Nascido em Cachoeira Paulista, há 36 anos, Chalita mantém a incrível média de mais de um livro por ano de vida, nas áreas de Direito, Filosofia, Política, Pedagogia e Biografia. Entre os títulos de suas obras estão: Educação, a solução está no afeto; O livro dos Amores, Os 10 Mandamentos da Ética, Carta Aberta para Minha Mãe e O livro dos Sonhos.
A trajetória, que começou com o incentivo de uma professora aposentada que morava em um asilo, o levou a se envolver desde a adolescência com educação. Sua formação impressiona tanto quanto sua produção cultural: é doutor em Direito e em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mestre em Ciências Sociais e Direito pela mesma instituição e, além de ser bacharel em Direito, cursou Filosofia. O secretário de Educação do Estado de São Paulo recebeu a AT Revista em seu gabinete, na Capital, para falar sobre seus temas preferidos.
Início – Seu despertar para a educação
se deu por meio dos livros e
do incentivo de uma professora
aposentada. Como foi isso?
Eu morava ao lado de um asilo, em
Cachoeira Paulista, minha cidade natal.
Ia muito ao lugar, gostava de contar
e ouvir histórias. Lá conheci uma
professora aposentada, dona
Hermelinda, que me emprestava livros
-eu tinha 8 anos, mais ou menos. Eles
eram complexos para a minha idade e
é claro que eu entendia muito pouco,
quase nada, do que estava escrito. Li
Entre Quatro Paredes, do Sartre, com
9 anos, e também Clarice Lispector,
Thomas More. Mas ela me
tranquilizava dizendo que as palavras
são mágicas e, quando menos percebemos,
elas tomam conta da gente.
Foi daí que nasceu, também, seu
gosto pela escrita?
Sim, essa mesma mulher me incentivou
a escrever. Com 12 anos, eu já
tinha livro publicado. Ela me abriu portas
muito interessantes para que eu
gostasse do mundo da literatura, me
apaixonasse pelos livros. Eu, como
professor, talvez não indicasse obras
que os meus alunos não tivessem condições
de compreender. Mas, no meu
caso, deu certo. Gostava muito dos livros
e a compreensão veio com o tempo.
Se hoje tenho 37 livros publicados,
devo muito a essa mulher extra-ordinária.
Figuras mais velhas são comuns
na sua trajetóría?
Meu pai se casou com 40 e poucos
anos e, ainda por cima, eu sou o
caçula temporão. Quando eu era pequeno,
ele tinha idade para ser meu
avô. Me contava muitas histórias, também.
Sempre gostei de aprender com
pessoas mais velhas. O ex-governador
Franco Montoro (falecido em 1999)
foi um segundo pai para mim. Eu achava
fantástico o entusiasmo e a paixão que
ele tinha. Foram pessoas muito legais
que me ajudaram.
literatura – E como está a carreira
de escritor do secretário de Educação
Gabriel Chalita?
Não pára. Escrever é uma grande
paixão. São seis milhões de livros vendidos.
Hoje escrevo menos do que
quando tinha 20 anos, época em que
cheguei a lançar cinco obras em um
ano. Em 2005 são apenas dois: o Educando
em Oração, que saiu em agosto
e já vendeu 150 mil cópias e, neste
mês, chega às livrarias meu 38º livro,
A Ética do Rei Menino, da Editora
Rocco. É um romance infanto-juvenil,
todo ilustrado, que vem acompanhado
de três CDs com músicas do Guto
Graça Melo. Eu narro a história e as
músicas acompanham. Tenho dois publicados
fora do Brasil, também.
Vai enfrentar, então, o Harry
Potter na casa dele, a Rocco! Sobre
o que é o livro?
É sobre o reino mágico da consciência.
Há o rei menino, que conduz
esse reino, onde todo mundo é bom e
há uma
velha figueira que conta histórias de
outros lugares, não tão bons, como o
pântano, que engole a bondade das
pessoas. A história mais triste é a do
bezerrinho, que perde o amor do pai,
o Touro, e vai ao pântano. Um dos
momentos mais bonitos do livro é o
diálogo da mãe do animalzinho, tentando
salvá-lo. É um trabalho bem legal,
temos até a idéia de transformá-lo
em filme mais tarde.
O que é preciso para que os estudantes
também desenvolvam
esse interesse por livros? Será que
é uma figura como a de dona
Hermelinda?
Acho que sim. Infelizmente, a educação se preocupou
com o aspecto da
leiturização, em identificar
elementos gramaticais
nos textos, e negligenciou
o resto. Então,
em um texto do Machado
de Assis, os professores
querem que o aluno
diga quantos
dígrafos, hiatos e ditongos
tem em certo parágrafo.
É a mesma coisa
que no ensino de Inglês:
todo mundo começa
ensinando o verbo To
Be e, no final da terceira
série do Ensino Médio,
ninguém sabe o
verbo To Be. Porque
começou errado, sem
falar propriamente Inglês.
Você acha que
também falta paixão?
É, a literatura deveria
ser assim… com paixão.
Assim como escrever:
se você manda
o aluno fazer um texto e
começa a corrigir, dizer
que não se pode colocar
vírgula entre isso e
aquilo ou que o ponto
está no lugar errado, vai
engessando a
criatividade e ele passa
a não produzir. O Paulo
Freire falava muito
isso e foi mal interpretado.
Achavam que ele
dizia que até o analfabeto
podia escrever. O aluno precisa,
primeiro, se fascinar com a escrita e
com a leitura. Depois, em um segundo
passo, ser corrigido. Esse é um equívoco
do ensino público, privado, de
universidades. A pessoa deveria ser
conduzida para se transformar em lei-tora
ávida. E a escola não faz isso, ela
engessa. O aluno acaba lendo resenhas
dos livros que caem no vestibular no
lugar de ler as publicações inteiras. É
um desperdício, perde-se o encanta-mento.
educação – E o que poderia mudar
isso?
Tem que começar pela família.
Quando o pai lê para o filho desde
cedo, ele desenvolve esse hábito e vai
gostando de histórias. É claro que a
televisão e o rádio ajudam, mas a leitura
provoca uma consequência, do
ponto de vista cognitivo, que a televisão
não consegue – que é o de imaginar
coisas que você não está vendo.
Sob o ponto de vista da criatividade, é
um meio muito mais rico. A história do
Machado de Assis com a madrasta e
a do Goethe com a mãe ilustram bem.
Como é?
A mãe do Goethe contava histórias
na hora de donnir e, igualzinho à
Shehrazade de As Mil e Uma Noites,
não revelava o final. No dia seguinte,
ele falava para a avó o que imaginava
que seria o fim da história. Sem ele
saber, a avó contava para a mãe, que
terminava a história, na noite seguinte,
do jeito como ele tinha idealizado. Então,
o garoto se achava o máximo! E
começou a escrever por causa disso.
No fundo, o ser humano é muito emocional.
Se você vai para a leitura por
um caminho emocional, não larga nunca
mais.
escola – Essa paixão pode se estender
para as outras matérias? O
que está mudando dentro do ensino
para fazer com que o aluno tenha
prazer em ir à escola?
Hoje há um investimento muito alto
na formação de professores. São Paulo
gasta R$ 120 milhões nessa
capacitação. Não tem outro Estado
que chegue perto disso. É um diferencial.
O Estado paga para qualquer professor
titular fazer mestrado. Temos
alguns estudando na Espanha, Inglaterra
e estamos fechando com a Argentina
e Portugal. Investir no professor,
nos diretores de escola, é tudo.
Eles devem gostar daquilo que fazem.
Temos alguns dados que mostram que
a escola melhorou. Um deles é a queda
na evasão. Hoje, São Paulo tem,
da 1ª à 4ª série, 0,7% de evasão. São
números de países como Suíça e
Espanha. Mostram que a escola está,
pelo menos, um pouco mais acolhedora.
Mas ainda há o desafio de
transformá-la em um espaço prazeroso.
E como você acha que isso vai
acontecer?
Com professores melhor capacitados
e pais participando do processo,
principalmente. A Escola da Família,
nosso grande programa, com o conceito
de levar os pais para dentro da
escola, recebeu uma série de prêmios
internacionais. Cada região resolve o
problema de uma forma, mas o programa
é um sucesso. As mudanças no
mundo têm que ocorrer a partir de
microrrevoluções. E com a família, também,
a educação começa em casa,
com o pai que devolve o troco que
recebeu a mais, que não grita no trânsito,
que não joga o papel no chão…
O filho observa.
E o papel do professor nisso
tudo, qual é?
O professor deve ser um maestro,
perceber a liderança que tem dentro
da classe, sem precisar apelar para o
autoritarismo. Se ele gritar no primeiro
dia, terá que gritar o ano inteiro. É preciso
ter uma relação de respeito, de
referencial. E como se faz para que isso
chegue realmente a acontecer?
Capacitação. Tem que formar, perseverar
E mostrar ao professor que ele pode
fazer de outra forma.
E os alunos-problema, aqueles
que vão mal tanto em notas quanto
em comportamento. Como eles são
trabalhados hoje?
O professor precisa ajudá-lo a descobrir seu talento.
Se percebe que na música,
por exemplo, o aluno é ótimo,
todo o resto passa a ir bem por tabela,
porque a auto-estima melhora.
Isso vale para desenho, esportes… Tem
que haver alguma coisa em que o aluno
diga: sou muito bom nisso. A partir
daí, o resto acontece.
Uma polêmica antiga envolvendo
a educação é a questão da progressão
continuada. Ainda há muitas
criticas?
Hoje a polêmica é bem menor. A
progressão continuada não significa
passar analfabetos de ano. Os números
mostraram que os Estados que adotaram
a estratégia são os melhores do
Brasil (São Paulo, Rio Grande do Sul,
Minas Gerais e Pernambuco). A progressão
exige muito mais do professor.
Reprovar o aluno porque ele não
é bom faz com que o professor se sinta
descompromissado. Na progressão,
a missão é ajudar aquele aluno a se
recuperar, fazer com que ele melhore,
mandar para o reforço. Não se deve
aprender por medo de reprovação,
mas sim porque se tem prazer pelo
conhecimento. Não se pode mais trabalhar
com pedagogia de fracasso.
religião Outra polêmica é a do
ensino religioso. Como gerenciar
as várias crenças dentro de uma
sala de aula sem ofender ninguém?
Em São Paulo temos ensino religioso
só na 8″ série. Acho que o ensino
religioso não deve ser confessional.
Todo mundo sabe que tenho uma participação
imensa na Igreja, sou católico
praticante, frequento missa, tenho
programa de televisão em emissora religiosa…
mas é preciso separar bem as
coisas. Se a pessoa quer desenvolver
a catequese, ela vai à igreja na qual
acredita. A escola, quando trata do
ensino religioso, precisa trabalhar
valores, que é algo que dialoga com todas
as religiões.
E quais são esses valores?
Quais são os valores comuns a todas
as religiões?
O amor, a ética, a esperança, a felicidade,
a convivência. Pegue esses
valores e trabalhe sob o ponto de vista
religioso. Não tem briga, as pessoas
aprendem a se respeitar. A intenção não
é converter ninguém nem mandar qualquer
pessoa para a Igreja, mas é ajudá-la
a perceber que, em uma sociedade
absolutamente materialista, voltada
para o ter, é possível refletir sobre o
ser, sobre a essencialidade, sobre valores.
Nesta perspectiva, acho que o
ensino religioso funciona. Em outra, na
qual você obriga o aluno a participar
de uma religião, há um equívoco, porque
o efeito é o inverso, ele não quer ir
de raiva por estar sendo obrigado.
Como buscar a formação de um
cidadão completo?
O artigo 205 da Constituição federal
fala dos três objetivos da educação:
formar a pessoa, o cidadão, e preparar
para o mercado de trabalho.
Formar a pessoa é lhe transmitir valores,
visão cidadã e dar equilíbrio emocional.
Às vezes, você tem o profissional
que sabe bem do seu trabalho, mas
não consegue desenvolvê-lo, porque
não tem equilíbrio, briga por qualquer
coisa, não consegue trabalhar em equipe,
é infeliz, não consegue se realizar.
Nesta perspectiva de formar integral-mente
a pessoa, trabalhamos com teatro,
dança, música, com arte de forma
geral. E muito esporte, que leva ao
desenvolvimento de habilidades úteis,
como saber ganhar, perder e ter espírito
de equipe.
cidadania – Essa proposta de formação
completa do aluno inclui
também a sensibilização do jovem
por meio de ações de cidadania?
Há gente que defende
a inclusão de
uma matéria chamada
Ética ou Cidadania,
como existia antigamente
OSPB e
Educação Moral e
Cívica. Acho que
esse não é o caminho.
O certo é abordar
cidadania e ética
em todas as matérias,
de forma trans-versal,
pegando
pontos específicos
gerados pelo estudante.
Por exemplo,
o aluno chega na sala e comenta sobre
o Maradona. O professor pega isso e
fala sobre drogas. Aproveita as oportunidades
geradas pelos próprios alunos.
Trabalhar com jornais em sala de
aula, como A Tribuna faz com o programa
Jornal-Escola e Comunidade, é
um acerto tremendo, porque ali você
tem matérias curriculares de forma
completa, viva.
As cotas para minorias também
provocam até hoje muita discussão.
A saída para a democratização do
ensino superior não seria um ensino
público de qualidade compatível
com o privado?
Investimento na educação básica é
a saída, sim. O processo de seleção
também precisa ser diferente. O Enem
é muito mais inteligente do que o vestibular,
porque trabalha habilidades e
competências de forma mais efetiva.
Pego como exemplo a Universidade
Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) ,
que adotou uma política de cotas muito
agressiva no início. A evasão foi
imensa. Porque a maioria das pessoas
que entra pela cota não consegue se
manter no curso. E a questão do
mérito fica prejudicada.
Sei que há injustiças
históricas a serem
reparadas, mas acho
que a maior, hoje,
não está na cor, mas
na área social. Negros
de classe média
não têm problemas
para entrar na universidade.
Cotas são
paliativas, é preciso
dar conteúdo, consistência.
E consistência
vem com boa
educação.
futuro – Os três
países apontados como donos do
melhor ensino do mundo são
Coréia, Espanha e Noruega. O que
falta para o Brasil alcançar este
nível? É questão de tempo, de trabalhar
as novas gerações para um
reflexo futuro ou algo a médio prazo
pode ser feito?
A Coréia trabalha alguns conceitos
que nós também trabalhamos, como a
participação dos pais. Porque a escola
fica com o aluno quatro, cinco horas,
o resto é a família. Lá foi feito até
um trabalho de constrangimento, de
ameaça de perda de pátrio poder se
não houvesse a participação. O segundo
ponto é buscar outras atividades,
não só as cognitivas, como a música,
dança e esporte, que alguns educadores
no passado chamavam de perfumaria
e que hoje se vê que estão bem
longe disso.
E o que prejudica o Brasil na
comparação com estes exemplos?
Uma única palavra:
descontinuidade. Uma coisa que é cruel
para a educação é, quando se muda
o ocupante do poder executivo, o novo
querer deixar sua bandeira e mudar
tudo o que estava sendo feito.
Educação tem que ser política de Estado,
deve permanecer a mesma, independentemente
do governo ou partido que
ocupa o cargo.
preferências Voltando aos livros:
ainda dá tempo de ler, mesmo com
tantos compromissos?
Leio mais de um livro por vez, em
viagens etc. Sempre duas ou três
obras, além de tudo o que sai novo
sobre Filosofia. Releio clássicos como
os de Clarice Lispector, Machado de
Assis, Guimarães Rosa. Recentemente
reli a série Ramsés, do francês
Christian Jacq, para relembrar principalmente
da visão do egípcio -que é
bem diferente da judaica ou cristã -sobre
Moisés, porque um amigo meu
está escrevendo um livro sobre ele e
eu farei o prefácio. Acho que temos
que ler muito, o tempo todo. Existem
séries muito legais, como aquela da
Marguerite Yourcenar, Memórias de
Adriano. Tenho, entretanto, um pouco
de cisma com obras que fazem muito
sucesso. Ainda não li nenhum dos Hary
Potter nem O Código da Vinci.
O norueguês Jostein Gaarder,
que esteve recentemente no Brasil,
produz Filosofia de uma maneira
simples, quase para crianças. O
que o senhor acha de seus livros?
Li duas obras dele: O Mundo de
Sofia e O Dia do Coringa, apenas.
Acho que são livros legais pela possibilidade
de levar as pessoas a conhecer
Filosofia, tema que ele traz para o
cotidiano. Não são obras profundas,
mas têm o mérito de fazer as pessoas
buscarem mais por conta própria.
Acho apenas que ele tem uma linha na
Filosofia e despreza as outras.
Cinema e teatro também são
paixões suas?
Sou fascinado por cinema e teatro.
Acho que essas duas artes ampliam os
horizontes e ajudam a pessoa a ser
melhor. Gosto muito de filmes de arte,
tenho pavor dos violentos.
É preconceito, mas, como tenho pouco tempo
de lazer, prefiro os mais inteligentes,
que levem a uma reflexão. Acho que o
cinema no Brasil está incrível, achei
Dois Filhos de Francisco maravilhoso,
um orgulho. Com teatro a relação é
ainda mais próxima. Tudo o que está
passando em São Paulo eu já fui ver.
Assisto mesmo ao que acho que pode
ser ruim, porque temos que prestigiar.
Acredito no processo da arte como
ajuda de desenvolvimento da sensibilidade
das pessoas. Cultura é algo barato.
Se os governos refletissem bem,
esporte e cultura são duas áreas que
não custam muito, menos do que saúde
e segurança. E são dois caminhos
bons para economizar. Porque a pessoa
fica menos deprimida, vai menos
ao médico. Jovens ligados em bandas
de música ou esportes se envolvem
menos com violência. Polícia enxuga
gelo, nunca vai resolver o problema.
Educação, sim.