Por Ignácio de Loyola de Brandão
O protagonista deste livro é um menino que tem muito orgulho de seu pai, um homem culto, inteligente e que conhece as palavras como ninguém. Se os amigos do menino querem saber o significado de alguma palavra, é ao pai dele que sempre recorrem. Quer saber o que é epitélio? Alforje? Lunático? Ele sempre tem uma resposta.
A curiosidade dos amigos é tão grande que o menino logo percebe: e se começasse a negociar o significado das palavras? Gorgolão? Vale uma fotografia de um navio de guerra. Enfado? Um sorvete de picolé, trazido pelo dono da sorveteria. Pantomima? Um chiclete.
E assim começa seu “negocinho” no bairro, escondido do pai, é claro. O menino, sempre com um humor leve e envolvente, descobre como é importante conhecer as palavras, pois assim ele vai saber conversar, orientar as pessoas, explicar suas idéias e sentimentos, desempenhar melhor suas tarefas, progredir na vida, entender todas as histórias que lê e até mesmo convencer uma menina a namorá-lo! E, assim, vai aprendendo essas e outras lições valiosas e percebendo com seu pai o quanto a leitura é necessária, pois quanto mais palavras você conhece e usa, mais fácil e interessante fica a sua vida.
Para escrever esta história, o jornalista Ignácio de Loyola Brandão inspirou-se em sua própria infância, na cidade de Araraquara, interior de São Paulo, nos anos 40. Seu pai, assim como o pai do personagem do livro, era um apaixonado pelas palavras que conseguiu formar uma biblioteca com mais de 500 volumes. Segundo Ignácio conta, foi o pai quem o incentivou a ler desde que foi alfabetizado. E revela outra verdade: sim, ele chegou a trocar com seus colegas de classe palavras por bolinhas de gude e figurinhas.
Leia um trecho da obra de Loyola, lançada pela Editora Objetiva:
“Chegavam provocando:
– Vê lá se o seu pai sabe essa! Sabe nada!
– Qual?
– Incompatível.
Eu corria para casa:
– Pai, o que é incompatível?
Ele, na hora:
– É uma coisa que não combina com a outra.
Orgulhoso, eu levava de volta. Os meninos não acreditavam.
– Então, leva a gente lá, a gente quer tirar a prova.
Depois de tantos meses, tive de combinar com
meu pai, marquei o encontro com a turma. Meu
pai ria da desconfiança dos meus amigos. Era um
homem bem-humorado, sempre alegre, sabia todas
as palavras. No dia marcado, foram cinco, cada um
com uma listinha. Acho que falaram com os pais, pediram
à professora Lourdes para ajudar.
– O que é lunático?
– Um sujeito meio louco ou alguém que vive no
mundo da lua, desligado, pode ser distraído também.
– E degringolada?
– É quando as coisas vão água abaixo.
– Matula. Essa o senhor sabe?
– É um embornal, um alforje.
– Alforje? O que é isso?
– O mesmo que matula.
Era difícil pegar meu pai, ele saía de fino. A turma
perguntou mais de vinte palavras, ele matou todas
de primeira.”
