A neblina do tempo

18.07.2021

Gabriel Chalita

É tarde e já me ocupo dos véus do esquecimento. Antes isso a rascunhar textos que já se foram. Depois da carta entregue, nada mais há a ser feito pelo carteiro, nem pelo escrevedor. As letras, fotografias daqueles instantes, já emolduraram os sentimentos. E, na escrivaninha do recebedor da carta, o espaço para a permanência ou não.

Em todas as casas, há lixeiras e, em todas as lixeiras, há passados. O passado que esqueci autorizou outra chegada.

Sou mulher de fé. Não titubeio, quando se trata de dobrar os joelhos. E de acreditar  que me transformo, quando transformo em oração as dores que me sangram.

E foi assim que, em um dia comum, na Igreja, com os olhos para dentro, ouvi uma voz em cantoria. Pedi a Deus um minutinho e abri os olhos e as esperanças e vi Breno.
O culto continuou e eu prossegui, observando. Dona de atitudes, fui dizer a ele a beleza da voz. Ele acenou agradecendo e prosseguiu para dentro.

A pastora da minha Igreja é uma distribuidora de alegrias. Foi assim que eu soube, inclusive, o nome do anjo cantador, Breno. Foi assim que eu soube, também, que ele jurava haver aposentado os seus sentimentos.  Meu silêncio provocou a pastora que sorriu decidida. “Domingo próximo, jantaremos. Eu sei que, com você, tudo tem que ser rápido”.  

Contei os dias até chegar o dia do encontro. O culto transcorreu como sempre. Cheguei antes. Não consegui explicar ao tempo que ainda faltava muito para o horário. Sentei quase na frente e nada de Bruno. Olhava sorrindo, disfarçando,  aos irmãos que se ajeitavam nos assentos. Olhava de um lado a outro e nada.

Subitamente, senti um perfume e vi o pescoço de Breno passando por mim e encontrando, no primeiro banco da Igreja, seu conforto. Meu entusiasmo foi se despedindo, quando percebi que, em nenhum momento, ele olhou para os lados, nem para trás.  Ele, decididamente, não estava na mesma espera que eu. 

Acabou o culto e eu sai sem despedidas. 
Antes de chegar em casa, o telefonema da pastora.  E, depois, o jantar e, depois, a conversa leve e, depois, um outro encontro e, depois, o impertinente medo de amar novamente.

É, por isso, que  cultivo a neblina do tempo. Faço votos repetidos de não olhar para trás e de não me permitir trancar as portas para um outro começo. Breno dedicou instantes preciosos para dizer o passado. Falou dos arrombamentos, chorou as partidas e as tentativas erradas de chegada.

Ouvi em silêncio. Sei ouvir. E falei, sem sobressaltos: “Está com medo?”. Ele ouviu e, enquanto pensava, prossegui: “Eu também”. Ele sorriu. E, depois, emendou: “E se, mais uma vez, não der certo?”. Não aliviei: “Choramos e partimos”. Mas os meus olhos explicavam que, hoje, estava dando certo. Os dele diziam a mesma coisa. E desperdiçar um instante não é prova de conhecimento da vida. 

Resolvi comer a metade da parte da pizza dele, que descansava no prato. Ele gostou, dizendo que, nessas situações, não come. Eu expliquei que era um sinal, porque eu comia em dobro. Rimos. Rir juntos é um bom começo. 

E foi assim que ele entrou em minha casa e conheceu meus filhos, meus maiores amores. E foi assim que eu entrei em sua casa e conheci sua filha, seu maior amor.
Está tudo nos inícios, mas quando me lembro de que tudo começou em uma Igreja, enquanto eu rezava e ele cantava; quando me lembro de que machucados estavam os dois, quando me lembro dos sentimentos que sentimos…

Mas nossas cartas já haviam sido entregues, por que pedir informações ao carteiro.  É o que tento me convencer, quando o passado teima em querer dizer.
Mesmo sendo tarde, os véus do esquecimento me ajudam a ver um outro cenário. Com um outro amor.

Como disse a minha pastora, viver sem amor é um desperdício que não combina com a atitude de um crente.

Bem-vindo, Breno.
Prossigo crendo. 

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