Notícias

”Professor é corajoso”

A Tribuna – Amanhã é comemorado o Dia do Professor. Qual o pré-requisito para alguém se tornar professor hoje?

Gabriel Chalita – Primeiro tem que gostar de ser professor. É uma coisa essencial. Se a pessoa não gosta da arte de educar, por melhor que seja as condições da escola e até o salário, não vai dar certo. Depois é preciso competência.

O professor tem de estudar o tempo todo. Isso porque os alunos vão mudando muito e a forma de educar também muda muito. Hoje existe um problema que é o déficit de atenção em alunos. Mas o fato não deve ser visto como deficiência ou defeito. É resultado do mundo onde vivemos, da tecnologia, da rapidez, do controle remoto e do clique, o que faz com que o aluno não tenha paciência para escutar o que o professor diz. Diante dessa realidade, o profissional tem que estudar dois aspectos: o conteúdo que ele vai trabalhar e a didática que irá desenvolver. Há um terceiro ponto, que é a coragem. Está lá na Constituição Federal que a função do educador é formar a pessoa, depois o cidadão e em seguida prepará-lo para o mercado de trabalho. Só que para formar a pessoa é necessário que o educador entenda um pouco do universo do aluno, dos seus medos, traumas, angústias e da família que ele vem. Isso porque não se educa quem não se conhece. Então, esse professor deve ser corajoso para entrar no universo de seres humanos completamente diferentes. Não existe sala de aula homogênea. Os alunos são muito diferentes e aí vem o desafio do professor.

– O senhor vê a coragem como o maior desafio então?

– Esse seria o desafio mais novo porque gostar da profissão sempre foi necessário, assim como ser competente. Agora, é preciso ter a coragem para se relacionar com alunos muito diferentes. Antigamente o aluno abaixava a cabeça para o professor, que era mais respeitado. Atualmente sei de escolas onde a reclamação dos professores é a agressão física, a existência de alunos alcoolizados e absolutamente apáticos. E a situação não é um problema brasileiro somente, é mundial. Temos um problema sério ocorrendo, que é um fenômeno chamado bullying. São alunos que se sentem agredidos e querem se vingar de alguma forma. É o obeso que mata as pessoas em volta e se mata depois, é o aluno que se sente discriminado e comete o mesmo ato. O professor também deve trabalhar com esse fenômeno, com aquele aluno que está mais quieto porque foi agredido de alguma forma, com o aluno que se sente ofendido por receber um apelido, com aquele que se demonstra mais valente. Enfim, o professor é o maestro para lidar com perfis muito diferentes.

– Qual a principal mudança na função do professor hoje?

– O professor de antigamente era um facilitador. O aluno praticamente não tinha acesso à informação. Nas casas havia poucos livros e nas que tinham, as publicações funcionavam mais como enfeite.Também não havia internet e a televisão não tinha a preocupação de informar. Hoje, se o professor tiver essa postura, está fadado ao fracasso. Isso porque a informação está disponibilizada por todos os lados e a sua velocidade é impressionante. Atualmente, o professor deixa de ser facilitador para ser um problematizador do processo de aprendizagem. Ele tem que instigar o aluno a resolver problemas, o que muda a forma de avaliação, o modo de dar aulas, de trabalhar com textos, com idéias, muda tudo. É um novo perfil de professor para um novo perfil de aluno.

– E o que será exigido do professor no futuro? Como será a educação?

– É isso ainda mais exagerado. Mas o computador nunca vai substituir o professor porque nessa relação de aprendizagem há o elemento afetivo que o computador não oferece. Quanto ao ensino em si, vejo que as salas de aula terão arquitetura diferenciada. Não há mais sentido existir um monte de cadeiras no espaço para que os alunos fiquem sentados, ouvindo o que diz o professor. A sala de aula vai trabalhar com estações. Haverá algumas mesas para que os alunos façam atividades em grupo, um espaço com alguns livros, uma pequena biblioteca, alguns computadores para acesso à internet, alguns jornais, revistas e almofadas. Agora, algo da educação de hoje que servirá para o futuro é a contação de histórias. É algo legal que alimenta a criatividade.

– A falta de formação dos professores é um problema para a evolução do ensino, não é?

– Há pelo menos três fatores prejudiciais. Um é a falta de formação realmente. As faculdades, infelizmente, não preparam muito bem os professores e quando o profissional entra no mercado de trabalho pára de estudar. Não há investimento. Se o político puder escolher entre inaugurar uma escola e oferecer formação aos professores, ele vai preferir a primeira opção. É só olhar os países que deram certo, em termos educacionais como o Chile, a Coréia e a Espanha. Todo mundo investe em formação de professor. Outro problema é a questão da família. É complicado a escola resolver todo o problema educativo se a família não participar do processo. O terceiro ponto do fracass0 escolar é a questão política mesmo. Não há continuidade das políticas públicas. Essa arrogância, esse personalismo faz um mal imenso para a educação. Não se melhora a educação em quatro, cinco, 10 anos. A revolução educacional acontece em pelo menos 20 anos.

– Estamos longe disso?

-Muito longe. Mas eu não gosto de ser pessimista porque há exceções. Há educações municipais que conseguiram isso durante 20 anos. Aliás, geralmente, as redes municipais são melhores que as estaduais. Às vezes você consegue dar continuidade e faz com que a educação tenha uma qualidade. Mas no geral a educação não é boa.

GABRIEL CHALITA Educador e escritor: “É complicado a escola resolver todo o processo educativo se a família não participa”

Gentileza gera gentileza

O educador Gabriel Chalita está de volta a Natal, neste sábado (20/10), para participar de um bate-papo, aberto ao público, na Livraria Siciliano do Natal Shopping, às 18h. Com o tema Gentileza, o educador paulista pretende transmitir as pessoas reflexões poéticas sobre a vida, com o intuito de demonstrar que gestos de gentileza, mesmo pequenos, são poderosos.

Além do bate-papo, o escritor autografará o novo livro O sol Depois da Chuva e o pocket, também intitulado Gentileza. Para Chalita não há receita a ensinar. “O pocket Gentileza é um livro sobre o dia-a-dia e para o dia-a-dia das pessoas. Não transmito nenhuma receita, porque receita não existe. Essa obra é um convite para que a poesia das palavras se transforme na poesia da ação”, explica Gabriel.

O romance ‘O Sol Depois da Chuva’, dividido em 50 capítulos, gira em torno de Francisco, um humilde filho de pescador, cujo desenvolvimento intelectual, emocional e social pode ser observado ao longo do tempo graças à educação propiciada pelo exemplo de pessoas boas. O cenário é uma ilha imaginária, o enredo é fictício, mas a história é plausível e emociona pela abordagem e análise de sentimentos reais. A ilha, com todos os seus habitantes, é um retrato da sociedade brasileira.

Ao render-se às manifestações de gentileza ou à falta dela, os personagens vão progressivamente transformando uns aos outros. E como em toda história, nessa travessia há um pouco de tudo: tristeza, medo, perda, alegria, saudade, esperança, cuidado e, acima de tudo, amor. A vida ganha sentido pela conexão entre pessoas, pensa Gabriel Chalita. Por isso buscou semear no livro exemplos que pudessem ser absorvidos em doses concentradas.

O educador cita filmes de gerações e culturas diferentes que tratem das relações humanas. O autor criou em sua obra de ficção uma sala de cinema, que acaba virando uma espécie de escola. “A escola é o terreno fértil, lugar em que pode crescer a planta de onde a civilização retira a essência do melhor antídoto contra a violência: a gentileza”, afirma Chalita.

Gabriel Chalita é membro da Academia Paulista de Letras. Já publicou diversos livros, entre os quais a “Mulheres de Água”, lançado em abril na Siciliano do Midway, “Ética do Rei Menino”, “Os Dez Mandamentos da Ética” e “Pedagogia do Amor”. Esses dois últimos também foram editados em língua espanhola.

O momento da escolha da profissão

Por Gabriel Chalita

Escolhas são caminhos bifurcados que encontramos todos os dias, na nossa vida. As escolhas não precisam ser sempre difíceis, embora a cada uma corresponda uma renúncia. Quando não há dinheiro para tudo, há que decidir por uma ou algumas dentre as várias coisas que se pretenda comprar. Quando se vai a um restaurante, um prato. Quando se sai de casa, um caminho. E assim sucessivamente.

A dificuldade de fazer escolhas relacionadas à carreira está no fato de que, muitas vezes, os filhos desejam seguir áreas novas que os pais conhecem pouco e por isso temem que não proporcionem solidez, no futuro. Ainda há pais que acreditam, como foi no passado, que os cursos que importam são medicina, direito e engenharia. Os jovens querem ousar. Turismo, publicidade, gestão de pessoas, meio ambiente, tecnologia, design, culinária, artes, são áreas sedutoras e atraem um número cada vez maior de jovens. E por serem novas, não significa que remuneram menos que a advocacia, odontologia ou administração.

A conversa em família, para a decisão do curso, deve levar em conta questões como o prazer, a aptidão e a oportunidade. O prazer é essencial. A profissão será a companheira diuturna, e não se escolhe para viver e conviver algo que não se aprecie. A aptidão é demonstrada em toda a vida escolar. Não basta que os pais queiram que o filho seja médico, piloto de avião ou ator de cinema. É preciso aptidão. E a oportunidade está ligada ao mercado de trabalho. Um pai que tem uma grande organização pode preparar o seu filho para comandá-la. Pais que sejam advogados bem sucedidos terão mais facilidade para abrir o mercado para os filhos. Um dono de jornal já tem espaço para o filho jornalista. Isto não é regra. É oportunidade.

A constatação mais importante: as pessoas não podem mais parar de estudar, senão envelhecem para o mercado, fenecem e morrem. A assertiva do passado, de que bom era ingressar em uma organização e trabalhar nela por toda a vida, não é mais a regra. As pessoas mudam de empresa e de área de atuação e por isso mesmo devem estar preparadas para essas mudanças.

Mesmo escolhas difíceis podem ser prazerosas, quando os atores do processo são respeitados. Os pais não devem assumir a decisão. A carreira é dos filhos, e a decisão tem que ser deles. Isso não significa que não possam orientá-los e até convencê-los do que julgam ser o melhor.

Depois da escolha, o que importa é estudar. E muito – o mercado carece de profissionais competentes, que tenham visão do mundo e da área em que atuam, e para isso a leitura é essencial. A capacidade de trabalhar em grupo e de resolver problemas também. E tudo isso ajuda a chegar ao essencial: um profissional competente e bem sucedido é antes de qualquer coisa um profissional feliz.

Leitura correta e produtiva

Durante mais de um mês os jornais estamparam, com o merecido destaque, os dados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), dando destaque à posição do estado de São Paulo, que teve apenas 16,2% dos cursos superiores com avaliação máxima (4 e 5), muito atrás do Rio Grande do Norte, o primeiro colocado, com 37,8% dos cursos com os maiores conceitos.

Tais resultados certamente servirão de munição para os costumeiros disparos que virão de várias frentes, desde os palpiteiros superficiais, que defendem soluções midiáticas sem base sólida, até os ideólogos de plantão, vezeiros em manipular ou descontextualizar índices para fins politiqueiros, ou os eternos otimistas, que teimam em fechar os olhos para a realidade e valorizar excessivamente os poucos avanços pontuais da educação nas últimas décadas.

Entretanto, para que obtenham efetivamente os melhores efeitos da alentada pesquisa e também o melhor uso, a análise do Enade 2006 não deverá se centrar no desempenho de São Paulo, até porque as universidades públicas estaduais – seguramente entre as de melhor qualidade do país – continuam firmes na recusa de participar desse exame que, em última análise, representa uma espécie de prestação de contas ao contribuinte que arca com o dinheiro que as mantém como ilhas de excelência. Vale, também, considerar que são paulistas oito dos 45 cursos com nota 5, a maior tanto na avaliação geral como no índice de conhecimento que a escola agrega ao aluno durante os anos de estudo. Isso, além de sediar 1.346 (23,6%) dos 5.701 cursos incluídos no Enade 2006 e, no ensino, nem sempre quantidade significa qualidade.

Numa leitura responsável e produtiva, o Enade deveria balizar o resgate da educação que atravessa, provavelmente, a pior quadra de sua história. A não ser pelas sempre honrosas exceções, o que se vê é um preocupante fracasso, que vai da educação infantil à pós-graduação e frustra as esperanças de ascensão social e profissional de milhões de jovens pelo caminho digno do estudo e do trabalho. Essa não é uma missão apenas dos detentores do poder público, que mais falam do que agem em favor da qualidade do ensino. Mas deve envolver a sociedade que sinaliza para uma letargia perniciosa, ao relegar a educação a um mero sétimo lugar entre as prioridades nacionais, segundo recente pesquisa de opinião. Já a pesquisa Perfil do Universitário da Região Metropolitana de São Paulo, que o CIEE divulgou em junho, mostra que 55% dos alunos das faculdades, talvez num reflexo da própria experiência, elegem a crise educacional como uma das mais graves do país, apenas um pouco atrás da corrupção no governo, com 60%. Em quarto lugar, com 40%, aparece o desemprego.

Com experiência de 43 anos na inclusão profissional dos estudantes por meio do estágio, o CIEE vê com preocupação não apenas os baixos indicadores de desempenho escolar, mas também o crescente descolamento dos currículos da realidade do mundo do trabalho. Preparar o aluno para compor a força de trabalho não é a única finalidade da educação formal, mas seguramente deve ser encarada como uma das mais importantes, tanto pelo impacto que a escolaridade provoca no desenvolvimento socioeconômico dos países, quanto pela contribuição para a renda e a qualidade de vida dos cidadãos. Isso vale em especial para as nações emergentes, como já demonstraram experiências anteriores, caso dos sempre citados saltos da Coréia do Sul e de outros Tigres Asiáticos.

O Brasil parece estar entrando num ciclo de retomada de desenvolvimento, mesmo que ocorra com atraso e abaixo do ritmo desejado por boa parte da opinião pública. Caso esse processo se consolide, é muito provável que se torne mais agudo o problema da capacitação da mão-de-obra brasileira para atuar nos padrões produtivos da moderna economia. Portanto, é cada vez mais urgente a necessidade de oferecer aos jovens as oportunidades de se prepararem adequadamente para enfrentar o desafio de conquistar um espaço no mercado de trabalho e assim, quem sabe, o país deixará de conviver com uma realidade vergonhosa: a faixa etária mais apenada pelo desemprego é a que se situa entre os 15 e os 24 anos.

Nessa tarefa, as empresas e os órgãos públicos têm relevante papel a desempenhar, cumprindo não apenas com sua responsabilidade fiscal, mas também colhendo bons frutos com a iniciativa. Trata-se da adoção de programas de estágio que, realizados de acordo com a lei específica, complementam a formação acadêmica e propiciam a aquisição de habilidades atitudinais pelos estudantes. Essa experiência vem se firmando, cada vez mais, como eficiente instrumento para a preparação de futuros profissionais de acordo com a cultura da organização, além de revelar fértil fonte de recrutamento de novos talentos, com índice de 64% de efetivação dos estagiários, após um ou dois períodos de treinamento.

A realidade atual mostra a necessidade de aproximar cada vez mais o ensino acadêmico dos acelerados avanços organizacionais e tecnológicos do mundo empresarial, em que a esmagadora maioria dos jovens terá de atuar, mais cedo ou mais tarde, para realizar as aspirações de um futuro mais digno e mais justo. E o caminho mais curto para isso, sem sombra de dúvida, é o estágio.

Alerta nível médio

Um dado do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) parece não ter recebido a devida atenção, após divulgação na semana passada: enquanto cresceu 13,2% o número de estudantes de terceiro grau, de 2005 para 2006, o de alunos do ensino médio caiu 0,9%.

O valor percentual baixo pode sugerir que tenha havido apenas flutuação estatística, mas há razões para crer que se trate de algo mais. É fato, por um lado, que a progressiva diminuição na taxa de fecundidade (hoje de dois filhos por mulher) vai reduzindo o contingente de jovens que chegam ao ensino médio. O acentuado acréscimo no nível universitário se explicaria, de outro lado, pela pressão por requalificação no mercado de trabalho.

Toda a dificuldade vem de que a quantidade de matrículas no ensino médio deveria aumentar, e não diminuir. A taxa de escolarização na faixa etária correspondente (82,5%, de 15 a 17 anos) está longe da universalização obtida no ensino fundamental (97,7%, de 7 a 14 anos). O indicador vinha melhorando nos anos 1990, até atingir 81,1% em 2001. Desde então, estagnou entre 81% e 82,5%.

De acordo com o Censo Escolar do Ministério da Educação, porém, essa taxa bruta de escolarização oculta que apenas 53% dos 8,9 milhões de matriculados estão na faixa etária correta. Há 4,1 milhões de estudantes secundários com 18 anos ou mais que isso, por força de reprovações. A contrapartida é que 3,6 milhões de jovens de 15 a 17 anos, que deveriam cursar o ensino médio, ainda marcavam passo no fundamental, em 2006.

Tem razão o ministro da Educação, Fernando Haddad, ao afirmar que o ensino médio no Brasil vive uma grave crise, como fez segunda-feira no Congresso. Não há outra maneira de descrever o que se passa num setor em que a taxa de reprovação é de 11,5%, e a de abandono, de 15,3%. O ministro também está certo ao concluir que não é possível esperar de 10 a 15 anos para que eventuais progressos de qualidade obtidos no ensino fundamental surtam efeito no ensino médio.

Não basta, contudo, despejar R$ 3,5 bilhões para criar duas centenas de Cefets (Centros Federais de Educação Tecnológica) até 2010. Em primeiro lugar, porque não há garantia de que, nesse curto prazo, venham a repetir o desempenho de 140 dessas ilhas de excelência que existem hoje. Depois, porque o ensino médio prosseguirá como atribuição constitucional dos governos estaduais. Cabe prioritariamente a eles propiciar a seus jovens educação que lhes franqueie acesso ao conhecimento e a bons empregos.

Melhora contínua

O Brasil que emerge da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) relativa a 2006 é um país onde as condições de vida vêm melhorando mais acentuadamente desde a criação do real. O dado que sintetiza a melhora registrada nesse ano é a renda real do trabalhador, que cresceu 7,2% de 2005 para 2006, o maior aumento em 11 anos.

A economia brasileira – graças ao que Alan Greenspan acaba de definir como o “boom” econômico mais extraordinário que já viu na história – vive um ciclo de crescimento que deve continuar produzindo, nos próximos anos, resultados muito bons – se não for interrompido por uma crise vinda de fora – que o governo continuará apresentando como frutos exclusivos de suas políticas.

É inegável que alguns desses frutos, como o crescimento mais rápido da renda dos mais pobres, decorrem de decisões do governo do PT, entre as quais aumentos reais mais expressivos do salário mínimo nos últimos anos. Mas o que a série histórica dos dados da Pnad deixa evidente é que as melhoras não começaram em 2003, primeiro ano do mandato de Lula, mas bem antes.

Veja-se, por exemplo, o caso da distribuição da renda medida pelo Índice de Gini. Esse índice varia de 1, que representa a concentração total de renda, a 0, que seria o índice registrado numa sociedade com distribuição igualitária da renda. Quanto mais próximo o índice de uma sociedade estiver de um ou de outro se dirá que ela tem renda mais ou menos concentrada.

O Índice de Gini do Brasil não começou a cair no governo do PT. Houve um processo de piora da distribuição de renda, registrado pelo índice, que terminou em 1994, ano de lançamento do Plano Real. Nos três anos seguintes, o índice se manteve estável, mas desde 1998 vem caindo.

Quanto ao rendimento real médio dos trabalhadores, cujo notável crescimento em 2006 foi bem destacado pela imprensa, deve-se observar que, a despeito desse aumento, seu valor, R$ 888, ainda está muito abaixo do recorde histórico registrado em 1986 (ano do Plano Cruzado), de R$ 1.055 (valor ajustado pela inflação), e inferior também aos R$ 975 de 1996. Um exame do gráfico publicado sábado pelo Estado mostra que a recuperação do rendimento dos trabalhadores em 2006, embora recorde, foi suficiente apenas para equipará-lo ao de 1999.

Nesse mesmo gráfico, é evidente também o efeito das turbulências políticas sobre o desempenho da economia e, conseqüentemente, sobre o rendimento dos trabalhadores. Em termos porcentuais, a queda mais notável (de 7,7%) ocorreu entre 2002 e 2003. Foi o período em que os agentes econômicos, assustados com o crescimento das intenções de voto no candidato Lula e, em seguida, com sua eleição, se retraíram. Apesar do compromisso assumido por Lula na campanha – e rigorosamente cumprido -, de que asseguraria a estabilidade econômica, a recuperação da renda do trabalhador só começou no terceiro ano do governo do PT, em 2005, acentuando-se em 2006.

Há outros avanços econômicos e sociais constatados pela Pnad que merecem ser destacados. O número de vagas abertas no mercado formal de trabalho, com carteira assinada, cresce mais depressa do que o das oferecidas no mercado informal, o que indica empregos melhores. As estatísticas do IBGE mostram também que, apesar da péssima qualidade do ensino público, melhora o nível de educação da população, ao mesmo tempo que cai o índice de analfabetismo – que, aliás, já poderia estar extinto.

Um dado demográfico importante, pois mostra a consolidação de uma mudança nos padrões da evolução da população brasileira, é a queda da taxa de fecundidade, que em 2005 ficou em 2,1 filhos por mulher. Este é o índice que os demógrafos chamam de “reposição da população”, pois os filhos “substituem” pai e mãe nas estatísticas. Estima-se que, mantido o ritmo de redução da taxa de fecundidade, entre 2005 e 2040, a população brasileira começará a diminuir, como ocorre em alguns países desenvolvidos.

Na essência, a Pnad mostra que o Brasil passa por um processo de transformações pelas quais já passaram outros países que há alguns anos tinham nível de desenvolvimento comparável ao nosso e hoje apresentam indicadores econômicos sociais muito melhores que os nossos. Aqui, o processo está atrasado e seu ritmo continua lento.

Cresce o número de brasileiros com diploma

O número de estudantes no ensino superior cresceu 13,2% em 2006 – um aumento de 684 mil pessoas em um ano. No total, o número de estudantes passou de 5.190.000 para 5.874.000. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (Pnad) divulgada ontem. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pela pesquisa, o resultado pode ser parcialmente explicado pelo envelhecimento da população e pelo aumento da procura por cursos de nível superior pelas pessoas que já terminaram o ensino médio.

O superior foi o único a apresentar crescimento expressivo entre os níveis de ensino. Apesar do crescimento de pessoas com maior nível de escolaridade, elas ainda representam apenas 10,7% do total de estudantes brasileiros. Para o IBGE, por conta do envelhecimento da população, o total de estudantes no pré-escolar caiu 4,5%, e, no ensino médio, 0,9%. No ensino fundamental, houve aumento de 0,5%. De modo geral, a educação pública apresentou uma queda de 311 mil alunos (0,7%). O recuo foi mais intenso no ensino médio, que passou de 8.127.000 em 2005 para 8.032.000 no ano passado. A expansão do número de estudantes universitários consolida um modelo de educação majoritariamente privado. A maior parte dos estudantes (75,5%) está matriculada em instituições particulares. No Sudeste, o percentual chega a 81,8%. A parcela de alunos na rede privada no ensino superior no país cresceu 15,3%. Segundo especialistas, o resultado mostra uma forte expansão do acesso ao ensino de nível superior impulsionada em parte pela oferta de mensalidades mais baixas. Segundo Simon Schwartzman, pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), o ProUni (programa do governo federal que concede bolsas em universidades particulares) pode ajudar, mas não responde sozinho pelo crescimento. Dados do site do MEC indicam que, em 2006, foram concedidas 138.668 bolsas, entre integrais e parciais. Houve um aumento mesmo do número de estudantes na universidade, e não há envelhecimento da população que explique essa mudança. O que tem crescido no Brasil é o ensino particular; o público cresce pouco. À medida que aumenta a demanda, as instituições particulares oferecem taxas mensais não muito caras, para a população com menor poder de compra – observa. O aumento da exigência por escolarização no mercado também contribui. Dados da pesquisa mostram que, no Sudeste, quase metade (45,4%) da população ocupada tem 11 anos ou mais de estudo. De 2005 para 2006, a participação das pessoas que tinham completado o equivalente ao ensino médio na população ocupada passou de 35,4% para 37,6%. A pesquisa aponta ainda que a taxa de analfabetismo no país recuou de 10,2% em 2005 para 9,6% em 2006. No ano passado, 14,9 milhões de pessoas com mais de 10 anos de idade não sabiam ler e escrever. Segundo a consultora do IBGE Vandeli Guerra, a queda nessa taxa tem influência direta do aumento da taxa de escolarização da população. A taxa de analfabetismo caiu em todas as regiões, sobretudo, o Nordeste – disse. Apesar desse recuo, as disparidades regionais na educação continuam. Mais da metade dos analfabetos estão no Nordeste, onde a taxa ficou em 18,9%, mais que o dobro da média nacional e o triplo da região Sul (5,2%). Já ao considerar as pessoas com 10 anos ou mais e com menos de quatro anos de estudo, os chamados analfabetos funcionais, esse percentual sobe para 23,6%. O número médio de anos de estudo do brasileiro é de 6,8 anos.

Ensino superior a distância terá nova regras

O ensino superior a distância no País terá uma avaliação própria que vai determinar a autorização de universidades e reconhecimento dos cursos. Os novos critérios elaborados pelo Ministério da Educação (MEC) foram aprovados nesta semana no Conselho Nacional de Educação (CNE) e devem ser homologados pelos ministro Fernando Haddad ainda neste mês. O Brasil tem hoje 205 cursos de graduação ou tecnológicos e 575,7 mil alunos no ensino superior a distância.

Uma das novidades é a avaliação também dos chamados pólos presenciais, algo que surgiu apenas com a educação a distância. Eles funcionam como extensões da universidade. São instalados em vários municípios e servem como referência mais próxima para os alunos. Esses lugares, segundo o MEC, deverão oferecer recursos como acesso à internet para todos os alunos, laboratórios, bibliotecas e professores. “A idéia é que o ensino seja classificado mais como semipresencial, por causa dessa importância dos pólos”, diz o diretor de Avaliação do Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais (Inep), do MEC, Dilvo Ristoff.

São três os documentos elaborados pelo governo: um para avaliar instituições, outro para cursos e outro para pólos. Eles estão sendo incluídos no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), que já é aplicado aos cursos presenciais atualmente. A educação a distância vai também receber conceitos de 1 a 5. Até hoje, não havia critérios específicos para essa modalidade.

“É um marco na educação a distância no Brasil e um esforço para que haja qualidade nos cursos oferecidos”, diz o secretário de Educação a Distância do MEC, Carlos Bielschowsky. Será exigido, por exemplo, que os cursos tenham materiais didáticos para uso na internet que estimulem a autonomia de estudo, além de guias que direcionem o aluno para estudar a distância. “Produzir material de qualidade é uma das chaves desses cursos”, diz. Pelas novas regras, as provas presenciais devem ter peso maior que as realizadas a distância.

As instituições terão de comprovar experiência anterior na área para pedir o credenciamento de seus cursos a distância. Para receber a nota máxima na avaliação, a universidade já deverá ter pelo menos três com 20% da carga horária a distância antes de iniciar graduação não presencial. Será preciso comprovar também a experiência anterior dos professores que atuarão na modalidade.

FIM DOS PRESENCIAIS

O diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), José Roberto Moreira, faz elogios à iniciativa, mas diz que espera que a nova avaliação deixe mais claros os critérios para credenciamento de novos cursos. Segundo ele, o governo hoje é mais rígido com instituições particulares do que com as públicas que pretendem oferecer educação a distância. “Dentro de cinco anos não haverá mais cursos inteiramente presenciais, todos terão elementos a distância.”

A iniciativa de maior sucesso no País é o Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cederj), um consórcio que reúne seis universidades públicas para oferecer esse tipo de graduação. Os pólos estão espalhados pelo Estado e dão sustentação para sete cursos e 17 mil alunos.

O setor cresce também em outras regiões do País. São Paulo anunciou recentemente que pretende iniciar uma experiência inspirada na do Rio. O governo federal também lançou o Universidade Aberta, com participação das federais, nos mesmos moldes.

“Até agora, as avaliações do setor eram híbridas”, diz a presidente do Cederj, Massako Masuda. Segunda ela, há questões específicas, como a gestão dos cursos, que precisam ser avaliadas na educação a distância. “É necessário saber o que faz o tutor, se ele acompanha os alunos.” Os tutores são professores que interagem com os estudantes para facilitar a aprendizagem a distância. A avaliação do MEC exige que haja capacitação especial para esses profissionais e que, preferencialmente, eles sejam mestres ou doutores.

“Tem gente que acha que me formei por correspondência. O preconceito ainda existe”, diz Dayselane Pimenta, de 30 anos, formada a distância em Licenciatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Para ela, a nova avaliação pode ajudar a dar mais credibilidade aos cursos.

Estudos do Inep mostram que, em 7 das 13 áreas avaliadas no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), os alunos que cursaram educação a distância se saíram melhor que os de cursos presenciais.

O MEC e o ensino jurídico

Diante da proliferação desenfreada de faculdades de direito, que hoje oferecem 223 mil vagas em 1.078 cursos em todo o País, dos quais 55% estão localizados na Região Sudeste, o Ministério da Educação (MEC) e o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) finalmente decidiram estudar um novo “marco regulatório” para o setor.

A idéia é redefinir as diretrizes para a abertura de novos cursos e estabelecer as providências a serem tomadas com relação aos 87 estabelecimentos cuja qualidade é considerada péssima pelo MEC e pela OAB.

Os nomes das instituições que serão enquadradas por exigências saneadoras e medidas punitivas não foram divulgados. Foi citado apenas o caso de uma escola sediada no Rio de Janeiro, que oferece mil vagas por ano e não teve um único bacharel aprovado no último exame de habilitação profissional aplicado pela OAB.

Para identificar esses 87 estabelecimentos cujo ensino é considerado crítico, o MEC e a OAB cruzaram os dados do “Exame da Ordem”, um pré-requisito para que os bacharéis possam advogar, com os resultados do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Foi a primeira vez que isso ocorreu, desde a implantação, há onze anos, dos mecanismos de avaliação do ensino superior. As piores faculdades são as que aparecem nos últimos lugares das duas listas – a do Enade e a da OAB.

Esta semana, uma comissão formada por juristas dos dois órgãos divulgará uma “nota técnica” com as medidas que serão aplicadas a essas escolas. Entre as exigências, destacam-se a suspensão de novos processos seletivos, a redução do número de vagas, a reestruturação do corpo docente, a expansão de bibliotecas, a redefinição do projeto pedagógico e até o fechamento de cursos, com a transferência de seus alunos para outras instituições. A partir de outubro, representantes do MEC e da OAB começarão a visitar essas 87 faculdades.

Segundo o ministro Fernando Haddad, cada etapa foi cuidadosamente planejada com base na legislação em vigor, para evitar que as escolas a serem punidas tenham pretexto para pedir liminares aos tribunais. “O que existe é um novo mecanismo de aferição de qualidade. Precisamos constituir um procedimento administrativo que dê a segurança necessária às decisões a serem tomadas. É fundamental que tenhamos um marco regulatório juridicamente estável, para evitar o risco de aplicar uma medida e depois ter de suspendê-la por ordem judicial”, diz o ministro.

O aumento do rigor com relação aos cursos caça-níqueis, no campo do ensino jurídico, merece aplauso. Mas foi preciso que a qualidade da educação nessa área do conhecimento se deteriorasse a níveis alarmantes, para que a OAB e o MEC decidissem agir conjuntamente. Até recentemente, o Conselho Federal da OAB tinha a prerrogativa de se manifestar com relação ao pedido de abertura e reconhecimento de novas faculdades de direito. Mas, como esses pareceres eram meramente “opinativos”, eles não condicionavam as decisões do MEC. Tanto que, das últimas 20 autorizações dadas pelo governo para a instalação de novos cursos, apenas 1 recebera parecer da OAB.

O presidente da entidade, Cezar Britto, chegou a classificar como “desrespeito ao serviço histórico da OAB” o desprezo aos pareceres emitidos pelo Conselho Federal da corporação. Na defesa das decisões do MEC, vários técnicos alegaram que determinados pareceres haviam sido redigidos não com base em critérios técnicos, mas só para favorecer determinados grupos empresariais do setor educacional, que temiam perder mercado com o aparecimento de cursos concorrentes. Em outras palavras, a OAB estaria utilizando os pareceres com o objetivo de assegurar “mercado cativo” para as faculdades já existentes. Integrantes da entidade contra-atacaram, afirmando que o MEC teria cedido a pressões políticas ao autorizar a criação de novos cursos sem parecer favorável da OAB.

Com a superação dessa divergência, o governo já anunciou a disposição de aproveitar a experiência conjunta com a OAB para estendê-la aos cursos de medicina. Dependendo do modo como essas medidas saneadoras forem implementadas no campo do ensino jurídico, elas podem ser decisivas para melhorar a qualidade do ensino superior.

Alma da África, alma do Brasil

Por Gabriel Chalita (Jornal de Letras)

A narrativa de Antonio Olinto em seus romances africanos começa, em A casa da água, como uma enxurrada. Não há introdução, preparativos, prolegômenos. O leitor literalmente mergulha, já na primeira frase, em uma enchente. É a metáfora que conduz o discurso, uma recuperação moderna da narrativa sinfônica. Olinto escreve como quem conta uma história ao pé da fogueira na noite da África ancestral.

Enumera os usos e costumes, o sincretismo religioso, os procedimentos curativos, o folclore, o cotidiano das casas e das ruas, mas principalmente localiza o leitor, pondo e transpondo pessoas, com enorme habilidade, em lugares de aqui e de acolá, do Piau a Juiz de Fora, do Rio à Bahia, do Brasil à África. Mas, se o espaço tem destaque na linguagem, o tempo é etéreo. Tempus fugit. A primeira referência temporal só se dá por volta da página 200, quando se menciona a guerra. “Mariana achava ingleses, franceses e alemães tão parecidos, por que haveriam de brigar, mas deviam ter lá suas razões.” Somente ao final do livro uma tabela de datas vai esclarecer de que tempo histórico se está falando. E aí está: o tempo cronológico não tem importância.

Os achados de linguagem são tocantes. Logo à página 20, damos com esta preciosidade: “As mulheres ficaram com receio de olhar para fora e puseram os olhos no chão, Mariana, não, Mariana comeu o prazer de cada imagem.” À página 58, outra: “Maria Gorda pegou-a no colo, começou a falar, tinha uma voz boa e gorda também.” E à página 64: “A alegria dominou durante outra semana ainda o navio, mas foi-se diluindo em pedaços cada vez maiores de silêncio.” É a voz soberana do narrador, simples, despida e precisa, fazendo um registro. Sem avaliações morais ou moralistas. O padre José que bebe cachaça, a matança cerimonial, a fornicação sem vergonhas. O livro é a pauta da vida. Desenvolve-se. Evolui, como um navio que avança pelas ondas franjadas. O livro é a vida, em seu processo, sujeitando as pessoas pela tradição, cultura, pela dinâmica própria. Um relicário da prodigiosa observação desse autor que funde ficção e memória em uma liga só, emocionante e densa. Aqui e ali, versinhos de infância. Em todo lugar, alegria, música e ritmos.

A Casa da água foi lançado em 1969 e serviu de esteio para os outros dois livros da trilogia (O Rei de Keto e o Trono de Vidro). A análise da alma africana, e por extensão da alma humana, é preciosa, no texto de Antonio Olinto. Mas não está em fatos pitorescos ou nas anedotas. Está nos refrões, pregões, imprecações. Vejam esta frase: “Ele tinha boa cara, os lábios, grossos e fortes, formavam um sorriso lento, que demorava a se formar e demorava a se desfazer.” Outra: “O pai revelou-se um homem baixo e muito gordo, a boca se esparramava como a de um sapo, ria uma risada enorme e demorada.”

A trilogia do acadêmico Antonio Olinto é um compêndio sobre costumes de um povo que passou muitos anos lutando para manter a sua identidade. Assim, a pretexto de falar da alma da África, o autor fala da alma do Brasil. O fio condutor é Mariana, errante e errática, miscigenada e híbrida, suspensa entre dois mundos, como a água do mar, a água da enchente, nessa torrente de vida. Mas uma mulher firme, empreendedora, justa. Uma brasileira. A frase de Mariana, ao batizar a sua loja, comprada com o trabalho de uma vida, de Casa da água, foi esta: “É que eu comecei a ser eu depois que fiz um poço.” Anos mais tarde, ela diria (página 59 de O Rei de Keto): “A coisa mais importante que fiz foi abrir um poço em Lagos quando era moça.” Quanta densidade em duas frases!

Aqui e ali, a voz do autor se deixa evidenciar, numa cuidada intervenção da primeira pessoa. São apenas dois ou três verbos em cada volume, com desinência voltada para o eu. Artifícios de um habilidoso processo de construção da narrativa.

A um homem que viveu a África, como adido cultural na Nigéria, escolho a boa tradição iorubá, e termino este artigo com um oriki, como faz o autor no seu romance: ó Antonio Olinto, tu que ensinas a ver e a julgar, que estás no teu merecido lugar no cenáculo da Academia Brasileira de Letras, que escrevas muito e que teus escritos sejam recebidos com alegria pelos nossos corações, para sempre. Porque tua obra, nobre escritor, é como tu: tem a energia do trovão, a sabedoria dos nossos ancestrais e a serenidade do mar calmo.