Gabriel Chalita

Gabriel Chalita, professor e escritor, tem uma visão crítica sobre a educação no Brasil e analisa o que é preciso fazer para melhorá-la. Autor de várias obras, o ex-secretário de Educação de São Paulo, fala sobre sua paixão pela escrita e como iniciou essa profissão.

Qual a relação que há entre a mulher e a água? A pergunta pode até parecer sem sentido, mas para o escritor Gabriel Chalita ela faz todo sentido. Aliás, foi exatamente no comparativo entre a mulher e a água que ele se enveredou para escrever o seu mais recente livro: “Mulheres de Água”.

“A mulher é sólida, é líquida, é gasosa, mais fria, mais quente, se adapta a várias temperaturas, vários momentos. É incrível a força que tem a mulher”, observa Gabriel Chalita, que esteve em Natal, a convite da livraria Siciliano, para lançar a obra.

Com a autoridade de quem é professor por formação e escreveu diversas obras sobre educação, Gabriel Chalita expõe uma visão crítica da educação brasileira e lamenta que a prática esteja totalmente distorcida da teoria prevista na legislação.

“Conceitualmente temos tudo para dar certo. Na prática estamos longe de uma educação de qualidade. Um dos fatores é a vontade política mesmo”, analisa o escritor.

Os números dão uma mostra da representatividade de Gabriel Chalita no mercado literário. Ele já lançou 42 livros, que juntos somam 7 milhões de exemplares.

“No início da minha carreira passava 10 ou 12 horas em frente a uma editora para pedir para alguém ler o meu livro. Hoje quando vou lançar tem 10 ou 12 editoras querendo publicar”, comenta Chalita. O convidado de hoje do 3 por 4 é um homem simples, que deixa à mostra toda sua religiosidade; um escritor plural e um ser humano carismático.

Você lançou o livro Mulheres de Água, qual a relação que você vê entre a mulher e a água?

Na verdade a idéia do título Mulheres de Água veio quando eu estava escrevendo cada uma das histórias e pensando na capacidade que a mulher tem de se transformar. A mulher é sólida, é líquida, é gasosa, mais fria, mais quente, se adapta a várias temperaturas, vários momentos. É incrível a força que tem a mulher. É uma força que faz com que ela consiga suportar mais a dor, o calor ou o frio, mais do que o homem. Em cada uma das histórias (do novo livro) tem alguma coisa de água.

Essas características que você aponta da mulher torna-a superior ao homem?

Acho que a mulher é diferente do homem. Interessante que quando fui fazer meu mestrado em Sociologia a primeira disciplina que fiz foi sobre a questão de gênero e foi a época que mais estudei a questão da mulher na história. Fiz um livro Mulheres que Mudaram o Mundo, que foi uma tentativa de mostrar como era absurdo, em pleno século XXI, qualquer tipo de preconceito, discriminação. Por que a mulher tem que provar que é boa? Por que a mulher tem que provar que é competente? Por que ela ganha menos que o homem em condições iguais de trabalho? Acho que toda luta da mulher, mesmo naquele momento que precisou haver um exagero a mais, ela não quis se mostrar ser superior ao homem. Ela disse que era diferente e queria o espaço dela. 

Nessa ótica, você acredita que todas as barreiras foram transpostas?

Teoricamente você não encontrará algum pensador que ache o homem superior a mulher. Mas na prática não é bem assim. A gente sabe que a mulher sofre muito preconceito. Tem mulheres mortas porque traíram os maridos, mulheres presas em quarto de mulher. Mulheres que passam sofrimentos atrozes porque os homens se sentem donos de mulher. A dignidade da pessoa humana está acima de tudo. Não tem sentido uma sociedade que inventou a Internet, uma Medicina impressionante, uma tecnologia fascinante, a mulher ainda sofrer o que sofre.

Como professor por formação, você escreveu muitos livros sobre educação. Qual o estágio da educação brasileira hoje?

Acho que o Brasil é um país que conseguiu, sob o ponto de vista da legislação, chegar a uma educação de ponta. A Constituição diz que o papel da escola é formar pessoas, formar cidadão e preparar para o mercado de trabalho. Se uma escola formasse uma pessoa, o cidadão, preparasse para o mercado de trabalho, seria ótimo. Conceitualmente temos tudo para dar certo. Na prática estamos longe de uma educação de qualidade. Um dos fatores é a vontade política mesmo. Quando você tem a troca de prefeito, governador, presidente é natural parar o que o anterior fez e aí começa uma coisa totalmente nova. As políticas públicas da educação brasileira não têm continuidade. Elas sempre páram. Elas são truncadas. Tivemos no Brasil grandes sonhadores, Anísio Teixeira, Paulo Freire, pessoas que trilharam elementos fantásticos da educação, mas na prática ainda vemos políticos que se preocupam em inaugurar escolas, porque são obras, e investem pouco em professores. A alma da educação é o professor. Você não melhora a escola sem dar condição para o professor. Ele precisa ser bem treinado, bem remunerado, bem valorizado. Só em valorizar o professor a escola está muito melhor. Mas o Brasil está longe de valorizar o professor.

Você é favorável à inclusão do ensino religioso na escola?

Desde que não seja um ensino catequético. Sou uma pessoa profundamente religiosa, mas acho que a gente precisa respeitar todas as religiões e não transformar a escola numa tentativa de catequizar uma criança. Até porque isso não daria certo, ela (a pessoa) ficaria revoltada com isso. O ensino religioso que reflete sobre valores é muito interessante. Nas diversas religiões você tem essa preocupação com os valores, os principais valores como o amor, honestidade, trabalho, respeito, amizade. Quando você estuda através da religião fica até mais gostoso. Precisamos respeitar as diversas religiões e trabalhar acima de tudo valores.

E como está o cenário da educação brasileira do ponto de vista da inclusão e do combate ao preconceito?

Na lei não tem exclusão. Na lei está tudo perfeito. Pela lei não deve existir qualquer tipo de gueto, não deve separar as crianças brilhantes das menos brilhantes, toda pessoa com deficiência tem direito a entrar na escola. Na prática ainda há muito receio dos professores e dos pais. Em São Paulo vi que os pais não queriam colocar os filhos nas escolas porque tinham medo deles serem maltratados, que não iria aprender direito, que o filho não tem a mesma competência do outro. Não podemos olhar a educação como um aspecto cognitivo só. Claro que uma criança com síndrome de down não vai desenvolver uma habilidade matemática semelhante a outra. Mas ela (a criança com síndrome) desenvolve uma habilidade social, emocional, uma parte da habilidade cognitiva. A relação entre desiguais é fascinante porque o mundo é formado por pessoas diferentes. Tenho dito muito que você não educa na homogeneidade. Você educa na heterogeneidade. Convivendo no mesmo espaço as pessoas são respeitadas e se desenvolvem. A escola pode ser um espaço para reduzir essa questão da desigualdade. Na escola o aluno precisa aprender a respeitar o diferente e se respeitar como diferente. A gente se sente, em alguma vez na vida, o patinho feio. E a escola não nos prepara para isso. Para que a gente sinta que a gente não é o patinho feio, somos diferentes.

Você falou há pouco que é uma pessoa muito religiosa, você faz um programa em uma emissora também religiosa. No entanto, você escreve livros plurais, sobre os mais diversos assuntos. Você não acha que o fato de deixar explícita sua alta carga de religiosidade católica pode limitar o público dos seus livros?

Acho que não. Quando lanço um livro sempre imagino o público do livro que vai gostar. Tenho 7 milhões de livros vendidos, são 42 livros. Lancei há pouco tempo o livro sobre o fundador da Canção Nova, o padre Jonas. Ali não trato da questão religiosa. Trato da biografia de uma pessoa que superou uma série de problemas, quase não nasceu, que foi internado no sanatório. Escrevo esse livro para um público que gosta mais da Canção Nova e me surpreendo porque vejo pessoas que não tinham nada a ver lendo o livro com aquela finalidade. Quando lanço meus livros jurídicos eles sempre têm algo de valor. Qualquer livro que trabalho tem a questão do valor. Sei que ali vão juizes, alunos de Direito. O livro que está saindo agora, o livro das mulheres, não tem nada de religioso. Pelo contrário, é talvez o primeiro livro que trabalho mais com o humor. Diria que em alguns momentos tem uma coisa ácida. São histórias muito engraçadas. Histórias de mulheres e homens que estão por todo lado, mas ninguém fala. Todo mundo tem uma mania, um trauma. Mas a gente não assume muito as manias. No livro fica engraçado porque você se identifica. Alguns livros eu demoro três anos escrevendo. Esse livro escrevi em um mês. Escrevia rindo, cada história que inventava eu ria muito.

E de onde surgiu essa percepção das manias das pessoas? Que tipo de preocupação sua está aí?

A mania pode ser limitadora ou não. Algumas manias escravizam mesmo. Tem pessoas exageradas. A mulher assume um pouco mais a mania. A mulher conta a mania de forma engraçada. Uma coisa da educação que é errada é fazer que a mulher possa chorar, revelar seus sentimentos e o homem não. Isso é um erro porque o homem acaba sofrendo muito com a pressão que ele tem de fingir. A mulher é mais relaxada, brinca com a mania de si mesmo.

Como foi sua experiência como gestor da educação como secretário de São Paulo?

Nunca quis entrar na política em nenhum cargo. Quando fui candidato a vereador, fui porque meu primo era candidato a prefeito em Cachoeira Paulista e eu queria ajudar. Quando acabou o mandato de vereador eu disse que não queria ser político. Respeito quem gosta de política, as pessoas de bem têm que entrar na política, mas eu não queria entrar. Quando Mário Covas morreu havia muitas greves em São Paulo. A educação estava numa situação muito complicada. Geraldo Alckmin me convidou e insistiu muito para eu ser secretário. Eu já trabalhava com os professores fazendo palestra, escrevendo livro. Tinha um pouco de receio de virar um burocrata da educação. Foi uma experiência de cinco anos, não houve nenhuma greve nesse período e eu me aproximei muito dos professores. Foi um salto importante de melhoria da educação em São Paulo. 

Sonho concretizado:  escrever. Desde criança tinha o sonho de ser escritor. Nos meus primeiros livros eu ficava 10 ou 12 horas na porta de uma editora para alguém ler o que eu havia escrito. Hoje, quando vou lançar um livro, tem 10 ou 12 editoras me convidando para publicar. Gosto de falar, apresentar programa, mas escrever é algo que fica. Você contribui para pessoas que nem imagina onde estão. 

Plano: ajudar a diminuir o preconceito. Tento fazer isso nas minhas palestras. A violência simbólica me incomoda profundamente. As pessoas deixam de produzir e vão para as drogas por causa do preconceito.

Em que você acredita:  na força do amor. O amor é profundamente transformador, transforma na profissão, nas relações humanas. O amor tem um significado lindo. O amor é diferente do desejo, o desejo é para consumir o amor é para cuidar.

Carreira

É professor por formação, mas também atua como escritor, apresentador e já foi gestor público.

Na infância foi estimulado pela família para enveredar pelo mundo da escrita. E aos 12 anos lançou seu primeiro livro.

Sem esconder a religiosidade, Gabriel Chalita desde cedo levou para os livros um pouco do relato de fé. Aos 15 anos ele lançou uma coleção destinada a crianças em idade de catequese.

O dom da escrita não cessou. Hoje Chalita contabiliza 7 milhões de livros vendidos, distribuídos por 42 obras.  Desde 2006 ele é integrante da Academia Paulista de Letras.

Mas o trabalho de escritor não é o único. Gabriel Chalita atuou durante cinco anos como secretário estadual de Educação de São Paulo no Governo de Geraldo Alckmin.

Sua experiência em cargo eletivo ficou restrita à eleição de vereador na cidade natal de Cachoeira Paulista.

Hoje Chalita é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde, inclusive fez doutorado em Comunicação e Semiótica e Direito.

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