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Folhas de abril

02.05.2021

Gabriel Chalita

As folhas de abril já se foram. Inclusive, algumas da árvore que vejo enquanto escrevo.  Caem uma a uma. As folhas do calendário, inventado por mente humana, também.

Abril não esperou mais do que o esperado. E se foi. Encerrei abril, fazendo aniversário. Acordei, antes do dia, e cambaleei tateando lembranças. 

É de minha mãe que mais sinto falta. No abril passado, ela era presente. Dei, em pedaços, um bolo grande que ganhei. De uma cama de hospital, ela sorriu inteira. E contou, com a voz já ensaiando despedidas, os lindos abris que vivemos juntos.

Juntos lembramos de meu pai que, há muito, já não nos abraçava nos nossos aniversários, a não ser dentro de nós, nos aconchegos da lembrança. Enfermeiras ouviam em atenção. Um filho alimentando sua mãe que o alimentou sem pausas, em todo o seu existir. 

E se foi abril. E permaneceu a consciência de que, em nenhum outro abril, eu teria a minha mãe como tive antes.

As folhas caem e forram os chãos da memória. O vento leva para longe quem amamos. As raízes permanecem. O cordão umbilical que une terra e firmeza não se desfaz. A seiva de amor percorre as veias dos sentimentos e prossegue nutrindo de vida a vida que ainda há. 

Sou um com minha mãe onde quer que ela esteja. Sou um com as folhas que já estiveram em mim e que foram partindo, uma a uma.  Sou um com os dias de ontem que ergueram o hoje que prosseguirá erguendo, enquanto houver um amanhã. Sou um com os olhos que me permitem ver a árvore que vejo, enquanto escrevo, e sou um com os mistérios que só vejo com o espírito aberto ao não tentar compreender. 

Sou razão, gosto dos argumentos e das peneiras que me emprestam discernimento para elaborar antes de concluir. Sou silêncio, crente de que, além da razão, moram mundos inteiros que desconheço, que sequer posso ver, porque há entre nós uma cortina costurada na imensidão que se chama mistério. 

Onde moram, hoje, minha mãe e meu pai? 

Onde moram os meus irmão que, prematuramente, se foram? Onde moram as folhas que me enfeitaram por tempos e que os ventos decidiram levar? Como saber? Se a razão tentar racionalizar,  despedaça-se em pedaços caídos da árvore que não vejo. Só sei que os sinto em mim. E, se os sinto, é porque eles cabem em mim. Cabem na parte inteira de mim que não conheço. 

Estão vivos, eu sei! Como sei? Não sei. Só sei que sei. E que sei, porque há uma seiva que transcende o que há em mim e que, ao mesmo tempo, há em mim, e que ao não me explicar me explica que é lindo, mesmo sem saber, acreditar.

As folhas que voam das árvores de abril e dos outros meses não se perdem, não deixam de existir. Voam os voos elevados dos que rompem invernos e acedem primaveras em tempos e espaços encantados. 

As religiões trazem lâmpadas para que possamos enxergar com a alma. A minha foi enroscada no bocal da fé, desde os tempos em que eu corria despreocupado ao redor da árvore e arriscava apanhar algum fruto para alimentar de alegria a vida. Os pensamentos eram puros como quem de nada desconfia, porque ainda só conhecia a cicatrização dos joelhos e das mãos raladas em terra por algum descuido infantil.

Hoje é minha alma que dói. E alma dói? Dói. Dói da tristeza das ausências. Dói das decepções dos ausentes de sentimentos. Dói do tempo fugidio incapaz de permanecer. Dor de alma também tem seiva alimentadora, fortalecedora.

Um aniversário é um ritual de agradecimento. A vida prossegue vencendo. Vagarosa e plena. Ou apressada e também plena.  Plena como a árvore que recebe chuva e calmaria, silêncio e barulho de revoadas. Plena como cada dia do calendário tem que ser. 

O abril que se foi , não se foi. Vive em mim.

Agora, é maio. Daqui a pouco, vou chorar o dia das mães sem mãe. Eu tenho mãe. Preciso me lembrar disso. No mistério que mora fora e dentro de mim, eu tenho mãe. O colo não tenho, é fato. 

Colo, então, nessa imagem, de um dia nem frio nem quente, de um dia em que o vento perturba pouco a árvore, em que passarinhos, que não pensam o que eu penso, cantam para cumprir o seu estar no mundo.

As flores, também, se abrem sem pensar. 

Quisera eu apenas cantar ou me abrir para enfeitar de generosidade o mundo… 

As folhas de abril já se foram, os meus pensamentos permanecem.

Um gato acariciando a janela

25.04.2021

Gabriel Chalita

Joaquim é o nome que dei a um gato que veio da rua e foi ficando.

Joaquim é o primeiro nome de Machado de Assis, o escritor que acariciou a alma da humanidade com os seus textos e os seus subtextos, com seus ditos e os seus mistérios. 

Joaquim, o gato, acaricia a janela, enquanto separo umas roupas para o bazar. O frio se aproxima, e eu fico incomodado cada vez que penso nos excessos e nas faltas. Tenho tanto e tanta gente tem nada.

Enquanto recolho, ouço música vinda de algum lugar. Deve ser da casa da Irene, contígua à minha. Ela gosta de revezar ópera com silêncio. Não me incomodo.

Na semana passada, fui encerrar o dia tomando chá em sua elegante mesa. Em silêncio, a música nos penetrava. De tempos em tempos, Irene explicava a canção. Havia algo de arrebatador em seus textos. Era sublime ouvir a sua voz entre vozes que preenchiam o mundo com a música. “Callas canta a dor como ninguém”, explica ela. Callas canta Carmen em uma explosão de beleza. Irene faz um movimento de devoção. É como um ritual sagrado em que o êxtase disfarça o cotidiano. 

Três lugares estavam cuidadosamente arrumados. O dela, o meu e um terceiro que, aos poucos, fui sabendo que era destinado a todos os ausentes. Irene não gosta das falas diretas. Mostra pouco do que é. E eu gosto de imaginar os seus mistérios. As luzes da casa são indiretas. Os abajures é que nos iluminam, na temperatura certa. Em cada canto, uma história.

Volto para casa e vejo Joaquim. Apago as luzes de cima e ligo um abajur próximo a uma poltrona antiga, herança do meu avô. 

Joaquim se preocupa nada com a vida. Mia de preguiça e percebe os movimentos sem grandes sobressaltos. Lambe o pelo limpando o que o incomoda. Come o que decide do que sirvo a ele. Quando quer, deita nos meus pés e oferece um afago. Quando quer, vai aos vizinhos examinar a noite. Não proibo nada. Veio por escolha e é por escolha que permanece.  

Volto às roupas guardadas e ao necessário desapego. A música diminui de presença. E, então, ouço um intermitente som de torneira pingando. Vou ao único banheiro da casa e nada. A torneira da cozinha está fechada. É a torneira do quintal. Sento ao lado dela e fecho os olhos para diferenciar os sons que incomodam dos sons que arrebatam a alma. Penso em Callas e na história que ouvi de Irene. Queria eu ter tido o amor de Callas, queria eu ter medicado as suas feridas da alma. A água vai pingando, enquanto Joaquim vem deitar próximo a mim. 

A lua não autoriza a escuridão. E, então, eu vejo as árvores que rejeitam os muros descansando na noite. Penso nas minhas impermanências, quando contemplo a gigante figueira que me olha pequeno.

Fecho a torneira. Já poetizei demais os pingos d’agua. É melhor entrar.  Joaquim entra comigo. E se esfrega tentando espantar pensamentos que possam me entristecer. Explico a ele que a tristeza faz parte de mim. A infelicidade, não. A infelicidade vem de um espírito fechado. Vem de lamúrias, de reclamos diante da vida. Isso não. Gosto da vida e das suas estações.

Já não sou tão moço. Já sinto o tempo pesando em mim. Já doem em mim as ausências e as impossibilidades. Mas são dores boas. Não choro os que se foram sem antes agradecer por terem estado. E, se percebo que as roupas já não mais me servem, experimento outras ou até a nudez exata de quem precisa se enxergar como é. 

Tive diversos amores. Alternei sobressaltos e prazeres. Autorizei me rabiscarem de descuidos, era medo de solidão. E desvalorizei algumas poesias que me amanheciam, era imaturidade. 

Não. Já não tenho a idade das culpas. Passei o que passei e fiz as escolhas que fiz com o que sabia, até então. Hoje, prossigo sabendo nada. 

Gosto de olhar os mistérios do olhar de Joaquim e de ficar imaginando de onde vêm os gatos. Tem ele muitas vidas? E eu?

A minha janela é diferente de todas as janelas que há, porque ele a acaricia. Porque vejo todas as ruas do mundo, vendo ele. Quanta estupidez em quem desconfia dos gatos. Desconfio eu dos humanos. Principalmente dos que não gostam de música.

Agora ouço outra ópera, entrando pela minha janela. Não sei se é Callas, mas decido que é.  A voz combina com o gato que combina com a noite que combina com a minha alma. 

Amanhã, levo as roupas para doar e fico comigo mesmo e com o que ninguém nunca vai tirar de mim.

Minha amiga Juliana

18.04.2021

Gabriel Chalita

Meu marido diz que vivo sem ele, mas não vivo sem ela. Ela diz que chegou antes. E que deveria ele ser grato por ter ela incentivado o tempo do encontro e os tempos todos que vieram depois.

Eu digo nada. Tenho um marido que me sabe a alma e que perfuma os meus desejos com delicadezas. Nos dias frios, nos apertamos na cama aconchegante e, nos outros, não nos apartamos por sentir que o prazer vive em qualquer estação.

Juliana é falante. Oferece opiniões a rodos. Não há assunto que ela não se ponha a desenvolver. Sabe sobre emagrecimentos. Explica o que é potente para desfazer gorduras. Hélio, meu marido, ri das suas certezas, “Onde você fez faculdade de nutrição?”.

Juliana presta pouca atenção nas discordâncias. E prossegue receitando limões cortados em jejum, misturados com água morna e algumas gotas de um óleo milagroso que ela descobriu com uma comadre bastante sabida, segunda ela.Fato, Juliana pesa um pouco além do que gostaria e se justifica dizendo que tem problemas de circulação. 

Gosta de saber de enlaces amorosos. E é capaz de discorrer durante horas sobre o que dá certo e o que dá errado em uma relação. Se diz muito intuitiva. Basta uma mínima informação e ela decide a personalidade do novo pretendente de alguma amiga ansiosa. Decidiu ela permanecer sozinha, depois de algumas incursões em enlaces que juravam eternidade e se desfizeram em histórias mal contadas.

Semana passada, quis ela que Hélio espalhasse a dor de estômago misturando refrigerante, para limpar; com leite, para besuntar. Hélio se perdeu nos risos. Ela ficou ofendida, justificando que leu em diversas revistas científicas. E que, em um grupo qualificado de whatsApp, viu comentários de que os ciclistas de alto rendimento tomam coca cola antes das provas e que os nadadores se aquecem com leite. “Acho que leite de cabra, é fato”, disse ela.

Nos supermercados, Juliana, sempre bem arrumada, puxa conversa. Comenta sobre a escalada de preços e as frutas que caem melhor em cada ocasião. Fala de política, também. Omite opinões sem cerimônias.

É generosa, minha amiga. Se alguém morre, gasta os dias acalmando a ausência. Fez isso comigo, quando meu pai se foi. Hélio diz que ela deveria ter um programa de rádio chamado “Juliana responde”, porque não é possível alguém que não tenha cerimônia nenhuma em opinar sobre os mais diversos assuntos.

Ontem mesmo, no meio de uma conversa sobre finais de semana, disse ela que quem come uma maça por dia não terá problemas com cáries nos dentes. Que a maçã tem um ingrediente de limpeza mais potente do que um caro enxaguante bucal.

Vez em quando, jogamos baralho em casa. Ester joga conosco. Ester é amiga do silêncio e não se importa de ceder o tempo de fala à Juliana. Vez em quando, caminhamos e escolhemos uma padaria para espantar a fome. Sempre juntas.

Concebo a amizade como uma delicadeza do tempo para preencher de sagrado o espaço da existência. O tempo limpa o que deve ser limpo e deixa permanecer o que é forte.  O que sentimos uma pela outra é forte. 

Eu, também, tenho as minhas esquisitices. E ela não se importa. Finge que não repara. Hélio também sabe das minhas imperfeições e não as valoriza. 

Encontro pedaços de papel com escrituras poucas de um amor que faz questão de surpreender pedaços do meu dia. E rimos juntos, o que é prova de que a seriedade do amor não nos distrai do viver. Rimos, também, de Juliana e de suas certezas. E rimos com a Juliana da certeza de que o mundo se ajoelha diante de amores puros e agradece. 

Sei que há muitos barulhos por aí e que os sofrimentos estão descolorindo a vida. 

Mas me permitam, hoje, compartilhar um pedaço da vida que mora no pedaço do mundo em que resolvemos cultivar de amor.

De semente em semente, florestas são construídas. E isso não é opinião de Juliana. É a esperança que mora dentro de mim. Já pari filhos, já os permiti viverem.

Quisera eu parir felicidades, parir bondades, parir mundos em que o amor e a amizade governem. 

Utopia? Sonho? Pode ser. Pode ser, também, compreensão.  De um sentir bonito por poder sentir, e de um desejo sincero de compartilhar o sentir. A felicidade mora nas pernas do meu marido procurando as minhas, quando nos deitamos, e mora, também, nas falas desconectadas da Juliana e de suas sinceras demonstrações do cuidar.

Ela concorda comigo.

Ontem, vimos juntos o pôr do sol da varanda de casa. E havia um Roberto Carlos cantando: “Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar”.

Uma basta!

Prato de sopa quente

11.04.2021

Gabriel Chalita

Pela vagarosidade dos passos, já sei que é ela. A velha porta range na sonoridade do tempo. Sem solavancos. 

O taco antigo está acostumado com a ausência da velocidade, conquistada com o passar dos anos. Os altos sapatos já não guardam os seus pés. Ela prefere o conforto ao desfile. Embora desfile, dentro de mim, sem pausas. 

São 70 anos juntos. Inês ouve pouco e, então, grita quando quer dizer. Eu me perco nos esquecimentos. Tenho a memória dos ontens. Quanto mais distante o tempo, mais eu sei contar. 

Ontem, a Elaine veio nos visitar. E eu me vi perdido. Cada vez que falava um pedaço da vida, um pedaço da vida escapulia da minha lembrança. E, então, Inês, com as suas mãos desenhadas de tempo, apertava as minhas e perguntava: “Orlando, meu amor, do que você quer se lembrar?”.

Inês se oferece generosa para ser minha memória. Não lembro bem o que Elaine queria. Parece que brigaram. Ela e o marido, cujo nome me foge agora.  Os olhos marejados explicavam a dor. É difícil deixar de estar.

Inês fala alto tentando ouvir a dor de Elaine. É atenciosa. Sabe que ouvir é uma das mais belas expressões de amor. 

Amor que, por pouco, não se perdeu no barulho das escolhas não pensadas. 

Eu penso nos dias em que a porta se abriu e quase saímos. Ou ela ou eu. E que ventos de quentura nos convidaram. Eu era jovem, quando me engracei com uma outra mulher. Jovem e inseguro. Gostei de seduzir. E, então, quando olhei no triste olhar de Inês, chorei a dor que causei.

Ela disse nada. Sofrendo por dentro, descascava o necessário para preparar um prato de sopa quente.  Eu, arrependido, desembrulhava as palavras para entregar o meu pedido de perdão.

Ela ouviu. Olhou para fora do que doía e terminou o cozimento.

Sentamos nós dois e a noite. E bebemos a esperança de espantar a machucadura.

Outra vez, foi ela. Em um cansaço, quis deixar o que tinha. Teve jeito de pensar e, então, permaneceu. Ela nunca disse o que havia lá fora, e eu disse a mim mesmo que não era necessário eu perguntar. 

Quando hoje nos sentamos, lado a lado, de mãos dadas, depois de 70 anos de amor, eu agradeço as limpezas que fizemos juntos e o gosto bom da permanência.

Ontem, antes da chegada de Elaine, ela arrumava os cabelos e perfumava o dia cantando alto uma música religiosa. Não me lembro de qual. Só me lembro que gostei. Sempre gosto. Ela enfeita a minha vida, estando. 

Já passamos dos 90, os dois. Desisti de pensar no dia em que um ou outro vai partir. Prefiro que seja eu. As mulheres costumam viver mais. Prefiro que seja eu a preparar a casa nova em que continuaremos. Porque disso tenho certeza, continuaremos…

Ia me esquecendo de contar um pedaço de ontem. Elaine já estava pronta para se despedir nas inquietudes que têm as gentes que não sabem o que fazer, inda mais se tratando de paixão,  quando Inês pediu a dona Elza, que conosco trabalha há muito, que cozinhasse um jantar. Elaine dizia que estava em dúvida entre permanecer ou tentar esquecer. Não entendi muito bem. Presumo que nem Inês. Só ouvi seu conselho em alto e bom som: “Não decida nada antes de um bom prato de sopa quente”.

O tempo vai escapulindo e a vida vai se repetindo. Que bom que a porta da casa está bem fechada e que, nos cômodos de dentro de mim, só há espaço para Inês. 

“Orlando”, diz ela nos gritos de amor, “Venha dormir, já é noite”.

As chaves da Igreja

04.04.2021

Gabriel Chalita

Acordei com os sinos avisando a missa.

Acordei assustado. Quem toca os sinos sou eu. 

O dia ainda dorme e, também, a Igreja. 

Triste uma Páscoa sem alegria. A sexta-feira da paixão invadiu os outros dias santos. É de morte que estamos vivendo.

Os calvários acumulam choros que invadem as cidades de silêncio. Nada de sinos. Os cemitérios têm um barulho próprio. Os passos vagarosos dos afetos, que acompanhavam a entrega do corpo do morto a terra, precisaram aguardar. E nada de abraços. Só a dor permanece invadindo todos os dias. 

Trabalho, há muito, na Igreja de São Sebastião. Sou sacristão, tenho as chaves e a obrigação da limpeza. Ontem, fiquei sozinho ouvindo o passado e vendo as gentes que, nesses dias, se emocionavam com os quadros santos da paixão. 

A Igreja silenciosa de hoje é o mundo silenciado por uma pausa que teima em se estender. Os lenços das mulheres de ontem, piedosas, deram lugar às máscaras protetoras de vidas. E foi, em uma sexta-feira, que pregaram o pregador do amor em uma cruz. E que o mundo se ajoelhou silencioso, depois dos estrondos dos homens que gritavam ódios.

Um inocente condenado. Inocentes continuam sendo condenados. E os ódios não morreram nem em uma sexta, nem nos outros tantos dias da semana.

Padre Silvio, com sua voz rouca e emocionada, lia os textos sagrados e nos convidava a convidar o que havia de morrer em nós que morresse. Que morresse a arrogância. Que morresse a perversidade. Que morresse a desumanidade. Na humanidade de Cristo, passaríamos a um outro tempo. A um tempo de libertação e de vida. 

Sou de pouca leitura, mas de Bíblia conheço. A páscoa antiga era a passagem da escravidão para a libertação. Seguindo Moisés, o povo de Deus se ergueu contra o que aprisionava e foi caminhando em busca de um sonho. Na páscoa nova, a nova vida. A morte se despede no amanhecer do domingo. E, então, a vida surge vitoriosa. As mulheres corajosas viram que o corpo sem vida era passado.

O sol havia mandado embora a escuridão. 

Há escuridão no mundo de hoje. Os medos não são só de um vírus que mudou a vida. Os medos são do vírus da insanidade, do desrespeito, do desamor. 

Sempre me intrigava pensar no que aconteceu com os que, em um domingo de ramos, festejavam a chegada de Jesus e, dias depois, mudaram de opinião e gritaram ódios exigindo sua morte.

O mundo continua matando. Por que demoramos tanto a aprender? 

Não nascemos para a escravidão. Não nascemos para espalhar mortes.  Nascemos para a compaixão. 

Algumas mulheres permaneceram ao lado de Jesus, enquanto muitos homens, por medo, o abandonaram. Mulheres fortes que se alimentaram de lágrimas e esperança. 

Janice, minha mulher, se foi em inverno antecipado. Demorei a aquecer os meus dias. Sua lembrança, hoje, já não dói, já traz alívios e gratidão. Vivi um amor simples durante anos de minha vida. Vivi muitas páscoas com ela e muitas primaveras em diferentes estações.

Vou a Igreja daqui a pouco. Sozinho, vou ajoelhar a vida e rogar à vida que vença a morte. Prossigo acreditando na páscoa, prossigo passando os meus dias soprando amor nos cantos que conheço.

Me reconheço em cada humano e, por isso, sofro por todos, mesmo pelos que não conheço. E, por isso, canto a liberdade na oração em que reconheço Deus. 

É páscoa. É dia de lembrar a vida, a vida milagrosa que não desiste nunca de nascer.

Faltou ar

28.03.2021

Gabriel Chalita

Eu não entendi direito o que aconteceu. Só sei que aconteceu. A Fabíola morreu. 

A Fabíola é filha da Antonia, enfermeira das doenças do corpo e dos abandonos da alma. Eu mesma fui, por ela, acolhida desde sempre.

Meu pai morreu antes de me conhecer, não pôde esperar. E minha mãe, de doença em doença, viveu de ausências. Lembro dela, em um inverno inteiro, em qualquer estação. No dia em que ela foi ser recebida pelo meu pai, é o que quero acreditar, descansei de ver a sua dor e doí inteira a sua partida. 

Antonia, desde sempre, falou dentro de mim, e, então, permaneci vivendo os meus dias. Nunca pude desistir. Ela não deixava. Ria das esquisitices dela mesma, das manias que toda gente tem e que nem sempre revela. Ria de estar viva e de ser feliz por inteiro. 

A luz acordava esclarecendo o dia e me lembrando de que a bondade era minha vizinha. E ela pedia licença para entrar e trazer um pedaço de bolo de milho com coco para explicar à vida que merecíamos saborear a alegria. Depois, me arrastava para caminhar. E, se eu estava triste, dormia no sofá dos meus medos para espantar o que me trazia desconforto. 

Essas coisas eu não concordo. Por que justo a filha dela teve que morrer? A filha que cresceu comigo. A filha que me ensinou a ficar bonita, usando maquiagens estrangeiras que a mãe comprava. E ria o mesmo riso da mãe. Usavam, vez em quando, a mesma roupa. Era bonito demais de ver. A mulher e a menina e o mundo inteiro cabiam naquele amor. 

A Alzira, que é muito religiosa e frequenta sempre a minha vida, disse que me falta fé. Que nem tudo tem explicação. Mas eu não entendo. A mãe só faz o bem, a mãe tem uma única filha, a mãe já não tem mais a única filha, e sei que ela vai continuar fazendo o bem. Só que com o coração faltando o maior pedaço. 

Eu sei que, como a Antonia,  como eu e a Alzira, tem muita gente sofrendo nesses tempos. Enquanto uns brigam, outros enterram seus mortos sem despedidas. E voltam para casa querendo acreditar que o dia da dor não existiu. Existiu, sim.

Tão pouca gente no enterro de Fabíola. Velório nenhum. E Antonia despedaçada sem dizer nada. Ela que cuidou de tantas vidas, nesses tempos horrendos. Ouvia suas emoções dizendo da tristeza de não ter respirador para todo mundo. De mães gritando, quando recebiam a notícia, de filhos inconsoláveis. E, agora, era a vez dela.

A filha morreu no mesmo hospital em que ela trabalha. No corpo sem vida, o útero seco engolia nada de um desmentir da natureza das coisas. Não é justo uma mãe enterrar uma filha. 

Alzira disse algumas palavras. Fez uma oração triste e bonita. Tudo muito rápido, como rápido foi o existir da vida de Fabíola. Da Fabíola que sonhava em ser enfermeira como a mãe, que brincava de medicar as bonecas, que ajeitava o quarto como se fosse um hospital de criança.  O quarto ainda está lá com os brinquedos, sem compreender a ausência. As gavetas revelam pedaços de papel com vidas inteiras, fotografias das duas juntas, paninhos, bijuterias, cadernos e não sei mais o quê, parei de ver. Sobre a mesa do quarto, outros retratos, perfumes, maquiagem e uns bilhetes de amor. No espelho, grudada uma das tantas cartinhas da mãe, quando saía cedo para trabalhar e queria surpreender a filha.

Meu Deus, e agora? Eu sei que, em toda a rua, mora uma dor, mas é a Antonia que eu conheço que, hoje, sente a dor mais doída do mundo.

No rádio, dizem que já morreram mais de 300 mil pessoas. Eu pego a minha Bíblia e a aperto contra o peito. Fico em silêncio conversando com Deus. Ouço os comentaristas falando que demoramos para acreditar no vírus, na vacina, na ciência. Falam de outros países que cuidaram melhor dos seus filhos. 

Eu não entendo dessa brigaiada toda. Não concordo com quem concorda com a mentira.  Falam de armas. Eu que sou da paz, fico intrigada. É disso que precisamos? 

Estou fazendo uma sopa para levar para Antonia. Eu sei que ela tem fome nenhuma, mas vou ficar perto dela, talvez sem dizer nada, talvez chorar doído com ela. Faço a confissão da sinceridade, o tempo vai aliviar um pouco, mas a vida sem Fabíola vai ser um jardim difícil de brotar beleza. 

Céus, é a Antonia cantando. “Acorda mulher, o dia está lindo”.  Que horas são? Ufa, no meu caso, foi um pesadelo…

Onde mora o amor

21.03.2021

Gabriel Chalita

Era o despedir de um dia no Rio de tanta beleza. O bairro era o que já havia inspirado a canção de uma menina linda, cheia de graça.

Uma menina que vem e que passa num doce balanço a caminho do mar. 

A rua era uma entre tantas onde as gentes se locomovem ou param. Conversam ou silenciam.

Eu estava em uma calçada, quando vi, na outra, uma das tantas mulheres que vivem nas ruas se ajoelhar. Era uma oração, talvez. Foi o que pensei. Era um descansar o mundo. Era um desabar na barulhenta cidade.

Fiquei preso àquela imagem. Os cabelos desajeitados embaralhavam, ainda mais, os seus pensamentos. A pele exaurida pelos anos apresentava a idade. Era uma velha mulher. E, de cócoras, com as pernas se abrindo para abaixar mais, ela levou as mãos a uma água suja que ficava na rua rente à calçada. E, fazendo concha, bebeu com fervor a ausência de humanidade para com ela. 

O movimento das mãos foi me silenciando, me emudecendo. Os meus pensamentos que, um pouco antes, viam a lua que se adiantava, naquele dia, já não resistiam a nenhum outro pensar. Quem era aquela mulher? Como ela chegou até ali? O seu vestido branco sujo de abandono, os seus pés descalços de qualquer cuidado, seu sorriso sem significado. Era o que eu via. Ela tinha a idade da dor. E eu a idade da omissão. 

Nada fiz. Apenas, vi. Pensei em comprar água, pensei em oferecer alimento, pensei em cuidar dela. E nada fiz. O tempo foi escapulindo e eu nada fiz. 

A demora da minha decisão fez com que ela caminhasse na solidão da rua e se perdesse no mundo grande onde ninguém vê ninguém. Fiquei imaginando o seu nome, a sua dor, o seu destino. Dormi com ela, naquele dia, e acordei em desalinho com os meus afazeres. 

Ela é uma e eu sou tantos. Ela é muitas e eu sou apenas um. Tenho voz e não digo, tenho braços e não abraço, tenho coração e amo pouco. 

Lembrei de uma poema de Mário Quintana que escolhia as palavras para escolher a vida, a vida simples, a vida pura como a água bebida na concha das mãos. A água de Quintana é água cristalina. A água da mulher que me acompanha é água dos restos de um dia sujo, dos cantos das ausências, de uma mente sem condições de compreender. 

Perto dali, havia uma torneira. A torneira do mundo estava seca para ela. Sua cabeça, tão sem cuidados, já não conseguia perceber. Foi o que vi. Foi o que senti. Se a ela pudesse dar um nome, chamaria de Maria. Não sei por quê.

Ou, talvez, saiba. Talvez queira que o sagrado a proteja de nós, que pouco fazemos, por medo ou por acomodação. 

Bebi em fontes límpidas na minha vida, mergulhei em cachoeiras abundantes, nadei em águas reconfortantes. E Maria? Como foi o seu ontem? Como serão os dias que virão?

Na canção de Vinicius e de Tom Jobim, a Garota de Ipanema, quando passa, faz com que o mundo inteirinho se encha de graça por causa do amor. Decidi acordar o dia e ir à mesma rua procurar Maria. 

Quem sabe ela esteja. Quem sabe eu não fique petrificado e plante no mundo alguma bondade. Quem sabe ela me ensine que eu não deva terminar dia algum de minha vida sem oferecer, na concha das minhas mãos, um pouco de amor. 

De cócoras, pariu o abandono.

Onde mora Maria?

Onde mora o amor.

Gavetas da alma

14.3.2021

Gabriel Chalita

Foi no dia em que dormi pouco que percebi o tanto de guardado que tenho em mim.  A noite grande prolongou os meus pensamentos se esquecendo dos meus cansaços. 

Foi no dia em que os nossos olhos, depois de tempos, se cruzaram. Não fui eu quem fechou a porta. Não fui eu quem encontrou, em um outro, a disposição para prosseguir. Mas fui eu quem sofreu as ameaças, as acusações, a mentira. 

Juntos, resolveram viver de tentar retirar de mim o que não tinham. Os mentirosos sempre caem no cadafalso da infelicidade. E os seus risos riem nada, apenas ensaiam um enfeite para disfarçar o que, de fato, são. Custou a mim entender no que ela se transformou. 

Ela olhou e desviou. Disse nada. Talvez a vergonha tenha acelerado o seu passo. Devolveu ódio, depois de anos de amor. Namorávamos o dia, brincando de uma infância prolongada. Jurávamos eternidade. Espalhávamos pétalas de alívios quando os espinhos, tão comuns aos cotidianos, nos cortavam. 

E, então, um falador de baixa estatura a convenceu a mentir. Homem pequeno em tudo, inclusive no caráter. Será que ela não percebeu ou será que eu não percebi que a imagem linda dela fui eu quem construiu? Fazia tempo que não nos víamos. E não nos vimos, porque já não somos quem éramos.

Os pensamentos da noite grande me fizeram abrir as gavetas da alma. São muitas. A primeira que abri me entristeceu. Uma desconfiança na humanidade foi me convencendo de que amar é desperdício. Fiquei remexendo e limpando e vasculhando e a incompreensão me fez fechar. E abrir uma outra. Minha infância estava lá. Então, ri de tempos que, amontoados, faziam ver o que um dia fui antes do hoje. Da criança que pedia histórias e mais histórias para viajar. Em outra, estavam trabalhos por onde passei, pessoas lindas que calejavam as mãos para plantar mundos bons.

Abri uma outra e encontrei o olhar doce do meu pai. Sua voz foi dizendo frases e, então, adormeci. Acordei abrindo outra gaveta, era o sorriso de minha mãe. Inteiro. Lindo como os dias de sol. E abri outras, já calmo de lembranças ruins.

A gaveta da sabedoria que comanda as gavetas da minha alma não pode ficar fechada. É ela quem guarda e me oferece as chaves corretas para abrir no tempo correto e, quando necessário, limpar o que deve, apenas, servir de recordação. 

Decidi não odiar quem um dia amei. Abracei o resto que ficava da noite e, então, adormeci. A luz não perguntou se eu precisava de mais tempo. Chegou trazendo o dia e explicando o tempo do levantar. Estava bem, cheio de forças para abrir a porta de mais um dia e carregar comigo a disposição amorosa dos encontros. 

Gratidão viver o tempo dos encontros. A gaveta da sabedoria me empresta óculos de compreensão para agradecer por cada amigo que enfeita de vida a minha vida. Alguns estão há anos, outros vêm chegando e ficando. Vez em quando, nos estranhamos, imperfeitos que somos. A gaveta do perdão precisa ser grande; se não, a gaveta da felicidade, a primeira de todas, a razão pela qual nascemos, fica emperrada. 

Saio de casa e vejo o dia inteiro me esperando. E caminho no mundo respirando a vida grande que há mim.

O trocador de sonhos

07.03.2021

Gabriel Chalita

No alto da rua que ficava perto da rua da minha infância, morava um distribuidor de bondades. Não sei precisar a idade que tinha o tal José Alegria. Nem conseguiria desenhar, hoje em dia, um rosto tão pleno de vida.

Eu era menino e acreditava em sonhos.

José Alegria tinha a profissão peculiar de ajudar as pessoas. Histórias eram ditas sobre ele. Sorrisos brotavam nos que o encontravam pelo caminho. O que ele tinha de especial? Era ele um trocador de sonhos.

“Como assim?”, perguntei ao meu pai que, sereno, me devolveu.

“Filho, você nunca quis trocar um sonho?

Naquela noite, os meus sonhos eram tantos que teriam que fazer fila se quisessem ser sonhados. Eu tinha tanto futuro em mim, tanta vontade de iluminar o mundo. De ajudar os que, caídos ou perdidos, acenavam com as mãos.

Acordei pensando. O que sonha quem não tem um amor? O que sonha quem não tem o que comer? O que sonha quem está sofrendo uma injustiça? O que sonha quem está doente? E, quando a doença se vai, ele troca o sonho que tinha?  E os sonhos impossíveis?

Quando meu pai morreu, a casa, vazia dele, ficou em silêncio. E, então, eu sonhei com ele menino. Sem doenças nem dores. Menino na horta, menino na escola. Menino querendo encontrar um amor. Foi quando eu tomei meu pai menino, em meu colo, e disse o que haveria de nascer. Quando, em meu sonho, falei de minha mãe, ele, menino, sorriu ressabiado.

Desinteressado do meu sonho lindo, o sol nasceu. E eu, que já não era mais menino nem encontrava com o José Alegria, chorei a saudade do meu pai. Meu pai menino em meu colo.  Nos almoços grandes de domingo, era o contrário. Era em seu colo que eu crescia.

O enterro de José Alegria movimentou a pequena cidade. E agora? O que iria acontecer com os que, por ele, eram ajudados? E quem quisesse trocar de sonhos? Sonhei, muitas vezes, com ele. E, confesso que, tanto tempo depois, já não sei o que é sonho e o que é desânimo. Alguns dias, vivo um dilúvio de sentimentos ruins em meu peito e uma babel de confusas conclusões em minha mente.

O que houve com os sonhos? Ouço gritos. Ouço cinismos barulhentos. Ouço mentiras que se oferecem como chuva para uma terra seca. E os sonhos? É possível trocar os sonhos de quem não tem nenhum?

A doença vai rasgando a terra onde se esperava fruto e flor. Em meu sonho, a esperança nunca deixou de estar. Nem quando teve que ficar apertada, convivendo com as dores das despedidas e das desilusões.

Ontem, eu via o dia criança. Hoje, envelheço quando ouço os meus companheiros e me calo. Queria convidar cada um deles a visitar a casa das palavras e, em silêncio, compreender antes de escolher. E só depois oferecer uma a uma ao mundo.

O José Alegria cultivava o amor como quem conhece a vida. No dia em que ele se foi, aprendi que uma história só merece aplauso se for uma história de amor.

No alto da rua que ficava perto da rua da minha infância, já não sei mais quem mora. Sonhei, um dia desses, que moravam sementes escondidas que ainda não nasceram. Pedi, então, para trocar de sonho. E imaginei uma chuva delas amanhecendo amanhã um mundo melhor.

A dor da vida

28.02.2021

Gabriel Chalita

Eu voltava da missa da quarta-feira de cinzas, quando caí em dor. Voltava feliz. 

Padre Antonino tem um jeito humano de nos trazer Deus. Um olhar que une o que o interminável inverno do mundo vem desunindo.

Gosto das músicas e do silêncio. Das explicações e do tempo das esperas. 

É quaresma. O espaço das pedras que ferem precisa ser convertido em jardins que acolhem. 

Chorei os meus erros e fiz promessas de vida nova. Quero limpar meu coração para a Páscoa. Quero vida em mim. E foi assim que deixei a Igreja e caminhei passos tranquilos para minha casa. 

Foi quando Julia disse a solidão que a incomodava desde a morte do marido. 

Resolvi mudar o caminho e fui com ela conversando sobre despedidas e sobre a fé. E, então, vi o que não queria ter visto. Nadir, meu marido, beijando uma mulher dentro de um carro.

Tropecei em mim mesma. Ele me viu. Disse nada e foi caminhando sem ela. Passou ao meu lado e se foi. E ela deu partida no carro. 

Entrei na casa de Julia e desabei. Ela achou estranho que eu não soubesse. Talvez eu soubesse. Ela falou do quanto ele era grosseiro. Eu concordei, ampliando. Nos modos e nos pensamentos. 

Às vezes, tenho vergonha. Outras, tenho vergonha de mim por gostar dele. E gosto. 

Fechei um pouco os olhos no sofá da minha amiga. Meus sentimentos barulhavam o frio que me consumia, quando pensava em viver sem ele. Quem era a mulher que estava com ele? Veio entregar em casa o seu brinquedo e parou em uma outra rua para que eu não visse? De onde estavam vindo?

Julia sugeriu que eu decidisse. Eu disse que não conseguia. Se sonho, é com ele que sonho. Quando acordo, é a imagem dele que me desperta. Que vejo. Que viajo nos dias em que ele não estava. Sim, porque ele já me deixou. Mais de uma vez. 

“Até quando?”, foi a pergunta que caiu de Julia. “Até quando?”.

Vitor, meu filho, não suporta o pai, que tem vergonha do filho. O pai queria um filho macho como ele. O filho queria um pai amoroso como ele. E minha falta de ação em nada ajuda. O filho lamenta as piadas preconceituosas que o pai conta. E o meu riso. Mas eu não rio de concordância. Rio de nervoso, de tristeza, de medo de não ter mais ninguém para amar. 

Julia oferece que eu durma em sua casa. 

Agradeço e enfrento as pedras nas ruas poucas que me separam da minha. O pó dos instantes vai me dar forças para fazer o correto. A dor da vida não inclui o desmanchar da alma. 

Vou me refazer. É quaresma. Quero vida, em mim, na Páscoa.