A arte de transformar informação em conhecimento

(Páginas Abertas)

Entrevista – Gabriel Chalita.

Quais os principais problemas da escola pública no Brasil? O que é preciso fazer para termos um ensino de qualidade mesmo sendo um país em desenvolvimento?

O problema de maior grandeza hoje é a evasão escolar, porque, de cada 100 crianças matriculadas, 20 abandonam a escola antes de terminar o ensino fundamental, no país. Conseguimos, em São Paulo, baixar esse índice. De 1ª a 4ª série, a taxa de abandono caiu em São Paulo de 6,9% em 2003 para 0,7% em 2004 e 0,6% em 2005. De 5ª a 8ª série, o índice caiu de 10,9% em 2003 para 2,8% em 2004 e 2,6% em 2005. No ensino médio, baixamos a evasão de 8,5% em 2003 para 7,2% em, 2004 e 7,0% em 2005.

Um desafio anterior, que conseguiu ser superado no governo Fernando Henrique Cardoso, foi universalizar o ensino fundamental – hoje, 97% das crianças em idade escolar estão efetivamente na escola. Mas muitas abandonam os estudos, ao longo da vida, por uma série de razões de natureza familiar: desemprego ou subemprego dos pais, doenças na família, necessidade de trabalhar para contribuir para com a renda familiar, preconceito, desmotivação etc. Isto acaba levando a uma defasagem idade-série, porque o aluno, quando retorna para a escola em outro momento, permanece atrasado em relação à idade recomendada – em média dois anos, segundo pesquisas do Ministério da Educação. Mas há razões diretamente ligadas à escola, como a falta de transporte adequado, por exemplo.

Portanto, os principais problemas são a evasão escolar, a falta de aporte financeiro federal suficiente para o financiamento da educação básica, e a falta de vagas necessárias para a universalização do ensino médio

Um outro ponto ainda a ser corrigido é a uniformização da jornada escolar, que em muitos pontos do território nacional não chega a três horas diárias. Há necessidade de fazer com que todos os Estados prolonguem essa jornada para quatro horas, num primeiro momento, e depois para cinco horas.

Na sua opinião, ser professor é uma profissão, uma vocação ou um pouco dos dois? Por quê?

O professor deve estar equipado com duas ferramentas essenciais: competência e amor. Se ele não tiver esses dois instrumentos, a educação não acontece. Portanto, o professor que não está preparado para esse trabalho precisa fazer uma escolha: ou vai buscar capacitação ou desiste, porque nunca vai ser um bom professor. O professor precisa gostar daquilo que faz.

Qual é o segredo da arte de educar?

Respeitar o aluno como pessoa. Uma pessoa que necessita de desenvolvimento integral, nos aspectos cognitivos, social e emocional. A educação é um processo em constante transformação, e por este motivo o professor precisa transformar a sua forma de atuar, reinventar seus métodos. Não se fala mais em professor facilitador – o professor hoje tem que assumir a postura do instigador, do problematizador, aquele que debate, ouve, incentiva o pensamento crítico, a tomada de posições, a independência de pensamento.

O aluno precisa de mais do que apenas decorar fórmulas e conceitos, em tempos de informação facilitada por diferentes meios de comunicação: internet, televisão, rádio, revistas, jornais, rua etc. Cabe ao professor auxiliá-lo nesse desafio de transformar informações em conhecimento. A utilização das novas tecnologias facilita o conceito de aluno pesquisador. Entretanto, continua valendo a assertiva de que, por melhor que seja a velocidade da informação trazida pelos meios tecnológicos, o computador nunca vai substituir o professor. Computador não tem alma. O aluno precisa de alma, de vínculo, de alguém capaz de auxiliá-lo na arte de gerenciar sonhos.

O senhor se lembra de algum acontecimento (ou exemplo) envolvendo algum professor seu que lhe edificou para o resto da vida?

Lembro-me de uma professora na escola pública que todas as sextas-feiras nos deixava sentar no chão para ouvir suas histórias. Era uma dádiva aquela mulher amada contando histórias universais para alimentar nossa alma infantil. Era a professora Helena Porto de Barros Gomes.

Como a escola pode demonstrar reconhecimento pelo excelente trabalho de alguns professores? Recompensando-o financeiramente ou há algum outro meio?

Valorizar financeiramente o professor é importantíssimo, porque um trabalho digno merece um salário digno. Na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo conseguimos um avanço financeiro acima da inflação para todos os professores, mas demos mais que dinheiro. Demos motivação e reconhecimento, também. Os professores tinham programas de visitas orientadas a museus e teatros, de graça. Tinham programas de intercâmbio em outros estados e até em outros países, por meio de parcerias com a iniciativa privada. Tinham crédito para compra de computadores pessoais – o Programa de Inclusão Digital, por meio de parceria entre a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo e o Banco Nossa Caixa, desenvolveu uma linha de financiamento para facilitar a compra de computadores para os docentes. E tinham democracia, como por exemplo na forma que idealizamos para discutir grade curricular, retorno das disciplinas de Sociologia, Artes e Filosofia ao currículo estadual: todos os professores foram ouvidos, sempre respeitada a posição da maioria.

Mas o fundamental é que os governos não interrompam ou descontinuem programas iniciados anteriormente, simplesmente porque são programas de outros governos.

Qual é a relação que a escola deve ter com a família dos alunos?

A mais estreita e participativa possível. O programa Escola da Família, implantado na gestão de Geraldo Alckmin como governador de São Paulo, foi o maior exemplo de integração já realizado no Brasil entre escola e comunidade. Todas as 5.300 escolas da rede pública estadual e outras 300 da rede pública dos municípios de São Paulo passaram a ser abertas aos fins de semana, desde agosto de 2003. Os alunos do Estado são chamados a participar de atividades de lazer, esportes e artes, e ainda aprendem técnicas de prevenção de saúde e iniciativas voltadas para a geração de renda. Os familiares são bem-vindos e participam das atividades, o que assegura um sentimento de envolvimento muito importante, e que se estende para o lar.

O que deveria ser feito para tornar o ambiente escolar mais atrativo e, assim, tirar as crianças e jovens das ruas e despertar mais neles o interesse pelo estudo?

Além da atração da comunidade para a escola, a adoção de uma postura mais afetiva de professores e funcionários para com os alunos e seus familiares é fundamental. Ao lado disso, porém é essencial adequar o currículo escolar para incluir atividades mais relacionadas com a realidade dos alunos, principalmente em relação ao mercado de trabalho.

Por que hoje, ao contrário do que acontecia no passado, o professor não é mais respeitado nem ouvido como deveria?

Como já disse, o bom educador é aquele que gosta do que faz, que tem dedicação. E ainda melhor é o educador que junta amor, dedicação e preparo. Porque, se ele não tiver esses instrumentos, a educação não acontece. Mas não podemos ignorar que, muitas vezes, a falta de motivação pode ser culpa de uma política salarial equivocada, da ausência de oportunidades de capacitação ou de estrutura material.

A valorização do magistério foi uma das prioridades da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, na minha gestão. Desenvolvemos algumas ações neste sentido, porque tenho consciência de que o professor é quem faz a escola, professor é quem faz a educação. Fizemos concursos para contratação de mais de 100 mil novos professores, conseguimos um aumento salarial de 40% para os ativos e 25% para os inativos, e implantamos o bônus salarial de R$ 1.200,00 até R$ 10.000. Como resultado, em nossa gestão, durante o governo Geraldo Alckmin, não houve uma greve sequer. Mas cuidamos também de outras iniciativas importantes, como a capacitação e a formação continuada.

Muitas pessoas acreditam que, infelizmente, muitos professores não possuem uma formação acadêmica adequada. O que um professor deve fazer para buscar uma formação contínua e sólida?

Ele tem que estudar sempre. A formação continuada é essencial na vida de qualquer profissional que tem respeito pelo seu ofício.

Conte-nos um pouco de sua experiência como Secretário de Educação. O que mais marcou esta etapa de sua vida?

O meu contato com os educadores. Perceber que há milhares de mulheres e homens que, apesar de toda dificuldade, levam a sério a arte de educar.

O que o senhor acha do ciclo de nove anos? Quais os pontos positivos e negativos que o senhor vê em relação a isso?

É importante que crianças e jovens permaneçam na escola por mais tempo, para assegurar maior qualidade no processo. Mas é essencial que seja garantida a qualidade do processo ensino-aprendizagem, com professores capacitados, diretores e funcionários competente, e alunos felizes, plenamente formados nos aspectos cognitivo, social e emocional. Ensino fundamental de nove anos é lei – precisa ser cumprido. Garantir carga horária diária de cinco horas na escola, com aulas atraentes e motivadoras, que tenham significado para o educando, deve ser o objetivo de toda escola pública. Com isso se conseguirá a igualdade de oportunidades a todas as crianças e jovens do país.

Qual a importância do ensino religioso e do ensino de filosofia no currículo dos alunos?

O valor da religião está apoiado em dois pilares: primeiro é a questão da discussão filosófica que deve nortear o desenvolvimento evolutivo do nosso pensamento, e, segundo, pela beleza dos exemplos que oferece. Todas as boas coisas, na vida, em geral nascem do bom exemplo. As religiões cumprem o papel de preservar, pela tradição oral ou mesmo pelos documentos que divulga, histórias de pessoas e de personagens que seguiram preceitos éticos e valores que contribuem para estimular o respeito de uma pessoa para com a outra.

Nos últimos tempos o senhor escreveu vários livros, embora ainda vivamos em um país onde o povo lê muito pouco. O que o motiva a empregar tempo na redação e na publicação de novos trabalhos?

Não considero que escrever seja empregar tempo, somente. Escrever, para mim, é uma necessidade, e simultaneamente uma ocupação que dá prazer.

De todos os livros que já escreveu qual o marcou mais? Por quê?

Todos eles têm importância na minha vida. Cada um retrata um momento e um desejo de partilhar os valores nos quais acredito.

Está preparando algum livro? Sobre o quê?

Reuni escritos poéticos esparsos e fragmentos de poesias, em dois volumes. Um deles se chama “De tudo o que mora em mim”, e o outro se chama “Estações”. Apesar de serem muito intimistas, e exibirem pensamentos principalmente relacionados ao amor, todos os textos têm fundamentos de filosofia, e acabam por terem uma conotação didática, também.

Os dois livros serão lançados simultaneamente, em meados de outubro.

Gostaria de deixar alguma mensagem aos educadores?

Gostaria de deixar uma mensagem para os educadores anônimos, aqueles que nunca são lembrados e que se multiplicam por esse país, dando o que têm de melhor para construir uma relação de aprendizagem significativa. Aqueles que madrugam para chegar a lugares distantes, aqueles que não perdem a ternura, apesar das pedras que teimam em surgir no meio do caminho.

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