Educação em Foco

Bullying: Repressão entre alunos

Por Isaac Ribeiro (Tribuna do Norte)

Apesar de não haver uma palavra na língua portuguesa que expresse o significado do termo ‘bullying’, algumas palavras servem para defini-la: agredir, amedrontar, assediar, discriminar, divulgar apelidos depreciativos, dominar, excluir de um grupo, humilhar, ignorar, isolar, perseguir, zoar, entre outros.

Transfira agora isso tudo para o ambiente escolar. O bulliyng é a prática discriminatória que ocorre entre grupos de alunos, sempre escolhendo um deles como “a bola da vez”, a “ovelha negra” da turma.

O bullying preocupa pais, professores e pedagogos, e pode causar traumas definitivos na personalidade de suas vítimas – e até em seus praticantes ativos. Segundo a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Criança e ao Adolescente (Abrapia), a prática não está restrita ao tipo de instituição: pública ou privada, da área rural ou urbana, primária ou secundária.

Profissionais da área de educação e pedagogia classificam o bullying como todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que acontecem sem motivação aparente, adotadas por um ou mais estudantes com outro, ou outros, causando dor e angústia, sendo praticada numa relação de desigual poder. Suas principais características são atos repetidos entre membros de um mesmo grupo – no caso, estudantes – com desequilíbrio de poder e intimidação das vítimas.

O bullying, porém, é mais comum entre meninos. Entre as meninas, fica mais na exclusão e na difamação. Para Laurence Bittencourt, professor de Psicologia da Educação da Universidade Potiguar (UnP), há também, nesse ponto, a questão cultural e até biológica, hormonal, dos garotos. “Não que a gente não observe esse tipo de violência entre as meninas, mas por nossa própria cultura pensamos na mulher sempre mais tolhida e o homem sempre mais disposto a colocar as coisas para fora, extravasar”, comenta ele, classificando a prática do bullying como uma “possibilidade de mostrar uma identidade masculina” ou como “uma forma de pré-requisito para a masculinidade.” Entretanto, o professor afirma rejeitar o caráter nocivo dessa prática, principalmente no âmbito escolar.

Os autores do bullying são identificados como indivíduos com pouca empatia, geralmente vindos de famílias desestruturadas, sem pouco relacionamento afetivo entre seus membros que, por sua vez, usam da pressão como forma de intimidação doméstica e difundem o comportamento agressivo como solução de problemas.

Os alvos são tidos como jovens altamente inseguros, de auto-estima baixa, passivos, quietos, de poucos amigos. Sem forças para reagir aos assédios e sem esperança de se adequarem ao grupo, freqüentemente trocam de colégio ou até mesmo abandonam os estudos.

Os traumas possíveis dependem de que forma o bullying atinge cada um. “Seqüelas podem acontecer ou não; vai depender muito de quem está recebendo isso. Agora, do ponto de vista pedagógico, moral e emocional, principalmente, é realmente uma prática nociva. Não tem como pensar diferente.” Segundo Laurence Bittencourt, a prática do bullying nas escolas atrapalha o rendimento de muitos alunos. Mas mesmo assim, em seu entendimento de pedagogo, ainda depende da forma que cada um reage às pressões.

“Tem umas pessoas que absorvem, outras que não. Para as que têm dificuldade de aceitar isso ou ver de outra forma, certamente afeta. É sempre uma invasão, um momento agressivo em relação à pessoa”, diz ele. Para Laurence, essa prática de criar bodes expiatórios, de sentir prazer no sadismo, também tem que ser pensada em seu viés psicológico. Para combater o bullying o professor considera ser necessária uma verdadeira força-tarefa envolvendo a instituição pedagógica, a família, agentes e alvos, e a direção da escola.

A psicóloga Jemima Morais Veras, que estuda o comportamento dos jovens, alerta que é preciso prestar muita atenção nos sinais dados pelos filhos, como preocupação, insônia, falta de apetite e de concentração, crises alérgicas, irritação, apatia, entre outros. “É preciso estabelecer com os filhos, desde cedo, uma relação de confiança para que assim eles consigam contar o que está acontecendo. Mostrar que estão sempre disponíveis, valorizar os sentimentos, pois o bullying não é só uma briguinha passageira de colegas.”

Amizade é a solução

No livro “Pedagogia da Amizade – Bullying: o sofrimento das vítimas e dos agressores”, o professor paulista Gabriel Chalita propõe o fim das cenas de desrespeito e humilhações no ambiente escolar. Para tanto, ele defende a valorização do sentimento de amizade entre os alunos e chama a atenção dos pais, professores e educadores para as conseqüências do bullying – considerado um problema crescente hoje no mundo. A falta de amizade em crianças na fase escolar é considerada a maior causadora do problema.

Segundo Chalita, há dois caminhos a serem seguidos quando o assunto é combate ao bullying. O primeiro passa pela família; o outro, pela escola. Ele avalia que, quando é uma família que preza pelo diálogo e que percebe as mudanças comportamentais dos filhos, dando liberdade para que eles relatem os problemas que estão sofrendo, é mais fácil combater e prevenir o bullying.

“Mas se é uma família sem diálogo, não vai nem perceber uma agressão que o filho esteja sofrendo. Ele volta da escola e diz que não quer mais estudar. Por que será? Se a família tiver realmente aberta e atenta, vai logo perceber”, diz o professor de Direito e de Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo.

O professor paulista também defende que a escola precisa difundir técnicas de prevenção ao bullying, trabalhando os valores da ética entre alunos e professores, promovendo a conscientização sobre esse problema que pode provocar sérias seqüelas nos alunos.

Chalita avalia que a pior coisa que pode acontecer como resultado do bullying é o suicídio das vítimas dessa prática opressora. Ele cita também os casos de tragédias ocorridas em colégios e universidades dos Estados Unidos – como em Columbine, onde um aluno sai matando os colegas e depois se mata. “Alguns não conseguem ter uma relação profissional no futuro ou passa a ter medo das pessoas. O bullying deixa a pessoa marcada pelo resto da vida. E o grande caminho é a prevenção”, afirma.

Em tempos de internet

Segundo Gabriel Chalita a entrada da internet no âmbito escolar criou uma nova modalidade do problema: o cyber bullying. Agora, segundo sua análise, crianças e adolescentes batem em seus amigos, gravam as imagens no celular e colocam em sites como o YouTube, para que todos vejam. Ele conta casos em que meninos fazem montagens das amigas do colégio como que estivessem praticando sexo oral em outros colegas e espalham na rede. “No Sul, uma menina se suicidou com medo da reação dos pais, depois que fizeram isso com ela.”

Ele acredita que, por ter mais poder de divulgação, a internet está agravando a prática do bullying. Há até casos de jogos eletrônicos. “A Justiça do Rio Grande do Sul proibiu um jogo de bullying, que ganhava mais pontos aqueles que xingassem ou agredissem mais os colegas.”

Gabriel Chalita conta que os primeiros estudos sobre bullying foram realizados na Noruega, nos anos 70, motivados pelos altos índices de suicídios entre estudantes. Hoje a Espanha, modelo de educação no mundo, registra 40% de alunos que dizem sofrer as conseqüências dos abusos. Na Inglaterra, são 45%; em Portugal, 42%. Segundo o professor, mesmo sem ter um levantamento completo, unificado, o Brasil está dentro dessa média mundial. Estamos na faixa dos 45%. Se você imaginar que representa praticamente a metade da população escolar, vemos como o caso é preocupante.”

(…)

Redomas de Cristal

Por Walcyr Carrasco (VejaSP)

Semanas atrás, fui jantar com alguns colegas de classe do colegial. Estudamos juntos há cerca de quarenta anos. Ainda nos vemos, acompanhamos a trajetória de vida de cada um e torcemos nas situações difíceis. Cursei um colégio público, experimental, de ótima reputação na época.

Uma das teses dos educadores era mesclar as diversas classes sociais. Devido à fama, a escola atraía até milionários. Eu, um garoto pobre, convivi com colegas de status social maior e até menor que o meu. Foi enriquecedor. Sem falsa modéstia, acredito que para os outros também.

Para meu espanto, as famílias atuais buscam exatamente o oposto. Particularmente, acho os condomínios maravilhosos. Quando eu era criança, entrar em piscina era privilégio raro! Hoje, crianças de classe média nadam a metros de onde vivem. Discordo, sim, da visão de boa parte dos pais.

– Meus filhos nem vão precisar sair. A escola é ao lado, o shopping é próximo. Segurança total – contou-me um amigo ao mudar de endereço.

Fiquei de queixo caído com sua ingenuidade. Está certo, a violência anda cada vez maior. Qualquer pai ou mãe fica apavorado quando o filho se atrasa. Isolar ajuda, de fato? “Proteger é diferente de esconder”, diz o escritor Gabriel Chalita em seu recém-lançado Pedagogia da Amizade. “Não se esconde o filho do mundo nem o mundo do filho.” Eu soube de colégios ricos onde os alunos disputam quem tem o relógio mais caro ou o último lançamento eletrônico, por exemplo. Esses garotos não seriam pessoas melhores se pudessem conviver com outros, em situações diferentes, para entender que o planeta não gira em função das grifes?

Essas famílias só visitam famílias parecidas, que fazem compras nos mesmos shoppings, comem em restaurantes idênticos, usam roupas de grifes iguais e fazem os filhos viver vidas inventadas em série. É como reunir todas as aves num só galinheiro. Basta a chegada de uma única raposa para fazer a festa. Quando escrevi um livro para adolescentes sobre drogas, investiguei a fundo como ocorre o primeiro contato. Em geral é por meio de um conhecido acima de qualquer suspeita: vizinho, namorado, parente próximo. Em uma palestra recebi o depoimento emocionado de um pai cujo próprio irmão introduzira seu filho no consumo pesado.

– Eu nunca suspeitei de meu irmão! – ele disse chorando.

– E agora perdi meu filho!

É óbvio. Imagine um bando de garotos de boa situação financeira que pouco conhecem da vida. Fechados em seu mundinho. Chega um com a novidade. Cresce a curiosidade. E de um em um todos querem experimentar. Se fossem mais escolados seriam alvos tão fáceis?

Triste é saber também que, se alguma família perde dinheiro, passa a ser malvista. É comum surgir um comentário depreciativo porque alguém atrasou o condomínio, como se uma crise financeira fosse um problema moral. Ou seja, os valores começam a ficar distorcidos, por serem somente materiais. Não é à toa que se ouve falar, com freqüência, em jovens de classe média que partem para o crime.

Educar um filho hoje em dia é difícil, pois são inúmeras as armadilhas. Passei por riscos e estou aqui, inteiro. Alguns amigos superprotegidos, ao contrário, não deram em nada. Ainda, já depois dos 50 anos, não querem saber do batente. Educar a criança em um mundo que não existe pode dar uma sensação de segurança. Mais tarde, ela não estará pronta para enfrentar a realidade, certamente muito mais árdua.

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Sobre simplicidade e sabedoria

Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.

Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus vôos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por 10.000 coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles a multiplicidade é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos a multiplicidade tem o nome de dever. Os adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã 10.000 coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, lugar onde as 10.000 coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições.

No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.

Jesus contava parábolas sobre a simplicidade. Falou sobre um homem que possuía muitas jóias, sem que nenhuma delas o fizesse feliz. Um dia, entretanto, descobriu uma jóia, única, maravilhosa, pela qual se apaixonou. Fez então a troca que lhe trouxe alegria: vendeu as muitas e comprou a única.

Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das 10.000 coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, “as 10.000 coisas aparecem e desaparecem sem cessar.” O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho. A última das tentações com que o Diabo tentou o Filho de Deus foi a tentação da multiplicidade: “Levou-o ainda o Diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: ‘Tudo isso te darei se prostrado me adorares.’” Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue o “muitos” é um coração fragmentado, sem descanso. Palavras de Jesus: “De que vale ganhar o mundo inteiro e arruinar a vida?” (Mateus 16.26).

O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. Adverte o escritor sagrado: “Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne” (Eclesiastes 12.12). Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma. Não há saber diante do qual o coração possa dizer: “Cheguei, finalmente, ao lar”. Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir uma casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem à multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa.

Diz o Tao-Te-Ching: “Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa.”

Diz T. S. Eliot: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?”

Diz Manoel de Barros: “Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar. Sábio é o que adivinha.”

Sabedoria é a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: “A palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado. “A sabedoria é, assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem do saberes, diante da multiplicidade, “precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço.” Mas o sábio está à procura das “coisas dignas de serem conhecidas”. Imagine um bufê: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. O sábio, ao contrário, para e pergunta ao seu corpo: “De toda essa multiplicidade, qual é o prato que vai lhe dar prazer e alegria?” E assim, depois de meditar, escolhe um…

A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. Não só nós. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade.

O Vinícius escreveu um lindo poema com o título de “Resta…” Já velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trás e vê o que restou: o que valeu a pena. “Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas…” “Resta essa capacidade de ternura…” “Resta esse antigo respeito pela noite…” “Resta essa vontade de chorar diante da beleza…”. Vinícius vai, assim, contando as vivências que lhe deram alegria. Foram elas que restaram.

As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo. É para isso que necessitamos dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: “Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás…” Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem.

Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas: cenários, lugares, alguns paradisíacos, outros estranhos e curiosos, viagens, eventos que marcaram o tempo da minha vida, encontros com pessoas notáveis. Mas essas memórias, a despeito do seu tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar.

Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho menino empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: “Papai, eu gosto muito de você!”; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu (chorei muito por causa dela, a Flora); menino andando à cavalo, antes do nascer do sol, em meio ao campo perfumado de capim gordura; um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: “Veja como estão agradecidas!” Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas.

Diz Guimarães Rosa que “felicidade só em raros momentos de distração…” Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: “É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai…” Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples. (Concerto para corpo e alma, pg. 09.)

O direito à educação

O direito à educação é, em essência, o direito ao deslum-bramento permanente ante a vida. Diante da bagunça, dois jovens de uma escola particular da cidade de São Paulo (o colégio Santa Cruz) logo perceberam que sua idéia de dar aula de filosofia para estudantes da rede pública estava condenada ao fracasso – a classe se dividia, basicamente, entre os que “zoneavam” e os silenciosos desinteressados. Foram todos salvos por uma música.

Na semana passada, em vez de começar a aula com falatório, os dois adolescentes puseram um rap para os alunos ouvirem e distribuíram a letra a eles. Conseguiram, então, motivar uma discussão sobre temas como violência, solidão e esperança. Nem parecia uma aula de filosofia – aliás, nem parecia uma aula.

A magia operada por aquela música revela o “deslumbramento pelas coisas belas” – essa expressão foi usada pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ao justificar seu projeto, lançado na semana passada, que determina a exibição periódica de filmes nacionais nas escolas.

A única questão relevante na discussão lançada pelo governo federal sobre a possibilidade de mudar a legislação de incentivo cultural -uma bolada anual de R$ 1 bilhão- é a democratização do deslumbramento diante da beleza.

Um dos argumentos para a mudança da legislação é a crítica de que parte dos recursos canalizados pelas empresas vai para ações culturais destinadas a platéias de maior poder aquisitivo e nas regiões mais ricas.

Muita gente séria aceita essa crítica, mas vê com desconfiança (também corretamente) o risco de criar um fundo de cultura gerido apenas pelo governo, sujeito a vícios como a corrupção e o desperdício, sem contar os apadrinhamentos políticos. Um exemplo recente de má gestão de recursos foi o que ocorreu com o Fust, que, destinado a conectar escolas à internet, arrecadou nada menos que R$ 8 bilhões e, sem exagero, não serviu para quase nada.

Argumenta-se também (mais uma vez com razão) que os empresários se sentiriam menos estimulados a colocar dinheiro na cultura se não pudessem escolher os beneficiários e, assim, valorizar sua marca.

Já vi aquele tipo de experiência dos adolescentes que usaram o rap para dar aula de filosofia aplicada dos mais diferentes modos e nos mais diversos lugares, quase sempre com resultados estimulantes. É uma fórmula eficaz para desenvolver o prazer de conhecer. É certo que a arte não deve ser condicionada a nada, deve apenas ser a expressão livre do artista, mas a arte bancada com imposto deve ter uma contrapartida em educação pública.

Será divulgada nesta semana, durante seminário em São Paulo sobre lei de incentivo cultural, uma pesquisa do Datafolha que, entre outros pontos, mostra um forte crescimento da freqüência aos museus entre os paulistanos. Esse é um exemplo de dinheiro mais bem empregado.

De acordo com a pesquisa, 65% dos que foram a exposições neste ano são estudantes de escolas do ensino fundamental e médio; 47% pertencem às classes C, D e E. É claro que esse seria o recurso mais bem empregado se os professores soubessem (e poucos sabem) como usar aquela visita ao museu para tornar mais atrativo o que eles ensinam em sala de aula. Isso significa que as verbas de incentivo à cultura deveriam contemplar não só o acesso mais amplo aos bens culturais mas também a capacitação de educadores.

O direito à educação é, em essência, o direito ao deslumbramento permanente ante a vida. Nada melhor que a arte para servir de introdução a essa aventura. O deslumbramento com as coisas belas revela o que nós somos e o que podemos ser – por isso, e só por isso, aqueles meninos e meninas aceitaram discutir filosofia tomando como ponto de partida a letra do rap.

Seja bem-vinda Ruth Rocha

Discurso de recepção de Ruth Rocha na Academia Paulista de Letras, proferido pela acadêmica Anna Maria Martins. O ingresso da escritora Ruth Rocha na Academia Paulista de Letras é fato relevante, marco que engrandece a entidade. Considero-me privilegiada por te sido escolhida para a saudação com que a recebemos.

Conhecida no país e no exterior, laureada com prêmios de suma importância, a autora expressa a alta qualidade do trabalho literário.

A carreira profissional de Ruth Rocha, seu poder de comunicação e criatividade ao lidar com a palavra escrita, dirigida à infância e à juventude, situam-na em lugar de destaque na literatura infanto-juvenil.

Se as histórias de Monteiro Lobato marcaram época e chegam a nossos dias como clássicas, sempre atuais, as de Ruth Rocha também significam abertura e marco de rumos criativos. A presença de Ruth Rocha é disputada por escolas, a escritora é admirada e querida pelas crianças.

A entrada de mais uma mulher na Academia Paulista de Letras – somos seis agora – leva-nos à reflexão sobre a trajetória de conquistas obtidas pela mulher nos vários segmentos de trabalho.

Na área da cultura literária , Maria de Lourdes Teixeira, a primeira mulher eleita para a Academia Paulista de Letras, abriu-nos o caminho.Prisciliana Duarte de Almeida foi fundadora. A entidade passou então a acolher escritoras, juristas, historiadoras. Espaço livre para a intelectual com trabalho de relevância no panorama cultural do país, a APL recebe a mulher com o merecido recolhimento por sua atividade profissional.

Conheci Ruth Rocha como leitora, quando adquiria seus livros para meus netos.

O objetivo era indicar-lhes um texto de excelente qualidade literária, que os estimulasse ao prazer da leitura. E senti grande alegria quando vi uma de minhas netas, Mariana aqui presente, relendo livros de Ruth Rocha e pedindo mais histórias da mesma autora.

Minha admiração por seu trabalho crescia à medida em que a escritora publicava novo livro.

A amizade chegou depois. Teve início quando fizemos parte da Diretoria da União Brasileira de Escritores, sob a Presidência de Ricardo Ramos, acadêmico, amigo que tanta falta nos faz.

O contato pessoal mostrou-se a mulher de Ruth Rocha: solidária, atuante, corajosa, preocupada com o destino do país. Suas histórias, dirigidas à infância e à juventude, colaboram para a formação do futuro cidadão e estimulam o leitor iniciante ao amor ao livro.

Sem o ranço de um certo padrão didático já inútil para a criança atual, Ruth Rocha sabe lidar com a palavra escrita, atinge o alvo a que se propõe. A obra literária da escritora realiza-se com textos educativos, destituídos de qualquer pieguice, formalismo entediante ou moralismo forçado.

A voz feminina fortalece a literatura infanto-juvenil. Ao lado de suas companheiras de ofício, tais como Anna Maria Machado, Ana Flora, Fanny Abramovich, Mirna Pinsky, Tatiana Belinky (para citar apenas algumas), Ruth Rocha elabora histórias que prendem o interesse da criança. Como já o fizeram, há alguns anos, Lucia Benedetti e Maria Clara Machado.

Na Academia Paulista de Letras, Ruth Rocha encontra autores que também se dedicam à literatura infanto-juvenil. Francisco Marins, escritor consagrado com obra traduzida e divulgada no exterior. E outros acadêmicos, Hernâni Donato, Ignácio de Loyola Brandão, Gabriel Chalita, autores que entre seus inúmeros trabalhos literários, escrevem histórias voltadas para a faixa etária cultuada pelo grande mestre Monteiro Lobato. Faço uma referência saudosa à memória de Marcos Rey, acadêmico que deixa importante legado literário à juventude.

A partir da década de 70, a literatura infanto-juvenil assume relevância na cultura literária. O livro, dirigido a essa faixa etária, é publicado com requinte editorial. A ilustração, tão importante quanto a boa qualidade do texto, chama a atenção da criança e estimula a leitura.

As histórias de Ruth Rocha contam com excelentes ilustradores. À guisa de exemplo, cito o artista plástico Otavio Roth, parceiro de Ruth na adaptação para a criança da Declaração Universal dos Direitos Humanos e também ilustrador  de Azul e Lindo: planeta Terra, nossa casa, livros que ambos lançaram em Nova York na sede da ONU. Outro talentoso ilustrador é Eduardo Rocha, marido de Ruth, autor de belo trabalho para a edição da Ilíada, adaptada pela escritora para o leitor jovem. Jaguar e Walter Ono, entre outros de igual talento, também enriquecem com suas ilustrações as histórias de Ruth Rocha.

Passo agora à referência aos dados biográficos da escritora, à sua formação cultural, às suas obras.

Ruth Rocha nasceu na cidade de São Paulo. É filha de cariocas, Álvaro de Faria Machado, médico, e Esther de Sampaio Machado. Tem 4 irmãos: Rilda, Álvaro, Eliana e Alexandre. É casada com Eduardo Rocha, tem uma filha, Mariana, e dois netos, Miguel e Pedro. Sou amiga de Rilda, desde quando fomos assessores de Almino Affonso, nos anos em que ele foi Vice-Governador do Estado de São Paulo.

Estudou no Colégio Bandeirantes, terminou o Ensino Médio no Colégio Rio Branco. É graduada em Sociologia e Política pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Orientação Educacional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Durante 15 anos foi orientadora educacional do Colégio Rio Branco.

Em 1967 começou a escrever, para a revista Cláudia, artigos sobre educação. A própria Ruth nos conta: “Durante três anos escrevi para Cláudia. Fiz um artigo sobre preparação para a alfabetização , na época em que a Abril estava produzindo o projeto da Revista Recreio. Uma das pessoas no projeto, Sonia Robato, viu meu artigo, que estava bem ilustrado e com exercícios, então, me convidou a fazer exercícios para a Recreio, a partir de uma história que servia de motivação. Mais tarde, propôs que eu escrevesse a própria história”.

Durante 7 anos Ruth Rocha escreveu para a revista Recreio.

Ainda com Sonia Robato, trabalhou na revista Bloquinho, da Block. Mais tarde, voltou à Abril, como assistente de redação e em seguida como editora-chefe das revistas infantis. A empresa mandou-a aos Estados Unidos para um estágio e lá, diz Ruth, “aprendi a editar livros”. A autora também nos conta que perdeu a inibição para escrever à medida que foi fazendo. “A profissão escolhe a gente e a gente inventa a profissão”.

Publicou seu primeiro livro, Palavras, muitas palavras, em 1976, e, desde então, já teve mais de 130 títulos publicados, entre livros de ficção, didáticos, paradidáticos, e um dicionário. As histórias de Ruth Rocha estão espalhadas pelo mundo, traduzidas em mais de 25 idiomas.

Monteiro Lobato foi sua grande influência. Em sua obra essa influência se traduz por seu interesse nos problemas sociais e políticos, em sua tendência ao humor, nas suas posições feministas.

Seu livro de forte conteúdo crítico, Uma História de Rabos Presos, foi lançado no Congresso Nacional em Brasília com grande número de parlamentares.

Um dos seus livros conhecidos é Marcelo, Marmelo, Martelo. Já vendeu mais de um milhão de cópias.

A respeito de sua obra, encontram-se análises críticas formuladas por mestres consagrados, ensaios, resenhas, depoimentos de escritores.

Na impossibilidade, evidente, de referência a uma relação completa dos inúmeros professores e autores que se debruçaram sobre as histórias de Ruth Rocha, cito alguns: Marisa Lajolo, Laura Sandroni, Caio Fernando Abreu, Carlos Moraes, Maria Adelaide Amaral, Mário Prata, entre vários de igual relevância.

Do ensaísta, tradutor e poeta, José Paulo Paes, destaco o seguinte depoimento: “Em Ruth Rocha, o ser humano de expressão e a escritora se completam  e se enriquecem mutuamente. Daí não estranhar o prestígio que sua extensa obra literária hoje desfruta. Ela conhece, como ninguém, os caminhos secretos que levam ao coração e à inteligência dos seus pequenos leitores. E os percorre não em nome da pedagogia, mas em nome da arte. Se, além de encantar, suas histórias conseguem infundir o senso dos valores fundamentais – a fraternidade, o respeito humano, o amor da justiça, a aversão pela força, o sentimento de igualdade – isso se deve à inteireza com que ela pratica o seu ofício.”

Da extensa produção literária de Ruth Rocha, atenho-me a alguns títulos. A bibliografia completa exigiria longo espaço de tempo. Complementando os livros já referidos, enfatizo a publicação de:

O reizinho mandão – 1979

O que os olhos não vêem – 1981

Faca sem ponta, galinha sem pé – 1983

A menina que aprendeu a voar – 1983

Quando eu comecei a crescer – 1983

De repente dá certo – 1986

O mistério do caderninho preto – 1991

Ruth Rocha ganhou os mais importantes prêmios destinados à literatura infanto-juvenil: Fundação Nacional do Livro; Câmara Brasileira do Livro (cinco Prêmios “Jabuti”); Associação Paulista dos Críticos de Arte; Academia Brasileira de Letras; Prêmio João de Barros da Prefeitura de Belo Horizonte; Prêmio Moinho Santista da Fundação Bunge, em 2002; Prêmio Conrado Wessel em 2006.

É membro do Pen Club, Associação Mundial de Escritores no Rio de Janeiro. Foi membro do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta. Participou durante seis anos do programa de televisão Gazeta Meio-Dia como membro fixo da mesa de debates.

Em homenagem à obra de Ruth Rocha, seu nome é escolhido para dar título a escolas, bibliotecas e salas de leitura.

Em 1998 a escritora foi condecorada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso com a Comenda da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

A Cadeira nº 38, vaga com a morte do escritor e jornalista, o Professor Nilo Scalzo que, durante vários anos, dirigiu o Suplemento Literário do jornal O Estado de S.Paulo e exerceu o cargo de 1º Secretário na Diretoria da APL, esta Cadeira nº 38 é agora devidamente preenchida por Ruth Rocha. A Academia Paulista de Letras recebe com admiração, respeito, muita alegria, a escritora que é um orgulho para as letras nacionais. Seja bem-vinda, Ruth Rocha.

Apoio ao professor

Comenta-se que nos anos 40, 50 e 60 o ensino público era muito bom. Será?

Comenta-se que nos anos 40, 50 e 60 o ensino público era muito bom. Será? Eram poucas escolas muito boas, outras escolas muito ruins e muita gente na idade escolar sem escola. Hoje, no ensino fundamental, continuam sendo poucas escolas muito boas; porém muitas escolas ruins e, ao contrário de antigamente, muita gente nas escolas sem aprender nada.

Por que nos anos 40, 50 e 60 o analfabetismo apresentou dados dramáticos, dignos de uma praga epidêmica? Se a escola pública ensinasse a ler, escrever e contar nas quatro primeiras séries do primário, não seriam tantos os analfabetos. E atualmente a situação mudou? Infelizmente não. Apenas se diz que noventa e tantos por cento dos jovens em idade escolar estão nas escolas, mas, na realidade, a maioria dos concluintes do ensino fundamental aprendeu muito pouco ou quase nada; e uma parcela ponderável dos concluintes do ensino médio também. Quem pretender modificar o quadro lamentável da sociedade precisa começar pensando em modificar a educação; não como os economistas do passado, com teorias do capital humano, da eficiência mensurável dos custos-benefícios etc., nem como os de hoje, com seus planos nacionais e estaduais que não saem das gavetas, dos dados e das estatísticas. Todos são válidos; dados, estatísticas, curvas e gráficos são importantes, mas o que se torna urgente reside na prioridade a ser dada aos agentes do processo de aprendizagem: ESCOLA, PROFESSOR E ALUNO.

É preciso reposicionar social e economicamente a figura do professor, qualificando-o para missões que lhe restituam o respeito e a admiração da sociedade e proporcionem uma retribuição social compatível com suas funções. É preciso rever as metodologias e os aparatos didáticos envelhecidos pelo tempo e ultrapassados pela velocidade do progresso tecnológico. A sala de aula deve estar aparelhada para se tornar tão atraente quanto um cybercafé ou um salão de jogos eletrônicos. Finalmente, uma escola pública não pode funcionar por apenas três horas diárias. É ridículo imaginar um processo educativo fast-food.

ROBERTO BOCLIN é presidente do Conselho Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro.

A elite do ensino público

Ao contrário do que se imaginava, os estudantes mais aplicados dos colégios municipais, estaduais e federais obtiveram uma nota média de 68,77, numa escala de zero a 100, contra 68,72 dos estudantes mais aplicados da rede privada.

Ao comparar o desempenho dos melhores alunos dos colégios particulares e dos melhores alunos da rede pública no último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o Ministério da Educação (MEC) fez uma descoberta surpreendente. Ao contrário do que se imaginava, os estudantes mais aplicados dos colégios municipais, estaduais e federais obtiveram uma nota média de 68,77, numa escala de zero a 100, contra 68,72 dos estudantes mais aplicados da rede privada. Na prova de redação, a diferença foi superior a 9 pontos em favor da elite da rede pública.

A comparação foi feita entre 149.430 alunos da rede pública que concluíram o ensino médio em 2006 e 149.430 escolhidos entre os melhores formandos da rede privada. Divulgado com exclusividade pelo Estado, o estudo do MEC mostra que 91% dos melhores alunos da rede pública estão matriculados em escolas estaduais, 6,2% em escolas federais e 2,5% em escolas municipais.

A maioria dos melhores alunos da rede pública de ensino médio se concentra nas Regiões Sul e Sudeste, as mais desenvolvidas do País, onde há Estados, como o Rio Grande do Sul, com um longo histórico de investimento em educação básica e em qualificação dos professores das redes públicas. Foi por isso que os alunos gaúchos obtiveram uma média superior à brasileira no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), cujos resultados foram divulgados há três semanas.

No total, o ensino médio tem 9 milhões de alunos matriculados. A grande maioria dos estudantes da rede pública saiu-se mal nos exames do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), no Pisa e no Enem, que é uma prova optativa. Se forem consideradas as notas médias dos 602.232 concluintes do ensino médio que participaram do teste este ano, o desempenho foi 20 pontos abaixo do registrado entre alunos da rede particular. Mas o brilhante desempenho da minoria, que constitui a elite das escolas públicas, sinaliza o caminho que deve ser seguido pelas autoridades educacionais.

“O resultado (do estudo do MEC) mostra o esforço pessoal do bom aluno da rede pública”, diz a pedagoga Márcia Sigrist, da Unicamp. Ou seja, quando o estudante é estimulado por professores capacitados, ele tende a se superar, buscando novas fontes de informação, além daquelas que são dadas em sala de aula. Um dos alunos da rede pública que se destacou por seu desempenho no último Enem, acertando 93,65% das questões da prova, é filho de um metalúrgico, estudou a vida inteira em escola pública e faz o ensino médio num colégio estadual na capital, onde foi estimulado a ler o noticiário da internet.

Outro fator que vem estimulando os alunos da rede pública de ensino médio a estudar é a possibilidade de usar as notas do Enem para entrar numa instituição de ensino superior. Atualmente, mais de 400 faculdades em vários Estados utilizam essas notas em substituição do vestibular ou como complemento de seu processo seletivo. E universidades de ponta, como a USP e a Unicamp, adotaram um bem-sucedido programa de inclusão social, premiando com até 30 pontos, em seus vestibulares, os candidatos egressos de escola pública.

São medidas simples, mas eficientes. Esta a lição que se pode extrair do estudo do MEC. A revolução educacional não se faz com sistemas de cotas raciais ou outras demagógicas iniciativas de “ações políticas afirmativas”, mas com ensino de qualidade e acesso à informação. A escolaridade básica é o principal alicerce para uma boa formação escolar e profissional. É, também, um fator decisivo para a redução das desigualdades sociais, já que a mobilidade de jovens e adultos no mercado de trabalho depende da educação básica. Depois que uma boa escola do ensino fundamental ensina o aluno a ler, escrever, calcular, pensar e refletir, tudo o mais pode ser aprendido com rapidez e facilidade. E, quanto maior é o estímulo ao estudante do ensino médio para que amplie seus horizontes cognitivos, maiores são suas oportunidades de ingressar no ensino superior ou de sucesso na economia formal.

Quando todos os estudantes do ensino médio do País tiverem o mesmo ensino de qualidade que foi dado àqueles que se saíram bem no último Enem, o Brasil terá dado um passo decisivo para a redução das desigualdades sociais.

Contratar ou qualificar, o impasse da gestão pública

(Editorial Jornal Valor Econômico)

O caos estampado pelos jornais dos sistemas de saúde dos Estados, o alto grau de defasagem dos alunos de escolas públicas, as notas destes nas avaliações oficiais de desempenho escolar e os sensíveis gargalos que dão morosidade aos procedimentos do setor público de toda ordem têm convivido no país com a estabilidade do servidor público concursado.

O instituto é uma garantia de Primeiro Mundo à carreira dos funcionários públicos, contra as injunções políticas que certamente decorrem das mudanças de governo e não há nada de errado com ela – é uma garantia de profissionalização do servidor, de que ele não estará servindo ao político que eventualmente ocupa um cargo público, mas ao Estado. Todavia, tratar a ineficiência do serviço como uma fatalidade que decorre do preceito constitucional da estabilidade coloca em risco a saúde, a educação e a paciência dos cidadãos. Tem que existir uma porta de saída para o impasse que mantém analfabetos crianças e jovens que freqüentam a escola ou condena à morte os usuários da saúde.

Esse é um problema que atinge igualmente a máquina federal de governo e as estaduais, mas provoca reações distintas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dias atrás, subverteu o conceito do “choque de gestão” propugnado pelos governantes de orientação neoliberal – que defendem o Estado mínimo e um quadro funcional restrito – afirmando que ele se constituía não na demissão, mas na contratação de funcionários qualificados para a melhoria do serviço público. É um reconhecimento de que a máquina emperra por falta de servidores qualificados mas, numa situação de escassez fiscal e sem uma política clara de avaliação de desempenho, a contratação significa apenas jogar o novo servidor numa estrutura deficiente.

Nesta semana, o governo do Estado de São Paulo anunciou que fará provas de avaliação em seus funcionários. Os comissionados não concursados, se forem mal avaliados, serão demitidos; os comissionados concursados que vieram de outros órgãos (8.045 dos 12.441 cargos de confiança do governo estadual) serão devolvidos às funções de origem; e os concursados, que não podem ser demitidos, passarão por cursos de qualificação. Não há como obrigar um funcionário estável a se submeter ao exame, mas o governo acredita que pode motivar o comparecimento ao estabelecer que os certificados desses cursos contarão pontos para a ascensão profissional do avaliado.

O governador José Serra mira especialmente, num primeiro momento, os quadros de confiança e os servidores que ocupam postos de comando na Saúde e na Educação. Os exames no mínimo darão um referencial ao governo das principais fragilidades funcionais dessas áreas e um norte para que se formule a qualificação necessária para que o governo possa prover os seus cidadãos com uma educação de qualidade e um serviço de saúde mais eficiente. Enquanto a admissão pura e simples apenas despeja novos funcionários em uma estrutura emperrada, a atuação sobre a estrutura funcional pode melhorar a qualidade do conjunto.

A introdução de técnicas gerenciais de recursos humanos, antes limitadas à iniciativa privada, nos governos estaduais não é uma invenção do governador José Serra. Em Minas, Aécio Neves, fez uma revolução gerencial já no seu primeiro mandato e implantou com sucesso um modelo de avaliação de desempenho com remuneração variável condicionada à produtividade. Esse foi o mesmo conceito de administração de recursos humanos adotado na Bahia desde o governo passado. No Rio Grande do Norte, esse sistema está sendo testado nas áreas de tecnologia e educação.

A avaliação do funcionalismo permite ações de qualificação do serviço público mais planejadas, objetivamente dirigidas às deficiências constatadas e, portanto, mais eficientes. É uma forma louvável de sair da camisa-de-força a que se impuseram os governos, de condicionar a melhoria do serviço público ao fim da estabilidade – que não vai ocorrer, dada a força política do funcionalismo. No momento em que a qualidade dos serviços básicos alcançaram o máximo da ineficiência, o que não se pode admitir é o imobilismo, sob pena de perpetuar uma educação que não educa e uma saúde que é permanentemente doente. Isso não exime os governos de darem condições dignas de trabalho aos seus funcionários.

Dia do Educacionista

Por Cristovam Buarque

É comum o horror diante da brutalidade de dirigentes que queimam livros e prendem intelectuais. Mas não nos horrorizamos quando impedimos que os livros sejam escritos e que as pessoas aprendam a ler. É isso que o Brasil faz há 500 anos. Em vez de livros, queimamos cérebros. Quando os livros são queimados, alguns se salvam. Mas se eles não são escritos, não há o que salvar.

Ao negar educação ao povo, a história do Brasil é a história de impedir que livros sejam escritos, e que cientistas e intelectuais floresçam. Pior do que queimadores de livros, somos incineradores de cérebros que escreveriam os livros, se tivessem a chance de estudar. Sem uma professora primária que lhes tivesse ensinado as primeiras letras e as quatro operações, Borges não teria sido escritor, Einstein não teria se tornado cientista. A maior prova da nossa queima antecipada de livros é o desprezo com que tratamos professores e professoras da educação de base: pré-escola, Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Durante anos, falou-se no decolar da economia. Até então, achava-se que, para um país ter futuro, bastava educar uma elite, uma minoria, um pequeno conjunto de profissionais superiores a serviço da economia. Mas isso não é mais possível.

Mas daqui em diante, ou educamos todos, ou não teremos futuro. Ou o Brasil se educa, ou fracassa; ou educamos todos, ou a desigualdade continua; ou desenvolvemos um potencial científico-tecnológico, ou ficamos para trás. Se a universidade é a fábrica do futuro, o Ensino Fundamental é a fábrica da universidade. Não podemos melhorar a educação superior sem uma educação realmente universal e de qualidade para todos. A chave é o professor da educação de base.

No Dia dos Professores, eles merecem mais do que uma homenagem: nosso respeito, reconhecimento, apoio.

Hoje, ser professor no Brasil é um ato de heroísmo. Por causa da alta probabilidade de não terem sucesso financeiro, dos altos riscos que correm nas escolas degradadas, dos riscos à saúde, dos riscos da violência.

Eles são nossos heróis e merecem que lhes ergamos monumentos, como se fossem soldados retornando do campo de batalha.

Além do muro da desigualdade, são os professores que vão derrubar também o muro do atraso, que nos separa dos países ricos e desenvolvidos. A revolução de hoje é a da distribuição do conhecimento. E conhecimento só se distribui com o acesso a uma escola com a mesma qualidade para os filhos dos pobres e para os filhos dos ricos. E escolas tão boas quanto aquelas dos países que já fizeram a revolução educacional, muitas décadas atrás.

Isso só será possível melhorando o salário do professor, suas condições de trabalho, sua dedicação ao trabalho, sua formação, seu acesso a bons equipamentos.

Mas para isso, é preciso mudar o olhar do Brasil para a educação, e isso exige que cada professor seja, além de educador, um educacionista.

Educador é quem trabalha na escola para ensinar; educacionista é quem luta para dar condições a todos os educadores e fazer com que todas as escolas sejam boas, para mudar o País com uma revolução pela educação. O Brasil precisa de educacionistas, como já precisou dos abolicionistas. Que todos os educadores sejam também educacionistas. Até que os educacionistas se unam pela revolução que precisamos fazer.

E um dia, ao nascer uma criança, o pai e a mãe dirão: “Este vai ser professor”. Quando isso acontecer, os educacionistas terão vencido, e os educadores poderão comemorar plenamente o seu dia. 

Em defesa da escola pública

Por Abram Szajman (O Estado de S. Paulo)

Há um país na Ásia que não é grande e populoso como a China ou a Índia, mas cujo êxito econômico merece ser analisado com atenção por países como o Brasil, que vagam à deriva em busca de um modelo de inserção internacional que lhes assegure o tão sonhado crescimento sustentado.

Trata-se da Coréia do Sul, país que percorreu uma trajetória original rumo à industrialização e à condição de líder, entre os países emergentes, na exportação de produtos com alto valor agregado. Seu grande trunfo foi o de ter promovido uma autêntica revolução educacional, que universalizou o ensino público e permitiu que os jovens em idade escolar estudassem durante 12 ou mais anos, em período integral, vedado o trabalho de qualquer tipo aos menores de idade.

Faço esta reflexão sobre a importância da educação no processo de desenvolvimento de um país a propósito de uma pequena nota, publicada num jornal paulistano, dando conta da intenção do governo estadual de fechar a EEPG Prudente de Moraes, encravada há 112 anos no Parque da Luz, próxima à Pinacoteca do Estado, com frente para a Avenida Tiradentes. De acordo com a informação, a escola corre o risco de ser demolida para que em seu lugar seja erguido um prédio, cuja finalidade seria a de abrigar o acervo e as mostras de arte contemporânea da Pinacoteca.

A notícia, como não poderia deixar de ser, causou alarma entre estudantes, professores e moradores da região, justamente preocupados diante de uma ameaça que, se concretizada, constituiria um tríplice desrespeito à Constituição federal, à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e ao Estatuto da Criança e do Adolescente, que asseguram o acesso e a permanência do aluno na escola, preferencialmente próxima à sua moradia.

Embora seja o mais grave, o aspecto educacional não é o único inconveniente a desaconselhar uma medida tão radical como a do fechamento da escola. Outro obstáculo relevante é que a edificação se encontra em processo de tombamento pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp). Seu projeto original é do arquiteto Ramos de Azevedo e sua construção teve início em 1893. Em 1895 o edifício foi destinado a sediar a Escola Modelo da Luz, mais tarde denominada Grupo Escolar Prudente de Moraes, em homenagem ao primeiro civil – depois dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto – a tornar-se presidente da República.

Durante a Revolta Paulista de 1924, comandada pelo general Isidoro Dias Lopes, o prédio da escola foi requisitado para servir de quartel da Força Pública. Deflagrada na cidade de São Paulo em 5 de julho de 1924, a revolta ocupou a cidade por 23 dias, forçando o presidente do Estado, Carlos de Campos, a se retirar para o interior, depois de ter sido bombardeado o Palácio do Governo. No início da década de 1930, ainda como quartel, as suas instalações foram completamente destruídas por um incêndio.

Este processo de preservação é em tudo similar ao tombamento, realizado em 1985 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), da Escola Estadual Rodrigues Alves, na Avenida Paulista. Tratava-se também de um edifício da lavra de Ramos de Azevedo, construído em 1907.

De modo semelhante, a EEPG Prudente de Moraes, durante mais de um século, deitou raízes profundas nas comunidades do Bom Retiro e da Luz, cujos moradores foram seus alunos, assim como seus pais e seus avós. Eu mesmo, quando criança, freqüentei os seus bancos e salas de aula, o que contribuiu para formar minha convicção de que apenas a partir da escola pública de qualidade se pode construir um país desenvolvido e justo, com os mecanismos de mobilidade social que permitam aos menos favorecidos ascender na escala social, como foi o meu caso e o de tantos outros filhos de imigrantes sem recursos.

Para isso é fundamental que essa escola possa continuar a cumprir sua nobre função, não apenas de dar a instrução básica aos alunos do ensino fundamental (da primeira à quarta série), mas também a de oferecer seus cursos especializados a portadores de deficiência mental e auditiva.

Recentemente, o governador José Serra lançou um plano para a educação, no qual traça uma série de metas para o aumento da qualidade nas escolas e a melhoria no aprendizado de nossas crianças. Essa agenda veio num momento mais que oportuno, pois este ano começou a adaptação de nossas escolas ao aumento do ensino fundamental em um ano, nova determinação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, válida para todo o País e que estabelece 2010 como prazo final para implementação em todas as escolas brasileiras. Ou seja, tudo tem contribuído para um aumento na atenção dada às escolas públicas.

Por todas essas ações e situações, espera-se que o bom senso acabe por se impor. As autoridades estaduais da área da cultura podem e devem encontrar outra solução para ampliar o espaço da Pinacoteca, preservando a memória do bairro e da cidade e a unidade escolar que ainda muitos e relevantes serviços há de prestar à comunidade. Cultura e educação não podem jamais se contrapor. Ao contrário, precisam ser inseparáveis, pois não há povo culto que não seja educado e vice-versa. Assim como fez a Coréia do Sul, o Brasil precisa com urgência selar um pacto com o futuro por meio da educação, pois no mundo de vertiginosas transformações em que vivemos o conhecimento é o patrimônio mais valioso tanto para as pessoas como para os países.