Por Celso Antunes
Em meio à aula de Matemática, enfiando e enfiando logaritmos, Ricardo percebeu o aluno sentado na última fila de braço erguido:
— Fala aí, Rafa! Qual é o problema?
— Professor… Qual é o sentido da vida?
A primeira emoção que brotou em Ricardo foi a revolta, pois a pergunta, por causa do momento em que foi feita, não tinha o menor sentido. Pensou em advertir o aluno pela proposital fuga ao tema ou, com mais brandura, solicitar a ele que prestasse atenção na aula e fizesse essa mesma pergunta a um professor de Filosofia, ou pelo menos alguém da área de Humanas, mais chegado a questões existenciais. Mas acabou pensando melhor. Rafael não era aluno de dispersar-se e, se perguntava, provavelmente era porque realmente essa dúvida estivesse mexendo com seus pensamentos. Além disso, percebeu que a classe mostrava interesse e que não havia na questão proposta a vontade voluntária de “matar a aula”. Além disso, pensou que sua formação como professor da área de Ciências Exatas não o impedia de possuir uma opinião sobre esse tema.
Parou sua explicação de Matemática, olhou firme para a turma e, notando um olhar de espera, respondeu:
— Bem gente. Não respondo como professor; falo como ser humano. Creio que a resposta a essa questão passa, pelo menos, por duas linhas: a biológica e a metafísica. O sentido da vida, segundo a teoria de Darwin, é a sobrevivência das espécies e seu aprimoramento por meio da seleção natural. Vivemos como vivem outras espécies, mas viver implica se transformar sempre e jamais parar de evoluir para se ajustar ao ambiente. O sentido espiritual nos alerta que viver significa solidarizar-se, servir à sua fé, seja ela qual for, fazendo desse serviço um exercício de contínuo aprimoramento para verdadeiramente sentir o outro em si. Bom, acho que o que penso é mais ou menos isso, minha gente. Agora voltemos aos logaritmos…
Mais tarde, após o encerramento das aulas, em sua diária corrida para o colégio onde ministraria aulas à tarde, pensou naquela cena que aconteceu pela manhã. Surpreendeu-se com a ousadia como invadiu seara alheia, com o interesse da turma em sua opinião não-matemática e, sobretudo, com o fato de os alunos terem aceitado bem, após a breve resposta, a volta ao tema, se não inteiramente interessados, ao menos se esforçando em assim demonstrar. A pergunta do Rafa, entretanto, não saía de sua memória. Pensando no assunto, indagava-se se, com mais calma e estudo, ele responderia da forma que respondeu…
Entre a dúvida, o trânsito e a lembrança, acabou perguntando a si mesmo se o sentido da vida que expressara no plano espiritual seria o mesmo que expressaria caso algum aluno perguntasse-lhe sobre o sentido da vida no plano educacional. E a questão não mais saía de sua mente: qual é o sentido da vida para um verdadeiro professor? Transmitir os conteúdos específicos de sua disciplina? Concluir seu programa? Desenvolver habilidades e competências? Estimular inteligências? Ou, na medida do possível, um pouco disso tudo em cada aula, para cada classe? Seria possível exercitar a integração entre conteúdo e competência? Não seria, por acaso, o conteúdo escolar uma ferramenta para ajudar o aluno a pensar? E pensar não seria, por acaso, a função essencial da aprendizagem?
Chateou-se consigo mesmo por ter tantas perguntas e tão poucas respostas e, em meio à insegurança da dúvida, pensou no breve instante de interrupção da aula da manhã, pensou na curiosidade da turma em ouvir sua resposta, pensou em si mesmo e acabou concluindo, tal como Teresa de Calcutá, que o sentido da vida para um professor é perceber que sua vida só é verdadeiramente vida quando se integra em outras vidas. Adorou a pergunta do Rafa, gostou de sua resposta, ainda que pudesse melhorá-la, e gostou um pouquinho mais de si mesmo ao perceber que vivia sonhando seu envolvimento em outras vidas.
