas opostas às que me levavam para onde eu já sabia. E passei o dia satisfeito com a resolução.

Olhei no pequeno espelho do banheiro e me arrumei de coragem mais de uma vez. O relógio demorava a compreender que eu tinha pressa de me oferecer para caminhar com ela até sua casa. Sim. “Está uma delícia!”. Era uma autorização. E teve o sorriso como complemento. E, se não fosse a necessidade de atender quem chegou, ela teria dito alguma coisa mais. No velho relógio, os ponteiros diziam que faltava pouco para minha atitude. Fiquei limpando um balcão já limpo e vendo os outros funcionários com pressa.

Ouvi barulhos de arrumação no banheiro. Ouvi o perfume de Luciana se aproximando. Iríamos juntos. Era disso que se tratava. Por entre a porta entreaberta, a noite se explicava. Noite de luar. Noite de gravidez de palavras de amor. Noite de mistérios que despedem um dia, enquanto aguardam um outro.

“Geraldo”, era dona Sônia, a dona da loja, me chamando, enquanto o meu amor se despedia. Quis dizer que hoje não. Não podia falar naquele sagrado instante. 
“Geraldo, parabéns, a Jandira disse que você tem muito bom gosto para sugestões de cortina”. Resmunguei algum som de gratidão. E, depois, ela disse apenas “Até amanhã!”. Agradeci, apressando a saída, mas a calçada já não me mostrava ela.

Um frio soprou em mim na quente noite de verão. Silenciado, fui pelo caminho conhecido acompanhado, apenas,  da esperança do dia seguinte.

Pai querido

08.08.21

Gabriel Chalita

Pai querido, vejo a envelhecida fotografia e viajo nos tempos em que estávamos de mãos dadas. 

Que pena não poder brincar de felicidade em seu colo. Que pena  não ouvir os seus sorrisos com a minha chegada.

Foi triste a sua partida. Partido, conheci a orfandade. Partido, me despedi dos dias em que o perfume da bondade me explicava a vida. Na sua escola, compreendi que amar é criar espaços para o outro florescer. Era você um professor de generosidades. 

Floresci, meu pai, fruto seu. Floresci como pude em um mundo tão grande e tão espinhento. Floresci reconhecendo no amor o sentido da vida. E sentindo na minha vida que cada gesto interfere no universo todo. 
A palavra que sai da razão humana é tão especial quanto um céu descansando na noite estrelada. O silêncio, também.

Não tenho, meu pai, o seu silêncio. Nem a sua paciência de ouvir as dores do mundo e compreender o tempo da gestação das alegrias. Às vezes, me perco nos desânimos e nas distrações. Então, me abraço à sua imagem ajoelhado em simplicidade e acreditando que o dia de amanhã será melhor.

O dia de amanhã será único, repetindo o dia de hoje que nasceu da despedida do dia de ontem. E todos eles, um a um, me deram, me dão e me darão a oportunidade de ser bom. É o que você plantou em mim. Quando me esqueço, praguejo contra os que incomodam a existência. Quando me lembro, compreendo e perdoo e prossigo em busca do Sagrado. O Sagrado é a jardinagem do mundo encomendado pelo Artista e livremente oferecido às mulheres e aos homens.

Temos tudo para ver brotar em cada canto aconchego e alimento. E espaços para que a cantoria da criação nos ponha em caminhada em busca do que precisamos construir.Você construía casas e afetos e esperanças em uma pequena cidade de um dos tantos interiores desse grande país.

Seus passos foram ficando mais vagarosos, e eu gostava de sentir as suas mãos me apertando o braço e me mostrando o dia.
E ficava atento à sua atenção diante de quem nos parava e narrava a vida. Era bonito ver o bonito dos encontros sem pressa. E os seus ditos gentis e as suas brincadeiras polidas e sua generosa teimosia em nunca abraçar a infelicidade.

Em dias de chuva, a gratidão pela horta feliz e pelos barulhos de infância. Em dias de sol, também a gratidão pelo sair despreocupado. Em dias indecisos, você decidia que estava bom.

No seu velório, fiquei vasculhando em mim a sua fé, quando os meus dois irmãos morreram. Primeiro um, tempos depois, o outro. E você, entre as lágrimas dolorosas de um pai que oferece o filho à terra, agradecia a Deus o tempo da convivência. Eu pequeno perguntava: “Papai, o que você está rezando?”. Você respondia sorrindo: “Agradecendo, meu filho, agradecendo”.

Quando comecei o ofício de escrever, era você que eu procurava nas noites de lançamento. E, quando via você em casa, sentado em sua cadeira de balanço, lendo e relendo um livro meu, o mundo todo sorria dentro de mim. Depois que você se foi, conheci tanta gente que me explicou o seu amor, tanta gente que floresceu por um gesto seu.

Meu pai, queria muito conversar hoje com você. Queria muito brincar de quem tem as mãos maiores. Queria muito contar da viagem que fiz ao Líbano e da casa onde nasceram os seus pais e da fotografia do seu casamento com a minha mãe, que estava na parede da casa do irmão do seu pai. E você iria passar as mãos na careca ilustrada de sentimentos e agradecer.

Sua foto com minha mãe olha para mim.
E, então, eu escrevendo, choro a ausência e a emoção de ter vocês em mim. Minha mãe se foi há pouco. Quanta dor eu senti. A orfandade estava, então, completa. 

Os mistérios não me permitem saber como é o dia dos pais por aí. Com você, meu pai, qualquer lugar floresce bondade. Beije a minha mãe e diga que está tudo bem por aqui.

A procissão dos anônimos

GabrielChalita:

01.08.2021

São tantas e tantas foram. Sei de uma que clamava por liberdade. Não estava lá, sei por ter ouvido. Escrevia silêncios, quando li suas vidas. Um nome era Moisés. E os outros que o seguiam em procissão?

Um nome era Martin. E Martin se foi acreditando na igualdade. Se foi em um dia de música calada. Se foi compondo a canção que hoje toca, embora desafine em alguns professadores de crenças incorretas. 

Eu vi uma menina, que tem um nome, chorando o direito de estar apenas na procissão da existência. Sem as cobranças e as exigências que fazem os que pouco compreendem o peso da dor. 
Nos saltos da menina, o fogo do temor foi queimando o fogo da alegria. E, então, ela parou parada e se distanciou dos gritos surdos que queriam mais. O fogo consumindo não queima os distantes. Distantes daquela dor urravam por mais dor.

A menina é uma e é tantas. Na procissão dos anônimos, o pisar no mundo, o respirar o mundo, o sonhar o mundo.
Em cada anônimo, mora o mistério do mundo inteiro, criado por amor, é no que acredito. Em cada lágrima, que confere delicadeza aos olhos do sofredor, o mundo inteiro chora. A menina pediu para desviver e, então, viver.

Eu sei disso por dores próprias. Eu consegui desviver as tolices da fama para, anonimamente, escrever a vida nos textos simples do meu caderno de dormir. É isto que faço as noites. Escrevo. Digo o que foi digno e o que foi esquecimento. Digo o que uniu e o que rasgou a delicada teia das relações humanas.

Quando se trata de fé, o que mais me comove é o mover da procissão dos anônimos. Querem nada eles da terra onde pisam. Querem um sagrado sorriso que empurre as nuvens e esclareça à dor que é preciso ter alegria. Foi isso que fizeram Dulce e Tereza. E Francisco. E Clara. Clarear os dias é o rogo puro dos peregrinos. 

Eu vi meu pai, ainda ontem, com seus joelhos dobrados rezando paz. E vi, em mim, um choro puro de gratidão pela árvore de onde meu fruto brotou frutos no mundo. Humilhações vejo sempre, mas eu vi um amigo, que tanto admiro, Ignácio, me reclamando alegria. Então, deixo as lamúrias de lado e abraço o bom de estar vivo. De estar vivo na procissão dos anônimos. Na procissão dos despreocupados com o que temos e não é nosso e conscientes de que o que temos e é nosso não se vê em procissão nenhuma. Mora dentro. E esclarece fora.

Eu vi o sorriso de Rayssa e sorri, também. E aprendi sorrindo que o sorriso mais bonito é o nascido do sorriso dos outros. E é por isso que eu caminho a procissão dos anônimos e oro para o Deus amor. E compreendo as vozes diferentes da minha e abraço quem não conheço, mas que pisa comigo o solo sagrado do existir. 

Se na noite escrevo; no dia, caminho. Caminho lembrando o que escrevi para, à noite, escrever respeitando o que caminhei. Na procissão dos anônimos, não há razão para enfeites. Não há máquinas observadoras nem medidores da temperatura dos sucessos. Não há competições, porque a chegada está no alto, não na frente. Correr muito não interfere no final. Na idade que tenho, compreendo que os exageros impedem a paisagem e que as quenturas de opiniões desalojam o prazer delicioso de ser abraçado em algum frio dia.

Celebro os abraços caminhando. Caminhando e cicatrizando antigas feridas. Caminhando e celebrando a vida de irmãos que não conheço, mas que reconheço nascidos do mesmo barro de esperanças que eu. Posso dar um nome a eles, dentro de mim. Posso dizer o nome a alguns. Posso tanto, enquanto caminho, que o caminhar exige escolhas.

Hoje, escolho o sorriso que sorria na infância, quando as fadas espantavam os males que me ameaçavam. Hoje, escolho o sorriso coletivo de saber que as poeiras estão indo embora e que, em pouco tempo, caminhando, reviveremos a liberdade e a igualdade que já valeram tantos passos de ilustres e anônimos caminhantes. 

Deitei o mar

25.07.21

Gabriel Chalita

Estava exaurido,quando cheguei em mim, e perscrutei o que havia me tornado. Um ser de infelicidades.

No trabalho, as asperezas do Dr. Walter. Os gritos parecem alimentar a sua ânsia de poder. Sou motorista, apenas. E ele a mim se dirige variando brincadeiras vulgares com xingamentos. E eu digo nada. Mente o Dr. Walter com a mesma regularidade com que respira. Finjo distância, mas o gordo da sua voz não deixa espaço nenhum para o silêncio. 

Preciso do trabalho. E trabalho sofrendo pela ausência de coragem de dizer ‘sim’ à liberdade de tentar outros caminhos. Dirijo carros, mas estaciono a minha vida.

No amor, a vergonha de ser trocado. Sei que acontece. Mas não sabia que doía tanto. Foram palavras poucas em um disfarce facilmente percebível. Acusações encomendadas para culpar quem fica. Fiquei eu chorando a cama vazia e a pouca vontade para um recomeçar.

Resolvi estudar. Como? Se horários não me pertencem? Como doeu, certa vez, em que o deixei em casa depois do desligar do dia. Eram 2 da manhã. Ele, vociferando brincadeiras tolas, contando vantagens da vida sexual, marcou comigo às 7 do dia seguinte. Contando o tempo da distância entre as nossas casas, o que sobrou foi para um banho e um café sem açúcar.

Cheguei, pontualmente, e ele saiu às 10. Sem uma palavra de desculpa por me deixar sem dormir. É esse o meu patrão. Gosto nada de suas piadas. Mas exerço o sacrifício do riso. Forçado. 

Pedi a um professor paciência no atraso de um trabalho. A um outro, desmarquei a prova. E, assim, vou de súplica em súplica. Alguns compreendem, outros desatendem. É assim mesmo. Sou apenas um. Sou ninguém. 

E foi assim que saí de sua casa e fui em direção ao mar. Estava contando os dias para um dia de repouso. Estava contando os dias para um dia de paz, sem que eu pensasse na dor da traição. Estava contando os dias para terminar a faculdade e dirigir minha vida sem precisar digerir indelicadezas. 

Fui em direção ao mar.  E deitei o meu cansaço na areia. E deitei o mar de barulhos que atormentavam aquele dia. Com a roupa do trabalho. Com o trabalho de acordar o mundo adormecido dentro de mim.

Adormeci e sonhei a infância. Meu pai faleceu no meu primeiro engatinhar. Minha mãe teve que cuidar de tantos. O mar. Eu pequeno, brincava com uma bola pequena, quando as ondas desavisadas do meu pouco ter engoliram. Eu tentei ter a bola de volta. Eu chorei na beira e nada pude contra o vaivém ininterrupto daquele dia, de tantos outros dias.

Perdi meu pai, quando nem sabia. Perdi uma bola imaginando ter perdido o mundo. Perdi tanto. Foi o que o meu alternar de realidade e sonho diziam no cansaço da areia.

Era um entardecer e poucas pessoas estavam na praia. Fazia frio no dia e em mim. E, mesmo no cansaço, havia um vento bom que me lembrava a graça de estar vivo.
Pensei pensamentos estranhos. Quem fez o mar? Por que o mar foi feito? E o resto, quem fez? E a injustiça não pode ter sido feita pelo mesmo Artista que fez o mar. Nem a traição. Nem os dizeres arrogantes. Quem fez? Quem foi que me fez? 

Não sei se, no sonho ou no pensamento, o menino, que um dia eu fui e que chorou apenas uma bola, conversava comigo. E me recobrava o que ele sonhava naquele dia. Um dia, ele não seria mais menino e enfrentaria as ondas descuidadas e tomaria de volta o que era seu.

Como faço para tomar de volta o que é meu? Como faço para desviver a submissão, o comodismo e reencontrar as forças do menino valente?

O sol já estava indo, quando acordei em definitivo. Decidi limpar os pesos que me prendiam ao chão que não me pertencia. 
Há beleza demais no universo para me empoeirar de vidas sem vida. Amanhã, Dr. Walter será apenas uma lembrança do que não quero jamais ser. Amanhã, a dor de amor que passou será passado. Amanhã, me formarei na escola de comunicar felicidades. É isso o que importa. 

Limpei a pouca areia teimosa e ri como riem os loucos ou os apaixonados. Falei sozinho comigo e me vesti de vontade para beijar minha mãe. Dona Elvira anda reclamando das minhas ausências. Ela vai se surpreender. 

A neblina do tempo

18.07.2021

Gabriel Chalita

É tarde e já me ocupo dos véus do esquecimento. Antes isso a rascunhar textos que já se foram. Depois da carta entregue, nada mais há a ser feito pelo carteiro, nem pelo escrevedor. As letras, fotografias daqueles instantes, já emolduraram os sentimentos. E, na escrivaninha do recebedor da carta, o espaço para a permanência ou não.

Em todas as casas, há lixeiras e, em todas as lixeiras, há passados. O passado que esqueci autorizou outra chegada.

Sou mulher de fé. Não titubeio, quando se trata de dobrar os joelhos. E de acreditar  que me transformo, quando transformo em oração as dores que me sangram.

E foi assim que, em um dia comum, na Igreja, com os olhos para dentro, ouvi uma voz em cantoria. Pedi a Deus um minutinho e abri os olhos e as esperanças e vi Breno.
O culto continuou e eu prossegui, observando. Dona de atitudes, fui dizer a ele a beleza da voz. Ele acenou agradecendo e prosseguiu para dentro.

A pastora da minha Igreja é uma distribuidora de alegrias. Foi assim que eu soube, inclusive, o nome do anjo cantador, Breno. Foi assim que eu soube, também, que ele jurava haver aposentado os seus sentimentos.  Meu silêncio provocou a pastora que sorriu decidida. “Domingo próximo, jantaremos. Eu sei que, com você, tudo tem que ser rápido”.  

Contei os dias até chegar o dia do encontro. O culto transcorreu como sempre. Cheguei antes. Não consegui explicar ao tempo que ainda faltava muito para o horário. Sentei quase na frente e nada de Bruno. Olhava sorrindo, disfarçando,  aos irmãos que se ajeitavam nos assentos. Olhava de um lado a outro e nada.

Subitamente, senti um perfume e vi o pescoço de Breno passando por mim e encontrando, no primeiro banco da Igreja, seu conforto. Meu entusiasmo foi se despedindo, quando percebi que, em nenhum momento, ele olhou para os lados, nem para trás.  Ele, decididamente, não estava na mesma espera que eu. 

Acabou o culto e eu sai sem despedidas. 
Antes de chegar em casa, o telefonema da pastora.  E, depois, o jantar e, depois, a conversa leve e, depois, um outro encontro e, depois, o impertinente medo de amar novamente.

É, por isso, que  cultivo a neblina do tempo. Faço votos repetidos de não olhar para trás e de não me permitir trancar as portas para um outro começo. Breno dedicou instantes preciosos para dizer o passado. Falou dos arrombamentos, chorou as partidas e as tentativas erradas de chegada.

Ouvi em silêncio. Sei ouvir. E falei, sem sobressaltos: “Está com medo?”. Ele ouviu e, enquanto pensava, prossegui: “Eu também”. Ele sorriu. E, depois, emendou: “E se, mais uma vez, não der certo?”. Não aliviei: “Choramos e partimos”. Mas os meus olhos explicavam que, hoje, estava dando certo. Os dele diziam a mesma coisa. E desperdiçar um instante não é prova de conhecimento da vida. 

Resolvi comer a metade da parte da pizza dele, que descansava no prato. Ele gostou, dizendo que, nessas situações, não come. Eu expliquei que era um sinal, porque eu comia em dobro. Rimos. Rir juntos é um bom começo. 

E foi assim que ele entrou em minha casa e conheceu meus filhos, meus maiores amores. E foi assim que eu entrei em sua casa e conheci sua filha, seu maior amor.
Está tudo nos inícios, mas quando me lembro de que tudo começou em uma Igreja, enquanto eu rezava e ele cantava; quando me lembro de que machucados estavam os dois, quando me lembro dos sentimentos que sentimos…

Mas nossas cartas já haviam sido entregues, por que pedir informações ao carteiro.  É o que tento me convencer, quando o passado teima em querer dizer.
Mesmo sendo tarde, os véus do esquecimento me ajudam a ver um outro cenário. Com um outro amor.

Como disse a minha pastora, viver sem amor é um desperdício que não combina com a atitude de um crente.

Bem-vindo, Breno.
Prossigo crendo.