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Uma mulher muito especial

Por Maria Paola de Salvo (Revista Veja)

Ela precisa de ajuda até para tirar um fio de cabelo do rosto. Mas, com uma vontade incrível de realizar, a tetraplégica Mara Gabrilli trabalha até dez horas por dia para incluir o 1,5 milhão de deficientes em São Paulo. Tetraplégica desde 1994, ela trabalha dez horas por dia para melhorar a vida dos paulistanos deficientes e com dificuldade de locomoção.

Os dois celulares da publicitária e psicóloga Mara Cristina Gabrilli não dão descanso. Numa das ligações, Cláudia Gabrilli tenta, sem sucesso, cavar um espaço na agenda da filha. Nada de ressentimentos. A mãe já está mais do que acostumada a perder a disputa para os compromissos de Mara, que começam logo cedo. Às 9 horas, depois de já ter tomado café, lido os jornais e brincado com Tuiuiu, Fritz e Schana, seus três cães de estimação, ela se exercita por uma hora no jardim de casa. Toma banho, veste-se apressadamente e parte para o trabalho. Antes de chegar ao gabinete, no 10º andar do prédio da prefeitura, no centro, pára na Avenida Paulista para vistoriar calçadas. A rotina da ex-secretária da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida seria semelhante à dos outros vinte secretários municipais não fosse um detalhe: Mara faz tudo isso sem mexer um único membro.

Há doze anos, depois de um grave acidente de carro que a deixou tetraplégica, ela consegue movimentar apenas o pescoço e a cabeça. Ficou cinco meses no hospital e levou outros dois para reaprender a respirar sozinha. Hoje, aos 39 anos, precisa de ajuda até para as tarefas mais simples, como tirar um fio de cabelo do rosto, mudar de posição enquanto dorme ou espantar uma mosca. “No começo, eu preferia ficar com o nariz sujo a chamar alguém”, conta. Não demorou, no entanto, para dar a volta por cima. Em vez de se lamentar, Mara preferiu chamar atenção para a necessidade dos deficientes e apegar-se à chance de 1% que lhe deram de voltar a andar um dia. Em 1997, criou a ONG Projeto Próximo Passo (PPP), que auxilia deficientes físicos e pesquisa curas para eles. Três anos depois, deu o que falar ao posar nua para um ensaio da revista Trip. De calcinha e sutiã, também encarnou a modelo sensual em uma campanha publicitária para uma marca de lingerie. Não parou por aí. Nas últimas eleições, candidatou-se a vereadora, foi a mulher mais votada do PSDB (11.917 votos) e acabou como suplente. Convidada pelo então prefeito José Serra, assumiu em 2005 a primeira secretaria do país voltada para cegos, surdos e outros deficientes.

No dia 1º de fevereiro de 2007, sua cadeira de rodas não a impediu de atuar em mais uma frente. Mara tomou posse como vereadora na Câmara Municipal de São Paulo, para onde pretende levar uma dezena de projetos de lei. “Devo ficar por lá o tempo suficiente para protocolá-los, depois volto à prefeitura”, promete. Quem assume o seu lugar, enquanto na prática ela fica licenciada do Executivo, é o secretário-adjunto Renato Baena, que terá um grande desafio pela frente. Com 47 funcionários – oito deles deficientes -, a Secretaria tem orçamento anual de 8 milhões de reais, a menor fatia do caixa municipal (para se ter uma idéia, as pastas da Educação e da Saúde contam, respectivamente, com 3,4 bilhões e 2,9 bilhões de reais).

Na Câmara, a bandeira de Mara continuará a mesma: eliminar barreiras e lutar para incluir na sociedade os cerca de 1,5 milhão de deficientes e os 2 milhões de pessoas com mobilidade reduzida, como obesos, idosos e gestantes, que vivem na capital. As estatísticas nessa área, entretanto, não são confiáveis. “Os únicos dados mais recentes são os do Censo do IBGE de 2000″, diz Mara. “Mas, como o questionário é autodeclaratório, um senhor que usa óculos pode, por exemplo, se considerar cego.” Calcula-se que existam em São Paulo 416.000 deficientes físicos, como paraplégicos (que não movimentam as pernas), hemiplégicos (sem movimentos em um dos lados do corpo), tetraplégicos (que não mexem os quatro membros), amputados e outros. Os cegos somam 687.000, os surdos, 247.000, e os deficientes intelectuais, 131 000, caso de quem sofre de síndrome de Down. Desde 1999, os anões (2.000 na cidade, segundo estimativa da Associação Gente Pequena do Brasil) passaram a ser considerados deficientes no país.

O transporte está entre as prioridades da gestão de Mara (veja quadro). Ela comemora o aumento do número de ônibus adaptados. Eram 300 em janeiro de 2005. Hoje são 1 287 – menos que 8,5% da frota, mas mais que um por linha, como manda a lei municipal. Entre os novos coletivos, 43 já têm um sistema novo em que a suspensão abaixa 10 centímetros, ou, como Mara gosta de dizer, “ajoelha-se” para receber cadeirantes, anões e idosos com dificuldade de locomoção. Eles são equipados com bancos duplos para obesos e possuem espaço para os cães-guias. “Antes eu não podia entrar em veículo nenhum com meu labrador”, lembra o estudante Daniel Monteiro, de 20 anos, cego de nascença. Ele e os outros deficientes ganharam no ano passado 62 quilômetros de calçadas acessíveis, que dispõem de piso com indicações táteis no chão para orientar cegos e são livres de degraus ou ondulações. “Em algumas ruas agora podemos andar sem nos preocupar com barreiras e imperfeições”, diz o sargento Jefferson Eduardo dos Santos, paraplégico e presidente da Associação dos Policiais Militares Portadores de Deficiência do Estado de São Paulo.

Apesar dessas boas notícias isoladas, os deficientes ainda enfrentam dificuldades enormes de locomoção, principalmente em espaços públicos. “Os imóveis continuam a ser projetados com portas e banheiros extremamente estreitos”, diz a especialista Sandra Perito, do Instituto Brasil Acessível. Em dois anos, a prefeitura vistoriou 756 casas e prédios em São Paulo. Concluiu que praticamente nenhum deles atende à lei municipal de 1993 que obriga todos os estabelecimentos que reúnam mais de 100 pessoas a oferecer condições de acesso a deficientes. Mara pode enfrentar ruas íngremes e esburacadas, guias altas, escadarias e banheiros estreitos porque, tendo sua família recursos financeiros, conta com uma superinfra-estrutura, realidade inimaginável para a maioria dos deficientes. Ela passa as 24 horas do dia cercada por pelo menos uma de suas três assistentes e um motorista. São eles que trocam sua roupa, a transferem do carro para a cadeira, escovam seus dentes… “Cuido mais dela do que da minha própria filha”, afirma Gidalva Correia Cardoso, a Gil, que a acompanha até nas reuniões no gabinete e tem em seu passaporte o carimbo de pelo menos quatro países. Todos das viagens com a chefe. “Ela vai a mais eventos que eu”, garante o amigo e secretário das Subprefeituras Andrea Matarazzo. Mara comparece, em média, a quatro compromissos por dia. Emenda um no outro e, para não perder tempo, leva na van tudo de que precisa. Ela muda o visual durante os congestionamentos e, vaidosa, nunca se esquece dos brincos.

Por um capricho do destino, a deficiência física cruzou os caminhos de Mara mesmo antes do acidente. Aos 20 anos, ela deixou o Brasil para morar por dois anos em Florença, na Itália, onde cuidou voluntariamente de uma adolescente tetraplégica. “Eu mal podia imaginar que fazia por ela o que hoje fazem por mim”, diz Mara, que após a experiência desistiu da carreira publicitária para cursar psicologia. Incansável, ela não começa a relaxar antes das 8 da noite. É quando encerra o expediente e deixa o gabinete para encontrar o namorado, o nutricionista Alfredo Galebe. “É a única hora em que ficamos juntos”, afirma ele. O namoro se iniciou há quatro anos, depois que Alfredo a viu na TV, num programa de entrevistas. Quando a insistente dona Cláudia Gabrilli consegue convencê-la a abrir uma brecha na agenda, saem todos para jantar. “Minha maior preocupação era que com o acidente minha filha perdesse a alegria que sempre teve de viver”, diz Cláudia. “Diferentemente de outras mães, fico orgulhosa e feliz quando ela está muito ocupada para me atender.”

Sete áreas em que Mara fez diferença

* Transporte – Os ônibus adaptados passaram de 300 para 1 287, mais de um por linha. Desses, 43 têm um sistema que permite baixar a suspensão para receber cadeirantes, idosos e cegos com cão-guia.

* Cultura – O projeto Arte Inclui levou até agora 7 500 deficientes ao cinema, ao teatro e a exposições.

* Educação – Desde setembro do ano passado, qualquer pessoa pode solicitar impressões de livros em braile ou audiolivros (com texto narrado) em uma das sete bibliotecas municipais com acervo em braile ou nos dez CEUs que fazem parte do programa.

* Trabalho – Dos 4 375 deficientes que entregaram o currículo nos Centros de Apoio ao Trabalho, 673 conseguiram uma vaga. Metade deles era de deficientes físicos. A qualificação ainda é uma barreira: só 10% possuem ensino superior completo.

* Esporte – Em setembro do ano passado, a cidade abrigou pela primeira vez os Jogos Municipais Inclui Sampa. Cerca de 153 pessoas com deficiência competiram em modalidades paradesportivas.

* Acessibilidade – Em 2006, a prefeitura investiu 11,3 milhões de reais na reforma de 62 quilômetros de calçadas da cidade, que agora passam a ser acessíveis a deficientes. Elas têm piso com indicações táteis e sem irregularidades.

* Habitação – Foram lançados em junho de 2005, na Casa Cor, os Selos de Habitação Universal e Visitável. Eles rotulam imóveis que permitem acesso de pessoas com deficiência.

 

Impactos do novo Código de Trânsito

Por Marcelo Côrtes Neri

Novo Código de Trânsito reduziu significativamente as mortes de trânsito no Brasil em pelo menos 5,8%, caindo duas vezes mais para elas que para eles

O Carnaval terminou para efeitos práticos no Brasil no último domingo, depois dele vem invariavelmente uma ressaca de reportagens sobre acidentes de trânsito nas estradas e nas ruas.

Todos os anos ocorrem em média no Brasil cerca de 750 mil acidentes de trânsito provocando 28 mil mortes e outros milhares de feridos. Essa realidade não é muito diferente do resto do mundo, a não ser pela sazonalidade carnavalesca. Nos EUA, 42 mil pessoas morrem por ano em acidentes de trânsito. Os acidentes de veículos são o segundo maior responsável por mortes por causas externas no Brasil, só perdendo para homicídios. Em 2003, R$ 5,3 bilhões foram gastos no país em acidentes de trânsito segundo pesquisa realizada pelo Ipea e o Denatran. O custo médio por pessoa envolvendo perda de produção, cuidados de saúde, remoção e translado é aproximadamente R$ 1 mil, R$ 36,3 mil e R$ 270,1 mil para os casos onde houver ilesos, feridos e mortos, respectivamente. A literatura econômica sobre acidentes de trânsito ainda é muito incipiente no Brasil, e voltada principalmente ao mercado de seguro de automóveis. Nenhum trabalho de peso sobre incentivos no trânsito de motoristas foi identificado. Uma exceção foram dois artigos de Cláudio Haddad publicados neste espaço no Valor sobre impactos do pedágio urbano instituído em Cingapura e Londres.

O novo Código de Trânsito brasileiro entrou em vigor, em janeiro de 1998, abarcando todo o país, sucedendo o antigo Código de Trânsito que estava em vigor desde 1966. O novo código tem o objetivo de disciplinar tanto motoristas como pedestres através de penas mais duras. O valor das multas de trânsito aumentou significativamente chegando a mais de 100% em alguns casos. Algumas infrações de trânsito passaram a ser definidas como crimes como o ato de dirigir alcoolizado ou sem carteira de habilitação. Para o pedestre, atravessar a rua fora da faixa tornou-se um ato passível de multa. As exigências à obtenção da carteira de habilitação e sua renovação também tornaram-se mais rígidas. Além disso, a introdução da nova lei foi acompanhada de uma grande campanha de esclarecimento ao público junto dos principais meios de comunicação. O objetivo do novo Código de Trânsito é afetar os incentivos de motoristas e pedestres a se exporem a riscos e, consequentemente, afetar negativamente os índices de acidentes de veículos.

Reporto aqui alguns resultados de trabalho conjunto feito com Leandro Kume, aluno da EPGE/FGV, que procura sobre os impactos do o novo Código de Trânsito. A vantagem deste tipo de estudo é que pode ser considerado para efeitos empíricos um fator exógeno já que foi precedida, até sua sanção, de anos de intensos debates e discussões no Congresso Nacional. Não existiria, portanto, causalidade inversa entre as taxas de mortalidade no trânsito e a sanção do novo Código de Trânsito evitando os vieses de endogeneidade que impregnam diversos trabalhos da literatura.

O número de mortes de trânsito por cada 100 mil habitantes, aumentou continuamente antes do novo Código de Trânsito para ambos os sexos. A taxa masculina aumentou de 14 para 17,8 entre 1992 e 1997 enquanto que a taxa feminina saltou de 3,8 para 4,5. Após o novo código, o número de mortes de trânsito passou a cair chegando a 14 para os homens, em 2000, e 3,2 para as mulheres, em 2001. Neste ínterim, a queda relativa da mortalidade masculina, 20,8%, foi menor que a feminina, 28,9%, apesar do efeito da maior exposição da crescente participação feminina no mercado de trabalho. Depois do efeito deslocamento observado após o novo código, as taxas de mortalidade voltam a subir, desde um nível menor. A retomada da tendência ascendente das mortes no trânsito apresenta menor inclinação que no antigo código, mas sugere a ocorrência de gradativa perda de efetividade das novas leis de trânsito.

A mudança na trajetória das mortes de trânsito decorrente da introdução do novo Código de Trânsito é nítida para ambos os sexos em todos os grandes Estados brasileiros. Além disso, o número de mortes de trânsito para homens é sempre substantivamente maior do que a de mulheres. Os Estados com maiores e os com menores incidências relativas de mortes no trânsito são respectivamente Roraima e Bahia. Os três Estados mais populosos do Brasil, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, apresentaram taxas intermediárias entre 10 e 15 mortes por 100 mil habitantes e sofreram nítida queda após a introdução do novo Código de Trânsito. No Distrito Federal as mortes no trânsito já vinham caindo desde antes da introdução do novo código, fruto de aumento de multas, colocação de pardais entre outras ações adotadas por Cristóvão Buarque, então governador do DF. Em oposição, as mortes de trânsito para os Estados de Piauí e Tocantins que eram relativamente estáveis cresceram após a introdução do novo código.

Em suma, as fatalidades no trânsito são vistas, como um produto direto da intensidade do transporte e da demanda de risco incorrida no ato de dirigir que, por sua vez, depende da percepção dos retornos esperados como, por exemplo, derivados dos ganhos de tempo proporcionado por uma maior velocidade de trânsito em contraposição aos maiores riscos associados a acidentes e multas. A introdução do novo Código de Trânsito afetaria o equilíbrio das decisões privadas. Encontramos evidências de que o novo código, reduziu significativamente as mortes de trânsito no Brasil em pelo menos 5,8%. Isso representa mais de 26,3 mil vidas salvas, além de uma economia de R$ 71 bilhões, referentes à perda de produção, cuidados de saúde, remoção e translado entre 1998 e 2004. Sem contar os custos emocionais e os gastos com feridos. Esse resultado mostra como leis mais duras, com penas financeiras associadas efetivas, podem ter efeitos significativos nos incentivos dos indivíduos zelarem mais por suas vidas. De toda forma, ao contrário do ceticismo vigente o caso de ações na área de segurança pública, os resultados apresentados indicam que novas ações como o Código de Trânsito podem poupar vidas, embora a retomada da tendência ascendente dos acidentes fatais nos últimos anos preocupante flexibilização na aplicação das leis de trânsito a pouco instituídas.

Marcelo Côrtes Neri é chefe do Centro de Políticas Sociais do IBRE/FGV e professor da EPGE/FGV.

A revolução do conhecimento

Por Paulo Skaf (O Estado de S. Paulo)

No Estado de São Paulo, a indústria é responsável por 23,08% de todos os empregos e paga salário médio de R$ 1.452, valor acima de todos os demais segmentos. Em termos nacionais, o setor representa mais de um terço do Produto Interno Bruto (PIB).

Esses dados são ainda mais relevantes se considerarmos que produtos industrializados e com tecnologia agregada integram de maneira expressiva a pauta das exportações, contribuindo para que a performance do comércio exterior brasileiro desafie e vença uma política cambial ainda desfavorável. É mais uma prova de que está correta a tese quase unânime de especialistas e economistas quanto ao papel decisivo da indústria na promoção do crescimento sustentado, criação de empregos, multiplicação e distribuição de renda.

Tais atributos do setor exigem a preparação de profissionais qualificados, considerando o papel do capital humano para o sucesso das empresas. Comprometida com essa demanda, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) tem investido na rede do Senai-SP, abrindo novas escolas e ampliando outras unidades em todo o Estado. Ao atender à formação de mão-de-obra, dentro dos mais contemporâneos padrões pedagógicos e técnico-educacionais, a indústria paulista cumpre dois objetivos relevantes: supre as empresas na vertente crucial dos recursos humanos e contribui para a melhoria de vida de milhares de jovens e profissionais, abrindo-lhes novas perspectivas em suas carreiras.

Os investimentos em educação profissional são parcela importante no objetivo de universalização do ensino, que, necessariamente, deve pautar as prioridades das nações que encaram com responsabilidade o desafio do desenvolvimento. É óbvio que esse esforço deve abranger a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio. Oferta de qualidade nesses três níveis a crianças e adolescentes de todo o País, não importa a faixa de renda na qual estejam suas famílias, é imprescindível para democratizar oportunidades e garantir acesso à plenitude da cidadania.

Nesse contexto, a indústria paulista também tem exercitado sua responsabilidade social, por meio do Sesi-SP, que atende a 125 mil alunos/ano na educação infantil e ensino fundamental e que, agora, passa também a ministrar ensino médio, além de ofertar 60 mil vagas anuais a jovens e adultos que não puderam concluir estudos na idade convencional. Como assistência médica e alimentação se constituem fatores condicionantes da capacidade de aprender, a instituição mantém o programa Saúde Escolar, com acompanhamento médico, psicológico, odontológico e fonoaudiológico, e fornecendo 2,7 milhões de refeições/ano em sua rede escolar. Nas empresas, há programas preventivos de saúde, reabilitação de trabalhadores acidentados, tratamento de doenças ocupacionais e orientação nutricional. Além de cumprir com excelência seu papel nas áreas educacional e de saúde, o Sesi-SP ainda contribui nos segmentos de cultura, esportes e lazer.

Não há dúvida de que, no âmbito da meta de expansão mais consistente do PIB brasileiro, a realização das reformas estruturais, como a tributária, política, previdenciária e trabalhista, é essencial, bem como a queda dos juros, ajuste do câmbio e sucesso do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Entretanto nada disso será suficiente para garantir ao Brasil o avanço além de um patamar medíocre de desenvolvimento.

Com as exigências competitivas da economia contemporânea, o saber tornou-se elemento explícito do progresso. Assim, o desafio da educação se alinha entre as prioridades nacionais. Vencê-lo, contudo, não é responsabilidade apenas do Estado. Cabe às organizações do setor privado um papel relevante nesse processo. Afinal, como afirma Alvin Toffler, a presente civilização encontra-se na chamada Terceira Onda, ou seja, uma era na qual os setores produtivos dependem cada vez mais do conhecimento. Portanto é imprescindível e justo o engajamento crescente das empresas e de suas entidades de classe na meta de contribuir para que a revolução do ensino seja a grande base de um Brasil cada vez mais avançado.

Cybele e as letras

Por Ana Aranha (Revista Época)

REESCREVENDO VIDAS

“Ela não vai aprender a ler.”

A sentença, afirma Cybele Amado, foi dada a sua mãe pela professora da 3ª série. “Minhas lições voltavam riscadas de tinta vermelha”, diz ela. “Eu tinha uma dislexia leve, trocava o V pelo F, mas me condenaram a repetir o ano. Caí na sala de minha irmã mais nova. Foi um trauma.” A história poderia ter acabado com um ponto final precoce. Mas Cybele mudou o enredo. Não só se tornou professora como passou a reescrever o destino de milhares de crianças no interior da Bahia: criou um método capaz de quadruplicar os índices de alfabetização e reduzir em mais de quatro vezes os de evasão.

Primeiro, Cybele libertou-se da carapuça de aluna com dificuldades de aprendizagem. Na 8ª série, já balançava os pés atrás da mesa de professora. Tinha sido convidada a ensinar matemática a colegas em situação de risco. Depois fez faculdade de Educação e pós-graduação em Psicopedagogia. Chegou a montar um colégio particular na capital baiana, em parceria com quatro amigos, chamado Escola Alternativa. Mas ela achou pouco. Acabara de voltar de férias da Chapada Diamantina quando tomou a decisão de mudar-se para lá, para mudar a realidade de lá.

Aos 23 anos, Cybele abandonou Salvador para morar sozinha no Vale do Capão, um povoado de mil habitantes a 480 quilômetros da capital. Cercada pelos paredões de pedra da Chapada, sua casa não tinha sequer energia elétrica. Todo fim de tarde a jovem professora acendia uma fogueira para dissipar o medo do escuro. Quando a luz do fogo não era suficiente para espantar tantas sombras, ela chamava uma estudante para lhe fazer companhia.

Cybele corrigia as lições dos alunos de 5ª série quando levou um susto: encontrou nos textos os mesmos traços de dislexia de sua infância. “Fui procurar a raiz do problema”, afirma. “Foi aí que descobri como a dislexia leve pode ser fruto do ensino.” Cybele desconfiou que sua dislexia havia sido gerada pela deficiência da alfabetização que recebeu. Já tinha certeza de que repetir o ano fora o pior remédio.

Montou num quarto da casa um pronto-socorro para crianças pequenas com dificuldades de alfabetização. Depois de avaliá-las, Cybele concluiu que apenas uma tinha sinais de distúrbio. “As outras eram vítimas de um sistema educacional em que é normal gritar com a criança, e a língua é ensinada como se fosse um código.” O método dos professores antigos do Capão, segundo ela, se restringia à cartilha do “B mais A é igual a BA”. As crianças sabiam ler as sílabas e pronunciar as palavras, mas nem sempre entendiam o significado.

O choque de reencontrar seus fantasmas nos textos dos alunos foi tão grande, diz Cybele, que voltou a trocar as letras: encontrou na própria caligrafia um “veroz” onde quis escrever “feroz”. Ainda hoje tropeça no sotaque ao contar o episódio.

Na escola com chão de terra batida, paredes sujas e nenhuma identificação na porta, ela buscou um jeito de fazer criança pequena gostar de ler e de escrever. Não inventou metodologia nova nem teoria revolucionária. Montou uma rede de apoio ao professor que estimula a reflexão sobre o ensino e o uso de brincadeiras, histórias e atividades fora da sala. Implantou também um sistema de acompanhamento que investiga as atividades que dão certo e as que precisam ser reformuladas.

A maioria dos adultos do Capão – oficialmente o nome do povoado é Caeté-Açu, mas ninguém o chama assim – não escreve muito mais que o nome. De repente, os filhos começaram a fazer poesia e pedir prosa de Clarice Lispector. A notícia se espalhou. Em 2000, o Projeto Chapada começou a tecer uma rede que hoje envolve 1.200 escolas. São mais de 5 mil professores acompanhados por coordenadores pedagógicos. Todos eles sob a orientação exigente da professora Cybele Amado. Nos seis anos de projeto, o índice de evasão escolar caiu de 23% para 5% – metade da média nacional para a zona rural.

Em 2005, o projeto alcançou mais 16 municípios. Em apenas um ano, o índice de alunos alfabetizados na 1ª série pulou de 11% para 40%. É quatro vezes maior do que era – e ainda é pouco. A realidade do interior da Bahia é a mesma de 80% dos professores da zona rural do país: só estudaram até o ensino médio. A maioria pega o giz para ensinar as letras sem ter passado por uma faculdade. O que Cybele mudou? “Oxente, a diferença é que passamos a pensar a educação como profissionais, não como professorinhas”, diz ela.

Conhecida pelas escolas em que circula como um doce general, Cybele é delicada no falar, mas direta na mensagem. “Educação não é missão para quem gosta de criancinhas.” Segundo sua cartilha, gostar é verbo escasso. Tem de ser “louca por criança”. O resultado são alunos curiosos, como Laís, de 7 anos. A menina não desgruda dos gibis da Turma da Mônica na hora do intervalo. Toda semana leva um livro diferente para casa. O preferido é o de Chapeuzinho Vermelho. Fez até a mãe, Diosina Pereira, prometer que vai à cidade comprar um só para ela.

Diosina acompanha o que acontece na escola pela Associação de Pais, Educadores e Agricultores. A comunidade se organizou no dia em que Cybele fez uma greve entre os alunos para exigir a contratação de professores nativos do povoado. Antes, os professores faltavam toda segunda e sexta-feira com a desculpa de que tinham de viajar os 30 quilômetros que separam o povoado da sede, a cidade de Palmeiras.

“Antes de Cybele, aula de Português era só tomar ditado e fazer cópia. A escola não tinha nem giz!”, diz Rosângela Mendes. “Ela trouxe música, fez a gente escrever cartas poéticas.” Rosângela estava na 6ª série quando a forasteira chegou. Fez muita companhia a Cybele ao lado do fogo nas noites escuras. Hoje é diretora da escola.

Além de Rosângela, outros oito alunos viraram professores. Todos dão aula na escola do Capão. Cybele se emociona quando volta à escola do Capão, de onde saiu há menos de um ano para expandir o projeto. Logo é cercada:

– Cybele Amado! – diz uma criança.

– Você não sabe quanto eu tirei em Português… – diz uma segunda criança.

– Vai voltar quando? – diz outra.

A professora responde: “Lembra da história de ter de escolher entre ajudar 200 ou ajudar mil?”. Horas depois, em seu escritório, ela é mais precisa: “São 115 mil alunos beneficiados pela rede”. E já vai dizendo: “Coloque aí o mais importante: aqui não se faz nada pela metade. Todas essas crianças saem capazes de se deliciar com o que lêem”.

Apanhador de meninos

DOUTOR PARTEIRO – Áureo Augusto promove consultas pouco ortodoxas, pagas com jacas e mamões.

Cybele Amado não teve filhos, mas é mãe do Vale do Capão. Além de espalhar o gosto pela leitura entre as crianças, ela não perde os primeiros minutos de suas vidas. É que a professora-mãe se casou com o médico-parteiro da comunidade: doutor Áureo Augusto. Ele atende a população local de graça há 23 anos e já perdeu a conta de quantos meninos acolheu na companhia da enfermeira improvisada. O casal recebe o pagamento de partos e consultas na forma de frutas, verduras e ovos que o povo vai deixando na porta. Eles, que são vegetarianos, agradecem. “No começo, a gente chegava e já tropeçava numa jaca. Hoje, deixamos uma cesta do lado de fora. É só chegar e recolher a feira”, diz Áureo. Quando andam pelas estradas, Cybele vai apontando para o marido os rostos que ele pôs no mundo. “Esse povo tem muito filho! Mas desejam cada um que nasce. Vi uma mãe perder o seu 16o e chorar como se fosse o único”, diz o parteiro. Áureo deixou Salvador para fundar uma comunidade alternativa na Chapada. Acabou acolhendo bebês com luz suave e música ambiente. Em sua casa e no consultório só se pode entrar descalço. Além de médico, ele é artista plástico, escritor e marceneiro. Se a política desembarcasse em Capão, o casal brinca que faria uma bela plataforma eleitoral: “Educação e saúde!”.

Bom de bola – “e de poesia”

A MELHOR JOGADA – Saulo dos Santos é um exemplo do que acontece quando a escola não desiste do aluno, por mais que ele tente desistir da escola.

Saulo dos Santos tem 13 anos e três repetências. Ele era um garoto de olhos agitados e respostas rápidas que havia perdido o interesse pelos estudos. Ou melhor: não dá para perder o que nunca se teve. Enquanto seus colegas assistiam às aulas, ele escapava para a quadra de terra nos fundos da escola. “Eu ia mal porque não queria estudar mesmo, preferia jogar futebol”, diz Saulo. A professora Cybele olhou bem para ele. Teve longas conversas com o garoto, seus pais e professores para entender a aversão pelas letras. Percebeu que para chamá-lo para dentro da escola era necessário investir no que ele tanto gostava no lado de fora. Saulo foi escalado para o time de futebol do povoado e o treino condicionado à presença na aula. Esse ano ele não perdeu uma. Também propôs e ganhou o primeiro campeonato de futebol da escola e se revelou um belo artilheiro. O menino faz parte de uma família de 16 filhos, 14 vivos, típica do interior da Bahia. Sua mãe, Maria das Graças Santos, afirma: “A gente vive da roça, da graça de Deus e há quatro meses de uma bolsa do governo”. Ela mesma parou de estudar na 4ª série porque não tinha professora de 5ª. Agora, está abismada com o filho: “Esse menino não se interessava por nada, mas a escola não largou ele. Hoje, ele vai estudar até debaixo de chuva”, diz. Maria das Graças fala firme sobre os filhos que perdeu e sobre o cotidiano sem energia elétrica. A voz só fraqueja quando se lembra da despedida de Cybele. “Ela fez uma ceia cheia de sentimento. Deu uma semente para cada um. A nossa eu plantei aí fora”, diz. “Deu um girassol.” Saulo interrompe a entrevista para saber se o São Paulo tem time júnior. É um baiano são-paulino. Parecia que não precisava nem perguntar, sua aula preferida só podia ser Educação Física. Ele esclarece: “Na escola? Não, o que eu gosto aqui é de escrever. Sou bom de poesia!”.

Bibi Ferreira no programa Quarta Viva

Considerada uma das maiores atrizes do teatro brasileiro, Bibi Ferreira fala nesta quarta-feira, ao vivo, de sua carreira, marcada principalmente por musicais: My fair lady (1962), Alô, Dolly! (1965), O Homem de la Mancha (1972), Gota d’água (1975), Piaf – A vida de uma estrela da canção (1983), Bibi in concert (1991), Bibi in concert 2 – Entertainer (1994), Bibi canta e conta Piaf (1995), Brasileiro, profissão, esperança (1997), Bibi vive Amália (2001), Bibi in concert 3 (2004).

Filha do ator Bibi Ferreira Procópio Ferreira e da dançarina espanhola Aída Izquierdo, praticamente nasceu nos palcos, acompanhando o pai. Estreou profissionalmente em 1941. Atualmente, estrela a comédia política “Às favas com os escrúpulos”, de Juca de Oliveira, com direção de Jô Soares. Este trabalho já rendeu a Bibi os prêmios Contigo e APCA de melhor atriz.

No segundo bloco do programa, Gabriel Chalita entrevista as integrantes do grupo musical Choronas, quatro musicistas que se dedicam a ritmos brasileiros como o choro, baião, maxixe e samba: Gabriela Machado (flauta transversal), Ana Cláudia César (cavaquinho), Paola Picherzky (violão) e Roseli Câmara (percussão). O grupo existe desde 1994, apresentando-se em espaços culturais da capital e interior de São Paulo e outras cidades brasileiras. Lançou o primeiro CD (“Atraente”) em 2000, pelo selo Paulus. As Choronas vão lançar no dia 7 de março o terceiro CD, “O Brasil Toca Choro”, no Teatro do Sesc Pompéia. O terceiro bloco do programa será dedicado ao game, entre a Paróquia São Francisco (Renata), Paróquia Santa Cecília (Tiago) e Comunidade Fanuel (Sérgio).

A batalha do ensino e a guerra pela educação

Marco Maciel (Jornal do Brasil)

O Brasil está ganhando a batalha do ensino, mas, lamentavelmente, estamos perdendo a guerra pela educação. No primeiro caso, avanços expressivos em todos os níveis e modalidades foram conquistados nos últimos dez anos. Nada menos de 99% das crianças têm acesso ao ensino fundamental e 94% delas estão matriculadas na primeira série, segundo o IBGE (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, PNAD, de 2005).

Muitos desses êxitos se devem à criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef), e é de se esperar que, mais do que uma continuidade do esforço empreendido nos dois governos do presidente Fernando Henrique Cardoso, a promulgação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) renda frutos para eliminar carências ainda persistentes, como as acentuadas taxas de evasão e repetência.

Com relação ao terceiro grau, vale lembrar que, em 1995, o número de matrículas no ensino era de 1,7 milhão e, em oito anos, mais do que dobrou, atingindo 3,8 milhões. Esse aumento se deveu, em grande parte, à criação de instituições universitárias privadas e à estagnação das vagas de natureza pública, segundo revelou o censo da educação superior de 2003 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Atualmente, apenas uma das seis maiores universidades brasileiras é pública. O resultado é que a ociosidade nos estabelecimentos particulares de ensino superior, de acordo com o mesmo censo, atingiu o preocupante recorde de 42%.

Se o ensino vai bem, embora pudesse ir melhor, por que a educação vai mal?

O ensino é a parte material da cultura e, entre nós, seu conceito sempre esteve associado às necessidades do mercado de trabalho, voltado para as atividades produtivas. Daí sua ênfase profissionalizante. Já a educação abrange, além dos aspectos materiais, os imateriais que, transcendendo o ensino, referem-se às atividades culturais, tanto à científica como à artística, conforme lição de Fernando de Azevedo, em A cultura brasileira.

Entre os aspectos imateriais estão a cultura cívica, que caracteriza nossa civilização e nossa capacidade de viver em sociedade, e a cultura política, parte dela inseparável. A cultura artística, que depende não só do talento e da criatividade individuais, mas também da imaginação e da inventividade, é um patrimônio em permanente evolução, de que são exemplos surtos inovadores como a Bossa Nova e o Cinema Novo, além das incontáveis contribuições nas artes plásticas, enriquecidas pela obra admirável de nossa enorme diversidade étnica e cultural.

O que nos falta em matéria de contribuição indispensável e insubstituível, tanto em relação à educação e ao ensino, quanto no que respeita à cultura, é um dos aspectos materiais de que também dependem essas manifestações – o livro, um dos mais importantes paradigmas de todas as civilizações, e a mais significativa de todas as criações humanas, depois da invenção da escrita.

Há um pequeno e pouco divulgado texto de Denis Diderot, um dos pais da Enciclopédia francesa, publicada entre 1752 e 1772, que lembra os percalços e dificuldades por que passou a indústria editorial, na sua longa e desafiadora tarefa de assegurar a liberdade de manifestação, de difundir o conhecimento e preservar o imenso patrimônio das conquistas humanas no campo intelectual. No Brasil, esse tema continua a ser, ao mesmo tempo, controvertido, polêmico e inquietante. Nossos avanços nessa área têm sido lentos e muitas vezes tortuosos. Continuamos vítimas de uma dependência perversa, cuja discussão rendeu poucos resultados: a de que os nossos livros são caros porque são raros, e são raros porque são caros.

Como vencer esse círculo vicioso continua a ser nosso maior desafio. Suas implicações extravasam a cadeia que envolve a indústria editorial – autores, editores, distribuidores, livreiros e consumidores – e alcançam algo mais amplo que o destino da imprensa escrita, que, sem liberdade e sob ameaças, não viceja nem sobrevive em nenhuma parte do mundo.

Estamos vivendo no limiar de uma nova era, a da informação, que terá de conviver com a necessidade da disseminação do conhecimento, com o direito de acesso e com os avanços científicos e tecnológicos, permitindo, antes de mais nada, que os livros não desapareçam.

CPIs para as tragédias anunciadas

Temos assistido nos noticiários às tragédias usuais do verão, ou seja, deslizamentos de encostas comprometendo bairros instalados em áreas de risco, bem como enchentes que comprometem a vida e o patrimônio de centenas de famílias. 

Lembro-me de um artigo por mim redigido em dezembro de 1988 que tratava do mesmo assunto, de modo que é impossível não expressar um sentimento de mal-estar pelo fato de que no Brasil muito pouco tem ocorrido no sentido de evitar a criação de situações de risco, que são toleradas e até certo ponto geradas pelo poder público, na sua omissão no cumprimento de suas tarefas básicas. 

Trocando em miúdos, é público e notório que encostas de morro possuem instabilidade geológica e estão sujeitas a deslizamentos. Por essa razão, a legislação florestal brasileira há décadas as considera Áreas de Preservação Permanente (APPs), proibindo a remoção da vegetação exatamente pela função ecológica que ela possui, evitando que o impacto das chuvas acarrete as cenas que ocupam o noticiário desses dias. 

Do ponto de vista semântico, passou-se a denominar de serviço ambiental o papel exercido pela vegetação, cujo maior beneficiário nesse contexto é a sociedade de maneira geral, e não a fauna e a flora em si mesmas, como se a defesa das APPs fosse uma questão meramente ecológica de uma minoria de ecologistas radicais. 

Aliás, o reconhecimento e a compensação pelos serviços ambientais prestados pela “natureza” é um dos temas mais desafiadores do mundo nesse período de grandes alterações climáticas. 

A cada legislatura assistimos a um repetitivo debate em torno dessa questão, na medida em que sempre surgem iniciativas aqui e acolá no sentido de reduzir a abrangência da legislação florestal, muitas vezes utilizando o falso dilema supostamente existente entre meio ambiente e pobreza: o próprio Estatuto da Cidade veio para conferir compatibilidade entre o crescimento urbano (sobretudo diante da má qualidade habitacional e dos péssimos indicativos de saneamento ambiental) e o ambiente, sem que preservação ambiental e expansão urbana sejam consideradas incompatíveis. 

A mudança da legislação se deveria fazer para favorecer os pobres cuja necessidade de habitação teria impedimento nas restrições ambientais, segundo muitos argumentam. Mas o que vemos é exatamente o contrário, já que são os mais pobres os grandes prejudicados pelas chuvas de verão…

De fato, o que o Brasil vê nessa estação do ano é a absoluta tolerância da sociedade com o descumprimento da legislação e com as graves conseqüências mencionadas, num jogo de impunidade e corrupção que envolve loteadores clandestinos, autoridades públicas coniventes em todas as esferas e agentes políticos que encaram essa população como mero curral eleitoral, tendo como moeda de troca as sistemáticas regularizações e anistias de tempos em tempos.

Aliás, é preciso enfatizar que essas ocupações mencionadas possuem tal grau de visibilidade na paisagem urbana brasileira que não há como alegar desconhecimento delas.

Entretanto, no país, o mero exercício do poder de polícia foi transformado em discricionariedade pelos nossos administradores públicos, de modo que, diante dessa situação, há que se criar medidas de exemplaridade que possam iniciar um processo novo de cidadania, mediante uma articulação de atores sociais efetivamente comprometidos com o desenvolvimento sustentável.

Não seria o caso de criar em cada uma das cidades e dos Estados mais atingidos por esses desastres “naturais” uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar a responsabilidade dos loteadores, servidores públicos, agentes políticos e demais envolvidos com a geração permanente dessas tragédias anunciadas, com a finalidade de identificar os seus responsáveis? 

Iniciativas como essa são importantes porque mobilizam a atenção da opinião pública e são reveladoras do interesse público efetivamente existente nas normas legais, além de sinalizarem aos agentes políticos que o exercício do poder de polícia, com o ônus que ele traz a curto prazo, faz parte do jogo democrático.

Não há como alegar fragilidade dos órgãos de fiscalização governamentais como pretexto para justificar a tolerância com ocupações.

Até porque, com a confirmação do fenômeno do aquecimento global, assistiremos ao agravamento radical dos riscos aos quais todos nós estamos sujeitos, pois incidentes climáticos extremos aumentarão geometricamente. Ou seja, cada vez mais se torna fundamental que os governantes atuem com caráter público e que as instituições públicas tenham capacidade de visão antecipatória e ação efetiva. 

FABIO FELDMANN, 51, formado em administração de empresas e direito, é consultor em desenvolvimento sustentável. Foi deputado federal pelo PSDB-SP e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (1995-98). 

Espírito Santo investe em educação

Diante de um quadro crônico de carência de trabalhadores treinados, a Petrobras e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) estão correndo juntas contra o tempo para criar no Estado uma base de mão-de-obra especializada que permita aos capixabas ocupar a maior parte dos postos de trabalho a serem criados por meio dos US$ 9 bilhões (cerca de R$ 20 bilhões) que a estatal deverá investir ali de 2007 a 2011.

A preocupação não é só da empresa e da instituição federal. O governo do Estado está deslanchando um programa de compra de vagas em escolas particulares, diante das limitações da rede pública, com o mesmo objetivo. Segundo a secretária de Educação do Estado, Anna Maria Marreco Machado, serão oferecidas por este sistema 800 vagas em cursos profissionalizantes que se somarão a 700 bolsas já concedidas.

Ela disse também que foram abertas desde 2005 três novos Centros Estaduais de Ensino Técnico (CEETs), com 1.968 vagas e foram criados 96 cursos profissionais, com 8.052 vagas, em 49 municípios, com meta de abranger os 78 municípios ao longo do atual mandato. O orçamento estadual para o ensino profissional passou de R$ 20 milhões em 2006 para R$ 58,6 milhões em 2007.

Com previsão de receber em cinco anos investimentos privados de pelo menos R$ 43 bilhões, superiores ao seu Produto Interno Bruto (PIB) atual, estimado em R$ 40 bilhões, o Espírito Santo corre para ficar com o bônus da renda de todo esse trabalho e, ao mesmo tempo, evitar um indesejável fluxo migratório que acelere as já fortes demandas por serviços básicos.

No começo do segundo semestre deste ano a Ufes inaugurou seu primeiro curso de engenharia do petróleo no campus do município de São Mateus (norte do Estado), capital estadual da produção de petróleo em terra. Também foram criados três cursos específicos, cada um com 30 alunos e cerca de 400 horas/aula para formar pessoal nas áreas de engenharia de planejamento, duas especialidades de engenharia de campo, construção e montagem.

Além disso, segundo o pró-reitor em Pesquisa e Pós-Graduação da Ufes, Francisco Emerich, estão sendo oferecidas vagas de graduação e pós-graduação em mecânica, oceanografia e meio ambiente, em parceria com o Programa de Recursos Humanos da Agência Nacional do Petróleo (ANP). A Ufes está hospedando também, desde 2005, em parceria com a Petrobras, o Centro de Competência em Óleos Pesados e Extrapesados, destinado a liderar os estudos sobre o tema em todo o país.

De acordo com Nery Milani de Rossi, gerente de Suporte Técnico da Unidade de Negócios da Petrobras no Espírito Santo, a empresa vai elevar a produção no Estado de atuais 78 mil barris por dia (média de outubro) para cerca de 350 mil barris por dia em 2010. Já em 2007 a média de produção deve crescer para 150 mil barris por dia, com pico de 190 mil em dezembro. Além disso, a oferta de gás no Estado deverá passar de 1,3 milhão de metros cúbicos/dia para 20 milhões de metros cúbicos com o desenvolvimento de campos como o de Golfinho.

Parte dos investimentos previstos (cerca de R$ 480 milhões) será destinada à construção de uma nova sede para a estatal em Vitória, destinada a abrigar 1.500 empregados. A empresa também tem planos, ainda não sacramentados oficialmente, de construir uma base operacional no município de Anchieta, no sul do Estado.

Desde 2005 foram abertos três centros estaduais de ensino técnico e foram criados 96 cursos profissionais 

A Petrobras será, sem dúvida, o motor dos investimentos no Espírito Santo nos próximos anos, mas há uma enorme quantidade de projetos engatilhados no Estado a demandar mão-de-obra especializada. A expansão da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) a ser inaugurada no começo do próximo ano, prevê a ampliação da capacidade de produção de aço de 5 milhões para 7,5 milhões de toneladas/ano. A mineradora Samarco (Vale/BHP Billiton) está construindo uma nova unidade de pelotização, a terceira. A própria Vale prepara-se para fazer sua sétima pelotizadora.

Além dos grandes empreendimentos, o Estado desenvolveu projetos para atrair fornecedores para as indústrias do petróleo, de mineração e metalurgia, de papel e celulose, e está estimulando, no interior, a expansão de pólos produtores de rochas, móveis, confecções e frutas, sem abrir mão do seu produto mais tradicional, o café, do qual é o segundo maior produtor do país.

Todas essas possibilidades fazem a elite capixaba sonhar. A introdução do plano estratégico “Espírito Santo 2025″, feito em parceria pelo governo do Estado e a ONG empresarial Espírito Santo em Ação, começa assim: “Estamos em 2025. O Espírito Santo acaba de se tornar um dos primeiros Estados do Brasil a conquistar um padrão de vida semelhante àquele experimentado pelas nações mais desenvolvidas.”

O governo do Estado está convencido de que é possível levar a cabo os ambiciosos objetivos do plano. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Guilherme Dias (foi ministro do Planejamento no segundo governo Fernando Henrique Cardoso), avalia que para os próximos cinco a seis anos a agenda do crescimento capixaba já está dada, uma vez que os projetos que irão viabilizar essa agenda estão em andamento e são irreversíveis.

“A nossa agenda é ligeiramente diferente da do país. A do Brasil é acelerar o crescimento. O nosso já está contratado para os próximos anos, mesmo com baixo crescimento da economia brasileira. O nosso problema é a qualidade do crescimento”, teoriza Dias.

Na verdade, embora o último número oficial do PIB dos Estados seja o de 2004, ano no qual o Espírito Santo cresceu exatamente a média nacional (4,9%), alcançando um valor de R$ 34,5 bilhões, as autoridades estaduais estão certas de que em 2005 e em 2006 o PIB estadual cresceu acima da média brasileira. De janeiro a outubro de 2006, a produção industrial capixaba cresceu 7%, mais do que o dobro da média nacional (2,9%) e menor apenas do que o Pará (14,6%) e o Ceará (8,8%).

Apesar do quadro favorável ao crescimento, há no governo estadual a convicção de que sem que os capixabas aproveitem as oportunidades para ter mais empregos e ganharem mais, não vai valer a pena. Na semana passada, recém-chegado de Dubai (capital dos Emirados Árabes) onde foi ver a obra de uma plataforma da Petrobras em construção naquele país, o governador Paulo Hartung lamentou: “Tinham mil homens trabalhando (na obra). Aqueles empregos eram nossos.” Na construção da plataforma P-34, da Petrobras, o acerto inicial era de que fosse contratada mão-de-obra local. Não havia. Segundo o governador, estão faltando até operadores de equipamentos em obras públicas.

A carência de pessoal treinado pode desencadear outro fenômeno problemático: a migração descontrolada que agravaria os já enormes problemas de infra-estrutura urbana do Estado. Por enquanto, os dados disponíveis não chegam a preocupar. Segundo as projeções do IBGE, de 2001 a 2005 a população capixaba cresceu 6,73%, menos do que os 8,87% da média brasileira. Segundo a economista especializada em demografia Aline d’Ávila, as maiores migrações para o Espírito Santo aconteceram nas décadas de 1970 e 1980, quando os grandes projetos industriais foram implantados.

Mas ela detectou uma tendência preocupante para os próximos anos: a do inchaço da região metropolitana de Vitória, que em 2005 contava com 1,68 milhão de habitantes, pouco menos da metade da população do Estado (3,4 milhões). Com base em números reais de 1996 e 2000 extrapolados para até 2020, ela conclui que em 2010 a região metropolitana já terá 52,7% da população total e em 2020 chegará a 58,8%.

Esperança, mesmo na adversidade

Apesar das adversidades, uma mensagem de esperança 

Ana Paula Novaes – repórter da Folha Dirigida

Uma profissão que exige vocação e, acima de tudo, determinação. Assim pode ser definida a inclinação para o trabalho docente. No entanto, nos últimos anos, esta carreira vem sofrendo com uma série de problemas, como a desvaloriza­ção, a baixa remuneração e, até mesmo, ameaças aos professores, com a crescente violência no ambiente escolar.

A seguir, confira a entrevista com o ex secre­tário de educação de São Paulo, professor e mem­bro da Academia Paulista de Letras e da União Bra­sileira de Escritores, sendo autor de 39 livros, Gabriel Chalita. O educador fala sobre os fatores que o leva­ram a escolher a profissão e passa uma mensagem de esperança aos docentes. Veja:

FOLHA DIRIGIDA – Na sua opinião, ser professor é…

Gabriel Chalita – Ser professor é ser formador. Ele professa a crença na pessoa humana, auxiliando no seu desenvolvimento integral: cognitivo, social e emocional. Ser professor é ser instigador. O professor, como dizia Sócrates, ajuda o conhecimento a nascer. Sócrates falava de sua mãe, que era parteira mas que não fazia a criança. A criança estava pronta – só era preciso ajudá-la a vir ao mundo. Assim é o mestre: respeita o universo do seu aluno e quer ajudá-lo a caminhar com pés próprios, a ter autonomia. 

FOLHA DIRIGIDA – Que motivos o levaram a escolher a profissão?

Gabriel Chalita – Nasci professor. Gosto de aprender, gosto de ouvir, gosto de partilhar. Desde menino gosto de dar aulas. Nunca abandonei a sala de aula, mesmo na época em que fui secretário de Estado ou quando trabalhei dirigindo escolas. Sempre estive e estou na sala de aula. Essa troca de saberes é um privilégio. E gostar de ser professor é um passo importante para que a relação de ensino-aprendizagem se realize.

FOLHA DIRIGIDA – Como define o papel do professor hoje? O que mudou, nos últimos anos? E a relação professor-aluno, como está atualmente?

Gabriel Chalita – O professor hoje tem que assumir a postura do instigador, do problematizador. Precisa reinventar sua forma de atuar, porque a educação é um processo em constante transformação. Não se fala mais em professor facilitador.

Em tempos de informação, essa necessidade se amplia. O aluno recebe informação de todos os lados: internet, televisão, rádio, revistas, jornais, rua etc. Cabe ao professor auxiliá-lo nesse desafio de transformar informações em conhecimento. A utilização das novas tecnologias facilita o conceito de aluno pesquisador. Entretanto, continua valendo a assertiva de que, por melhor que seja a velocidade da informação trazida pelos meios tecnológicos, o computador nunca vai substituir o professor. Computador não tem alma. O aluno precisa de alma, de vínculo, de alguém capaz de auxiliá-lo na arte de gerenciar sonhos. 

FOLHA DIRIGIDA – Qual é a importância do professor na formação do aluno e de seu caráter?

Gabriel Chalita – A grande importância do professor está em cumprir o desafio de realizar a gestão das pessoas. Dentro de um universo heterogêneo, o ideal é que o professor faça com que cada aluno renda o seu melhor. E precisa fazer também com que o clima escolar seja de cooperação, não de destruição. O exemplo que o professor dá é essencial para que isso aconteça.  Todo educador deve ser educado – o professor que maltrata um colega ou um aluno está na profissão errada.

FOLHA DIRIGIDA – Ainda existe o profissional que pensa que está em um pedestal por ser professor ou todos estão conscientes da importância da aproximação com os alunos, que também são fontes de conhecimento?

Gabriel Chalita – Gostaria de acreditar que todos os professores já perceberam a importância de compreender o universo e o pensamento do aluno, para formar a mão-dupla do ensino-aprendizagem. O professor que se mantém no papel de facilitador, do sabe-tudo que entrega conhecimento como quem entrega doses de medicamentos, está errado. O certo é incentivar a análise crítica, a troca de experiências e de conhecimentos, a discussão, o problema – com as soluções. Isto é ensinar. E só ensina quem aprende. Guimarães Rosa já dizia, em Grande Sertão: Veredas, em 1946: “Mestre é quem, de repente, aprende”. 

FOLHA DIRIGIDA – Qual é a importância de ter atitudes positivas e afetivas no trabalho junto aos alunos?

Gabriel Chalita – A educação passa pelo afeto. Um tratamento digno aos funcionários, professores e alunos repercute de maneira positiva na relação ensino-aprendizagem. A família que se sente acolhida na escola dos filhos participa mais. E o aluno, quando percebe que a escola é dele, que suas ações podem refletir na melhoria da escola, não abandona os estudos e ajuda a transformar o ambiente escolar. A isto eu chamo de o conceito de pertencimento. Nessa evolução, é possível construir uma escola mais eficiente e mais democrática.

A primeira e mais fundamental carência que me parece estar afetando o ambiente educacional hoje é a carência do respeito pelo outro. Um desvio que o aluno leva de casa, em razão de uma série de circunstâncias: formação deficiente, subemprego, bebida, violência e desesperança dos pais. Qualquer pessoa endurece ao viver situações desse nível, mas com as crianças o endurecimento é mais marcante e mais duradouro. Por isto mesmo é que a pedagogia do amor se aplica a essas pessoas, na idade de pleno processo de crescimento emocional, moral e social. Se a criança for tratada com respeito e com amor, responderá na mesma medida. Isto é uma fórmula quase matemática.

FOLHA DIRIGIDA – Muitas vezes, os professores, até mesmo por pressão do sistema, de ordens superiores, se tornam ‘bitolados’, restringindo-se a ensinar apenas conteúdos e esquecem de mostrar aos alunos uma visão crítica do mundo. O que fazer para que este talento, do pensamento crítico, não seja  distorcido ou inutilizado?

Gabriel Chalita – Não se pode educar de modo capenga, querendo que os alunos sejam novos repetidores de fórmulas e conceitos.  É preciso que o professor esteja capacitado para trabalhar sobre três habilidades essenciais na educação: cognitiva, social e emocional. A cognitiva é a aprendizagem que tem de ser significativa, da leitura e compreensão de textos à leitura e compreensão do mundo, passando pelas diversas áreas do conhecimento. A social trabalha em duas dimensões: o trabalho em equipe e a solidariedade. Ninguém se desenvolve sozinho e a escola tem que ajudar nesse espírito de grupo, além da percepção do que cada um pode fazer para melhorar o mundo – trata-se da pedagogia da solidariedade. A emocional refere ao fato de que nós somos emoção. Quando se pensa em futuro, em esperança, em tudo, pensa-se em emoção. Quando se caminha pela agressividade, violência, apatia, também é do universo emocional que se trata. Enfim, o afeto é a integralidade. Afeto é respeito à autonomia, ao individual e ao coletivo.

FOLHA DIRIGIDA – Muito se tem falado sobre a questão do ‘ser educador’ e do ‘estar educador’. É possível dizer que o maior problema da educação no Brasil é justamente esse, pois temos pessoas envolvidas na educação que estão despreocupadas, interessadas em apenas receber o salário no final do mês? Neste caso, quais são as conseqüências deste problema?

Gabriel Chalita – O professor deve estar equipado com duas ferramentas essenciais: competência e amor. Se ele não estiver dotado desses dois instrumentos, a educação não acontece. Portanto, o professor que não está preparado para esse trabalho precisa fazer uma escolha: ou vai buscar capacitação ou desiste, porque nunca vai ser um bom professor.

Mas não podemos ignorar que, muitas vezes, a falta de motivação pode ser culpa de uma política salarial equivocada, da ausência de oportunidades de capacitação ou de estrutura material.

A valorização do magistério foi uma das prioridades da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, na minha gestão. Desenvolvemos algumas ações neste sentido, porque tenho consciência de que o professor é quem faz a escola,  professor é quem faz a educação. Fizemos concursos para contratação de mais de 100 mil novos professores, conseguimos um aumento salarial de 40% para os ativos e 25% para os inativos, e implantamos o bônus salarial de R$ 1.200,00 até R$ 10.000. Como resultado, em nossa gestão, durante o governo Geraldo Alckmin, não houve uma greve sequer. Mas cuidamos também de outras iniciativas importantes, como a capacitação e a formação continuada.

FOLHA DIRIGIDA – Assistimos, a cada dia, o interesse pela profissão de docente cair. Vários motivos, como violência na escolas, a desvalorização dos profissionais e os baixos salários, são responsáveis por esta situação. O que fazer para reverter este quadro e incentivar os jovens a buscarem a carreira?

Gabriel Chalita – São necessárias algumas iniciativas para que possamos avançar em relação à valorização dos educadores no país, o que só se dará com a elevação do nível de qualidade da educação. Valorizar o professor é fundamental, porque ele é a alma, o pilar da educação; com o professor motivado e reconhecido, todo o processo fica mais fácil.

Em paralelo, deve-se obter a participação da família na escola: pais, parentes, amigos, vizinhos, todos participando da escola, levam à edificação de um sentimento a que chamo de pertencimento, passando a tratar a escola como símbolo da própria comunidade. Isto reduz significativamente a violência nas escolas e em seus arredores – como comprovou a própria Unesco, quando analisou o programa Escola da Família, que mantém as escolas estaduais abertas aos fins de semana, oferecendo para alunos e pessoas das comunidades atividades de lazer, artes, esportes, saúde e geração de renda.

Também é necessário construir uma escola em que o currículo seja mais contextualizado, adequado às necessidades do momento histórico, social, econômico e de mercado por que passa o Brasil e o mundo.

Uma das questões centrais das políticas públicas de educação é o financiamento da educação básica. Há um enorme esforço de governos estaduais e municipais para a melhoria da qualidade de ensino. Entretanto, é urgente a participação do governo federal, porque, por mais que exista vontade política, nenhum governador ou prefeito consegue dar um salário digno ao magistério. E o professor, alma da educação, precisa ser valorizado em três lugares: cabeça, coração e bolso. Cabeça é conhecimento, capacitação; coração é atenção, respeito; e bolso, salário digno.

FOLHA DIRIGIDA – Geralmente, quando o aluno vai mal na escola, culpa-se o professor. Qual é, efetivamente, a parcela de culpa do professor neste processo?

Gabriel Chalita – Quero usar como resposta, uma ilustração. Um menino que vive nos sertões, que nunca viu um piano nem nunca ouviu uma sonata tocada ao piano, dificilmente poderá descobrir se tem ou não talento para ser um pianista. A única forma de permitir que ele faça a sua escolha é dar a ele a oportunidade de ver o mundo. Por isso mesmo é importante que haja um programa contínuo de levar as crianças a museus, teatros, cinemas, shows, espetáculos folclóricos, circos etc. E ao professor cabe a tarefa de, sempre que possível, levar esses assuntos para debate em sala, despertando o sonho. Professor é aquela pessoa que lapida diamantes.

FOLHA DIRIGIDA – Quanto à formação dos professores, o que falta, hoje?

Gabriel Chalita – Na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo conseguimos um avanço financeiro para todos os professores, mas demos mais do que dinheiro. Os professores tinham programas de visitas orientadas a museus e teatros, de graça. Tinham programas de intercâmbio em outros estados e até em outros países, por meio de parcerias com a iniciativa privada. Tinham crédito para compra de computadores pessoais – o Programa de Inclusão Digital, por meio de parceria entre a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo e o Banco Nossa Caixa, desenvolveu uma linha de financiamento para facilitar a compra de computadores para os docentes. E tinham democracia, como por exemplo na forma que idealizamos para discutir grade curricular, retorno das disciplinas de Sociologia, Artes e Filosofia ao currículo estadual: todos os professores foram ouvidos, sempre respeitada a posição da maioria.

Mas o fundamental é que os governos não interrompam ou descontinuem programas iniciados anteriormente, simplesmente porque são programas de outros governos.

FOLHA DIRIGIDA – E a formação continuada, os docentes estão conscientes de sua importância?

Gabriel Chalita – Como todo o processo educacional, a conscientização ocorre gradativamente. No que se refere às capacitações, muitos projetos foram desenvolvidos durante a nossa gestão na Secretaria de Estado da Educação, para que toda a classe docente pudesse ser contemplada, desde os efetivos até os não efetivos, assim como os professores que lecionam nas mais diversas áreas do conhecimento e modalidades de ensino.

O Programa de Educação Continuada (PEC) possibilitou a conclusão do nível superior para os professores que tinham apenas o magistério. Isso aconteceu em 2002, quando a intenção foi nos anteciparmos à Lei de Diretrizes e Base da Educação (LDB), que previa essa necessidade até este ano. O Bolsa Mestrado e Doutorado, em que professores têm o pagamento integral da sua pós-graduação stricto sensu, além de dispensa de algumas horas por mês para dedicação aos estudos, o programa de intercâmbio cultural que levou centenas de professores para conhecer sistemas pedagógicos de outros países, como a Espanha, a Inglaterra, Portugal e Estados Unidos, numa oportunidade de experiência internacional que só beneficiou os alunos e a comunidade escolar onde esses professores atuam, além de outros programas consolidados como o Teia do Saber, Rede do Saber, Canal do Saber e o Letra e Vida. Entre 2002 e 2006 foi feito um investimento de mais de R$ 800 milhões em capacitação de professores, em modalidades variadas.

Apoiar a capacitação dos professores é importantíssimo, mas concordo que é necessário dar a ele o mesmo que consideramos ser essencial para os alunos: atenção e respeito.

FOLHA DIRIGIDA – Que mensagem o sr. gostaria de deixar neste Dia do Professor?

Gabriel Chalita – Gostaria de deixar uma mensagem para os educadores anônimos, aqueles que nunca são lembrados e que se multiplicam por esse país, dando o que têm de melhor para construir uma relação de aprendizagem significativa. Aqueles que madrugam para chegar a lugares distantes, aqueles que não perdem a ternura, apesar das pedras que teimam em surgir no meio do caminho.

A arte de transformar informação em conhecimento

(Páginas Abertas)

Entrevista – Gabriel Chalita.

Quais os principais problemas da escola pública no Brasil? O que é preciso fazer para termos um ensino de qualidade mesmo sendo um país em desenvolvimento?

O problema de maior grandeza hoje é a evasão escolar, porque, de cada 100 crianças matriculadas, 20 abandonam a escola antes de terminar o ensino fundamental, no país. Conseguimos, em São Paulo, baixar esse índice. De 1ª a 4ª série, a taxa de abandono caiu em São Paulo de 6,9% em 2003 para 0,7% em 2004 e 0,6% em 2005. De 5ª a 8ª série, o índice caiu de 10,9% em 2003 para 2,8% em 2004 e 2,6% em 2005. No ensino médio, baixamos a evasão de 8,5% em 2003 para 7,2% em, 2004 e 7,0% em 2005.

Um desafio anterior, que conseguiu ser superado no governo Fernando Henrique Cardoso, foi universalizar o ensino fundamental – hoje, 97% das crianças em idade escolar estão efetivamente na escola. Mas muitas abandonam os estudos, ao longo da vida, por uma série de razões de natureza familiar: desemprego ou subemprego dos pais, doenças na família, necessidade de trabalhar para contribuir para com a renda familiar, preconceito, desmotivação etc. Isto acaba levando a uma defasagem idade-série, porque o aluno, quando retorna para a escola em outro momento, permanece atrasado em relação à idade recomendada – em média dois anos, segundo pesquisas do Ministério da Educação. Mas há razões diretamente ligadas à escola, como a falta de transporte adequado, por exemplo.

Portanto, os principais problemas são a evasão escolar, a falta de aporte financeiro federal suficiente para o financiamento da educação básica, e a falta de vagas necessárias para a universalização do ensino médio

Um outro ponto ainda a ser corrigido é a uniformização da jornada escolar, que em muitos pontos do território nacional não chega a três horas diárias. Há necessidade de fazer com que todos os Estados prolonguem essa jornada para quatro horas, num primeiro momento, e depois para cinco horas.

Na sua opinião, ser professor é uma profissão, uma vocação ou um pouco dos dois? Por quê?

O professor deve estar equipado com duas ferramentas essenciais: competência e amor. Se ele não tiver esses dois instrumentos, a educação não acontece. Portanto, o professor que não está preparado para esse trabalho precisa fazer uma escolha: ou vai buscar capacitação ou desiste, porque nunca vai ser um bom professor. O professor precisa gostar daquilo que faz.

Qual é o segredo da arte de educar?

Respeitar o aluno como pessoa. Uma pessoa que necessita de desenvolvimento integral, nos aspectos cognitivos, social e emocional. A educação é um processo em constante transformação, e por este motivo o professor precisa transformar a sua forma de atuar, reinventar seus métodos. Não se fala mais em professor facilitador – o professor hoje tem que assumir a postura do instigador, do problematizador, aquele que debate, ouve, incentiva o pensamento crítico, a tomada de posições, a independência de pensamento.

O aluno precisa de mais do que apenas decorar fórmulas e conceitos, em tempos de informação facilitada por diferentes meios de comunicação: internet, televisão, rádio, revistas, jornais, rua etc. Cabe ao professor auxiliá-lo nesse desafio de transformar informações em conhecimento. A utilização das novas tecnologias facilita o conceito de aluno pesquisador. Entretanto, continua valendo a assertiva de que, por melhor que seja a velocidade da informação trazida pelos meios tecnológicos, o computador nunca vai substituir o professor. Computador não tem alma. O aluno precisa de alma, de vínculo, de alguém capaz de auxiliá-lo na arte de gerenciar sonhos.

O senhor se lembra de algum acontecimento (ou exemplo) envolvendo algum professor seu que lhe edificou para o resto da vida?

Lembro-me de uma professora na escola pública que todas as sextas-feiras nos deixava sentar no chão para ouvir suas histórias. Era uma dádiva aquela mulher amada contando histórias universais para alimentar nossa alma infantil. Era a professora Helena Porto de Barros Gomes.

Como a escola pode demonstrar reconhecimento pelo excelente trabalho de alguns professores? Recompensando-o financeiramente ou há algum outro meio?

Valorizar financeiramente o professor é importantíssimo, porque um trabalho digno merece um salário digno. Na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo conseguimos um avanço financeiro acima da inflação para todos os professores, mas demos mais que dinheiro. Demos motivação e reconhecimento, também. Os professores tinham programas de visitas orientadas a museus e teatros, de graça. Tinham programas de intercâmbio em outros estados e até em outros países, por meio de parcerias com a iniciativa privada. Tinham crédito para compra de computadores pessoais – o Programa de Inclusão Digital, por meio de parceria entre a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo e o Banco Nossa Caixa, desenvolveu uma linha de financiamento para facilitar a compra de computadores para os docentes. E tinham democracia, como por exemplo na forma que idealizamos para discutir grade curricular, retorno das disciplinas de Sociologia, Artes e Filosofia ao currículo estadual: todos os professores foram ouvidos, sempre respeitada a posição da maioria.

Mas o fundamental é que os governos não interrompam ou descontinuem programas iniciados anteriormente, simplesmente porque são programas de outros governos.

Qual é a relação que a escola deve ter com a família dos alunos?

A mais estreita e participativa possível. O programa Escola da Família, implantado na gestão de Geraldo Alckmin como governador de São Paulo, foi o maior exemplo de integração já realizado no Brasil entre escola e comunidade. Todas as 5.300 escolas da rede pública estadual e outras 300 da rede pública dos municípios de São Paulo passaram a ser abertas aos fins de semana, desde agosto de 2003. Os alunos do Estado são chamados a participar de atividades de lazer, esportes e artes, e ainda aprendem técnicas de prevenção de saúde e iniciativas voltadas para a geração de renda. Os familiares são bem-vindos e participam das atividades, o que assegura um sentimento de envolvimento muito importante, e que se estende para o lar.

O que deveria ser feito para tornar o ambiente escolar mais atrativo e, assim, tirar as crianças e jovens das ruas e despertar mais neles o interesse pelo estudo?

Além da atração da comunidade para a escola, a adoção de uma postura mais afetiva de professores e funcionários para com os alunos e seus familiares é fundamental. Ao lado disso, porém é essencial adequar o currículo escolar para incluir atividades mais relacionadas com a realidade dos alunos, principalmente em relação ao mercado de trabalho.

Por que hoje, ao contrário do que acontecia no passado, o professor não é mais respeitado nem ouvido como deveria?

Como já disse, o bom educador é aquele que gosta do que faz, que tem dedicação. E ainda melhor é o educador que junta amor, dedicação e preparo. Porque, se ele não tiver esses instrumentos, a educação não acontece. Mas não podemos ignorar que, muitas vezes, a falta de motivação pode ser culpa de uma política salarial equivocada, da ausência de oportunidades de capacitação ou de estrutura material.

A valorização do magistério foi uma das prioridades da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, na minha gestão. Desenvolvemos algumas ações neste sentido, porque tenho consciência de que o professor é quem faz a escola, professor é quem faz a educação. Fizemos concursos para contratação de mais de 100 mil novos professores, conseguimos um aumento salarial de 40% para os ativos e 25% para os inativos, e implantamos o bônus salarial de R$ 1.200,00 até R$ 10.000. Como resultado, em nossa gestão, durante o governo Geraldo Alckmin, não houve uma greve sequer. Mas cuidamos também de outras iniciativas importantes, como a capacitação e a formação continuada.

Muitas pessoas acreditam que, infelizmente, muitos professores não possuem uma formação acadêmica adequada. O que um professor deve fazer para buscar uma formação contínua e sólida?

Ele tem que estudar sempre. A formação continuada é essencial na vida de qualquer profissional que tem respeito pelo seu ofício.

Conte-nos um pouco de sua experiência como Secretário de Educação. O que mais marcou esta etapa de sua vida?

O meu contato com os educadores. Perceber que há milhares de mulheres e homens que, apesar de toda dificuldade, levam a sério a arte de educar.

O que o senhor acha do ciclo de nove anos? Quais os pontos positivos e negativos que o senhor vê em relação a isso?

É importante que crianças e jovens permaneçam na escola por mais tempo, para assegurar maior qualidade no processo. Mas é essencial que seja garantida a qualidade do processo ensino-aprendizagem, com professores capacitados, diretores e funcionários competente, e alunos felizes, plenamente formados nos aspectos cognitivo, social e emocional. Ensino fundamental de nove anos é lei – precisa ser cumprido. Garantir carga horária diária de cinco horas na escola, com aulas atraentes e motivadoras, que tenham significado para o educando, deve ser o objetivo de toda escola pública. Com isso se conseguirá a igualdade de oportunidades a todas as crianças e jovens do país.

Qual a importância do ensino religioso e do ensino de filosofia no currículo dos alunos?

O valor da religião está apoiado em dois pilares: primeiro é a questão da discussão filosófica que deve nortear o desenvolvimento evolutivo do nosso pensamento, e, segundo, pela beleza dos exemplos que oferece. Todas as boas coisas, na vida, em geral nascem do bom exemplo. As religiões cumprem o papel de preservar, pela tradição oral ou mesmo pelos documentos que divulga, histórias de pessoas e de personagens que seguiram preceitos éticos e valores que contribuem para estimular o respeito de uma pessoa para com a outra.

Nos últimos tempos o senhor escreveu vários livros, embora ainda vivamos em um país onde o povo lê muito pouco. O que o motiva a empregar tempo na redação e na publicação de novos trabalhos?

Não considero que escrever seja empregar tempo, somente. Escrever, para mim, é uma necessidade, e simultaneamente uma ocupação que dá prazer.

De todos os livros que já escreveu qual o marcou mais? Por quê?

Todos eles têm importância na minha vida. Cada um retrata um momento e um desejo de partilhar os valores nos quais acredito.

Está preparando algum livro? Sobre o quê?

Reuni escritos poéticos esparsos e fragmentos de poesias, em dois volumes. Um deles se chama “De tudo o que mora em mim”, e o outro se chama “Estações”. Apesar de serem muito intimistas, e exibirem pensamentos principalmente relacionados ao amor, todos os textos têm fundamentos de filosofia, e acabam por terem uma conotação didática, também.

Os dois livros serão lançados simultaneamente, em meados de outubro.

Gostaria de deixar alguma mensagem aos educadores?

Gostaria de deixar uma mensagem para os educadores anônimos, aqueles que nunca são lembrados e que se multiplicam por esse país, dando o que têm de melhor para construir uma relação de aprendizagem significativa. Aqueles que madrugam para chegar a lugares distantes, aqueles que não perdem a ternura, apesar das pedras que teimam em surgir no meio do caminho.