Educação em Foco

As falhas da educação

A educação continua sendo um dos setores do governo que melhor ilustram as contradições do presidente Lula. Ele passou a campanha eleitoral enfatizando a importância das iniciativas de seu primeiro mandato na área e se apresentando como o chefe de governo que mais recursos destinou à educação. Mas agora um órgão do próprio governo, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publica um estudo mostrando o oposto do que o presidente proclama.

O trabalho critica o Ministério da Educação (MEC), acusando-o de ter “baixa efetividade político-administrativa”, cobra “um choque de investimentos públicos” no setor e afirma que o governo não vem prestando a devida assistência técnica à rede de ensino das cidades mais pobres do País, justamente as que mais precisam de ajuda. O estudo é de autoria de quatro técnicos em planejamento do Ipea – Ângela Barreto, Jorge Abrahão de Castro, Martha Cassiolato e Paulo Corbucci – e constitui o capítulo 6º de um extenso relatório intitulado Desafios e Perspectivas da Política Social que o órgão colocou em seu site.

Segundo o estudo, um dos principais equívocos que o MEC vem cometendo é aplicar os recursos de que dispõe de modo irracional, pulverizando-os em iniciativas e ações de pequeno alcance, o que inviabiliza o retorno tanto social quanto econômico dos investimentos no setor educacional. Embora enfatizem a importância do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que foi recentemente aprovado pelo Congresso e começará a funcionar dentro de dois meses, os autores afirmam que os recursos para ele previstos são insuficientes para garantir um salto de qualidade na escola pública e para atingir as metas de ampliação da oferta de vagas em creches e no ensino médio.

Além de ter utilizado a criação do Fundeb como uma de suas principais bandeiras na campanha eleitoral, Lula o converteu num dos temas de seu discurso de posse, afirmando que ele prevê para 2007 a transferência de R$ 2 bilhões de recursos federais para os Estados e municípios. No entanto, segundo o estudo do Ipea, 40% desse montante já seria repassado normalmente este ano, não representando assim recursos adicionais.

Os autores do estudo também lembram que os R$ 2 bilhões de repasses previstos para 2007 equivalem a um aumento de apenas 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB), com relação às transferências que vinham sendo feitas até o ano passado pela União. E, em 2010, quando o Fundeb estiver implantado em caráter definitivo e recebendo R$ 5 bilhões do governo federal, esse aporte será inferior a 0,3% do PIB, um montante considerado insuficiente para elevar a qualidade da formação básica das novas gerações. “Se a educação é mesmo prioridade, o Brasil precisa investir mais”, afirmam os técnicos do Ipea. Segundo eles, o maior gasto federal no setor, em termos absolutos, ocorreu em 2002, no último ano do governo Fernando Henrique.

O estudo do Ipea cobre as duas últimas décadas e é baseado em informações estatísticas oficiais. Ele lembra que só 53% dos alunos matriculados no ensino fundamental conseguem concluir o curso e que a taxa de analfabetismo – envolvendo um contingente de 14,6 milhões de brasileiros – continua alta. O trabalho também revela que o nível de escolaridade média da população, que chegou a sete anos em 2005, ainda permanece baixo – afinal, o ciclo do ensino fundamental tem oito anos, o que dá a medida da deficiência da educação no País. “É um indício de que os programas de alfabetização implementados nas últimas décadas não foram capazes de reverter de forma eficaz essa dívida educacional”, dizem os técnicos.

Segundo eles, embora a educação básica seja de responsabilidade dos Estados e municípios, o MEC deveria ter um papel mais ativo na coordenação desse nível de ensino. Esta é a condição básica para aumentar a eficiência das políticas sociais, “sempre confrontadas com escolhas complexas sobre investimentos, custos e benefícios”. Isento e objetivo, o estudo do Ipea não poderia ter sido publicado em momento mais oportuno. Ele dá a dimensão da distância entre as promessas e autolouvações que Lula costuma fazer em seus discursos e a incapacidade de seu governo de vencer a corrida educacional para formar o capital humano de que o Brasil precisa para se alinhar com as economias emergentes mais dinâmicas. A educação continua sendo um dos setores do governo que melhor ilustram as contradições do presidente Lula. Ele passou a campanha eleitoral enfatizando a importância das iniciativas de seu primeiro mandato na área e se apresentando como o chefe de governo que mais recursos destinou à educação. Mas agora um órgão do próprio governo, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publica um estudo mostrando o oposto do que o presidente proclama.

O trabalho critica o Ministério da Educação (MEC), acusando-o de ter “baixa efetividade político-administrativa”, cobra “um choque de investimentos públicos” no setor e afirma que o governo não vem prestando a devida assistência técnica à rede de ensino das cidades mais pobres do País, justamente as que mais precisam de ajuda. O estudo é de autoria de quatro técnicos em planejamento do Ipea – Ângela Barreto, Jorge Abrahão de Castro, Martha Cassiolato e Paulo Corbucci – e constitui o capítulo 6º de um extenso relatório intitulado Desafios e Perspectivas da Política Social que o órgão colocou em seu site.

Segundo o estudo, um dos principais equívocos que o MEC vem cometendo é aplicar os recursos de que dispõe de modo irracional, pulverizando-os em iniciativas e ações de pequeno alcance, o que inviabiliza o retorno tanto social quanto econômico dos investimentos no setor educacional. Embora enfatizem a importância do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que foi recentemente aprovado pelo Congresso e começará a funcionar dentro de dois meses, os autores afirmam que os recursos para ele previstos são insuficientes para garantir um salto de qualidade na escola pública e para atingir as metas de ampliação da oferta de vagas em creches e no ensino médio.

Além de ter utilizado a criação do Fundeb como uma de suas principais bandeiras na campanha eleitoral, Lula o converteu num dos temas de seu discurso de posse, afirmando que ele prevê para 2007 a transferência de R$ 2 bilhões de recursos federais para os Estados e municípios. No entanto, segundo o estudo do Ipea, 40% desse montante já seria repassado normalmente este ano, não representando assim recursos adicionais.

Os autores do estudo também lembram que os R$ 2 bilhões de repasses previstos para 2007 equivalem a um aumento de apenas 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB), com relação às transferências que vinham sendo feitas até o ano passado pela União. E, em 2010, quando o Fundeb estiver implantado em caráter definitivo e recebendo R$ 5 bilhões do governo federal, esse aporte será inferior a 0,3% do PIB, um montante considerado insuficiente para elevar a qualidade da formação básica das novas gerações. “Se a educação é mesmo prioridade, o Brasil precisa investir mais”, afirmam os técnicos do Ipea. Segundo eles, o maior gasto federal no setor, em termos absolutos, ocorreu em 2002, no último ano do governo Fernando Henrique.

O estudo do Ipea cobre as duas últimas décadas e é baseado em informações estatísticas oficiais. Ele lembra que só 53% dos alunos matriculados no ensino fundamental conseguem concluir o curso e que a taxa de analfabetismo – envolvendo um contingente de 14,6 milhões de brasileiros – continua alta. O trabalho também revela que o nível de escolaridade média da população, que chegou a sete anos em 2005, ainda permanece baixo – afinal, o ciclo do ensino fundamental tem oito anos, o que dá a medida da deficiência da educação no País. “É um indício de que os programas de alfabetização implementados nas últimas décadas não foram capazes de reverter de forma eficaz essa dívida educacional”, dizem os técnicos.

Segundo eles, embora a educação básica seja de responsabilidade dos Estados e municípios, o MEC deveria ter um papel mais ativo na coordenação desse nível de ensino. Esta é a condição básica para aumentar a eficiência das políticas sociais, “sempre confrontadas com escolhas complexas sobre investimentos, custos e benefícios”. Isento e objetivo, o estudo do Ipea não poderia ter sido publicado em momento mais oportuno. Ele dá a dimensão da distância entre as promessas e autolouvações que Lula costuma fazer em seus discursos e a incapacidade de seu governo de vencer a corrida educacional para formar o capital humano de que o Brasil precisa para se alinhar com as economias emergentes mais dinâmicas.

Editorial

Jornal O Estado de S. Paulo, 08/01/2007 

O saber transformador

Por Marcelo Abreu

É uma conta de cinco. Dois são vigias. Duas, merendeiras. E um agente de portaria. Trabalham no mesmo lugar. Executam suas tarefas com dedicação ímpar. Os dois vigias, na verdade, um homem e uma mulher, sonharam alto. As duas merendeiras apostaram em dias melhores. E o porteiro vislumbra o dia em que usará a toga de juiz. Que povo é esse? Que gente é essa que sonha tanto? Que alterou rota, caminhos, destinos? São os auxiliares de educação da rede pública de ensino do Distrito Federal. Funcionários da Escola Classe 316 Norte.

O porteiro toma conta da entrada e saída dos alunos. Tem que ficar atento a cada detalhe. As duas merendeiras limpam a cozinha e preparam os lanches de todos os dias. Os dois vigias, o homem e a mulher, em esquema de plantão, cuidam da segurança do colégio à noite. Varam, solitariamente, madrugadas. E daí? O que tem essa gente tão simples de tão extraordinário? Tudo. Rigorosamente tudo, principalmente quando essa gente começou a olhar para frente. Começou a se perceber. E, sobretudo, quando tentou mudar a própria vida. Essa mudança, que só veio por meio do conhecimento, é de uma dignidade que chega a emocionar.

O vigia Mauro Cesar Araújo Silva, cearense de 39 anos – 20 de rede pública – daqui a 30 dias receberá o diploma de bacharel em direito, pela Unieuro. Próximos passos? “Tirar a carteira da OAB(Ordem dos Advogados do Brasil) e fazer concurso para promotor”, revela. Sua colega de trabalho, a também vigia Francisca Paula de Sousa, potiguar de 45 anos, está toda prosa. Passou para o terceiro semestre de letras na Faculdade Michelângelo. “Só a educação pode mudar uma pessoa”, reconhece, com uma sinceridade pungente, a mulher que vigia a escola.

A merendeira Ozana Gonçalves Magalhães, goiana de 42 anos, está no quinto semestre de pedagogia, no UniDF. “Mas meu sonho mesmo é fazer fisioterapia. E ainda vou chegar lá”, aposta. Sua colega de cantina, Alexandra José Delfino, também goiana, 34, terminou o ensino médio e tem um projeto de vida. Na verdade, uma obstinação: “ Fazer agronomia e trabalhar na Embrapa, em Planaltina”. E o porteiro da tarde? Já formando em teologia, Walter Fernandes, carioca de 45 anos, agora tenta, com dificuldade, pagar a faculdade de direito na Uniplan. Trancou no segundo semestre. “No dia em que me formar, estarei completamente realizado”, diz, emocionado. E revela, como premonição: “Meu sonho mesmo é ser juiz, mesmo que as pessoas não acreditem nisso. Há tempo de plantar e de colher… ”.

Essa gente toda trabalha no mesmo lugar. Sem saber, a Escola Classe 316 Norte reuniu esses cinco personagens. Virou um pólo de cultura, lugar verdadeiramente transformador. Lugar de esperança. E eles chegaram à Secretaria de Educação há anos, por meio de concurso para nível de 4ª série do ensino fundamental. Era, honestamente, quando entraram, só o que tinham no currículo. Pedir mais era desleal. As dificuldades . financeiras, a luta pela vida e a falta de oportunidade deixaram-nos longe dos bancos escolares. Só havia um destino a seguir: tentar pelo menos sobreviver. E foi o que fizeram. Alguns se casaram. Tiveram filhos. Trabalharam em outras escolas. Na portaria, na vigilância e na cantina executaram suas tarefas com zelo extremado. E o tempo foi passando. E a vida se encarregando de transformá-los. Mauro e Francisca vigiaram solitariamente a escola. Cada noite é a vez de um. Alexandra e Ozana capricharam todos os dias no lanche das crianças (a escola tem 398 alunos, do Jardim de Infância à 4ª série, com idades que variam de 6 a 12 anos). E como limparam aquela cozinha. O porteiro Walter vigiou com olhos de lince várias escolas. Tomou conta dos alunos como se fossem seus três filhos. Há uma semana chegou à 316 Norte.

Formado em teologia, luta agora para terminar o curso de direito. Ganha R$1,7mil. Pagava R$ 900 de mensalidade. “O GDF devia fazer uma parceria com as faculdades particulares, para que tivéssemos uma bolsa quase integral, já que na UnB (Universidade de Brasília) não conseguimos estudar em razão do horário e da concorrência”, pede. Enquanto o apelo não é atendido, ele luta para arcar com as despesas de ser aluno. “Toda profissão é digna, mas a gente tem o direito de querer melhorar a cada dia”. Um dia, o filho de Francisca, a vigia, disse-lhe: “Por que a senhora não volta a estudar? Por que não tenta uma faculdade?” Ela ouviu aquilo atentamente. À noite, enquanto vigiava a escola, pensou muito no que ouvira. E decidiu, tempos depois, que voltaria a estudar. O ensino médio (antigo segundo grau) fizera aos 19 anos. A idéia foi tomando forma. Vigiava a escola e, quando tinha um tempo livre, folheava livros. Dúvidas tirava com o filho mais velho. Prestou vestibular. E foi aprovada no curso de letras. No primeiro dia de aula, beliscou-se. Imaginou sonhar. Vai agora para o terceiro semestre. Paga, com extremo sacrifício, a faculdade particular. Como só trabalha à noite na escola, arrumou um emprego à tarde. Virou também recepcionista. Na manhã de ontem, durante a entrevista ao Correio, a vigia se emocionou: “Hoje, tenho orgulho de chegar para você e dizer que tive coragem de ir à luta. Já tive, no começo, vergonha de falar que era vigia. Hoje, não tenho mais. Não me sinto menos que ninguém”. E arrepia quem a ouve falar: “Mesmo que permaneça vigia, já valeu a pena eu ter chegado à faculdade”. Mas,batalhadora que é, Francisca revela seus planos: “Vou me formar e tentar ser professora”.

O vigia Mauro, que não estava presente na sessão de fotos feitas no final da manhã (tinha ido renovar a carteira de habilitação) está a poucos dias de receber o canudo de bacharel em direito. Há duas décadas executando a mesma função, Mauro mudou a sua vida quando conheceu uma professora (sua atual mulher) no Jardim de Infância da 312 Norte, onde trabalhava antes. Há 15 anos está na Escola Classe 316 Norte. A moça o incentivou a voltar aos estudos. Ele se perguntava: “Como, se nem o segundo grau eu tenho?”. Um dia, ela mesma passou para o vestibular de pedagogia na UnB. Einsistiu: “Você pode também”. Em 2001, Mauro começou o supletivo. Prestou vestibular para direito na Unieuro. Há cinco anos, tirando do pouco salário, paga a prestação da faculdade. E só pensa no dia que receberá o diploma. Quer advogar. E depois ser promotor. “Comecei a ter orgulho de ser vigia quando percebi o mundo de uma forma diferente”, reflete. Com a voz embargada, o homem que vigia escolas há 20 anos desabafa: “É o único exemplo que vou deixar para minha filha. Só o estudo melhora o ser humano”.

A merendeira Ozana está na escola há 12 anos. “Adoro cuidar do lanche das minhas crianças. A gente se apega mesmo”, diz ela. Para bancar a faculdade, em torno de R$ 650, a moça que mora no Guará teve que arramar outro emprego. À tarde, vira cabeleireira. À noite, estudante pedagogia. Mas nada a desanima. “É com meu trabalho de merendeira que tô conseguindo pagar minha faculdade. Não posso ter vergonha dele”, reflete, com uma ponta de orgulho. E não pára por aí: “Depois que me formar em pedagogia, vou fazer fisioterapia”. Alexandra, colega de Ozana na cantina há mais de uma década, ainda não chegou à faculdade, mas já avançou. Terminou o ensino médio. É técnica em administração. Gostou tanto que leu três vezes Dom Casmurro, de Machado de Assis. E só não prestou vestibular para agronomia pela situação financeira. “Mas eu vou conseguir. É o sonho de toda minha vida”.

Ouvindo todas aqueles depoimentos emocionados, a diretora da Escola Classe 316 Norte, Luciana Ferraz, 37, elogia: “Tenho 15 anos de rede pública, passei por vários estabelecimentos de ensino, mas nunca tinha trabalhado com pessoas tão determinadas e dispostas para lutar. E não há na rede de ensino, pelo menos que eu saiba, tantos exemplos desses reunidos numa mesma escola”. Marília Escobar, 44, vice-diretora, extasia-se: “Eles são uma bênção. A vontade que têm de melhorar a cada dia é impressionante”. Hoje, Mauro, o vigia bacharel em direito, estará de plantão à noite. A estudante de pedagogia Ozana e a técnica em administração Alexandra, ambas merendeiras, vão caprichar no lanche das crianças. A vigia Francisca, de folga, repassará as aulas do curso de letras. E o porteiro Walter, formado em teologia, estará atento a todos que entrarem e saírem da escola. Suas crianças são sagradas.

Essa é a história de uma gente que acreditou que podia mudar a si mesma. E apostou desavergonhadamente nisso. O final só pode dar certo.

A experiência e a Poesia!

Por Marcelo Cunha Bueno

Fico absolutamente encantado ao ver uma criança naqueles momentos em que o novo se revela diante de seus olhos! É uma experiência como educador e ser humano que não tem tamanho e que marca as nossas vidas.

Sou professor e percebo que cada vez mais nosso dever é provocar experiências de encantamento e descoberta em nossos alunos. Experiências são individuais e intransferíveis! Carregamos as nossas experiências conosco por toda a vida, e são elas que, muitas vezes, nos guiarão pelos caminhos escolhidos! Ter uma vida repleta de experiências não tem nada a ver com a quantidade de coisas que você viveu, e sim com a qualidade do olhar que bebeu da descoberta! Provocar experiências deveria ser conteúdo curricular obrigatório nas escolas.

Nunca me esqueço do dia em que fazia um passeio com meus alunos de 4 anos à represa de Salesópolis. No meio do passeio encontramos um bosque de pinheiros. Belíssimo! Uma das crianças disse: “Veja o barulho do silêncio!”. Todos pararam, ficaram esperando que o silêncio se pronunciasse. Sentei no chão como se realmente esperasse escutar algo. Todos me acompanharam. Nos deitamos e vimos como o vento balançava as árvores. Foi então que uma criança fez a grande descoberta: “O silêncio se mexe baixinho!”.

O aprendizado é uma experiência poética! A escola deve ser o espaço onde a poesia é escrita! Em vão é a leitura que busca significado único na poesia! Experimentar a poesia é uma experiência singular dos seres humanos, experimentar o saber também! Experimentar tem mais ligação com aprender do que com ensinar! Uma escola preocupada somente com resultados é uma escola sem espaço para novos desafios, para incertezas. A descoberta se dá quando, diante dos desafios, encontramos caminhos para incorporá-los.

Vamos deixar que nosso encantamento escute e dê movimento ao silêncio. Vamos encher nossas vidas de poesias! Que a descoberta se transforme em experiência e a experiência transforme nossas vidas!

(Publicado em 05/08/2004 – site: www.revistaneuronio.com.br)

O sentido da vida

Por Celso Antunes

Em meio à aula de Matemática, enfiando e enfiando logaritmos, Ricardo percebeu o aluno sentado na última fila de braço erguido:

— Fala aí, Rafa! Qual é o problema?

— Professor… Qual é o sentido da vida?

A primeira emoção que brotou em Ricardo foi a revolta, pois a pergunta, por causa do momento em que foi feita, não tinha o menor sentido. Pensou em advertir o aluno pela proposital fuga ao tema ou, com mais brandura, solicitar a ele que prestasse atenção na aula e fizesse essa mesma pergunta a um professor de Filosofia, ou pelo menos alguém da área de Humanas, mais chegado a questões existenciais. Mas acabou pensando melhor. Rafael não era aluno de dispersar-se e, se perguntava, provavelmente era porque realmente essa dúvida estivesse mexendo com seus pensamentos. Além disso, percebeu que a classe mostrava interesse e que não havia na questão proposta a vontade voluntária de “matar a aula”. Além disso, pensou que sua formação como professor da área de Ciências Exatas não o impedia de possuir uma opinião sobre esse tema.

Parou sua explicação de Matemática, olhou firme para a turma e, notando um olhar de espera, respondeu:

— Bem gente. Não respondo como professor; falo como ser humano. Creio que a resposta a essa questão passa, pelo menos, por duas linhas: a biológica e a metafísica. O sentido da vida, segundo a teoria de Darwin, é a sobrevivência das espécies e seu aprimoramento por meio da seleção natural. Vivemos como vivem outras espécies, mas viver implica se transformar sempre e jamais parar de evoluir para se ajustar ao ambiente. O sentido espiritual nos alerta que viver significa solidarizar-se, servir à sua fé, seja ela qual for, fazendo desse serviço um exercício de contínuo aprimoramento para verdadeiramente sentir o outro em si. Bom, acho que o que penso é mais ou menos isso, minha gente. Agora voltemos aos logaritmos…

Mais tarde, após o encerramento das aulas, em sua diária corrida para o colégio onde ministraria aulas à tarde, pensou naquela cena que aconteceu pela manhã. Surpreendeu-se com a ousadia como invadiu seara alheia, com o interesse da turma em sua opinião não-matemática e, sobretudo, com o fato de os alunos terem aceitado bem, após a breve resposta, a volta ao tema, se não inteiramente interessados, ao menos se esforçando em assim demonstrar. A pergunta do Rafa, entretanto, não saía de sua memória. Pensando no assunto, indagava-se se, com mais calma e estudo, ele responderia da forma que respondeu…

Entre a dúvida, o trânsito e a lembrança, acabou perguntando a si mesmo se o sentido da vida que expressara no plano espiritual seria o mesmo que expressaria caso algum aluno perguntasse-lhe sobre o sentido da vida no plano educacional. E a questão não mais saía de sua mente: qual é o sentido da vida para um verdadeiro professor? Transmitir os conteúdos específicos de sua disciplina? Concluir seu programa? Desenvolver habilidades e competências? Estimular inteligências? Ou, na medida do possível, um pouco disso tudo em cada aula, para cada classe? Seria possível exercitar a integração entre conteúdo e competência? Não seria, por acaso, o conteúdo escolar uma ferramenta para ajudar o aluno a pensar? E pensar não seria, por acaso, a função essencial da aprendizagem?

Chateou-se consigo mesmo por ter tantas perguntas e tão poucas respostas e, em meio à insegurança da dúvida, pensou no breve instante de interrupção da aula da manhã, pensou na curiosidade da turma em ouvir sua resposta, pensou em si mesmo e acabou concluindo, tal como Teresa de Calcutá, que o sentido da vida para um professor é perceber que sua vida só é verdadeiramente vida quando se integra em outras vidas. Adorou a pergunta do Rafa, gostou de sua resposta, ainda que pudesse melhorá-la, e gostou um pouquinho mais de si mesmo ao perceber que vivia sonhando seu envolvimento em outras vidas.

O Ibirapuera é para todos

Por Camila Koester Pati

Chamado por algumas pessoas de Central Park tupiniquim, o Parque do Ibirapuera é uma deliciosa atração para os paulistanos e para os turistas que passam por São Paulo. Fundado em 21 de agosto de 1954, o parque conta com diversas opções de diversão. O Museu de Arte Moderna (MAM), o Pavilhão da Bienal, a Oca, o Planetário, o Pavilhão Japonês, o Auditório, o Viveiro e o Museu da Aeronáutica são alguns dos destaques do parque.

No MAM, quem passar por lá até o dia 2 de julho pode conferir uma retrospectiva com mais de 130 obras de Alfredo Volpi. É que o museu está comemorando os 110 anos do nascimento do artista.

O Auditório do Ibirapuera, inaugurado no final do ano passado, é um projeto de Oscar Niemeyer. Lá, ocorrem semanalmente shows e alguns eventos fechados. Nesta semana, quem se apresenta é o cantor, compositor e instrumentista Jards Macalé com convidados. Os shows serão nesta sexta, 28 de abril, sábado, 29, e domingo, 30, às 20h30. Os convidados são Bocato, que participa do show de sexta-feira, Arismar do Espírito Santo, no sábado, e Orquídeas Selvagens, no domingo. O Pavilhão da Bienal costuma abrigar grandes eventos como a São Paulo Fashion Week, nos meses de janeiro e julho, a Bienal de Artes da cidade, a Bienal de Arquitetura, e feiras sobre assuntos variados. A Bienal de Artes já está com a data marcada e o cartaz pronto. Artistas de todo o mundo vão expor seus trabalhos, relacionados ao tema de 2006 que é “como viver junto?”, entre os dias 7 de outubro e 17 de dezembro.

Na Oca do parque, está em cartaz a exposição “Dinos na Oca”, que vai até o final do mês de abril. Trata-se de uma verdadeira viagem à época pré-histórica. Dá para aprender bastante sobre os dinossauros.

O Viveiro Manequinho Lopes é um passeio divertido para quem gosta de natureza. No local são produzidas diferentes mudas de floríferas e herbáceas para serem plantadas em avenidas e ruas paulistanas. Algumas escolas públicas também recebem as mudas . O viveiro fica aberto das 7 da manhã às 17 horas da tarde. Ao lado do viveiro, há o bosque de leitura que é um lugar sossegado, perfeito para a apreciação de livros e revistas disponíveis na Casa do Livro, que também fica ali perto.

O Pavilhão Japonês foi um presente que a comunidade nipônica deu à cidade de São Paulo. De arquitetura típica japonesa, o Pavilhão ainda tem um jardim típico, encantador.

O Museu da Aeronáutica também é outra atração interessante do Parque do Ibirapuera. Criado em 1959, pela Fundação Santos Dummont, ele ocupa uma área de cinco mil metros quadrados e tem diversos aviões, motores, maquetes. O famoso 14 Bis está lá para quem quiser ver.

Além desses passeios, o parque ainda tem quadras, espaço para cachorros, pistas de bicicleta, patins e skate e muita área verde.

A Origem dos Diamantes

Por Gabriel Chalita (Correio Popular/Vale Paraibano, Diário do Grande ABC, Jornal da Tarde e A Tribuna)

Hoje é o Dia do Professor. Um dia que lança luzes sobre aqueles que, cotidianamente, dedicam sua juventude e também sua maturidade ao ato virtuoso de educar. De levar aos milhões de aprendizes espalhados pelo Brasil os instrumentos necessários à conquista da cidadania.

Professores são arautos. Portadores que se ocupam em levar mensagens diversas aos receptores que, ao fim, simbolizam a esperança que depositamos em novos e melhores tempos.

Movidos por um altruísmo comum aos grandes personagens da História – que comumente mesclam em sua jornada um misto de idealismo e capacidade de realização –, nosso exército de mestres desbrava fronteiras e adentra aldeias indígenas, comunidades quilombolas, bairros movimentados das metrópoles. Seja nos cursos mais elementares de alfabetização, seja nas universidades mais renomadas do País, sempre há a figura desse lapidador. Desses homens e mulheres que, cuidadosamente, permitem que pedras brutas se transformem em jóias cujo brilho é capaz de iluminar o futuro.

Hoje é Dia do Professor. Data que demanda reflexões sobre o que é realmente essencial no vaivém contínuo do processo ensino-aprendizagem. Momento de observar que, nas últimas décadas, o papel da escola foi ganhando novos contornos. Novas alterações provenientes de métodos educacionais mais modernos. Resultantes tanto da troca ininterrupta de experiências no setor quanto da consciência social em torno da importância da educação. Do ensino de excelência nesta que é a Era da Informação e do Conhecimento.

São mudanças que ampliaram sobremaneira os horizontes. Renovações que tiveram início com passos importantes rumo à democratização da aquisição de conhecimento. Hoje, muitas escolas já estão informatizadas e, portanto, conectadas ao mundo. Exigência de uma época que requer habilidades e talentos cada vez mais diversos, como a fluência em mais de um idioma. É fato que o mercado de trabalho não tolera amadores. E também é fato que a cobrança sobre a capacidade dos aprendizes recai sobre o professor. Profissional de quem a sociedade exige aprimoramento ininterrupto.

Por esse motivo, é importante que os educadores relembrem os modelos referenciais do ensino de qualidade muitas vezes empregado ao longo da História. É o caso do método utilizado por Aristóteles em seu desejo de formar uma geração de jovens éticos e, portanto, felizes. O liceu do estagirita era um espaço privilegiado em que a virtude e a busca pelo meio termo permeavam as discussões filosóficas entre o educador e seus jovens aprendizes.

No mesmo diapasão, o filósofo Pedro Abelardo, nas escolas francesas, desafiava os estudantes a colocar em prática o potencial gigante, mas ainda adormecido, que habitava em cada um. Mais recentemente, temos o modelo de Dom Bosco, mestre dos salesianos. Verdadeiro professor que exaltava o amor como o único caminho para a educação verdadeiramente completa.

Mário Quintana, em outra seara, poetizava: “E no dia em que tratardes um dragão por Joli, ele te seguirá por toda a parte como se fosse um cachorrinho”. Por meio dessa metáfora tão bela quanto inusitada, o poeta nos ensina que é possível modificar para melhor os seres considerados mais amedrontadores. Para isso, basta que recebam carinho e atenção como tratamento. Em outros termos: se até um dragão pode ficar dócil, carinhoso, o que dizer de um aluno? Já Paulo Bonfim, outro artesão da palavra – considerado o príncipe dos poetas brasileiros – diz que a juventude precisa de um tema. Um tema que a torne protagonista. Um tema que a instigue a viver. É como na arte: uma vez sem bons temas, as peças ficam sem sentido, os textos empobrecem, as danças perdem a magia.

Eis aqui nossa homenagem àqueles que são leais à missão de educar. Sábios que não servem a um partido ou a um governo, mas sim à causa nobre da educação. Servem a um sonho. Talvez o mesmo vivenciado por Aristóteles, Abelardo, Dom Bosco: o sonho de lapidar diamantes. Mestres que neste, e em todos os outros dias, acreditam que o esforço do trabalho será recompensado pela magnitude do resultado. Pela beleza rara da jóia que começa a tomar forma, sempre, em suas mãos.

Bons leitores são bons alunos em qualquer disciplina

É comum o professor de Matemática propor um problema às crianças e perceber que muitas teriam conhecimento para solucioná-lo, mas não conseguem chegar lá porque não entendem o enunciado. “Há alunos que sabem o raciocínio, mas têm dificuldade de escrever e de ler corretamente”, diz Kátia Smole, coordenadora do Mathema, empresa de consultoria em educação matemática de São Paulo.

Textos científicos ensinam a comparar opiniões

O estudo de texto nas aulas de Língua Portuguesa costuma se restringir a narrativas de ficção, relatos pessoais (como cartas) ou, no máximo, notícias tiradas da imprensa. Para o estudante, isso não é suficiente, porque há muitos outros tipos de texto que ele precisa compreender. “Cada área deve investir nos gêneros que fazem parte do seu dia-a-dia”, diz Maria José. Foi por isso que Daniel Helene, professor de História da Escola da Vila, de São Paulo, resolveu propor um trabalho de leitura e redação de texto técnico aos alunos da 5ª série, um dos 12 projetos vencedores do Prêmio Victor Civita Professor Nota 10 de 2004 (leia reportagem).

Com essa atividade, Daniel conseguiu o que queria: familiarizar a garotada com a escrita científica, que exige planejamento prévio para organizar idéias e atenção à clareza dos conceitos. A turma compreendeu que a linguagem formal facilita a comunicação com o leitor que não se conhece. Por isso, ela é a mais eficiente quando se escreve um texto para ser publicado, seja no jornal da escola ou em sua página na internet.

Os textos de ciências humanas têm outras características peculiares, como revelar a ideologia do autor e expor visões diferentes sobre um tema. Se os alunos forem acostumados a ler vários modelos de texto (de documentos oficiais a ensaios científicos), vão desenvolver espírito crítico para perceber essas nuances. Em pouco tempo saberão expor as próprias idéias por escrito, com argumentos destinados a convencer o leitor.

Na Matemática, o desafio é traduzir palavras em símbolos

A atividade com texto nas aulas de Matemática envolve outros desafios, como a relação entre duas linguagens diferentes — as palavras e os símbolos matemáticos. Só o professor da área pode trabalhar satisfatoriamente a combinação de linguagens presente na resolução de problemas. Para solucioná-los, pede-se ao aluno que traduza uma situação inicialmente descrita em palavras para uma forma mais abstrata, composta de números e sinais.

Isso leva a criança a desenvolver habilidades de raciocínio e representação, que ela poderá usar em outras situações, cada vez mais complexas. Resolver uma questão matemática com desenhos pode ser um bom começo para que a garotada das primeiras séries se sinta à vontade no trânsito entre as duas linguagens. Por exemplo: peça que os alunos, por meio de desenhos, distribuam nove lápis em três estojos ou 12 bolas entre quatro crianças.

O trabalho com leitura e escrita em Matemática já pode ser proposto nas primeiras séries. A atividade em grupo é muito produtiva nessa fase, tanto para desenvolver habilidades de comunicação quanto para revelar ao professor e aos próprios alunos o quanto aprenderam e quais dificuldade ainda têm.

A professora Mirela Landulfo, do Colégio Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, utiliza textos nas aulas de Matemática desde a 2ª série. Para ela, essa é a melhor forma de levar as crianças a refletir sobre o que aprendem. Para ensinar tabuada, por exemplo, ela usa jogos e histórias em quadrinhos e depois pede que os alunos escrevam sobre a experiência. Os relatos dos estudantes sobre o Bingo da Tabuada — em que eles têm de achar o resultado de uma multiplicação em suas cartelas de números — mostraram a Mirela que alguns ficavam atentos às peças do jogo, outros às regras e os demais ao conteúdo matemático. Com base nisso, a professora concluiu que deveria continuar investindo na atividade até que a maior parte da turma constatasse, sozinha, como funciona a tabuada e também avaliasse o próprio aprendizado.

Para que a garotada da 7ª série conseguisse passar aos colegas os conceitos aprendidos, a professora Neide Pessoa dos Santos, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Afrânio de Mello Franco, em São Paulo, realizou uma atividade que envolveu todas as turmas. Primeiro, propôs um problema aos alunos de uma classe. Depois, cada um escreveu uma carta, com indicações sobre a resolução, para um colega anônimo de outra sala. O tal colega mais tarde enviou uma resposta, avaliando as dicas recebidas e contando como solucionou o problema. “O exercício pedia um cuidado especial com o texto e ampliou o vocabulário matemático dos meninos”, diz Neide. O empenho das turmas foi tão grande que os professores adaptaram a experiência, com sucesso, para o laboratório de informática. Os alunos ensinaram uns aos outros, por escrito, como desenvolver um software que constrói mosaicos.


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Ed. 180 – março/2005

A inutilidade da infância

Imagino um outro pai, diferente, que não pode fazer perguntas sobre o futuro. Pai para quem o filho não é uma entidade que “vai ser quando crescer“, mas que simplesmente é, por enquanto … É que ele está muito doente, provavelmente não chegará a crescer e, por isso mesmo, não vai ser médico, nem mecânico e nem ascensorista.Que é que seu pai lhe diz? Penso que o pai, esquecido de todos “os futuros possíveis e gloriosos“ e dolorosamente consciente da presença física, corporal, da criança, aproxima-se dela com toda a ternura e lhe diz:

“Se tudo correr bem, iremos ao jardim zoológico no próximo domingo…“É, são duas maneiras de se pensar a vida de uma criança. São duas maneiras de se pensar aquilo que fazemos com uma criança.Eu me lembro daquelas propagandas curtinhas que se fizeram na televisão, por ocasião do ano da criança deficiente, para provar que ainda havia alguma esperança, para dizer que alguma coisa estava sendo feita. E apareciam lá, na tela, as crianças e adolescentes, cada uma excepcional a seu modo, desde Síndrome de Down até cegueira, e aquilo que nós estávamos fazendo com eles… Ensinando, com muito amor, muita paciência. E tudo ia bem até que aparecia o ideólogo da educação dos excepcionais para explicar que, daquela forma, esperava-se que as crianças viessem a ser úteis, socialmente… E fiquei a me perguntar se não havia uma pessoa sequer que dissesse coisa diferente, que aquelas escolas não eram para transformar cegos em fazedores de vassouras, nem para automatizar os mongolóides para que aprendessem a pregar botões sem fazer confusão… Será que é isto? Sou o que faço? Ali estavam crianças excepcionais, não-seres que virariam seres sociais e receberiam o reconhecimento público se, e somente se, fossem transformados em meios de produção. Não encontrei nem um só que dissesse: “Através desta coisa toda que estamos fazendo esperamos que as crianças sejam felizes, dêem muitas risadas, descubram que a vida é boa… Mesmo um excepcional pode ser feliz. Se uma borboleta, se um pardal e se uma ignorada rãzinha podem encontrar alegria na vida, por que não estas crianças, só porque nasceram um pouco diferentes …?“Voltamos ao pai e ao seu filhinho leucêmico.Que temos a lhes dizer?Que tudo está perdido? Que o seu filho é um não-ser porque nunca chegará a ser útil, socialmente? E ele nos responderá: “Mas não pode ser… Sabe? Ele dá risadas. Adora o jardim zoológico. E está mesmo criando uns peixes, num aquário. Você não imagina a alegria que ele tem, quando nascem os filhotinhos. De noite nós nos sentamos e conversamos. Lemos estórias, vemos figuras de arte, ouvimos música, rezamos… Você acha que tudo isto é inútil? Que tudo isto não faz uma pessoa? Que uma criança não é, que ela só será depois que crescer, que ela só será depois de transformada em meio de produção?“E eu me pergunto sobre a escola … Que crianças ela toma pelas mãos?Claro, se a coisa importante é a utilidade social temos de começar reconhecendo que a criança é inútil, um trambolho. Como se fosse uma pequena muda de repolho, bem pequena, que não serve nem para salada e nem para ser recheada, mas que, se propriamente cuidada, acabará por se transformar num gordo e suculento repolho e, quem sabe, um saboroso chucrute? Então olharíamos para a criança não como quem olha para uma vida que é um fim em si mesma, que tem direito ao hoje pelo hoje… Ora, a muda de repolho não é um fim. É um meio. O agricultor ama, nas mudinhas de repolho, os caminhões de cabeças gordas que ali se encontram escondidas e prometidas. Ou, mais precisamente, os lucros que delas se obterão…utilidade social.Reconheçamos: as crianças são inúteis…Entre nós inutilidade é nome feio. Já houve tempo, entretanto, em que ela era a marca de uma virtude teologal. Duvidam? Invoco Santo Agostinho, mestre venerável que declara em De Doctrina Christiana: “Há coisas para serem usufruídas, e outras para serem usadas.“ E ele acrescenta: “Aquelas que são para serem usufruídas nos tornam bem-aventurados.“ Coisas que podem ser usadas são úteis: são meios para um fim exterior a elas. Mas as coisas que são usufruídas nunca são meio para nada. São fins em si mesmas. Elas nos dão prazer. São inúteis.Uma sonata de Scarlatti é útil? E um poema? E um jogo de xadrez? Ou empinar papagaios?Inúteis.Ninguém fica mais rico.Nenhuma dívida é paga.Por que nos envolvemos nessas atividades, se lhes faltam a seriedade do pragmatismo responsável e os resultados práticos de toda atividade técnica? É que, muito embora não produzam nada, elas produzem o prazer.O primeiro pai fazia ao filho a pergunta da utilidade: “Qual o nome do meio de produção em que você deseja ser transformado?“ O segundo, impossibilitado de fazer tal pergunta, descobriu um filho que nunca descobriria, de outra forma: “Vamos brincar juntos, no domingo?’“E as nossas escolas? Para quê?Conheço um mundo de artifícios de psicologia e de didática para tomar a aprendizagem mais eficiente. Aprendizagem mais eficiente: mais sucesso na transformação do corpo infantil brincante no corpo adulto produtor. Mas para saber se vale a pena seria necessário que comparássemos os risos das crianças com os risos dos adultos, e comparássemos o sono das crianças com o sono dos adultos. Diz a psicanálise que o projeto inconsciente do ego, o impulso que vai empurrando a gente pela vida afora, essa infelicidade e insatisfação indefinível que nos faz lutar para ver se, depois, num momento do futuro, a gente volta a rir… sim, diz a psicanálise que este projeto inconsciente é a recuperação de uma experiência infantil de prazer. Redescobrir a vida como brinquedo. Já pensaram no que isso implicaria? É difícil. Afinal de contas as escolas são instituições dedicadas à destruição das crianças. Algumas, de forma brutal. Outras, de forma delicada. Mas em todas elas se encontra o moto:“A criança que brinca é nada mais que um meio para o adulto que produz.“ (Estórias de quem gosta de ensinar, pág. 49.)

Como saber se seu aluno entendeu o que leu

Em qualquer série do Ensino Fundamental, a busca de resultados concretos pode levar à tentação de treinar com os estudantes, separadamente, habilidades como reproduzir informações ou estabelecer relações de causa e conseqüência entre as partes de um texto. Essa não é a estratégia mais adequada para a consultora em Língua Portuguesa Maria José Nóbrega, de São Paulo. “Não há por que treinar uma a uma as habilidades se a leitura é, por natureza, uma prática articulada”, afirma. Existem outros caminhos para capacitar e avaliar a turma.

Leitura em três níveis

Antes de ler o texto, diz a consultora, um primeiro passo é verificar o que os estudantes sabem ou têm curiosidade de conhecer sobre o assunto. Depois, examinar com eles o texto no conjunto e dar informações adicionais.

A leitura é mais do que “ler nas linhas” — identificar as informações apresentadas e reproduzi-las. Isso a maioria dos estudantes faz. Para que dêem um passo à frente, as novas informações precisam ser integradas ao que já sabem.

Convém sempre ir chamando a atenção para a idéia principal do texto e seus desdobramentos. Isso encoraja todos a “ler nas entrelinhas”, ou seja, deduzir o sentido de expressões desconhecidas e ligar as várias partes do texto.

A compreensão deve ser o foco principal do professor. Se o texto for informativo, você pode levar os alunos a relacionar o novo assunto com os conhecimentos que já têm ou perguntar como a nova informação pode ser aplicada em outros contextos. A elaboração de esquemas e o fichamento ajudam a visualizar as relações entre as informações. No caso de um texto literário, é importante mostrar aos alunos os recursos expressivos empregados pelo autor.

Leitores críticos precisam também ler “por trás das linhas” — avaliar o que foi lido por meio de comentários orais ou escritos. Você deve incentivar o grupo a verificar se as informações são confiáveis, consultar outras fontes, identificar a posição do autor e dar sua opinião sobre as idéias que ele transmite.

Formas de avaliação

Ao longo de todo esse processo, você consegue detectar os sinais dados pela classe e avaliar os resultados da leitura. Maria José recomenda escapar da armadilha das avaliações com questionários que pedem para o leitor “devolver” o que foi lido. “Isso leva a garotada a fazer a cópia do texto”, afirma. Melhor é solicitar ao aluno que exponha o tema por escrito com suas próprias palavras.

Você também pode verificar se houve desvio na compreensão do sentido original ao pedir para a criança expor oralmente o que leu. Se a tarefa solicitada à turma for a produção do esquema de um texto informativo, é possível verificar, com base na hierarquização das informações, se o leitor compreendeu a estrutura da obra e se empregou corretamente os conceitos. Uma terceira opção é, com base em um esquema montado pelos alunos, pedir que eles desenvolvam um texto e assim verificar se a interpretação está correta.

No momento da avaliação, é importante que você perceba se o estudante:

omitiu uma informação importante;

substituiu um termo por outro, modificando o significado do texto;

fez acréscimos incabíveis; e

alterou a ordem das informações prejudicando a compreensão.

Ler bem para escrever bem

No Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, a professora Ângela foi construindo meios de avaliar seus pequenos leitores da classe de alfabetização. Na sala de aula, há um acervo de livros que a turma leva para casa nos fins de semana. Na volta, em uma roda de leitura, todos compartilham as histórias, comentam sobre as ilustrações e avaliam o que cada colega contou. “Assim, verifico se eles compreenderam o que foi lido”, diz.

Outra rotina de Ângela é ler histórias de gêneros variados para as crianças e pedir que leiam para os colegas. Antes da apresentação, o aluno leva o livro para casa para treinar a leitura. Em sistema de rodízio, todos também lêem em classe os enunciados de exercícios das diversas disciplinas. Durante as leituras, qualquer dificuldade com o texto pode ser detectada de imediato.

As atividades de redação também são constantes. Foi a turma, por exemplo, que produziu os convites para a inauguração do clube de leitura. Para dar conta da tarefa, todos analisaram convites que trouxeram de casa e discutiram a linguagem e o objetivo de cada um até conseguir redigir o próprio convite. Durante o trabalho, Ângela observava e questionava as crianças para se certificar de que estavam compreendendo o que liam e depois redigiam.

Antes de a turma realizar uma pesquisa, Ângela faz um levantamento sobre o que todos querem saber e onde as informações devem ser procuradas. A garotada assinala as respostas no material pesquisado e depois faz uma síntese escrita do tema. Seja qual for o objetivo da leitura, no final há sempre uma conversa em grupo. “Assim, os resultados das estratégias de ensino podem ser testados na hora.” Quando detecta dificuldades nos alunos, Ângela tenta verificar se sua proposta foi adequada ou se é o caso de repensá-la.


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Ed. 177 – novembro/2004

Dom Quixote: a aventura de ler um romance

Como pode um herói de 400 anos ser ainda tão atual e importante para a literatura? Dom Quixote de la Mancha é a obra mais traduzida no mundo depois da Bíblia. Ela inaugura o romance moderno, com sua diversidade de gêneros e cenários. Para 100 dos mais reputados escritores da atualidade, a história foi eleita como a melhor obra de ficção de todos os tempos. E os valores que o personagem defende transcendem lendas e séculos — até hoje a paz e a justiça são temas atuais e urgentes. Dom Quixote de la Mancha é o melhor exemplo do que seja um clássico!

O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) escreveu uma vez: “Poderiam perder-se todos os exemplares do Quixote, em castelhano e nas traduções; poderiam perder-se todos, mas a figura de Dom Quixote já é parte da memória da humanidade”. Difícil quem nunca tenha ouvido falar ao menos uma vez dessa figura encantadora. O escritor brasileiro Monteiro Lobato contou a história do nobre no livro Dom Quixote para Crianças e, depois, a saga foi exibida na TV como um episódio do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Nas artes plásticas, a imagem do cavaleiro foi desenhada por pintores como os espanhóis Pablo Picasso e Salvador Dalí e o brasileiro Candido Portinari.

O grande desafio é ler a obra original. Sim, é difícil encarar um livro enorme (são 126 capítulos!) e de linguagem antiga (pudera, o vocabulário tem 400 anos!). Mesmo com diversas adaptações disponíveis no mercado, não há como dispensar a leitura de ao menos alguns capítulos do original. “Trata-se, sem dúvida, de um livro arcaico, mas é interessante se deslocar no tempo, conhecer as façanhas de um personagem que defende os ideais que nós até hoje defendemos”, explica Maria Augusta da Costa Vieira, professora da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Cervantes.

Como vencer o arcaísmo da obra

Para Irene Molinero, professora de Língua Espanhola do Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo, é possível que as novas gerações se encantem com Dom Quixote. “O prazer da leitura de clássicos é despertado com planejamento e dinamismo. Comparar a versão original com as diversas adaptações é um exercício necessário e instigante”, diz. Muitos especialistas aprovam apenas a leitura de originais, mas uma adaptação bem-feita pode aproximar o leitor da obra.

Os alunos de Irene provam que a professora está certa. Basta uma pergunta sobre a história do cavaleiro para que os adolescentes de 6ª série desembestem a falar. “Eu fecho os olhos e posso imaginar como ele é: tem bigode e barba, o rosto fino e achatado e é um cara muito engraçado”, conta o aluno Frederico Octaviano Nogueira. Para Lucas Lima, autor e personagem se confundem. “Eu acho que Cervantes se inspirou na própria vida para compor a história de Dom Quixote.” Para chegar a esse nível de compreensão da obra, a professora começou o projeto apresentando o autor à turma. Os alunos leram o prólogo de Novelas Exemplares (1613), outra importante obra de Cervantes. Lá descobriram os traços físicos do autor, já que não há nenhum retrato dele. Num exercício de imaginação, desenharam Cervantes e só depois tiveram contato com Dom Quixote, que também foi representado. A turma leu o quarto capítulo do original em espanhol, consultando palavras desconhecidas e fora de uso. Depois comparou o mesmo capítulo com um texto de uma obra adaptada e com o filme Dom Quixote, de Orson Wells (o capítulo do livro se reduz a um trecho de quatro minutos do filme). Uma peça de teatro escrita pelos alunos encerra o projeto. “Hoje os jovens passeiam pelos corredores do colégio com o livro nas mãos e comentam as aventuras”, afirma Irene.

O livro inaugura o romance moderno

Para as séries avançadas, é possível ir mais longe e explorar como Dom Quixote inaugura o romance moderno e influencia diversas obras (veja no quadro atividades indicadas para turmas de Educacão Infantil e de 1ª a 4ª série). Até o lançamento do livro, a forma literária típica da época medieval eram as novelas de cavalaria. No século 16, já considerava-se o gênero ultrapassado. Cavaleiros corajosos e damas eternamente à espera de um amor, características dessas histórias, não faziam mais sentido em um tempo de expansão mercantil. Em Portugal e na Espanha, que se destacavam pelo descobrimento de terras distantes, esses ideais se mantinham. “A obra de Cervantes encerra essa antiga forma de narrativa, parodiando os cavaleiros jovens, valentes e destemidos. O autor cria um personagem velho e louco, que, por mais encantador que seja, não consegue vencer uma batalha. Ele ridiculariza o gênero e apresenta um novo, muito mais interessante”, explica a professora Maria Augusta. No final, Dom Quixote não é coberto de louros, como os outros heroís, mas morre arrependido. Suas ilusões e o choque entre a realidade e o sonho é que seduzem o leitor.

Mais uma prova do fascínio que a obra desperta está no fato de que personagens de muitos livros são inspirados no cavaleiro. O náufrago Robinson Crusoe e o nativo Sexta-feira, da obra do inglês Daniel Defoe, têm muito a ver com Quixote e Sancho Pança, assim como Pinóquio e o Grilo Falante, da história infantil de Carlo Collodi. Até o dramaturgo inglês William Shakespeare, acreditam alguns especialistas, criou Otelo e Hamlet depois de ler Cervantes — os personagens têm muitos traços em comum com Dom Quixote. No Brasil, Mário de Andrade bebeu da fonte espanhola para compor Macunaíma. No cinema, a alma de Quixote está presente no Carlitos, de Charles Chaplin, e no personagem-título de Cidadão Kane, de Orson Wells.

Mesmo sendo tão antiga, essa saga é, sem dúvida, capaz de despertar o interesse dos seus alunos. As figuras de Dom Quixote e Sancho Pança estão muito próximas do perfil dos adolescentes de hoje: apesar da violência, eles sonham com um mundo ideal e mais justo, vivem entre a realidade e a fantasia, mudam de humor com facilidade e sofrem por não conseguir levar a vida como desejam. É isso que diferencia uma obra clássica de outras fugazes: o leitor experimenta as emoções dos personagens e busca respostas para a própria vida.