A Tribuna – Amanhã é comemorado o Dia do Professor. Qual o pré-requisito para alguém se tornar professor hoje?
Gabriel Chalita – Primeiro tem que gostar de ser professor. É uma coisa essencial. Se a pessoa não gosta da arte de educar, por melhor que seja as condições da escola e até o salário, não vai dar certo. Depois é preciso competência.
O professor tem de estudar o tempo todo. Isso porque os alunos vão mudando muito e a forma de educar também muda muito. Hoje existe um problema que é o déficit de atenção em alunos. Mas o fato não deve ser visto como deficiência ou defeito. É resultado do mundo onde vivemos, da tecnologia, da rapidez, do controle remoto e do clique, o que faz com que o aluno não tenha paciência para escutar o que o professor diz. Diante dessa realidade, o profissional tem que estudar dois aspectos: o conteúdo que ele vai trabalhar e a didática que irá desenvolver. Há um terceiro ponto, que é a coragem. Está lá na Constituição Federal que a função do educador é formar a pessoa, depois o cidadão e em seguida prepará-lo para o mercado de trabalho. Só que para formar a pessoa é necessário que o educador entenda um pouco do universo do aluno, dos seus medos, traumas, angústias e da família que ele vem. Isso porque não se educa quem não se conhece. Então, esse professor deve ser corajoso para entrar no universo de seres humanos completamente diferentes. Não existe sala de aula homogênea. Os alunos são muito diferentes e aí vem o desafio do professor.
– O senhor vê a coragem como o maior desafio então?
– Esse seria o desafio mais novo porque gostar da profissão sempre foi necessário, assim como ser competente. Agora, é preciso ter a coragem para se relacionar com alunos muito diferentes. Antigamente o aluno abaixava a cabeça para o professor, que era mais respeitado. Atualmente sei de escolas onde a reclamação dos professores é a agressão física, a existência de alunos alcoolizados e absolutamente apáticos. E a situação não é um problema brasileiro somente, é mundial. Temos um problema sério ocorrendo, que é um fenômeno chamado bullying. São alunos que se sentem agredidos e querem se vingar de alguma forma. É o obeso que mata as pessoas em volta e se mata depois, é o aluno que se sente discriminado e comete o mesmo ato. O professor também deve trabalhar com esse fenômeno, com aquele aluno que está mais quieto porque foi agredido de alguma forma, com o aluno que se sente ofendido por receber um apelido, com aquele que se demonstra mais valente. Enfim, o professor é o maestro para lidar com perfis muito diferentes.
– Qual a principal mudança na função do professor hoje?
– O professor de antigamente era um facilitador. O aluno praticamente não tinha acesso à informação. Nas casas havia poucos livros e nas que tinham, as publicações funcionavam mais como enfeite.Também não havia internet e a televisão não tinha a preocupação de informar. Hoje, se o professor tiver essa postura, está fadado ao fracasso. Isso porque a informação está disponibilizada por todos os lados e a sua velocidade é impressionante. Atualmente, o professor deixa de ser facilitador para ser um problematizador do processo de aprendizagem. Ele tem que instigar o aluno a resolver problemas, o que muda a forma de avaliação, o modo de dar aulas, de trabalhar com textos, com idéias, muda tudo. É um novo perfil de professor para um novo perfil de aluno.
– E o que será exigido do professor no futuro? Como será a educação?
– É isso ainda mais exagerado. Mas o computador nunca vai substituir o professor porque nessa relação de aprendizagem há o elemento afetivo que o computador não oferece. Quanto ao ensino em si, vejo que as salas de aula terão arquitetura diferenciada. Não há mais sentido existir um monte de cadeiras no espaço para que os alunos fiquem sentados, ouvindo o que diz o professor. A sala de aula vai trabalhar com estações. Haverá algumas mesas para que os alunos façam atividades em grupo, um espaço com alguns livros, uma pequena biblioteca, alguns computadores para acesso à internet, alguns jornais, revistas e almofadas. Agora, algo da educação de hoje que servirá para o futuro é a contação de histórias. É algo legal que alimenta a criatividade.
– A falta de formação dos professores é um problema para a evolução do ensino, não é?
– Há pelo menos três fatores prejudiciais. Um é a falta de formação realmente. As faculdades, infelizmente, não preparam muito bem os professores e quando o profissional entra no mercado de trabalho pára de estudar. Não há investimento. Se o político puder escolher entre inaugurar uma escola e oferecer formação aos professores, ele vai preferir a primeira opção. É só olhar os países que deram certo, em termos educacionais como o Chile, a Coréia e a Espanha. Todo mundo investe em formação de professor. Outro problema é a questão da família. É complicado a escola resolver todo o problema educativo se a família não participar do processo. O terceiro ponto do fracass0 escolar é a questão política mesmo. Não há continuidade das políticas públicas. Essa arrogância, esse personalismo faz um mal imenso para a educação. Não se melhora a educação em quatro, cinco, 10 anos. A revolução educacional acontece em pelo menos 20 anos.
– Estamos longe disso?
-Muito longe. Mas eu não gosto de ser pessimista porque há exceções. Há educações municipais que conseguiram isso durante 20 anos. Aliás, geralmente, as redes municipais são melhores que as estaduais. Às vezes você consegue dar continuidade e faz com que a educação tenha uma qualidade. Mas no geral a educação não é boa.
GABRIEL CHALITA Educador e escritor: “É complicado a escola resolver todo o processo educativo se a família não participa”
