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A reforma da língua portuguesa

“Micro-ondas”, “enjoo”, “contrarregra”, “assembleia”. Grafias hoje consideradas erradas e que rendem pontos a menos nas provas de gramática serão incorporadas, oficialmente, ao português. Embora ainda não tenha sido introduzido na prática, entrou em vigor este ano o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, firmado em 1990 entre os oito países que falam o idioma.

As mudanças, que visam unificar as regras da ortografia, deverão começar a valer, no Brasil, a partir do ano que vem. Hoje, a Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), da Secretaria de Educação Superior (SESU-MEC), vai se reunir para discutir a implantação do acordo.

Não se trata de uma reforma, como a de 1971, quando, entre outras alterações, deixou-se de escrever “êles”, “saüdar” e “govêrno”. Ao contrário do que algumas pessoas têm alardeado, as alterações não serão drásticas. O educador e escritor Gabriel Chalita estima que, no Brasil, apenas 2% dos 228 mil verbetes do dicionário sofrerão modificações. “Na verdade, é uma cosmética na língua. Uma minilipo para deixar o português um pouco mais magro”, define a lingüista e lexicóloga Enilde Faulstisch, professora de história da língua portuguesa da Universidade de Brasília (UnB).

Mesmo assim, ela reconhece, algumas novas regras deverão dar dor de cabeça aos que já estão mais do que acostumados a lidar com hífen, trema e acentos diferenciais. “O que vai dar mais trabalho é o hífen”, aposta. O acordo prevê a retirada do hífen de algumas palavras e a inclusão em outras. Por exemplo: microondas passa a ser dividido porque o prefixo (micro) termina com a mesma vogal com a qual se inicia o segundo elemento (ondas). Em Portugal, já se escreve dessa forma. Por outro lado, o hífen será eliminado em palavras com consoantes dobradas, como contra-regra, que vira contrarregra e anti-semita, que passa para antissemita.

Enilde estima que serão necessários 10 anos para que uma nova geração de alfabetizados tenha domínio sobre as novas regras. E acredita que a mudança na pronúncia de algumas palavras é uma questão de tempo. “As vogais idênticas, como na palavra enjôo, serão fundidas e as pessoas vão acabar falando enjo”, suspeita. No caso do trema, a professora avalia que a pronúncia do gui em palavras como lingüiça serão faladas com o som das palavras “guilherme” e “guilhotina”.

Obsolescência 

A morte do trema é comemorada pelo educador e escritor Gabriel Chalita. “O trema é uma excrescência que vários escritores já haviam abolido. Uma rebeldia que Monteiro Lobato já praticava contra os gramáticos, no início do século 20″, aponta. “Grosso modo, o trema não passa de dois pingos em cima do u”, concorda Enilde Faulstisch.

Para o gramático e professor de português Ernani Pimentel, o acordo é um avanço para a modernização da língua, mas insuficiente para simplificar regras de difícil assimilação. “No capítulo da ortografia, tudo precisa ser reformulado. Não existem parâmetros coerentes, o estudante acaba tendo de decorar, o que está errado”, observa. “O importante seria pensar numa reforma abrangente em termos fonéticos, simplificando o alfabeto e eliminando algumas maluquices da língua.” Ele sugere a criação de um conselho composto de professores, integrantes da Academia Brasileira de Letras e representantes de universidades para estudar uma verdadeira reforma do idioma.

“Embora a gramática descritiva da língua portuguesa acompanhe bastante bem a dinâmica e a evolução da língua, nossa gramática normativa é lenta. A última reforma de vulto, na língua portuguesa, foi realizada em 1971. É muito tempo para uma língua jovem como a nossa, que tem menos de mil anos de existência e, ao mesmo tempo, é tão influenciada pelas novas tecnologias, pela globalização e pela célere mudança de hábitos”, concorda Chalita. “Começamos bem, simplificando o uso em alguns casos. Mas ainda há muito que simplificar”, defende.

Professor de português há 22 anos e autor de 15 livros sobre o tema, incluindo uma gramática, Felix Filemon de Moraes ressalta que os principais erros cometidos por alunos relaciona-se ao emprego das letras. “Acompanho muitos estudantes que prestam concursos e são reprovados nas redações por erros elementares. Deixam de passar por causa de um cedilha. Não culpo o falante. A língua portuguesa realmente é muito difícil”, reconhece.

Filemon mostra exemplos da complicada língua portuguesa ao citar o caso da grafia da letra x, que tem quatro sons distintos: cê (como em sintaxe), zê (como em exame), xis (como em enxame) e qc (como em fixo). O mesmo ocorre com o z, que também tem som de s. “Isso tudo confunde muito. A unificação da escrita deveria ocorrer de acordo com a pronúncia”, aponta.

Dificuldades 

Apesar de Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe já terem ratificado as novas normas, o que, na teoria, possibilita a imediata adoção do acordo, Portugal, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor-Leste ainda não o fizeram. A grande resistência vem de Portugal, que não vê com bons olhos as mudanças, que atingirão 1,6% do vocabulário luso. “Com todo o respeito que devemos a Portugal e aos portugueses, a simplificação da língua é uma exigência da vida moderna. Além disso, somos 180 milhões de falantes, enquanto Portugal representa pouco mais de 5% desse volume”, argumenta Chalita.

Segundo a lingüista Enilde Faulstisch, os dois países batem cabeça em relação à padronização do idioma desde o século 19, 300 anos depois do aparecimento do português como idioma. “É uma questão de estrutura secular, que vai mexer com todo mundo. Mas ninguém é dono da língua”, lembra. 

Acesso mais democrático à educação distribui a renda

Os resultados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2002/2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na semana passada, demonstram com clareza a urgência de políticas mais efetivas para a educação. Existe uma inequívoca relação entre o número de anos de estudo e a renda familiar, e a educação ainda é o instrumento mais efetivo de redução das desigualdades sociais.

Segundo a POF, a renda familiar aumenta de forma significativa se a família tiver pelo menos um membro com curso universitário – de R$ 1.215,24 para R$ 3.817,96 de renda média anual. Se na família existirem pelo menos duas pessoas com curso universitário, a renda média passa para R$ 6.994,98. Esses números são a prova contundente de que as discussões em torno de “portas de saída” para o Bolsa Família, que é um programa de transferência de renda, devem passar necessariamente por ações que objetivem aumentar a média de anos de estudo da população. 

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2004, também do IBGE, indica que a taxa de escolarização é menor na população de baixa renda, e sensivelmente menor nas regiões mais pobres do país. Na base da pirâmide social, a freqüência na escola é muito pequena na faixa etária de 4 a 6 anos – provavelmente por falta de equipamentos públicos, já que apenas recentemente a pré-escola vem recebendo alguma atenção -; é alta na faixa etária de 7 a 14 anos, onde se considera que o país tenha chegado à quase universalização do ensino; e cai de forma assustadora na faixa de 15 a 17 anos. Programas de transferência de renda que têm condicionalidades apenas para a faixa etária onde a educação está quase universalizada provocam um grande impacto inicial de inclusão dos extremamente pobres, mas, na medida em que os incorpora à sociedade de consumo, a tendência é de que esse efeito se estabilize. A partir daí, se não houver uma grande convergência entre a política social e a educacional, podem ser neutralizados os ganhos até agora obtidos pelo Bolsa Família na redução da miséria e melhoria da distribuição de renda. 

O saldo dos programas de distribuição de renda, até o momento, não é desprezível: o relatório do Programa Objetivos do Milênio divulgado na semana passada aponta que o índice de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza foi reduzido de 8,8% para 4,2% entre 1990 e 2005. Isso quer dizer que o Brasil antecipou em sete anos o cumprimento de uma das metas acordadas com a ONU para o período de 1990-2015, que é a de reduzir pela metade a população com renda inferior a US$ 1 diário. As metas, no entanto, incluem a garantia de educação de qualidade para todos. Nesse quesito, o Brasil apenas comemora a quase universalização do ensino básico: a porcentagem das crianças entre 7 e 14 anos que freqüentam a escola subiu de 81,4% para 94,5%, mas a qualidade dessa educação é discutível. 

O desafio agora é como manter as crianças estudando. O Pnad de 2004 acusou que, no grupo etário de 15 a 17 anos, 20,1% dos que não freqüentavam a escola a abandonavam para ajudar nos afazeres domésticos, para trabalhar ou procurar trabalho. O PAC da Juventude anunciado na semana passada, ao mirar a população de 15 a 29 anos, reconhece a dificuldade de manter um adolescente pobre na escola até o final do segundo grau. Segundo números do governo, 9% da população nessa idade está desempregada – 4,5 milhões dos 50,5 milhões de jovens brasileiros. Destes, a maioria não freqüenta a escola e tem apenas o ensino fundamental. Atribui-se à baixa escolaridade e qualificação a exclusão dessas pessoas do mercado de trabalho. 

Se não for por razões humanitárias, a atenção a essa faixa etária – daqueles que estariam na idade de freqüentar uma universidade, mas apenas engordam estatísticas de desemprego – deve ser pensada como fundamental ao desenvolvimento econômico. Conforme afirmou o economista Samuel Pessôa, na edição do último dia 30 do Valor, a universidade, para os estudantes de baixa renda, tem também a função de preencher as falhas do ensino médio da escola pública e as deficiências das pessoas que tiveram pouco acesso à cultura e à informação. E, complementando, talvez seja a única possibilidade de mobilidade social que pode ser disponibilizada à população pobre. 

Pois é

Por Gabriel Chalita (Jornal das Letras)

A verdade pode durar uma vida inteira, perseguir uma mulher madura, assaltada de lembranças provocadas por uma amiga que mexe com uma varinha “o fundo lodoso da memória”. E, de repente, a avó percebe uma convulsão na sua realidade, porque de repente outra verdade se sobrepõe. Explica. Reduz. E ao mesmo tempo amplia.

Pois é. A verdade, em Lygia Fagundes Telles, é tão crua quanto esclarecedora. O que está em seus contos é a vida, sua própria e de outros, tão real e tátil como o chão áspero de cimento.

Reli, com assombro renovado, seu Papoulas em feltro negro, que ela incluiu no livro “Meus contos preferidos”. Em onze páginas, Lygia roteiriza, organiza, sumariza, romantiza, anarquiza e enfim suaviza e cicatriza uma vida inteira.

Ojeriza.

Fuga.

Medo.

Ansiedade.

Mentira.

Não foi sem intenção que a narrativa das memórias suscitadas por um telefonema se concentre na latrina do colégio. Era o ponto da tangência. O ponto da fuga. A casinha fedorenta era melhor do que a sala de aula, com aquela presença esmagadora, opressora da professora castradora. Mentira! Tão bem dissimulada que pareceu verdade, por cinqüenta anos. E a verdade, um dia, lhe atinge a face como a aba de um chapéu de feltro, ornado de papoulas desmaiadas.

A memória é sinestésica. E os elementos formais estão ali, polvilhados no conto de Lygia, a declarar a ação dos sentidos. O tato da memória traz a aspereza do giz, o suor das mãos, o pé que esfrega a mancha queimada de cigarro no tapete. A audição da memória pede que se repita a Valsa dos Patinadores, como se repetiu a lembrança pela voz da companheira sessenta e oito, da escola primária. Mas o cheiro da memória remete, primeiro, a urina. A latrina escura. E eis a visão da memória a denunciar a obliteração. Negro quadro-negro. Trança negra. Saia negra. Feltro negro.

No meio do negrume, o sol reflete o seu fulgor majestoso na vidraça. É o esplendor do flagrante descobrimento. “O sol incendiava os vidros e ainda assim adivinhei em meio do fogaréu da vidraça a sombra cravada em mim.” Dissimulação – mesmo em meio a tanta luz, há uma sombra. É uma sombra que persegue a personagem até o reencontro com a professora. Sombra, por definição, é uma imagem sem contornos nítidos, sem clareza. Como a professora, morta-viva, “invadindo os outros, todos transparentes, meu Deus!” E Deus, que sombra é esta a que chamamos Deus?

Pois é. Neste conto de Lygia, o gosto da memória, ou a memória do gosto, está ausente. Não se manifesta o sabor. Por que não se manifestou o saber, é por isso?

O conto é partícula de vida. É meio primo da História. Mais do que eventos, registra caráter, caracteres, costumes, clima, ambiente, formas, cores, preferências, gostos. O conto é uma das modalidades da história feita arquivo. Por isso conto, contas, contamos. O conto oral é o livro em potência, a história em potência. Ambos pertencem a quem os usa, e a quem de seus exemplos faz uso.

A escola deve ensinar a ler. Mas também deve ensinar a ouvir. Por isso, também na escola, que é um complemento da família, é preciso haver quem conte histórias. Como Lygia, que nos faz lembrar que é preciso haver a lembrança de uma infância vivida, o acalanto de uma voz querida, contando histórias, ilustrando a vida.

Lygia é de uma franqueza pontiaguda.

Este conto, em especial, é uma escancarada confissão de humanidade. A personagem é Lygia, ou qualquer um de nós. A personagem é frágil. Conquanto pensasse, a vida inteira, que era forte. Imaginava-se executora. Conquanto pensasse, a vida inteira, que era executada. Humana, enfim. Eis a verdade. Eis Lygia. Pois é.

Reedição homenageia os pais

Com desenho a bico de pena de autoria de Tom Maia, artista de Guaratinguetá, ilustrando a capa, Gabriel Chalita relança o livro Memórias de um homem bom, que escreveu em 1996. O livro foi entregue a José Milhem Chalita no dia em que completava 80 anos de vida, como homenagem do filho Gabriel.

Na contracapa do livro, Gabriel Chalita diz isto: “Meu pai era um semeador da simplicidade, da mansidão. Seus exemplos falavam mais do que suas palavras, embora essas contivessem sabedoria de uma escola de sofrimentos e alegria, a escola da vida. Esse é o homem que mora até hoje em meus pensamentos e em minha saudade. Quantos filhos crescem e se consideram mais importantes ou mais especiais do que os pais? Ledo engano! As árvores que negam as raízes têm vida triste. É nos pequenos gestos e nas pequenas demonstrações cotidianas de afeto que se reconhece a grandeza do ser humano. Mais do que uma homenagem pessoal, que este livro possa ser lido como uma celebração a todos os pais.”

Compreensão, instrumento da pegagogia

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

O filme inglês Iris (EUA, 2002), dirigido por Richard Eyre, aborda uma das mais importantes qualidades do caráter: a compreensão. Esta é uma palavra utilizada para determinar a capacidade de perceber completamente, com perfeito domínio intelectual, uma pessoa, uma coisa ou um assunto. Mas compreensão também significa a faculdade de possuir um espírito de complacência, indulgência ou simpatia para com as dificuldades de uma pessoa, percebendo os obstáculos que venham a suceder com alguém.

A compreensão ajuda a conviver melhor.

Quantos casos há de alunos que desistem por fatores externos à sala de aula. Tantas razões existem e são desconhecidas para que um aluno não consiga aprender. Bloqueios que nascem de uma educação castradora ou sem afeto. Medo de errar, medo de não ter inteligência, medo de ser rejeitado, medo de não dar certo. O educador compreensivo conhece seu aluno para ajudá-lo. Pais compreensivos compreendem as diferenças entre os filhos e aceitam os caminhos que cada um opta trilhar segundo os impulsos das escolhas nascidas da reflexão. Talvez o que possam fazer é ajudar a refletir. Pais compreensivos não exigem que os filhos vivam os sonhos não realizados por eles. A projeção da felicidade não é felicidade. Daí a assertiva sartreana de que “o inferno são os outros”, isto porque cada um projeta no outro a própria realização. E o resultado será a infelicidade para toda a gente.

Professores compreensivos conseguem entender que a aprendizagem é múltipla, e que cada um aprende de uma forma diversa. E mais: têm a humildade de mudar a estratégia para que os alunos que estejam à margem, por qualquer motivo, sintam-se integrados.

A compreensão faz com que casais que se educam mutuamente entendam que príncipes e princesas existem na ficção e alimentam os sonhos, mas que, na prática, são todos mortais, com as imperfeições e as idiossincrasias que marcam o ser humano. Imperfeições que desafiam. Os compreensivos se completam e por isso se respeitam e conseguem conviver em harmonia.

Compreendendo o ser humano

O longa-metragem Iris destaca partes da vida da romancista e filósofa irlandesa Iris Murdoch, alternando cenas que retratam o início de seu relacionamento com o professor de literatura, John Bayley, e outras que reproduzem os momentos finais de sua existência, já abalada pelo Mal de Alzheimer. Em sua juventude, Iris Murdoch (interpretada por Kate Winslet), revela uma personalidade forte, destemida e dominadora, que contrasta com o comportamento tímido, dócil e respeitoso de seu culto colega da Universidade de Oxford, John Bayley (representado pelo ator Hugh Bonneville).

Na fase madura da vida, Iris (agora interpretada por Judi Dench), é laureada com o título de Dama da Ordem do Império Britânico, em reconhecimento ao seu inegável talento na arte da palavra. Está no auge de uma bem-sucedida carreira literária, notabilizada por um extraordinário domínio da linguagem e pelo habilidoso uso dos recursos da imaginação, próprios de uma mente privilegiada. Mas é a mente que começa a sofrer os efeitos da doença degenerativa que a acometeu. Na companhia de seu apaixonado e zeloso companheiro – representado então por Jim Broadbent -, experimenta o progressivo comprometimento de seu cérebro, por meio da dramática diminuição de sua memória, de constrangedoras dificuldades de raciocínio e pensamento, e aniquiladoras alterações comportamentais.

Acima de tudo, seus romances lidam com questões morais. Conflitos entre o bem e o mal também estão freqüentemente presentes em cenas mundanas, que ganham força mítica e trágica por meio da sutileza com que são descritas. Embora intelectualmente sofisticados, seus romances são sempre melodramáticos e cômicos, fixados – como ela mesma dizia – num desejo de contar uma “boa história”.

Foi fortemente influenciada por pensadores como Platão, Freud, Simone Weil e Sartre, e por romancistas ingleses e russos do século XIX. Seus romances, muitas vezes, incluem personagens homossexuais, animais afetuosos e eventualmente um poderoso e quase demoníaco “galanteador”, que impõe sua vontade sobre a dos outros personagens.

No filme, há um trecho em que Iris fala para uma platéia lotada. Fala, emocionada, sobre a importância da educação. O que se destaca do pensamento dela é a compreensão da pessoa humana. Um posicionamento que requer, afinal, uma atitude de desligar-se de si mesma e ir em busca da outra pessoa, percebendo com os olhos da alma o que se passa em seus corações. Veja a seguir alguns trechos do filme, em que ela reflete sobre este assunto:

– “A educação não traz felicidade e nem sequer liberdade. Não nos tornamos felizes porque somos livres, se somos, ou porque somos ou fomos educados, se formos. Mas porque a educação pode ser o meio pelo qual percebemos que somos felizes. Ela abre nossos olhos e ouvidos. Conta-nos onde se escondem os prazeres. Convence-nos de que só existe uma liberdade que realmente importa. A da mente. E nos dá a segurança, a confiança para trilhar o caminho que a nossa mente educada proporciona.”

– “Os seres humanos se amam. No sexo, na amizade, e quando estão apaixonados. E eles cuidam de outros seres. Humanos, animais, plantas e até mesmo pedras. A busca e a promoção da felicidade estão em tudo isso e no poder da nossa imaginação.”

– “Toda alma humana presencia, talvez mesmo antes do nascimento, formas puras. Tais como justiça, moderação, beleza e todas as qualidades morais de que nos honramos. Somos levados em direção ao bem, pela vaga lembrança dessas formas. Simples, tranqüilas e abençoadas, as quais uma vez vimos, em sua luz límpida e clara, sendo nós mesmos puros.”

– “Temos que acreditar em algo divino. Sem a ajuda de Deus. Algo que poderíamos chamar de amor… ou bondade. Como diz o Salmo: ‘Até onde devo me afastar do teu Espírito para evitar a tua presença? Se eu subo até o paraíso, Tu estás lá. Se vou para o inferno, Tu estás lá. Se tomo as asas da manhã e vou para os mais remotos cantos do mar, até mesmo lá tua mão me conduzirá e tua mão direita me segurará.

Saber entender

O marido, no filme, compreende as transformações pelas quais passa a nossa personagem. Já dissemos que compreender não é tarefa simples. Significa sair de si e tentar entender o que se passa com o outro e com ele, apesar das mudanças ou diferenças conseguir conviver. Já se superou o mito de que os iguais devem estudar juntos. E os outros com os outros.

As falas de Íris mostram um pouco o que a educação pode significar para o ser humano. Quando ela diz que a educação não traz por si só a felicidade, mas é ela que tem o poder de nos ensinar a perceber o quanto somos felizes. A educação abre nossos olhos e ouvidos para que a nossa vida não seja uma constante reclamação. Educa nossa mente para que seja livre e nos dá a segurança para realizar nosso mister.

Diz ainda outra linda verdade. Os seres humanos se amam. E por isso cuidam uns dos outros e quando não o fazem é por alguma perversão, algum distanciamento da própria humanidade. É feliz aquele que ama e isso se sente na elevação que vem do resultado de uma ação nobre.

E para não parecer contraditório frente ao mar de sofrimentos e traições e maldades que há por aí, insiste Íris que a alma humana presencia talvez antes mesmo do nascimento, formas puras, e isso é platônico. O mundo das idéias em que tudo e perfeito. E é por causa dessa pureza que somos levados em direção ao bem e é apenas fazendo o bem que encontramos o caminho da felicidade. É como que uma luz que nunca deixará de ser luz mesmo escondida, mesmo empoeirada. Talvez ela não cumpra sua função maior que é a de iluminar, talvez nem percebam que se trata de luz. Mas sua essência será sempre essa, luz. Luz que não ilumina. Que pena. Faltou um pouco de paciência para limpar o recipiente ou para colocá-lo em um local correto.

E fala Íris de Deus. É Ele a origem e a essência do Bem. E é no bem que a felicidade se justifica. E é no Bem que a liberdade se amplia e que os horizontes nos remetem a ação. É o motor imóvel de Aristóteles que move os motores móveis. Sem a alavanca primeira nem existiram os demais movimentos.

Entendimento, atitude de inclusão

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

“Para entender o coração e a mente de uma pessoa, não olhe para o que ela já conseguiu, mas para o que ela aspira”. A frase é de Gibran Khalil Gibran, filósofo e poeta libanês, que viveu entre 1883 e 1931, e resume a qualidade do entendimento. Quem entende também atende. Quem entende também estende – estende a mão e a atenção para a outra pessoa.

Há formas diferentes de perceber a importância do entendimento. Como se sente carente aquele que, diante do juiz, não consegue entender o que ele está dizendo; ou aquele que vai ao consultório e não domina a linguagem que o médico faz questão de rebuscar; ou em uma palestra em que o conferencista faz questão de mostrar que domina termos que não são comuns ao auditório. Para o professor, o entendimento é ainda mais fundamental, porque não se pode ensinar sem entender o aluno. E o aluno não aprende se não entende. É praticamente uma relação de companheirismo.

Um filme francês (O oitavo dia) mostra um verdadeiro retrato do entendimento.

Harry é um profissional de sucesso, mas não consegue o mesmo na vida pessoal. Cansada, a mulher o abandona, levando os dois filhos. No fim de semana em que o filme se passa, Harry deveria pegar os filhos, que vêm para visitá-lo, na estação de trem. Mas, ocupado como sempre, acaba se esquecendo. Os filhos ficam loucos da vida e prometem nunca mais querer vê-lo. E Harry sai dirigindo por uma estrada, para espairecer. Georges é órfão, tem a síndrome de Down, e mora em um hospital psiquiátrico. Nessa tarde, ele fica muito chateado de não receber visita e resolve fugir. Está caminhando por uma estrada, fugindo, sob uma forte neblina, e é quase atropelado pelo carro de Harry. O encontro acidental aproxima os dois. Harry tenta se livrar de Georges, mas uma forte ligação entre ambos é quase imediata. A partir daí, uma amizade especial se desenvolve, que levará a profundas mudanças na vida de Harry.

O ator que interpreta Georges é um jovem francês, com síndrome de Down, que mostrou que talento é resultado de dedicação e esforço. Ele teve o entendimento necessário para levar, ao cinema, a angústia do preconceito e a possibilidade da superação através da gentileza que nasce da amizade, que nasce do amor.

A lição do exemplo

A situação de Georges chama a atenção para a inclusão. Seus sonhos eram os de qualquer outro jovem de sua idade.

Há um mito no sistema educacional que perdura, por mais que a legislação já tenha garantido o contrário, que é o de separar as crianças com deficiência das outras crianças. Esse mito vem do medo de que o professor não consiga lidar com as diferenças. Vem ainda da preocupação de que os alunos não entendam que o outro é diferente e o acabem ridicularizando.

A prática mostra o contrário. Nas salas de aula em que convivem os alunos com deficiência com os outros alunos, nasce um sentimento de respeito e mais do que isso, de solidariedade. É comum, em uma sala com algum aluno que tenha deficiência auditiva, ver toda a sala aprendendo a linguagem de sinais para melhorar a convivência. Alunos empurrando a cadeira de rodas daquele que só se locomove dessa maneira, outros entendendo as dificuldades daquele que traz algum problema. Já dissemos que o jovem é solidário. O aluno é solidário. O preconceito nasce muito mais do discurso viciado de alguns pais que temem que seus filhos não se desenvolvam porque há algum aluno mais atrasado cognitivamente na mesma sala de aula.

Evidentemente, o professor precisa de capacitação para que esse aluno seja de fato incluído. O aluno precisa participar, executar as tarefas que estiverem ao seu alcance. Não precisa de pena, mas de dignidade. E os alunos, ao conviverem com pessoas diferentes, estarão se preparando para a vida. Nos países mais desenvolvidos, já foi superada essa discussão. Não apenas entendem que a inclusão é necessária na escola como o é em toda a sociedade. Dos meios de transporte ao mercado de trabalho, passando por teatros e cinemas e restaurantes.

Oxalá o tempo em que essas pessoas ficavam confinadas em casa, por falta de condições de se desenvolverem, não volte nunca mais. Precisam eles de atenção e de entendimento. Entender o outro faz-me entender a mim mesmo. Entender o outro faz-me melhor porque perco a arrogância de achar que o normal sou eu. O que é ser normal? Talvez no filme seja Georges o mestre de Harry.

Nosso eterno amigo, o livro

Por Gabriel Chalita (Jornal do Brasil)

O semiólogo italiano Umberto Eco afirmou certa feita que o livro, “depois de ser inventado, vai-nos acompanhar por muito tempo”. Penso, entretanto, que essa companhia será para sempre, pois, assim como a televisão não fez desaparecer o rádio, nem o cinema impediu que o teatro continuasse a ser arte tão antiga quanto admirada, a cultura digital não eliminará o livro.

À medida que se prestigia, nas últimas décadas, a educação – algo fundamental para elevar a condição de vida do nosso povo e promover o correto e justo processo de desenvolvimento do país – abre-se espaço, ao lado da cultura digital, para a continuada difusão da cultura letrada e para o aparecimento de pensadores, filósofos, cientistas e poetas, indispensáveis para que brotem novos leitores e escritores.

Conquanto ainda haja um percentual expressivo de analfabetos em nosso país, cabe registrar que, nas últimas décadas, o hábito da leitura tem crescido entre nós. Conforme revelou recente pesquisa da Câmara Brasileira do Livro, o brasileiro lê, em média, 1,8 livro por ano – obviamente um número modesto se compararmos com a França, onde o índice é de 7, ou a Colômbia, país vizinho ao nosso, com 2,4 livros lidos por ano.

Para isso, muito têm ensejado iniciativas governamentais e de instituições privadas, visando a estimular a leitura e a reflexão a respeito de tudo que é humano. Como ministro da Educação, em meados da década de 80, empreendi, por intermédio da criação do Programa Nacional do Livro Didático (Prodeli), ações para aumentar a oferta de livros aos estudantes da rede pública – da União, Estados e municípios – por entender que essa seria uma forma de não somente ajudar o aluno a educar-se, mas também fazer desabrochar novas vocações e concorrer para o aggiornamento cultural e intelectual da sociedade brasileira. Infelizmente, observe-se, ainda é pequena a quantidade de bibliotecas, sobretudo nas regiões mais pobres do país.

A publicação de livros está ligada também ao fortalecimento da democracia, especialmente a liberdade de expressão. Em tempos não remotos, livros, jornais e enciclopédias eram assunto de polícia e da censura, que ainda sobrevive em vários países e é o pior dos instrumentos que a liberdade de pensamento e manifestação tem de vencer.

Recorde-se a famosa Carta histórica e política endereçada a um magistrado, de Denis Diderot, talvez o principal responsável pela primeira enciclopédia do mundo. O magistrado a quem Diderot se referia era Antoine Gabriel de Sartine, na época, ajudante-geral de Polícia da Cidade de Paris, cargo que exercia cumulativamente com o de diretor de imprensa, encarregado da censura dos jornais.

O livro, ademais, é de fundamental importância para a “vertebração” de nossa identidade. Esta, aliás, é antes um desejo do que uma necessidade, pois não podemos deixar de reconhecer que ela é moldada pelo perpassar do tempo. O Brasil, nação ainda jovem, já ostenta, contudo, forte “instinto de nacionalidade”, como definiu Machado de Assis, ao observar há mais de 100 anos: “Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço”.

Ao Brasil se credita, embora persistam ignominiosos índices de desigualdade social e econômica, um notável melting pot, miscigenação que poucos países possuem, mormente se consideramos a nossa extensão territorial e a grande dimensão demográfica. A busca da identidade, por se tratar de um processo que se tece ao longo do tempo, é endógena e não há tampouco lei ou critério estabelecido que a conceitue “nessa estranha máquina que se chama mundo”, como diria Camões.

Sabemos igualmente que o livro, instrumento ancilar do desenvolvimento cultural de um país, ajuda a preservar a memória nacional, a suscitar idéias para a solução de nossos problemas e a direcionar o itinerário da nacionalidade com relação ao futuro. Como disse o poeta John Milton, um dos maiores vultos da literatura universal, “os livros são tão vivos quanto os seres humanos”. E mais: “Vetada a circulação de um livro… o que morre não é simplesmente a expressão de idéias individuais… mas todo o valor atemporal e perene, da razão”.

Cúpula Mundial do Clima: uma nova Rio-92

 

Por Fábio Feldmann

Nesta semana de 5 de junho completam-se 15 anos da Rio-92, 20 anos do Relatório Brundtland – Nosso Futuro Comum e 35 anos da primeira grande conferência das Nações Unidas, realizada em 1972 em Estocolmo. 

De lá para cá, o mundo em que vivemos foi radicalmente transformado em todos os aspectos do nosso cotidiano, sendo o universo do cidadão da década de 70 marcado por um mundo bipolar no qual aparentemente as fronteiras eram bem definidas: esquerda versus direita, democracia versus ditadura, capitalismo versus socialismo, progresso versus ambiente. Esse contexto tinha como referência básica um modo de pensamento moldado nos séculos anteriores e a humanidade era vista como destinada a se sobrepor sobre a natureza mediante sua capacidade de dominá-la ou substituí-la pelo desenvolvimento tecnológico. A Conferência de Estocolmo foi concebida e realizada pela liderança de alguns visionários inseridos em questões conservacionistas ou ambientais, que vislumbraram de modo pioneiro os problemas globais hoje constatados pelo acúmulo de conhecimento e pela ciência, de modo que os resultados daquele evento ficaram aprisionados dentro de fronteiras bem determinadas, sem capacidade de promover mudanças no processo decisório mais amplo.

A Conferência do Rio foi realizada claramente por força de uma série de acontecimentos ocorridos em meados da década de 80, entre os quais o mais relevante foi a divulgação da imagem de satélite sobre a Antártica, que ao revelar o enorme buraco na camada de ozônio demonstrou inequivocamente o impacto da ação da humanidade no planeta, ainda que certas tecnologias tenham trazido benefícios inegáveis na conservação de alimentos e outras aplicações tecnológicas: o importante é se assinalar que a partir de então tomamos consciência do potencial de impacto que causamos sobre o ambiente global de modo que é inegável a necessidade de assumirmos responsabilidade por nossa ação perante as futuras gerações. Em outras palavras, um novo paradigma de relação humanidade-natureza se estabeleceu. Com isso, podemos afirmar que o mesmo se tornou referência obrigatória no ingresso do século 21.

A partir de então, todas as nossas ações deveriam estar moldadas por essa noção de “responsabilidade planetária”, tendo como outra face da moeda a idéia correspondente de uma “cidadania planetária”.

A Conferência do Rio estabeleceu como requisito básico a compreensão de que temos limites e devemos aprender a conviver com os mesmos. Resultado de um processo inovador de engajamento dos mais diversos atores sociais, com ênfase na liderança de governos e com a ação complementar da sociedade civil, academia, setor empresarial e notadamente a mídia, foram produzidos consensos importantes consubstanciados na denominada Agenda 21, documento longo e completo que tinha ambição de ser o passaporte para entrada no século 21 em um outro patamar, referenciado pela idéia de um compromisso ético baseado no cuidado com as futuras gerações e justiça social.

Além desse “pacto” importante, tratados internacionais foram gerados, como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e sobre Diversidade Biológica, ainda que despidos de metas de cumprimento, refletindo a ambigüidade típica de processos negociadores multilaterais.

A principal deficiência da Rio-92 se deu exatamente por não ter tido a capacidade de criar um desenho institucional global e mesmo ter imaginado um processo que mantivesse a mobilização da mídia e da sociedade em torno das questões por ela tratadas, o que se evidenciou inequivocamente na frustração da reunião de Johanesburgo, ocorrida dez anos mais tarde.

Hoje, o que vemos são os fatos pressionando na direção de novos formatos e decisões, uma vez que os últimos relatórios do IPCC estão demonstrando que a realidade é mais dramática e urgente do que as previsões de 15 anos atrás, justificando e exigindo a realização de uma nova Cúpula Mundial acerca das mudanças climáticas. Mas, dessa vez, com uma agenda mais objetiva em termos de metas, mecanismos de cumprimento e um redesenho institucional adequado, com potencial transformador de induzir as mudanças geopolíticas requeridas. Em outras palavras, temos um ambiente favorável a tais transformações, pelo fato de que a “sustentabilidade” passou a ser um denominador comum de setores empresariais importantes e da sociedade civil organizada, permitindo alianças estratégicas que suportem e legitimem politicamente esse novo paradigma.

O Brasil, que em 1972 adotou uma postura de poluição como sinônimo de progresso, no Rio mostrou a sua capacidade de liderança ao sediar a Conferência – a maior já realizada pelas Nações Unidas, tornando-se um ator reconhecido e dos mais importantes em toda essa trajetória de negociações internacionais, especialmente no Protocolo de Kyoto.

Entretanto, a exemplo do que ocorreu na década de 80, tem sido incapaz de compreender a importância estratégica de reduzir o desmatamento da Amazônia e reforçar sua liderança diante da comunidade internacional. Mantém uma posição defensiva, ao invés de liderar propositivamente, abrindo mão da oportunidade de recomendar a realização da mencionada Cúpula Mundial sobre Clima, que poderia ser realizada no Rio no próximo ano.

O mesmo esforço que fazemos para a realização da Copa do Mundo em 2014 poderia ser feito em prol do planeta, sendo essa uma bandeira suprapartidária a ser conduzida por este governo, lembrando que a Rio-92 foi viabilizada pelos presidentes José Sarney e Fernando Collor. Enfim, temos de deixar de ser campeões do desmatamento para sermos líderes mundiais do desenvolvimento sustentável.

 

Fábio Saba ensina a exercer a liderança

Um dos destaques do Instituto Educativa, criado por Gabriel Chalita para oferecer treinamentos para empresas, Fábio Saba desenvolve questões de liderança, tendo sempre como foco a qualidade de vida e a saúde física e mental. É um treinamento que pode fazer a diferença entre uma equipe comum e uma equipe vencedora.

Tem grande experiência em gestão, pública e privada, e trabalha na criação e implantação de projetos esportivos e educacionais para a transformação do ser humano dirigido à melhoria da qualidade de vida.

Mestre em educação física pela USP, e professor credenciado Confederação Brasileira de Judô como faixa Preta 3º dan, tem pautado a sua carreira pelo desenvolvimento de negócios voltados para a educação e o esporte. Tem 42 trabalhos científicos publicados em congressos de Educação Física no Brasil e no exterior.

Seus livros publicados são estes:

“Liderança e Gestão em Academias e Clubes Esportivos”. Phorte, 2005.

“MEXA-SE – Atividade Física, Saúde e Bem-Estar”. Manole, 2004.

“Gestão em Atendimento”. Manole. 2003.

“Aderência à prática do exercício físico”. Manole 2000.

“Nutrição Esportiva”. Editora Manole,2002. (Co-autor)

“Avaliação Médica e Física”. Editora Rocca, 2000. (Co-autor)

Gabriel Chalita

Gabriel Chalita, professor e escritor, tem uma visão crítica sobre a educação no Brasil e analisa o que é preciso fazer para melhorá-la. Autor de várias obras, o ex-secretário de Educação de São Paulo, fala sobre sua paixão pela escrita e como iniciou essa profissão.

Qual a relação que há entre a mulher e a água? A pergunta pode até parecer sem sentido, mas para o escritor Gabriel Chalita ela faz todo sentido. Aliás, foi exatamente no comparativo entre a mulher e a água que ele se enveredou para escrever o seu mais recente livro: “Mulheres de Água”.

“A mulher é sólida, é líquida, é gasosa, mais fria, mais quente, se adapta a várias temperaturas, vários momentos. É incrível a força que tem a mulher”, observa Gabriel Chalita, que esteve em Natal, a convite da livraria Siciliano, para lançar a obra.

Com a autoridade de quem é professor por formação e escreveu diversas obras sobre educação, Gabriel Chalita expõe uma visão crítica da educação brasileira e lamenta que a prática esteja totalmente distorcida da teoria prevista na legislação.

“Conceitualmente temos tudo para dar certo. Na prática estamos longe de uma educação de qualidade. Um dos fatores é a vontade política mesmo”, analisa o escritor.

Os números dão uma mostra da representatividade de Gabriel Chalita no mercado literário. Ele já lançou 42 livros, que juntos somam 7 milhões de exemplares.

“No início da minha carreira passava 10 ou 12 horas em frente a uma editora para pedir para alguém ler o meu livro. Hoje quando vou lançar tem 10 ou 12 editoras querendo publicar”, comenta Chalita. O convidado de hoje do 3 por 4 é um homem simples, que deixa à mostra toda sua religiosidade; um escritor plural e um ser humano carismático.

Você lançou o livro Mulheres de Água, qual a relação que você vê entre a mulher e a água?

Na verdade a idéia do título Mulheres de Água veio quando eu estava escrevendo cada uma das histórias e pensando na capacidade que a mulher tem de se transformar. A mulher é sólida, é líquida, é gasosa, mais fria, mais quente, se adapta a várias temperaturas, vários momentos. É incrível a força que tem a mulher. É uma força que faz com que ela consiga suportar mais a dor, o calor ou o frio, mais do que o homem. Em cada uma das histórias (do novo livro) tem alguma coisa de água.

Essas características que você aponta da mulher torna-a superior ao homem?

Acho que a mulher é diferente do homem. Interessante que quando fui fazer meu mestrado em Sociologia a primeira disciplina que fiz foi sobre a questão de gênero e foi a época que mais estudei a questão da mulher na história. Fiz um livro Mulheres que Mudaram o Mundo, que foi uma tentativa de mostrar como era absurdo, em pleno século XXI, qualquer tipo de preconceito, discriminação. Por que a mulher tem que provar que é boa? Por que a mulher tem que provar que é competente? Por que ela ganha menos que o homem em condições iguais de trabalho? Acho que toda luta da mulher, mesmo naquele momento que precisou haver um exagero a mais, ela não quis se mostrar ser superior ao homem. Ela disse que era diferente e queria o espaço dela. 

Nessa ótica, você acredita que todas as barreiras foram transpostas?

Teoricamente você não encontrará algum pensador que ache o homem superior a mulher. Mas na prática não é bem assim. A gente sabe que a mulher sofre muito preconceito. Tem mulheres mortas porque traíram os maridos, mulheres presas em quarto de mulher. Mulheres que passam sofrimentos atrozes porque os homens se sentem donos de mulher. A dignidade da pessoa humana está acima de tudo. Não tem sentido uma sociedade que inventou a Internet, uma Medicina impressionante, uma tecnologia fascinante, a mulher ainda sofrer o que sofre.

Como professor por formação, você escreveu muitos livros sobre educação. Qual o estágio da educação brasileira hoje?

Acho que o Brasil é um país que conseguiu, sob o ponto de vista da legislação, chegar a uma educação de ponta. A Constituição diz que o papel da escola é formar pessoas, formar cidadão e preparar para o mercado de trabalho. Se uma escola formasse uma pessoa, o cidadão, preparasse para o mercado de trabalho, seria ótimo. Conceitualmente temos tudo para dar certo. Na prática estamos longe de uma educação de qualidade. Um dos fatores é a vontade política mesmo. Quando você tem a troca de prefeito, governador, presidente é natural parar o que o anterior fez e aí começa uma coisa totalmente nova. As políticas públicas da educação brasileira não têm continuidade. Elas sempre páram. Elas são truncadas. Tivemos no Brasil grandes sonhadores, Anísio Teixeira, Paulo Freire, pessoas que trilharam elementos fantásticos da educação, mas na prática ainda vemos políticos que se preocupam em inaugurar escolas, porque são obras, e investem pouco em professores. A alma da educação é o professor. Você não melhora a escola sem dar condição para o professor. Ele precisa ser bem treinado, bem remunerado, bem valorizado. Só em valorizar o professor a escola está muito melhor. Mas o Brasil está longe de valorizar o professor.

Você é favorável à inclusão do ensino religioso na escola?

Desde que não seja um ensino catequético. Sou uma pessoa profundamente religiosa, mas acho que a gente precisa respeitar todas as religiões e não transformar a escola numa tentativa de catequizar uma criança. Até porque isso não daria certo, ela (a pessoa) ficaria revoltada com isso. O ensino religioso que reflete sobre valores é muito interessante. Nas diversas religiões você tem essa preocupação com os valores, os principais valores como o amor, honestidade, trabalho, respeito, amizade. Quando você estuda através da religião fica até mais gostoso. Precisamos respeitar as diversas religiões e trabalhar acima de tudo valores.

E como está o cenário da educação brasileira do ponto de vista da inclusão e do combate ao preconceito?

Na lei não tem exclusão. Na lei está tudo perfeito. Pela lei não deve existir qualquer tipo de gueto, não deve separar as crianças brilhantes das menos brilhantes, toda pessoa com deficiência tem direito a entrar na escola. Na prática ainda há muito receio dos professores e dos pais. Em São Paulo vi que os pais não queriam colocar os filhos nas escolas porque tinham medo deles serem maltratados, que não iria aprender direito, que o filho não tem a mesma competência do outro. Não podemos olhar a educação como um aspecto cognitivo só. Claro que uma criança com síndrome de down não vai desenvolver uma habilidade matemática semelhante a outra. Mas ela (a criança com síndrome) desenvolve uma habilidade social, emocional, uma parte da habilidade cognitiva. A relação entre desiguais é fascinante porque o mundo é formado por pessoas diferentes. Tenho dito muito que você não educa na homogeneidade. Você educa na heterogeneidade. Convivendo no mesmo espaço as pessoas são respeitadas e se desenvolvem. A escola pode ser um espaço para reduzir essa questão da desigualdade. Na escola o aluno precisa aprender a respeitar o diferente e se respeitar como diferente. A gente se sente, em alguma vez na vida, o patinho feio. E a escola não nos prepara para isso. Para que a gente sinta que a gente não é o patinho feio, somos diferentes.

Você falou há pouco que é uma pessoa muito religiosa, você faz um programa em uma emissora também religiosa. No entanto, você escreve livros plurais, sobre os mais diversos assuntos. Você não acha que o fato de deixar explícita sua alta carga de religiosidade católica pode limitar o público dos seus livros?

Acho que não. Quando lanço um livro sempre imagino o público do livro que vai gostar. Tenho 7 milhões de livros vendidos, são 42 livros. Lancei há pouco tempo o livro sobre o fundador da Canção Nova, o padre Jonas. Ali não trato da questão religiosa. Trato da biografia de uma pessoa que superou uma série de problemas, quase não nasceu, que foi internado no sanatório. Escrevo esse livro para um público que gosta mais da Canção Nova e me surpreendo porque vejo pessoas que não tinham nada a ver lendo o livro com aquela finalidade. Quando lanço meus livros jurídicos eles sempre têm algo de valor. Qualquer livro que trabalho tem a questão do valor. Sei que ali vão juizes, alunos de Direito. O livro que está saindo agora, o livro das mulheres, não tem nada de religioso. Pelo contrário, é talvez o primeiro livro que trabalho mais com o humor. Diria que em alguns momentos tem uma coisa ácida. São histórias muito engraçadas. Histórias de mulheres e homens que estão por todo lado, mas ninguém fala. Todo mundo tem uma mania, um trauma. Mas a gente não assume muito as manias. No livro fica engraçado porque você se identifica. Alguns livros eu demoro três anos escrevendo. Esse livro escrevi em um mês. Escrevia rindo, cada história que inventava eu ria muito.

E de onde surgiu essa percepção das manias das pessoas? Que tipo de preocupação sua está aí?

A mania pode ser limitadora ou não. Algumas manias escravizam mesmo. Tem pessoas exageradas. A mulher assume um pouco mais a mania. A mulher conta a mania de forma engraçada. Uma coisa da educação que é errada é fazer que a mulher possa chorar, revelar seus sentimentos e o homem não. Isso é um erro porque o homem acaba sofrendo muito com a pressão que ele tem de fingir. A mulher é mais relaxada, brinca com a mania de si mesmo.

Como foi sua experiência como gestor da educação como secretário de São Paulo?

Nunca quis entrar na política em nenhum cargo. Quando fui candidato a vereador, fui porque meu primo era candidato a prefeito em Cachoeira Paulista e eu queria ajudar. Quando acabou o mandato de vereador eu disse que não queria ser político. Respeito quem gosta de política, as pessoas de bem têm que entrar na política, mas eu não queria entrar. Quando Mário Covas morreu havia muitas greves em São Paulo. A educação estava numa situação muito complicada. Geraldo Alckmin me convidou e insistiu muito para eu ser secretário. Eu já trabalhava com os professores fazendo palestra, escrevendo livro. Tinha um pouco de receio de virar um burocrata da educação. Foi uma experiência de cinco anos, não houve nenhuma greve nesse período e eu me aproximei muito dos professores. Foi um salto importante de melhoria da educação em São Paulo. 

Sonho concretizado:  escrever. Desde criança tinha o sonho de ser escritor. Nos meus primeiros livros eu ficava 10 ou 12 horas na porta de uma editora para alguém ler o que eu havia escrito. Hoje, quando vou lançar um livro, tem 10 ou 12 editoras me convidando para publicar. Gosto de falar, apresentar programa, mas escrever é algo que fica. Você contribui para pessoas que nem imagina onde estão. 

Plano: ajudar a diminuir o preconceito. Tento fazer isso nas minhas palestras. A violência simbólica me incomoda profundamente. As pessoas deixam de produzir e vão para as drogas por causa do preconceito.

Em que você acredita:  na força do amor. O amor é profundamente transformador, transforma na profissão, nas relações humanas. O amor tem um significado lindo. O amor é diferente do desejo, o desejo é para consumir o amor é para cuidar.

Carreira

É professor por formação, mas também atua como escritor, apresentador e já foi gestor público.

Na infância foi estimulado pela família para enveredar pelo mundo da escrita. E aos 12 anos lançou seu primeiro livro.

Sem esconder a religiosidade, Gabriel Chalita desde cedo levou para os livros um pouco do relato de fé. Aos 15 anos ele lançou uma coleção destinada a crianças em idade de catequese.

O dom da escrita não cessou. Hoje Chalita contabiliza 7 milhões de livros vendidos, distribuídos por 42 obras.  Desde 2006 ele é integrante da Academia Paulista de Letras.

Mas o trabalho de escritor não é o único. Gabriel Chalita atuou durante cinco anos como secretário estadual de Educação de São Paulo no Governo de Geraldo Alckmin.

Sua experiência em cargo eletivo ficou restrita à eleição de vereador na cidade natal de Cachoeira Paulista.

Hoje Chalita é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde, inclusive fez doutorado em Comunicação e Semiótica e Direito.