Educação em Foco

Tão longe, tão perto

Por Rosely Sayão

Os pais nunca declararam amar tanto os filhos quanto agora. Eles fazem tudo o que podem e o que às vezes nem devem porque, por amarem tanto os filhos, não suportam vê-los sofrer. Esforçam-se para dar a eles o melhor da vida porque querem que os filhos tenham tudo o que eles próprios, quando crianças, não tiveram.

Estabelecem com os filhos um relacionamento aberto, íntimo e amigável porque não querem ser autoritários e distantes como foram seus pais. Enfim: os pais estão, hoje, apaixonados pelos filhos.

É compreensível: em um mundo no qual os laços afetivos entre os adultos estão sempre por um fio e se desfazem por qualquer bobagem, o clima de insegurança afetiva provoca novas buscas. Como a união com os filhos é a única que, atualmente, só a morte dissolve, ela tem servido como o porto seguro afetivo dos pais.

Para ter idéia de quão longe isso vai: uma diretora de escola de educação infantil no interior de São Paulo contou-me que, no Dia dos Namorados, vários ramalhetes de flores enviados pelos pais às filhas chegaram à escola. O problema está nas contradições que esse amor declarado tem apresentado.

Os pais que adoram tanto seus filhos contratam babás para ficar com eles diuturnamente, inclusive domingos e feriados. Vemos pais cujos filhos estão segurando nas mãos da babá ou no colo desta nos shoppings, nos cabeleireiros, nos consultórios, em hotéis, restaurantes etc. E ter babá dá muito trabalho! É seleção, busca de referências, treinamento e depois, se surgirem desconfianças, instalação de câmeras etc.

Mães e pais que dizem amar seus filhos sem medida fazem com que novos negócios prosperem em tempos de recessão.

Os pais vão a um casamento com os filhos? Não há problema. Os noivos contratam empresas de recreação que ficam o tempo todo com as crianças, para que os pais “curtam a festa sem restrições”. Nas férias, os hotéis precisam ter uma equipe de monitores que, além de entreter as crianças, também almoça e janta com elas.

Por falar em férias, acampamentos para crianças rendem no período. Até pouco tempo atrás, eles recebiam só adolescentes. A demanda dos pais fez com que proliferassem locais que recebem crianças pequenas: os pais já podem mandar seus filhos a partir dos quatro anos (!) para uma temporada fora, com direito a “espiar” pela internet como eles se divertem!

Quando o filho faz aniversário e os pais querem demonstrar todo seu amor dando uma megafesta, sem problemas: contratam um bufê que cuida de tudo. E a escola, para ajudar, recebe autorizações de saída e organiza os convidados para colocá-los no ônibus que os leva da escola para o evento.

A falta de tempo dos pais tem sido usada para explicar tantas buscas de recursos. Mas esse estilo tem muito mais a ver com a nossa cultura. Amor demais sufoca e idealiza. Pode ser por isso que os pais apresentem tanta contradição: amam tanto a idéia de ter o filho que precisam ficar longe dele para, talvez, não perderem o filho que imaginam ou gostariam de ter.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (ed. Publifolha)

Tempo em três tempos

Por Carlos Heitor Cony (Folha de S.Paulo)

“Eu sei o que é o tempo. Mas se me pedirem para dizer o que é o tempo, não saberei dizê-lo”. A citação (de memória) é de Santo Agostinho, um dos pensadores mais admirados e citados a partir da segunda metade do século 20. Gênio em todos os sentidos, na vida e na obra.

Mas não é dele que vou lembrar, além da citação inicial. É mesmo sobre o tempo que a gente perde, desperdiça, mata e acaba nos matando. E antes de matar, nos mutila de uma forma ou outra.

Foi nisso que pensei mexendo numa caixa com algumas fotos antigas. De repente, na mesa de um restaurante que não identifiquei, quatro amigos estão sorrindo entre si: Ênio Silveira, Jorge Zahar, Paulo Francis e o autor destas mal traçadas linhas. Dois editores, um jornalista de sucesso e um cara que ainda acreditava em alguma coisa, inclusive nele mesmo.

Ênio e Jorge deixaram um legado maravilhoso no mercado editorial. E uma referência obrigatória no afeto de todos os que conviveram com eles. Ênio foi o primeiro a morrer. Meses depois, em Paris, Jorge me confessou que andava triste, sentindo falta do amigo de toda uma vida: o tempo dele custava a passar. Ao adoecer, Paulo Francis veio especialmente de Nova York para visitá-lo, passava o dia com ele, à noite saíamos para jantar em algum lugar, a última vez foi em minha casa.

Paulo também foi embora, declarava-se tecnicamente morto. Eu desconfiava que era a falta dos dois amigos -e acho que desconfiei certo. Os três, Ênio, Jorge e Paulo, sabiam o que era o tempo e viveram dentro dele o que foi possível. Mas evitavam defini-lo: bastava o tempo em si.

Tempo que deixou de ser tempo quando, um após outro, como Cristo diante de Pilatos, descobriram que não eram deste mundo.

Fonte: Folha de São Paulo –  23/11/2008 – FSP

O preconceito está em nós

Por Luiz Carlos de Menezes

A escola não é uma ilha, e entre alunos e professores estão presentes as mesmas relações de uma sociedade que estimula o individualismo e vê a solidariedade como se fosse um favor e a tolerância como covardia. A nós, educadores, usualmente defensivos, cabe uma posição mais consciente e deliberada contra essa cultura de agressividade, começando por identificar e combater atitudes que comprometem o convívio escolar e envenenam a vida social.

“A escola é um espaço privilegiado para aprender a resolver conflitos e conviver com a diferença.”

O preconceito não é só coisa de grupos sectários, como skinheads, pois surge, às vezes, da tola pretensão de valorizar a si mesmo ao depreciar diferentes escolhas religiosas, estéticas, desportivas ou musicais. Ele pode se manifestar, às vezes, disfarçado de humor, como na humilhação – ou bullying – de um estudante por seu sotaque regional ou pela forma como se veste. Uma escola que admite posturas como essas, por não reconhecer seu potencial destrutivo, abre caminho para discriminações de etnia, idade, origem, gênero e classe.

Fonte: www.novaescola.com.br

Muitas formas de intolerância resultam de visões e superstições presentes nas relações familiares e afetivas e de valores disseminados na sociedade. Em oposição a isso, a escola deve estimular crianças e jovens a identificá-las em piadas, notícias, torcidas esportivas, filmes de ação e novelas e discutir suas origens sociais e históricas. A atividade é adequada a diferentes disciplinas.

As práticas de segregação por condições de vida, preferências ou deficiências também podem ser identificadas e debatidas por meio da dramatização de reações possíveis de jovens e de educadores diante da imagem de um trabalhador urbano saindo imundo de um bueiro ou do sorriso bondoso de uma criança com síndrome de Down. Ao mostrar como os preconceitos são usualmente reforçados por constrangimentos ou revelados pela intolerância, em situações que demandariam compreensão e solidariedade, questionam-se atitudes de professores na sala de aula, por exemplo, ao tratar com alunos que têm diferentes ritmos de aprendizagem.

É difícil não discriminar, pois, ao generalizar experiências pessoais, já prejulgamos. Mais complicado ainda é reconhecer como desfiguramos traços de caráter e sentimentos pessoais ao descrever quem estranhamos. Ao nos referirmos a jovens da escola privada como patricinhas e aos da escola pública como pivetes, por exemplo, estamos revelando nossa própria grosseria e insensibilidade pelo simples uso desses termos – e é bom ter consciência disso.

Os julgamentos preconceituosos, no entanto, nem sempre são definitivos, assim como as afirmações científicas. O que parecia bem compreendido há alguns anos, como a constituição e a expansão do Universo, hoje apresenta vários pontos obscuros. Por isso, valorizar a variedade de culturas, o questionamento dos saberes e a necessidade do contraditório é o que devemos fazer sem propagar outro mito, o da neutralidade absoluta. A escola é um espaço de diversidade privilegiado para aprender a resolver conflitos e saborear a graça do convívio com a diferença. É assim que ela combate os preconceitos.

O cemitério da fama

Por Gilberto Dimenstein

No projeto “Milfont”, jovens serão convidados a transformar cemitérios da zona sul da cidade em galerias a céu aberto. Alberto Milfont Júnior quis ser várias coisas quando era criança e adolescente: jogador de futebol, cantor, violonista e até clown. Vivia repetindo: “Vou ser famoso”.

Adulto, desistiu do projeto de celebridade. Não tinha carreira definida e, aos 23 anos, entregava pizza à noite para sobreviver. O assassinato que sofreu dentro das Casas Bahia, no dia 10 deste mês, lhe garantiria apenas uma fugaz publicidade -afinal, não é novidade em seu bairro a morte de jovens.

Mas, na semana passada, começou a ser desenhada uma experiência para oferecer a Alberto Milfont fama eterna. A experiência vai ocorrer justamente no cemitério em que ele está enterrado -dali, a idéia deve se espalhar.

Alberto morava na região do Capão Redondo, conhecida por ter o cemitério (São Luís) com mais jovens enterrados por metro quadrado. O bairro faz parte do chamado “triângulo da morte”. Daí o previsível esquecimento do episódio na loja. Seria mais um corpo a compartilhar aquela métrica fúnebre.

A diferença é que ele atuava, nos finais de semana, como intermediador de conflitos entre crianças e adolescentes que freqüentavam um projeto educacional chamado Casa do Zezinho, na zona sul -a intermediação é uma habilidade desenvolvida em áreas de risco, transformada em currículo escolar em Bogotá, na Colômbia.

Seu trabalho era, portanto, evitar a violência, apartando brigas e promovendo o diálogo. Por isso, o assassinato gerou uma comoção no bairro. Uma comoção, porém, que todos sabiam ser passageira.

Na segunda-feira passada, Dagmar Garroux, criadora da Casa do Zezinho, onde Alberto estudou por muitos anos, conseguiu da prefeitura a autorização para que os muros do cemitério São Luís se transformassem numa galeria a céu aberto -seu projeto já vem há muitos anos ajudando a colorir espaços públicos na zona sul da capital paulista.

Ela obteve a permissão para intervir não apenas no São Luís, mas em todos os cemitérios da região. A idéia é criar um programa de arte, chamando adolescentes de vários bairros, para criar painéis com cores fortes, destacando-se das tonalidades cinzas da região.

A pintura será um pretexto para provocar debates sobre a violência na cidade e como reagir à barbárie no caso, as cores serão uma provocação para ensinar a intermediar conflitos. Pela extensão dos muros, é um projeto para muitos anos.

No mesmo dia em que se obteve a autorização para intervir nos cemitérios da zona sul, o projeto já tinha nome: “Milfont”.

Ainda ligado a temática de arte no cemitério, o internauta Luiz Guilherme Vieira mostra seu trabalho fotográfico, no qual retrata verdadeiras obras de arte instaladas dentro dos cemitérios da cidade de São Paulo.

O flautista

Por Rubem Alves

Eu ia fazer uma fala. Aí me disseram que antes haveria um pequeno concerto de uma orquestra de flautas de crianças pobres: sorriso no rosto, camiseta abóbora, flautinhas na mão. O regente era um mocinho magro. Ao final, o Marcelo -esse era o seu nome- me convidou a visitar a orquestrinha na cidade de Aquiraz, bairro Tapera, a uma hora de Fortaleza.

O concerto seria numa chácara, à noite. Mangueiras enormes, céu estrelado. Tocaram a sua alegria. Aí o Marcelo se juntou conosco. Pedimos que contasse sua história.

Família muito pobre. Pai bravo e batedor. Comiam os peixes que tarrafeavam num rio. E era preciso trabalhar para ajudar. Marcelo trabalhava numa padaria. Ganhava R$ 10 por mês. E ainda tarrafeava, depois de terminado o trabalho na padaria.

O seu grande sonho era ser músico, baterista. Pois um dia correu a notícia de que iriam formar uma banda. Quem quisesse que se candidatasse. O Marcelo se candidatou. Mas o homem que fez a apresentação do projeto nada falou sobre baterias. Ao invés disso tocou uma flautinha. O Marcelo se esqueceu da bateria e se apaixonou pela flauta.

O pai disse um “não” grosso e definitivo quando soube das intenções do filho. “Flauta é coisa de vagabundo. Filho meu não toca flauta…” Marcelo soube então que seu namoro com a flauta teria de ser como os namoros antigos, escondido.

A inscrição pra valer acabava às cinco da tarde. Marcelo, nessa hora, estava na padaria. Só pôde sair muito mais tarde, de bicicleta. No caminho, por aflição, caiu da bicicleta. Os peixes se espalharam, e ele ficou todo escalavrado.

E foi assim que chegou ao lugar da inscrição com duas horas de atraso. Mas o homem da inscrição ficou com dó dele e o inscreveu. Ele tinha 11 anos. Acontecia que a flauta custava R$ 10, o salário de todo um mês. Precisava ajuntar dinheiro. Passou a caminhar olhando para o chão, em busca de moedas perdidas. Por um ano juntou moedas de um centavo. Juntou os R$ 10. Comprou a flauta de plástico. Como não podia estudar em casa, pela braveza do pai, passou a estudar no alto de um cajueiro, de noite, longe da casa. No cajueiro guardava a flauta. Mas, num dia de chuva, ficou com medo de que a flauta se estragasse com a água. Escondeu-a em casa. Ao final do dia, voltando do trabalho, o pai o esperava.

Havia encontrado a flauta. O pai acendeu uma fogueira e a queimou, aplicando-lhe a seguir uma surra. Mas ele não desistiu.

Mais um ano juntando centavos até comprar nova flauta. Aí ele arranjou uma aluna. E ganhava R$ 10 por mês! Uma fortuna. Outra aluna, e mais outra. Nove alunas! R$ 90. O pai passou a gostar de flauta.

Foi então que o Marcelo teve a idéia de ensinar flauta para as crianças sem nada ganhar. E assim surgiu a orquestra de flautas. Naquela noite, debaixo da mangueira, ele tinha 18 anos. “Eu tenho um sonho”, ele disse. “Gostaria de ter uma flauta de verdade, transversal. Mas ela custa muito caro. Vai levar muito tempo para ajuntar o dinheiro…”

Aí uma professora que estava na roda abriu-se num sorriso e disse: “Marcelo, eu tenho uma flauta guardada numa caixa de veludo. Flauta que ninguém toca… A flauta é sua!”

Isso aconteceu faz tempo. O Marcelo entrou para a universidade, tornou-se flautista e regente. E continua ensinando música para as crianças. E não sei por que, o fato é que me elegeu seu padrinho…

Machado ainda vive

Por Arnaldo Niskier (Folha S.Paulo)

MACHADO DE Assis foi a atração literária do ano. Sua vida e a vasta e musculosa obra serviram de pretexto para aulas, seminários, conferências e artigos. Como nunca houve antes neste país. A exposição na Academia Brasileira de Letras reuniu milhares de estudantes em visitas guiadas sem precedentes.

É pertinente, por isso mesmo, um comentário sobre as ilações pedagógicas da obra do “bruxo do Cosme Velho”. De propósito ou sem querer, a verdade é que a educação apareceu muito, até mesmo nas ironias do escritor carioca, que, se reportando a uma aula na escola pública que freqüentou, viajou com o pensamento nas asas de um papagaio de papel, enquanto a gramática era deixada em segundo plano. Nem por isso a sua escrita deixou de ser impecável, anos mais tarde.

Numa releitura dos seus romances, contos, poemas, crônicas e cartas, descobre-se que ele se esmerava em mostrar de que maneira cada um de nós pode chegar a se tornar um ser humano melhor.

Não nos preocupamos exatamente com lições morais, mas com o que o espírito de Machado acolheu e que seria de interesse objetivo da educação do seu tempo. A presença do professor, a forma dos castigos, a valorização de línguas estrangeiras e o pouco prestígio dado à educação feminina são temas recorrentes em suas obras.

O mundo melancólico de Machado, com as suas voltas à infância sofrida, mescla-se com a nostalgia presente no “Conto de Escola”: “Para cúmulo do desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que boiava no ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos”.

Em “Outros Contos”, encontramos mais uma preciosidade ligada à idéia do magistério, no sentido que lhe quis dar Machado de Assis: “Meu propósito era ser mestre de meninos, ensinar alguma cousa pouca do que soubesse, dar a primeira forma ao espírito do cidadão… Calou-se o mestre alguns minutos, repetindo consigo essa última frase, que lhe pareceu engenhosa e galante… O mestre, enquanto virava a frase, respirando com estrépito, ia dando ao peito da camisa umas ondulações que, em falta de outra distração, recreavam interiormente os discípulos”.

É um texto admirável, de que se podem tirar diversas inferências: a fina ironia com respeito à idéia abominável de delação; a existência somente de meninos na classe, revelando a discriminação então existente; a repetição exaustiva da palavra “mestre”, com que Machado designava os professores; o retrato de corpo inteiro de uma classe típica, em que ocorrem fatos ainda hoje comuns no espírito da garotada. Isso tudo além do mestre, que, falando para si mesmo, revelava o inteiro teor do que então denominávamos “magister dixit”.

A crítica de Machado à escola mostrava suas idéias: os alunos não eram interessados porque também os mestres não o eram. O professor da época não fazia o aluno raciocinar; antes, queria impressionar e impor-se pela dificuldade das palavras; discursava, emitindo conceitos fora do alcance dos alunos. Nos textos, aparecem os castigos físicos, como a palmatória, que em “Conto da Escola” é descrita como “cheia de olhos”.

A cultura de Machado veio do seu autodidatismo, pois só fez os estudos primários. É verdade que era pobre e precisou trabalhar como tipógrafo.

Mas teria ele continuado na escola se pudesse? Foram perguntas que me ficaram -e ficarão- sem resposta.

Não se deve esquecer nenhum desses pormenores se queremos uma educação renovada. Machado afirmava no conto “Verba Testamentária” que “esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. Obra de lápis e esponja”. Quando escrevia isso, certamente, ele queria dizer exatamente o contrário.

O menino que vendia palavras

Por Ignácio de Loyola de Brandão

O protagonista deste livro é um menino que tem muito orgulho de seu pai, um homem culto, inteligente e que conhece as palavras como ninguém. Se os amigos do menino querem saber o significado de alguma palavra, é ao pai dele que sempre recorrem. Quer saber o que é epitélio? Alforje? Lunático? Ele sempre tem uma resposta.

A curiosidade dos amigos é tão grande que o menino logo percebe: e se começasse a negociar o significado das palavras? Gorgolão? Vale uma fotografia de um navio de guerra. Enfado? Um sorvete de picolé, trazido pelo dono da sorveteria. Pantomima? Um chiclete.

E assim começa seu “negocinho” no bairro, escondido do pai, é claro. O menino, sempre com um humor leve e envolvente, descobre como é importante conhecer as palavras, pois assim ele vai saber conversar, orientar as pessoas, explicar suas idéias e sentimentos, desempenhar melhor suas tarefas, progredir na vida, entender todas as histórias que lê e até mesmo convencer uma menina a namorá-lo! E, assim, vai aprendendo essas e outras lições valiosas e percebendo com seu pai o quanto a leitura é necessária, pois quanto mais palavras você conhece e usa, mais fácil e interessante fica a sua vida.

Para escrever esta história, o jornalista Ignácio de Loyola Brandão inspirou-se em sua própria infância, na cidade de Araraquara, interior de São Paulo, nos anos 40. Seu pai, assim como o pai do personagem do livro, era um apaixonado pelas palavras que conseguiu formar uma biblioteca com mais de 500 volumes. Segundo Ignácio conta, foi o pai quem o incentivou a ler desde que foi alfabetizado. E revela outra verdade: sim, ele chegou a trocar com seus colegas de classe palavras por bolinhas de gude e figurinhas.

Leia um trecho da obra de Loyola, lançada pela Editora Objetiva:

“Chegavam provocando:

– Vê lá se o seu pai sabe essa! Sabe nada!

– Qual?

– Incompatível.

Eu corria para casa:

– Pai, o que é incompatível?

Ele, na hora:

– É uma coisa que não combina com a outra.

Orgulhoso, eu levava de volta. Os meninos não acreditavam.

– Então, leva a gente lá, a gente quer tirar a prova.

Depois de tantos meses, tive de combinar com

meu pai, marquei o encontro com a turma. Meu

pai ria da desconfiança dos meus amigos. Era um

homem bem-humorado, sempre alegre, sabia todas

as palavras. No dia marcado, foram cinco, cada um

com uma listinha. Acho que falaram com os pais, pediram

à professora Lourdes para ajudar.

– O que é lunático?

– Um sujeito meio louco ou alguém que vive no

mundo da lua, desligado, pode ser distraído também.

– E degringolada?

– É quando as coisas vão água abaixo.

– Matula. Essa o senhor sabe?

– É um embornal, um alforje.

– Alforje? O que é isso?

– O mesmo que matula.

Era difícil pegar meu pai, ele saía de fino. A turma

perguntou mais de vinte palavras, ele matou todas

de primeira.”

A inevitabilidade da dor e a opcionalidade do sofrimento

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional. Por Carlos Drummond de Andrade.

Nosso egoísmo constantemente nos compele a reclamar da vida. Achamos ruim porque o trânsito está congestionado. Resmungamos em virtude da fila do banco. Nos sentimos infelizes por nossos saldos bancários. Invejamos aqueles que têm mais do temos. Queremos a onipotência e a onipresença que nos garanta estar em todos os cantos desfrutando de autoridade e força perante qualquer um…

Quando fazemos isso despertamos, inconscientemente, a fúria dos céus. Como ousamos reclamar tanto se temos saúde? O que nos leva a desfilar nosso rosário de queixas se estamos empregados e trabalhando? Por que queremos ter mais do que temos se vivemos confortavelmente? Que motivos nos fazem infelizes se desfrutamos do amor e do carinho de nossos mais próximos entes?

Parece que em momento algum de nossas vidas nos sentimos totalmente bem, da forma como tanto almejamos. Somos escravos de um modo de vida consumista e nos perdemos diante de tantos desejos que são propositalmente colocados em nossas cabeças. Somos pequenos demais para compreender que as maiores alegrias de nossas vidas podem ser resumidas apenas nos sentimentos mais puros que temos em relação aos amigos e familiares e que, em contrapartida, recebemos dos mesmos…

Nos descabelamos por motivos banais. Arremetemos muitas vezes essa nossa insatisfação em direção às pessoas que fazem a vida valer a pena. Destilamos nosso rancor e amargura em nosso ambiente de trabalho e acabamos magoando pessoas que só nos querem bem. Já parou para pensar nisso? Quantas pessoas queridas você magoou somente por não ter conseguido aquela promoção ou o carro novo com que sonhava?

Não podemos permitir que sejamos prisioneiros dessas pequenas e injustificadas faltas ou ausências materiais. O que nos resta depois de toda a vida percorrida senão o abraço forte, o afago carinhoso, o beijo apaixonado ou a mão que nos ajuda a levantar quando somos derrotados? É desse memorial que devemos tirar a razão de viver.

Temos que arriscar mais. Não podemos deixar a vida passar sem ter dito com plenas palavras o quanto amamos alguém. A chuva que cai lá fora está lhe convidando para um reconfortante e refrescante caminhar, porque não ir? O mergulho na água do mar está lhe fazendo falta, o que lhe impede de estar lá, aproveitando a vida? A ausência de uma pessoa querida o magoa e fere a ponto de doer o coração, que tal ir de encontro a esse amor?

Não permita que a vida passe ao largo sem que você possa curtir cada momento precioso que temos nesse mundo. Sorria para a vida e para as pessoas. Temos apenas alguns anos de existência e cada minuto deles deve ser sorvido como a melhor refeição que já tivemos a oportunidade de experimentar. Dê a si mesmo o maior de todos os presentes, a felicidade…

Carlos Drummond de Andrade trouxe a nós a alegria a partir de suas poesias e textos. Deixou-nos um legado de valor inestimável e através de suas palavras nos permite vôos altos rumo a imensidão dos céus e mergulhos profundos em direção a necessária compreensão de nossas almas e existências. Sorver cada uma de suas preciosas letras é também um exercício de satisfação na busca pela paz interior que tanto desejamos…

O piloto da vez

Por Gilberto Dimenstein

Eliseu Bezerra nunca gostou de dirigir automóvel. Nem mesmo nos finais de semana, apesar dos insistentes apelos de sua mulher, que adorava passear. “Eu acabava cedendo, mas sempre dirigia resmungando.” Um dos piores momentos da sua vida foi quando, há 18 anos, sem emprego e no limite do desespero, teve de ser motorista de táxi para sobreviver – essa decisão vai levá-lo amanhã ao seu momento de glória, quando receberá um prêmio das mãos de Lewis Hamilton, um dos mais importantes pilotos da Fórmula 1. 

Hamilton vai entregar a Eliseu, 54, o prêmio Piloto da Vez, por fazer parte de uma experiência, na cidade de São Paulo, para que os motoristas bêbados não façam manobras perigosas, como se estivessem numa pista de corrida.

A demissão desmontou sua vida.

Até então, imaginava que trabalharia para sempre numa empresa metalúrgica. Matriculava-se nos mais diferentes cursos de aperfeiçoamento e nutria planos para atingir seu grande projeto: entrar numa faculdade de direito. Ficou sem emprego, com quatro filhos e, para piorar, estava construindo uma casa

Como não conseguia vaga em nenhuma metalúrgica e o dinheiro da indenização evaporava com as obras da casa, vendeu seu automóvel para adquirir um táxi. “Daí se vê o tamanho do meu desespero.”

Por falta de alternativa, aprendeu a não enlouquecer no trânsito. Sua fórmula: rezar. “Antes de sair de casa, faço orações para que Deus me dê equilíbrio.”

As habilidades do ex-futuro advogado serviram para que Eliseu exercesse uma função na cooperativa em que trabalha (Central Comum Rádio Táxi) – além de motorista, atua na comissão de ética para ajudar a resolver conflitos. “Sou como se fosse um juiz. Ouço as partes e depois decido.”

Ele participa de uma experiência para tornar o trânsito um pouco mais protegido dos motoristas que abusaram do álcool – o nome do projeto é Movimento Piloto da Vez.

Por causa de uma parceria com uma empresa (Diageo), a cooperativa oferece uma cota de viagens gratuitas para quem tomou doses a mais e não se sente em condições de dirigir. Por sua posição na comissão de ética, Eliseu foi escolhido para receber o prêmio das mãos de Hamilton.

Mas seu projeto é mesmo voar mais alto. Agora, com a vida mais estabilizada, os filhos quase criados – um deles virou também taxista -, Eliseu vai voltar ao velho projeto e, no próximo ano, fará vestibular para estudar direito. Para ele, é como se aí, sim, tivesse pilotado sua própria vida.

 

Carta ao Luigi

Muitas pessoas, ao saber das suas aventuras, das brigas com os perigos, vão dizer: “O Luigi é o meu herói favorito!”. A Síndrome de Werdnig-Hoffman é uma doença genética raríssima, sem cura, mortal, também conhecida como atrofia muscular espinhal. As crianças que são vítimas dessa síndrome raramente atingem um ano de idade.

Eu conheço um menininho que é vítima dessa doença. Tem quatro anos e meio e vive permanentemente na cama, cheio de tubos e fios que cuidam que suas funções vitais sejam mantidas. Seu quarto é uma UTI. Ele é cuidado 24 horas por dia por uma equipe de enfermeiros e parentes. Sua diversão é ver televisão, deitado na sua cama. Seu herói favorito é o Tarzã.

Seus pais e avós resolveram escrever um livrinho contando a vida do Luigi e me pediram que escrevesse a apresentação. Foi isso que escrevi:

Meu querido Luigi, menininho valente que gosta de viver!

Seu pai e sua mãe me contaram que o Tarzã é o herói de que você mais gosta.

Quando eu era menino, eu também gostava do Tarzã. Ele era um homem forte, diferente de todos os outros, morava na selva, no meio das árvores e dos bichos. O que me dava mais inveja no Tarzã era quando ele, lá num galho de uma árvore muito alta, se agarrava num cipó e balançava para outra árvore!

Mais do que isso, ele entendia a língua dos bichos. Quando ele estava em perigo, dava um grito terrível que todos os bichos ouviam. E eles, os bichos, elefantes, leões, macacos, vinham correndo para salvá-lo. Eu gostava de ver os filmes do Tarzã e ver as revistas que contavam as suas aventuras.

Pois agora esse livrinho vai contar a sua estória. Nessa estória, o herói é você. Todas as pessoas que o lerem vão ficar sabendo das suas aventuras no meio dos perigos. Porque você vive no meio de perigos! E o mais importante: você não tem medo! Você não foge! Você enfrenta os perigos, briga e vence feito o Tarzã. Muitas pessoas, ao saber das suas aventuras, das suas brigas com os perigos, vão dizer: “O Luigi é o meu herói favorito!”.

O Tarzã vivia na floresta de árvores e tinha os animais como seus amigos. Você, diferentemente do Tarzã, vive no meio de outros perigos e os seus amigos nas brigas não são bichos, mas máquinas amigas que ajudam você a vencer as batalhas para continuar a viver.

Sei que você gosta muito de viver. Sabe por quê? Porque você ri. E quem ri tem alegria! Você é um menininho alegre, a despeito dos perigos. E, quando você ri, todo mundo ao seu redor ri também. O seu sorriso espalha alegria por aqueles que estão perto de você.

E agora eu quero lhe contar um segredo… Não sei se você vai entender, mas os grandes entenderão. A vida da gente não se mede pela quantidade de anos que se vive. A vida da gente se mede pela quantidade de alegria que se distribui. Todas as vezes que você enfrenta um perigo, briga e vence, é uma alegria! Todo mundo fica feliz!

Agora eu lhe desejo bons sonhos… Sonhos com o Tarzã, elefantes, macacos e leões! Mas você não terá medo porque eles são amigos. Sonhos de que você está lutando contra inimigos terríveis sem um pinguinho de medo! E, ao fim dos sonhos, depois da sua vitória, todas as pessoas que você ama irão rir de felicidade.

Só de pensar em você eu estou sorrindo.

Um beijo do vô torto,

Rubem Alves