Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim falava das águas de março. O mesmo mês que costuma trazer as águas da redenção motivou as circunstâncias tristíssimas que nos levam a celebrar no dia 8 o Dia Internacional das Mulheres. Mas, embora a origem da comemoração seja trágica, a associação das águas de março com as mulheres é gloriosa.
E conduz a um raciocínio prazeroso: pensar nas mulheres e na sua relação com a água. Este é o tema do livro que vai estar nas livrarias a partir do próximo mês de abril. “Mulheres de água“, uma homenagem à alma feminina, vai ser lançado no dia 11 de abril, às 18h, na Livraria Siciliano do Shopping Pátio Higienópolis. (Av. Higienópolis, 618 – Arco 326)
E por que a relação entre água e mulheres? Porque a água pode ser nítida, quando fluida. Pode ser opaca, quando gelo. Cristalina ou turva. Tranqüila ou bravia. Molda-se ao ambiente, desliza, ocupa as gretas, vazios e vãos. Mansa ou ligeiramente ondulada, alaga planos e baixios, espraia-se. Em desníveis, empurra, puxa, ergue-se em cristas. Água com mais água ganha força, ao mesmo tempo briga, encrespa-se e encapela-se, vaga sobre vaga, turbilhão, tormenta. Mulheres são água. Fluidos, sangue, mênstruo, seiva. Mulheres também são pássaros. Umas cantam, tristemente, as suas penas, outras exibem vistoso colorido. Mas todas as mulheres têm o projeto de fazer ninho, o sonho de voar, o vôo para o horizonte, e o peito cheio de amor. O livro é um registro. Uma comédia de costumes. À parte o tratamento caricatural de algumas das personagens, o fato é que todas elas existem. Em algum momento da minha vida eu as encontrei, todas. Com outros nomes, com outras urgências, mas todas assim mesmo, autênticas, verdadeiras, elas mesmas, desnudas de hipocrisias, diante da vida.
Não há exagero nas histórias, embora a narração bem-humorada tenha sido o principal elemento de coesão do livro. Não há preconceitos nas histórias. As pequenas loucuras, manias, descompensações que sejam, todo mundo as têm. Mulheres ou homens. Todos nós nos comportamos com intolerância, atabalhoamento, sofreguidão, ingenuidade, ansiedade, inveja, estranhamento, raiva, vingança, surpresa, diante de situações da vida. Quantas vezes nos damos conta de nós mesmos fazendo bobagens ou insistindo em pequenas insanidades – perdoáveis ou não. O que a gente nem sempre consegue fazer é admiti-las.
O livro vai tratar da alma feminina. Mas é mais do que isso: é uma modesta tentativa de tradução do resultado da convivência de almas humanas. Trata de mulheres, mas trata de homens, também, porque uns e outros são vívidas manifestações comportamentais originadas de heranças culturais, imposições da tradição. Trata de expectativas, frustrações, esperanças, realizações, demandas e renúncias. Trata de rotina, experiências simples, caseiras, cotidianas. Trata de vida, em suma. Trago à luz estas histórias, ainda que sem compromisso com a antropologia cultural. Meu compromisso é com a literatura, com a arte de contar histórias. Quem quiser, olhe para o espelho da água derramada e veja a si mesmo. Ou a outrem. O que espero é que ninguém passe pelas páginas desse livro sem se sentir tocado. Como eu fui tocado por essas mulheres de água. Águas de março, fechando o verão, promessa de vida no meu coração.