Educação em Foco

Desânimo na sala de aula

Análise do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) mostra que 40% dos jovens fora da escola a deixaram por desinteresse. A busca de emprego vem em segundo lugar (17%). Por mais que se matizem os dados – não se pode excluir, por exemplo, uma soma de dois ou mais fatores para explicar a evasão-, o diagnóstico de que a escola “é chata” é indisputável.

Despontam aqui duas ordens de problemas. Há aqueles mais marcadamente acadêmicos, como a repetência e a sensação de não aprender nada “útil”, e outros com maior interface social, mas que também resultam em evasão, a exemplo de desemprego na família, gravidez na adolescência. É preciso atacá-los todos.

Só que mudanças de envergadura exigirão medidas no campo acadêmico, as quais políticos relutam em adotar. Um sistema bem feito de progressão continuada ajudaria a baixar os índices de repetência. Remunerar de forma diferenciada docentes e diretores cujos alunos se saiam melhor seria uma fonte de estímulo à excelência no sistema.

Também os “curricula” cobram há tempos uma ampla revisão. Tenta-se ensinar coisas demais aos jovens, perde-se o foco, e o resultado é fracasso. Pelo menos nos anos iniciais, é preciso concentrar-se nas ferramentas básicas – português e matemática -, que mais tarde permitirão ao estudante assenhorear-se das demais ciências.

O fato, incontestável, é que a educação vai mal, e algo precisa ser feito. Um sistema que deixa escapar entre os dedos 16% dos alunos mais velhos precisa de reparos urgentes.

Desperdício bilionário

Esqueça o discurso de que o grande problema da educação no Brasil é a falta de recursos. Tão grave quanto o baixo investimento do país no ensino é o desperdício de dinheiro. O Brasil perde a quantia de R$ 14 bilhões por ano com meninos e meninas que, devido à péssima qualidade do ensino, não aprendem e precisam repetir o ano letivo.

Ou pior: desistem dos estudos e deixam, definitivamente, as salas de aulas. A repetência e a evasão escolar nos ensinos fundamental e médio custam, respectivamente, R$ 9,2 bilhões e R$ 4,8 bilhões. O dinheiro faz falta aos parcos investimentos brasileiros em educação, que anualmente giram em torno de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

 O dinheiro perdido equivale a 560 prêmios acumulados da Mega-Sena, que pagou no sábado R$ 25 milhões. A mesma verba daria para comprar, durante 30 anos, 102,5 milhões de livros de alfabetização e das disciplinas de português, matemática, ciências, história e geografia, beneficiando 28,6 milhões de estudantes de 1ª a 8ª séries que, segundo o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), custam R$ 456,7 milhões aos governos.

“O grande problema é que, no Brasil, não existe preocupação com a qualidade do que é tratado em sala de aula. A idéia que predomina na hora de fazer investimentos e gastos está centrada na cobertura”, observa Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. “A educação já não é prioridade. A qualidade do ensino é mais retórica do que prática”, completa.

O investimento perdido deixa clara a urgência de se mudar a sistemática da aplicação de dinheiro na educação. A dinheirama representa mais de 25% do que se gasta com o desenvolvimento do ensino básico. Levando em conta os repasses per capita do Fundo de Desenvolvimento da Educação Fundamental (Fundef) e a média gasta no ensino médio por ano, o país investe R$ 52 bilhões nos dois níveis de ensino. Este é o valor aproximado do que será alocado no Fundo do Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) em 2010, quando estiver em pleno funcionamento.

Prejuízo humano 

A estudante Vanessa Lopes dos Santos não sonha em ganhar a Mega-Sena. Sua maior ambição é ser promotora de Justiça. Aos 16 anos, está longe de concretizar seus planos. Vanessa fez quatro vezes a 4ª série. Quando estava na 6ª série, ficou grávida. Hoje, mãe de um menino de 7 meses, ela pretende voltar para a escola, mas admite que o caminho está cheio de obstáculos. Seria possível multiplicar os anos de repetência e o abandono escolar da garota pela média de repasses de recursos do Governo do Distrito Federal (GDF). Não vale a pena. Para Vanessa, o prejuízo é incalculável.

Para a secretária de Educação de Belo Horizonte, Maria do Pillar, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), tal desperdício é sentido a médio prazo e não apenas no orçamento anual destinado à educação. “A gente perde uma fortuna. Mas ainda mais grave são os meninos e as meninas que vão largar a escola e engrossar os 40 milhões de brasileiros que não têm o diploma do ensino básico”, afirma. “São pessoas proibidas de exercer o direito ao estudo, o direito à cidadania plena. Para piorar, 90% são pobres.”

É o caso da família Gama Silva. Os irmãos Paulo Henrique, 12 anos, e Mônica, 11, estão no início da vida acadêmica. Ambos já perderam um ano letivo. Os dois estão na quarta série. O menino repetiu a 2ª e a menina, a 3ª série. Apesar disso, adoram a escola, assim como os dois irmãos caçulas: Aline, 9 anos, e Carlos, 6. “Não tem nada errado. A culpa foi minha que não aprendi matemática”, afirma Paulo Henrique.

De acordo com Pillar, o menino não poderia estar mais errado. “A escola é analógica e nossas crianças são digitais. A gente não pode querer que o ensino ocorra da mesma forma que no século 18, com aquela fila de cadeiras e as crianças olhando umas para as nucas das outras”, avalia.

A secretária de Educação de Tocantins, Maria Auxiliadora Resende, presidente em exercício do Conselho Nacional de Secretários de Educação, constata o ciclo vicioso. “Falta dinheiro por causa dos problemas históricos, mas a repetência e a evasão agravam ainda mais a carência de recursos”, afirma.

No estado do Tocantins, a solução encontrada foi uma parceria entre o governo e o Instituto Ayrton Senna, que fornece, no Programa Acelera, monitoria para os meninos defasados no fluxo escolar. O custo é de R$ 150 por ano para cada aluno. “Fica claro que a questão é mais de comprometimento do que de dinheiro”, afirma Maria Auxiliadora.

Gestão de recursos é compartilhada

Não existem números oficiais sobre o desperdício de verbas com o ensino de crianças e adolescentes, entre 6 e 17 anos, que repetem o ano letivo ou largam os estudos. A principal causa é a distribuição de responsabilidades constitucionais pelos níveis de ensino. A educação infantil é responsabilidade dos municípios. O ensino fundamental é dividido entre prefeitos e governadores. E o ensino médio é obrigação dos governos estaduais. Além disso, estados e municípios não informam os valores da gestão dos recursos da educação.

A cifra de R$ 14 bilhões foi calculada pela reportagem do Correio a partir de um cruzamento de dados fornecidos pelo Ministério da Educação (MEC). Além da repetência, que implica o retorno da criança e do adolescente para rever o conteúdo ensinado, também foram calculados os números de evasão, quando os alunos deixam o sistema escolar em definitivo. “Nesse caso, o prejuízo é mais impactante na vida escolar desses meninos do que necessariamente dos recursos financeiros. Muitos dos que abandonam a escola chegaram a terminar o ano letivo”, explica Reynaldo Fernandes, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

Para chegar ao valor das perdas, o primeiro passo foi descobrir, na base EdudataBrasi – www.edudatabrasil.inep.gov.br – o percentual de alunos que reprovam e abandonam os estudos a cada ano. Os números mais recentes são de 2004, divididos, por estado, entre ensino fundamental e médio.

Com o percentual de 2004 em mãos, foi possível descobrir dois índices: 21,1% de repetência, entre 1ª e 8ª séries, e 22,5%, entre 1º e 3º ano representam em números absolutos. O mesmo foi feito para obter os números da evasão. Para isso, foi usado o Censo da Educação Básica 2004, disponível no site do Inep – www.inep.gov.br. Em 2004, mais de 10 milhões brasileiros repetiram de série e outros três milhões deixaram o sistema educacional, independentemente de terem ou não concluído o ano letivo.

Por fim, o número de estudantes foi multiplicado pelo repasse anual de recursos por cada nível de ensino. Os valores também foram fornecidos pelo MEC. Para 1ª a 8ª séries foi usado o valor per capita do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef) de 2004. O cálculo foi feito por estado, já que há variação entre as unidades da Federação. Enquanto São Paulo repassou, naquele ano, R$ 1.439 por estudante, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará e Piauí transferiram R$ 564.

No caso do ensino médio, a reportagem usou uma média nacional de gastos para alunos matriculados entre o 1º e o 3º anos. O número mais recente disponível no MEC refere-se a 2002 e é de R$ 1.152. Com tais números em mão, foi a hora de fazer a atualização do valor monetário, descontando a inflação do período, para os dias de hoje. O cálculo foi feito usando ferramenta disponível no site do Banco Central – www.bc.gov.br.

O aluno perfeito

Era uma vez um jovem casal que estava muito feliz. Ela estava grávida, e eles esperavam com grande ansiedade o filho que iria nascer. Transcorridos os nove meses de gravidez, ele nasceu. Ela deu à luz um lindo computador! Que felicidade ter um computador como filho! Era o filho que desejavam ter! Por isso eles haviam rezado muito durante toda a gravidez, chegando mesmo a fazer promessas.

O batizado foi uma festança. Deram-lhe o nome de Memorioso, porque julgavam que uma memória perfeita é o essencial para uma boa educação. Educação é memorização. Crianças com memória perfeita vão bem na escola e não têm problemas para passar no vestibular.

E foi isso mesmo que aconteceu. Memorioso memorizava tudo que os professores ensinavam. Mas tudo mesmo. E não reclamava. Seus companheiros reclamavam, diziam que aquelas coisas que lhes eram ensinadas não faziam sentido. Suas inteligências recusavam-se a aprender. Tiravam notas ruins. Ficavam de recuperação.

Isso não acontecia com Memorioso. Ele memorizava com a mesma facilidade a maneira de extrair raiz quadrada, reações químicas, fórmulas de física, acidentes geográficos, populações de países longínquos, datas de eventos históricos, nomes de reis, imperadores, revolucionários, santos, escritores, descobridores, cientistas, palavras novas, regras de gramática, livros inteiros, línguas estrangeiras. Sabia de cor todas as informações sobre o mundo cultural.

A memória de Memorioso era igual à do personagem do Jorge Luis Borges de nome Funes. Só tirava dez, o que era motivo de grande orgulho para os seus pais. E os outros casais, pais e mães dos colegas de Memorioso, morriam de inveja. Quando filhos chegavam em casa trazendo boletins com notas em vermelho eles gritavam: “por que você não é como o Memorioso?”

Memorioso foi o primeiro no vestibular. O cursinho que ele freqüentara publicou sua fotografia em outdoors. Apareceu na televisão como exemplo a ser seguido por todos os jovens. Na universidade, foi a mesma coisa. Só tirava dez. Chegou, finalmente, o dia tão esperado: a formatura. Memorioso foi o grande herói, elogiado pelos professores. Ganhou medalhas e mesmo uma bolsa para doutoramento no MIT.

Depois da cerimônia acadêmica foi a festa. E estavam todos felizes no jantar quando uma moça se aproximou de Memorioso e se apresentou: “Sou repórter. Posso lhe fazer uma pergunta?” “Pode fazer”, disse Memorioso confiante. Sua memória continha todas as respostas.

Aí ela falou: “De tudo o que você memorizou qual foi aquilo que você mais amou? Que mais prazer lhe deu?”

Memorioso ficou mudo. Os circuitos de sua memória funcionavam com a velocidade da luz procurando a resposta. Mas aquilo não lhe fora ensinado. Seu rosto ficou vermelho. Começou a suar. Sua temperatura subiu. E, de repente, seus olhos ficaram muito abertos, parados, e se ouviu um chiado estranho dentro de sua cabeça, enquanto fumaça saia por suas orelhas. Memorioso primeiro travou. Deixou de responder a estímulos. Depois apagou, entrou em coma. Levado às pressas para o hospital de computadores, verificaram que seu disco rígido estava irreparavelmente danificado.

Há perguntas para as quais a memória não tem respostas . É que tais respostas não se encontram na memória. Encontram-se no coração, onde mora a emoção…

Como e quando Lula priorizará a educação?

Na América Latina, a universalização do ensino fundamental tem sido proporcional à elitização do ensino superior nos últimos anos. Isso aprofunda a desigualdade social, atrofia a capacidade de exercício da cidadania, inibe o diálogo social. Quanto mais baixo o nível de escolaridade da população, menor a sua renda. O país perdura como um vasto quintal propício à exploração de seus recursos humanos e naturais por parte do capital transnacional.

Dados revelam que quanto maior a presença do Estado, melhor a educação. No Brasil, o investimento público em educação é insignificante. De 1995 a 2005 ficou em torno de R$ 20 bilhões/ano. Naquela década, a arrecadação da União cresceu proporcionalmente ao PIB; subiu de 16,8% para 22,8%. Nem por isso se alterou o investimento em educação. O superávit primário e o ajuste fiscal falaram mais alto.

O ano de maior recurso foi 2002, com dotação de R$ 22,1 bilhões. No governo Lula, investiram-se R$ 21 bilhões em 2003; R$ 20 bilhões em 2004; e R$ 20,4 bilhões em 2005. O Brasil investe 4,3% do PIB em educação, quando teria que dobrar. Os países asiáticos, destroçados pelas guerras das décadas de 1940/50, tornaram a educação alavanca de desenvolvimento graças à injeção de recursos, que variavam de 8 a 12% do PIB.

O Plano Nacional de Educação, aprovado pelo Congresso em 2001, fixava em 7% do PIB os gastos em ensino. Infelizmente o professor-presidente FHC vetou. E Lula ainda não derrubou essa “herança maldita”. O ministro Fernando Haddad (queira Deus que o presidente Lula o conserve à frente do MEC) defende a elevação para 6% do PIB, seguindo recomendação da Unesco. Sem choque de investimento em educação, cobrado pelo Ipea, a prioridade do presidente Lula neste segundo mandato – melhorar a educação – terá igual destino da reforma agrária “priorizada” ao início do primeiro mandato…

O Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos profissionais da Educação) promete transferir, neste ano, R$ 2 bilhões de recursos federais a estados e municípios. Em termos de PIB equivale a um pífio acréscimo de apenas 0,1% em educação. Em 2010, quando o Fundeb estiver a pleno vapor, recebendo mais de R$ 5 bilhões, ainda assim a contribuição federal ficará em 0,3% do PIB.

Mais de 90% dos recursos do Fundeb são arrecadados por governos estaduais e prefeituras. O governo federal canta loas com voz alheia. O Ipea recomenda que a verba do governo federal seja adicional, e não mero remanejamento dos recursos do MEC. Dos R$ 2 bilhões deste ano, por exemplo, R$ 800 milhões já seriam repassados normalmente a estados e municípios. Portanto, não se trata de recursos extras. Quando a multidão de crianças e jovens brasileiros terão mais importância que os credores da dívida pública?

A violência urbana, outra prioridade do segundo mandato de Lula, resulta também do baixo nível de escolaridade de nossa população. Sem estudos não se consegue emprego. Sem emprego, não há renda. Sem renda… só restam a mendicância ou o crime. A média de escolaridade no Brasil cresce muito lentamente: 5,5 anos em 1995, e 7 anos em 2005. Nem sequer atingimos o nível de escolaridade obrigatória no país, que é de 8 anos.

No sistema ibero-americano, países como Espanha, Portugal e Cuba aumentaram de modo significativo, nos últimos 30 anos, a qualidade dos ensinos médio e superior, graças ao investimento público. Portanto, cautela frente à euforia privatizadora! Esta, além de fazer da educação uma mercadoria, anulando sua natureza de direito social, segrega todos aqueles que não dispõem de recursos suficientes para pagar uma boa escola.

As lacunas na educação aprofundam o fosso entre nações industrializadas e emergentes. Enquanto nas primeiras 85% dos jovens completam o ensino médio, na América Latina o índice é de apenas 35%. Na década de 1990, os países industrializados investiram na educação, em média, 6% do PIB; na América Latina não ultrapassou 4,1%.

Não se pode falar em educação de qualidade sem tempo integral na escola para alunos da pré-escola ao ensino médio. Quatro horas diárias de período escolar é muito pouco, sobretudo considerando que, fora da escola, muitos ficam absorvidos pelo entretenimento deseducativo da TV.

O Brasil precisar eliminar também o analfabetismo digital e introduzir na escola tecnologias de informação e comunicação, que facilitam o acesso de alunos e professores à informação atualizada, favorecem a educação à distância, tornam mais participativos os processos de aprendizado.

O analfabetismo cibernético gera menor produtividade e renda profissional; menos opções de mobilidade social; exclui do acesso à informação e a mercados; prejudica o uso eficiente do tempo; inibe a participação política, o poder de gestão, o intercâmbio comunicacional e cultural.

“Estou conectado, logo existo”, diria hoje Descartes. No Brasil, o ProInfo (Programa Nacional de Informática em Educação), do MEC, precisa ser incrementado e, sobretudo, dotado de maiores recursos. No Chile, a Rede Enlances possibilita que hajam terminais interconectados em todo o sistema escolar. Na Costa Rica, o Programa de Informática Educativa permite, desde 1988, que todos os alunos do ensino fundamental e médio acessem a Web.

Na Argentina, o Programa Educar funciona como portal de conteúdos educativos, ferramenta de capacitação de docentes e plano de conexões. Nos EUA, de 1994 a 2000 passou-se de 14% de escolas conectadas e 3% de classes a quase 2/3 de classes e 100% das escolas, incluídas as mais pobres.

Com menos de 8% do PIB em educação o governo pode até obter índices idênticos de crescimento do PIB, mas não aprimorará o Índice de Desenvolvimento Humano e nem tornará o Brasil uma nação menos desigual e mais justa.

Frei Betto é escritor, autor de “Batismo de Sangue” (Rocco), entre outros livros.

Uma vitória na educação

A Embraer é exemplo de planejamento bem concebido e melhor executado. As políticas públicas adotadas nos países vencedores, isto é, aqueles que desenvolveram culturas e produtos distribuídos por todo o mundo, mostram que todos os que adotaram ações necessárias para melhorar os índices educacionais de suas populações conseguiram resultados realmente excepcionais.

Segundo levantamento da OCDE, para avaliar o rendimento escolar em 40 países, mostrou que a maioria dessas nações tem coletado resultados sensíveis, tanto no campo social como no material. O Brasil está relacionado nos últimos lugares entre as comparações realizadas. Segundo dados do Ministério da Fazenda, do total arrecadado em impostos pelo governo federal, no período de janeiro de 2003 até setembro de 2006, a União gastou em educação apenas 1,29%. Se tomarmos apenas um exemplo, o da Coréia, constata-se que os coreanos não só investem bem mais em educação do que o Brasil, como também continuam a fazer uso mais eficiente do dinheiro, conseguindo resultados excepcionais no seu desempenho econômico e social.

De acordo com o Ministério da Educação, mais de 90% dos estudantes brasileiros terminam o ensino fundamental abaixo do nível adequado, apresentando dificuldades para reter ou compreender textos básicos. O resultado constatado é que grande parte dos trabalhadores brasileiros carregam consigo não mais do que quatro anos de escolaridade, contra 12 dos construtores de riquezas, como os coreanos.

Na busca de exemplos, não há necessidade de ir ao outro lado do mundo para conseguir comparações válidas e demonstrativas. Aqui mesmo, no nosso País, temos muito a comemorar a partir de empreendimentos brasileiros que funcionaram, os quais tiveram como ponto de partida a educação. Eles mostram vigorosas taxas de expansão e estão vencendo não somente no nosso mercado interno como saltaram com êxito para o comércio internacional. Por exemplo, quando se examina o que a Embraer conseguiu, muitos ainda se mostram surpresos. Todavia, se olharmos para trás – há cerca de 60 anos – vamos encontrar um pequeno grupo de oficiais da Aeronáutica, visionários, simplesmente afirmando que o Brasil somente fabricaria aviões se antes produzissem engenheiros e técnicos. Em outras palavras, se começasse pela educação.

Foi o que fizeram. Conseguiram convencer o Ministério da Aeronáutica a criar o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e, posteriormente, o Comando Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos. Desde a materialização da idéia, em 1950, mais de 4.500 engenheiros foram formados, além de vários outros milhares de pós-graduados. Foi do esforço a partir da formação dos primeiros técnicos e engenheiros que começaram a florescer as empresas, bases da construção aeronáutica nacional de hoje.

Em novembro, dois livros foram publicados procurando contar a história de lutas daqueles que acreditaram no futuro, em meados da década de 40, focalizando a vida e obra do líder do grupo, o brigadeiro Casimiro Montenegro Filho, um grande brasileiro do Ceará. Aquele time foi capaz de criar diferenças, mudando a realidade de um país ainda no estágio de subdesenvolvimento. Esses livros contam como e por que a iniciativa da Força Aérea Brasileira de investir em educação, criando o ITA deu certo e funciona ainda hoje. Uma real vitória da educação!

Nenhum milagre. Ou melhor, os resultados mostram um planejamento bem concebido e melhor executado. Na atualidade os números impressionam. Aviões brasileiros exportados voam nos mais diferentes sistemas de transporte aéreo em mais de 60 países. As vendas de 2006 superaram os R$ 10 bilhões. Milhares de empregos de alto nível foram criados. Uma nova geração de tipos e modelos de aviões capazes de transportar de 70 a 120 lugares foi projetada, desenvolvida e fabricada.

Os novos produtos competem com competência e qualidade, mostrando um exuberante número de US$ 14 bilhões em encomendas firmes para unidades a serem entregues nos próximos anos para todo o mundo. Tudo isto só no setor aeronáutico. O mesmo ocorre em outros campos das atividades industriais e de serviços nacionais, mostrando o poder transformador da educação.

Fica difícil hoje para o povo deste País, criativo e com uma inequívoca aspiração pelo progresso e desenvolvimento, compreender as razões que impedem investimentos em educação e treinamento e, após tantas constatações, sejam tão reduzidos. Não é fácil compreender que limitações permaneçam segurando o potencial de realizações e de riquezas que podem emergir da cabeça e da criatividade dos brasileiros.

O presidente Lula, no seu discurso de posse para o segundo mandato, anunciou um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Boa notícia, mas foram mencionados somente os investimentos em infra-estrutura material, nada se colocando para o aperfeiçoamento humano dos brasileiros, estes os reais criadores de riqueza por força de seus esforços criativos. O que se espera é que esta área não seja esquecida. A cultura, a legislação e os regulamentos estabelecidos no passado mostraram até agora, resultados insuficientes. Um esforço conjunto entre os poderes públicos e os empreendimentos privados precisa ser implementado para modificar as ações nesse vital campo da Educação. É também difícil compreender quais os benefícios que a tributação sobre o setor educacional dos cidadãos pode trazer para a arrecadação pública de impostos e taxas. Urge um real esforço, e mesmo uma pressão da sociedade, para mudar e consagrar o grande diferencial que pode levar a nação a patamares significativamente diferentes daqueles do passado. É justo aspirar que os brasileiros sejam crescentemente vitoriosos nos desafios que o mundo global de hoje oferece a todos os qualificados para explorar as oportunidades de progresso e desenvolvimento.

Cybele e as letras

Por Ana Aranha (Revista Época)

REESCREVENDO VIDAS

“Ela não vai aprender a ler.”

A sentença, afirma Cybele Amado, foi dada a sua mãe pela professora da 3ª série. “Minhas lições voltavam riscadas de tinta vermelha”, diz ela. “Eu tinha uma dislexia leve, trocava o V pelo F, mas me condenaram a repetir o ano. Caí na sala de minha irmã mais nova. Foi um trauma.”

A história poderia ter acabado com um ponto final precoce. Mas Cybele mudou o enredo. Não só se tornou professora como passou a reescrever o destino de milhares de crianças no interior da Bahia: criou um método capaz de quadruplicar os índices de alfabetização e reduzir em mais de quatro vezes os de evasão.

Primeiro, Cybele libertou-se da carapuça de aluna com dificuldades de aprendizagem. Na 8ª série, já balançava os pés atrás da mesa de professora. Tinha sido convidada a ensinar matemática a colegas em situação de risco. Depois fez faculdade de Educação e pós-graduação em Psicopedagogia. Chegou a montar um colégio particular na capital baiana, em parceria com quatro amigos, chamado Escola Alternativa. Mas ela achou pouco. Acabara de voltar de férias da Chapada Diamantina quando tomou a decisão de mudar-se para lá, para mudar a realidade de lá.

Aos 23 anos, Cybele abandonou Salvador para morar sozinha no Vale do Capão, um povoado de mil habitantes a 480 quilômetros da capital. Cercada pelos paredões de pedra da Chapada, sua casa não tinha sequer energia elétrica. Todo fim de tarde a jovem professora acendia uma fogueira para dissipar o medo do escuro. Quando a luz do fogo não era suficiente para espantar tantas sombras, ela chamava uma estudante para lhe fazer companhia.

Cybele corrigia as lições dos alunos de 5ª série quando levou um susto: encontrou nos textos os mesmos traços de dislexia de sua infância. “Fui procurar a raiz do problema”, afirma. “Foi aí que descobri como a dislexia leve pode ser fruto do ensino.” Cybele desconfiou que sua dislexia havia sido gerada pela deficiência da alfabetização que recebeu. Já tinha certeza de que repetir o ano fora o pior remédio.

Montou num quarto da casa um pronto-socorro para crianças pequenas com dificuldades de alfabetização. Depois de avaliá-las, Cybele concluiu que apenas uma tinha sinais de distúrbio. “As outras eram vítimas de um sistema educacional em que é normal gritar com a criança, e a língua é ensinada como se fosse um código.” O método dos professores antigos do Capão, segundo ela, se restringia à cartilha do “B mais A é igual a BA”. As crianças sabiam ler as sílabas e pronunciar as palavras, mas nem sempre entendiam o significado.

O choque de reencontrar seus fantasmas nos textos dos alunos foi tão grande, diz Cybele, que voltou a trocar as letras: encontrou na própria caligrafia um “veroz” onde quis escrever “feroz”. Ainda hoje tropeça no sotaque ao contar o episódio.

Na escola com chão de terra batida, paredes sujas e nenhuma identificação na porta, ela buscou um jeito de fazer criança pequena gostar de ler e de escrever. Não inventou metodologia nova nem teoria revolucionária. Montou uma rede de apoio ao professor que estimula a reflexão sobre o ensino e o uso de brincadeiras, histórias e atividades fora da sala. Implantou também um sistema de acompanhamento que investiga as atividades que dão certo e as que precisam ser reformuladas.

A maioria dos adultos do Capão – oficialmente o nome do povoado é Caeté-Açu, mas ninguém o chama assim – não escreve muito mais que o nome. De repente, os filhos começaram a fazer poesia e pedir prosa de Clarice Lispector. A notícia se espalhou. Em 2000, o Projeto Chapada começou a tecer uma rede que hoje envolve 1.200 escolas. São mais de 5 mil professores acompanhados por coordenadores pedagógicos. Todos eles sob a orientação exigente da professora Cybele Amado. Nos seis anos de projeto, o índice de evasão escolar caiu de 23% para 5% – metade da média nacional para a zona rural.

Em 2005, o projeto alcançou mais 16 municípios. Em apenas um ano, o índice de alunos alfabetizados na 1ª série pulou de 11% para 40%. É quatro vezes maior do que era – e ainda é pouco. A realidade do interior da Bahia é a mesma de 80% dos professores da zona rural do país: só estudaram até o ensino médio. A maioria pega o giz para ensinar as letras sem ter passado por uma faculdade. O que Cybele mudou? “Oxente, a diferença é que passamos a pensar a educação como profissionais, não como professorinhas”, diz ela.

Conhecida pelas escolas em que circula como um doce general, Cybele é delicada no falar, mas direta na mensagem. “Educação não é missão para quem gosta de criancinhas.” Segundo sua cartilha, gostar é verbo escasso. Tem de ser “louca por criança”. O resultado são alunos curiosos, como Laís, de 7 anos. A menina não desgruda dos gibis da Turma da Mônica na hora do intervalo. Toda semana leva um livro diferente para casa. O preferido é o de Chapeuzinho Vermelho. Fez até a mãe, Diosina Pereira, prometer que vai à cidade comprar um só para ela.

Diosina acompanha o que acontece na escola pela Associação de Pais, Educadores e Agricultores. A comunidade se organizou no dia em que Cybele fez uma greve entre os alunos para exigir a contratação de professores nativos do povoado. Antes, os professores faltavam toda segunda e sexta-feira com a desculpa de que tinham de viajar os 30 quilômetros que separam o povoado da sede, a cidade de Palmeiras.

“Antes de Cybele, aula de Português era só tomar ditado e fazer cópia. A escola não tinha nem giz!”, diz Rosângela Mendes. “Ela trouxe música, fez a gente escrever cartas poéticas.” Rosângela estava na 6ª série quando a forasteira chegou. Fez muita companhia a Cybele ao lado do fogo nas noites escuras. Hoje é diretora da escola.

Além de Rosângela, outros oito alunos viraram professores. Todos dão aula na escola do Capão. Cybele se emociona quando volta à escola do Capão, de onde saiu há menos de um ano para expandir o projeto. Logo é cercada:

– Cybele Amado! – diz uma criança.

– Você não sabe quanto eu tirei em Português… – diz uma segunda criança.

– Vai voltar quando? – diz outra.

A professora responde: “Lembra da história de ter de escolher entre ajudar 200 ou ajudar mil?”. Horas depois, em seu escritório, ela é mais precisa: “São 115 mil alunos beneficiados pela rede”. E já vai dizendo: “Coloque aí o mais importante: aqui não se faz nada pela metade. Todas essas crianças saem capazes de se deliciar com o que lêem”.

Apanhador de meninos

DOUTOR PARTEIRO – Áureo Augusto promove consultas pouco ortodoxas, pagas com jacas e mamões.

Cybele Amado não teve filhos, mas é mãe do Vale do Capão. Além de espalhar o gosto pela leitura entre as crianças, ela não perde os primeiros minutos de suas vidas. É que a professora-mãe se casou com o médico-parteiro da comunidade: doutor Áureo Augusto. Ele atende a população local de graça há 23 anos e já perdeu a conta de quantos meninos acolheu na companhia da enfermeira improvisada. O casal recebe o pagamento de partos e consultas na forma de frutas, verduras e ovos que o povo vai deixando na porta. Eles, que são vegetarianos, agradecem. “No começo, a gente chegava e já tropeçava numa jaca. Hoje, deixamos uma cesta do lado de fora. É só chegar e recolher a feira”, diz Áureo. Quando andam pelas estradas, Cybele vai apontando para o marido os rostos que ele pôs no mundo. “Esse povo tem muito filho! Mas desejam cada um que nasce. Vi uma mãe perder o seu 16o e chorar como se fosse o único”, diz o parteiro. Áureo deixou Salvador para fundar uma comunidade alternativa na Chapada. Acabou acolhendo bebês com luz suave e música ambiente. Em sua casa e no consultório só se pode entrar descalço. Além de médico, ele é artista plástico, escritor e marceneiro. Se a política desembarcasse em Capão, o casal brinca que faria uma bela plataforma eleitoral: “Educação e saúde!”. Bom de bola – “e de poesia”

A MELHOR JOGADA – Saulo dos Santos é um exemplo do que acontece quando a escola não desiste do aluno, por mais que ele tente desistir da escola.

Saulo dos Santos tem 13 anos e três repetências. Ele era um garoto de olhos agitados e respostas rápidas que havia perdido o interesse pelos estudos. Ou melhor: não dá para perder o que nunca se teve. Enquanto seus colegas assistiam às aulas, ele escapava para a quadra de terra nos fundos da escola. “Eu ia mal porque não queria estudar mesmo, preferia jogar futebol”, diz Saulo. A professora Cybele olhou bem para ele. Teve longas conversas com o garoto, seus pais e professores para entender a aversão pelas letras. Percebeu que para chamá-lo para dentro da escola era necessário investir no que ele tanto gostava no lado de fora. Saulo foi escalado para o time de futebol do povoado e o treino condicionado à presença na aula. Esse ano ele não perdeu uma. Também propôs e ganhou o primeiro campeonato de futebol da escola e se revelou um belo artilheiro. O menino faz parte de uma família de 16 filhos, 14 vivos, típica do interior da Bahia. Sua mãe, Maria das Graças Santos, afirma: “A gente vive da roça, da graça de Deus e há quatro meses de uma bolsa do governo”. Ela mesma parou de estudar na 4ª série porque não tinha professora de 5ª. Agora, está abismada com o filho: “Esse menino não se interessava por nada, mas a escola não largou ele. Hoje, ele vai estudar até debaixo de chuva”, diz. Maria das Graças fala firme sobre os filhos que perdeu e sobre o cotidiano sem energia elétrica. A voz só fraqueja quando se lembra da despedida de Cybele. “Ela fez uma ceia cheia de sentimento. Deu uma semente para cada um. A nossa eu plantei aí fora”, diz. “Deu um girassol.” Saulo interrompe a entrevista para saber se o São Paulo tem time júnior. É um baiano são-paulino. Parecia que não precisava nem perguntar, sua aula preferida só podia ser Educação Física. Ele esclarece: “Na escola? Não, o que eu gosto aqui é de escrever. Sou bom de poesia!”.

Evasão no ensino superior

EM DECORRÊNCIA da reportagem publicada nesta Folha de S.Paulo em 31/12 sobre o estudo da evasão no ensino superior brasileiro realizado pelo Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, da Ciência e da Tecnologia, temos sido freqüentemente indagados sobre as causas da evasão e os possíveis remédios para combatê-la.

Nos últimos cinco anos, como mostrou a reportagem, a taxa de evasão anual média no Brasil correspondeu a 22%. No setor público, a evasão significa recursos públicos investidos sem o devido retorno. No setor privado, ela é uma importante perda de receita.

Em ambos os casos, a evasão é uma fonte de ociosidade de professores, funcionários, equipamentos e espaço físico. 

Portanto, para o país, a desistência do aluno representa perdas sociais e econômicas importantes. Do ponto de vista da instituição, não há maior fracasso no atendimento de sua missão do que o aluno que se evade.

Enquanto, no setor privado, 2 a 6% das receitas são despendidos com marketing para atrair novos estudantes, nada parecido é investido para manter os alunos que já estão matriculados. No entanto, estudos internacionais indicam que o custo para manter um estudante é cerca de quatro vezes menor do que o necessário para atrair um novo aluno.

No Brasil, são raríssimas as instituições de ensino superior (IES) que possuem um programa profissionalizado de combate à evasão, com planejamento de ações, acompanhamento de resultados e coleta de experiências bem sucedidas. Este problema vem sendo estudado sistematicamente há muitos anos nos EUA, onde se encontram os dados mais completos e as estatísticas mais abrangentes sobre as causas e as formas de combater a evasão estudantil.

Segundo professor Vincent Tinto, da Universidade de Syracuse, considerado uma das maiores autoridades mundiais neste assunto, “as pesquisas mostram que a freqüência e a qualidade da interação dos estudantes com os professores, funcionários e colegas é um dos principais indicadores não só da permanência, mas também do aproveitamento estudantil”. A necessidade de o aluno estar envolvido não só com seu aprendizado, mas também com o dos seus colegas, estimulou nos EUA a criação dos chamados centros de aprendizagem.

Também é bem conhecido que mais de metade das evasões tem origem real no primeiro ano do curso. Tinto afirma que é preciso trabalhar para que alguns estudantes não comecem as aulas regulares tão atrasados em relação aos demais que sua integração ao programa acadêmico regular seja impossível.

Ele diz ainda que “embora os estudantes citem freqüentemente razões financeiras para a evasão, estas, na verdade, refletem o produto final e não a origem da decisão de sair. Esta decisão leva em conta prioridades conflitantes dos estudantes”.

Professor Corts, ex-presidente da Samford University, também minimiza a importância das questões financeiras como causa preponderante da evasão. Comparando o abandono do aluno com um caso de amor mal sucedido, Corts diz que os “estudantes não abandonam faculdades por grandes razões, mas por acúmulo de pequenas razões que destroem suas justificativas de escolha de uma instituição”.

Portanto, para combater a evasão, recomendam-se:

– Especial atenção ao aluno ingressante, com programas de integração e nivelamento, seminários, tutorias, apoio na escolha de disciplinas etc.

– Análise dos dados locais de evasão que identifique as épocas críticas e as principais causas e que resulte em estratégias especiais para os maiores candidatos à evasão;

– Programas permanentes de orientação e acompanhamento dos alunos;

– Envolvimento de toda a IES no combate à evasão. Ela não é um problema só do coordenador de curso ou do setor de apoio ao estudante, mas de todos os professores e funcionários, além da Administração Superior.

Não nos esqueçamos, porém, que alguns estudantes sempre irão se evadir. Engano na escolha do curso, exigência de estudo acima do esperado para quem busca somente um diploma e transferência para IES mais desejadas são razões que sempre existirão. 

O importante na luta contra a evasão é que os alunos não abandonem seus cursos por motivos que poderiam ser evitados.

ROBERTO LEAL LOBO E SILVA FILHO , ex-reitor da USP, é presidente do Instituto Lobo.

MARIA BEATRIZ DE C. M. LOBO , ex-vice-reitora da Universidade Mogi das Cruzes, é vice-presidente do Instituto Lobo.

OSCAR HIPÓLITO , ex-diretor do Instituto de Física USP-São Carlos, é consultor do Instituto Lobo.

É preciso aprender a aprender

Tomamos conhecimento, em novembro, de que um colégio particular da zona sul de São Paulo não aceitou a matrícula de uma criança. E ainda teve ganho de causa na Justiça. Motivo? A pequena de 7 anos tem síndrome de Down. Justificativa?

Um juiz entendeu que a escola não tinha a obrigação de aceitar a menina no seu quadro de alunos, mesmo que para fundamentar a sua decisão tivesse de desrespeitar não apenas a Constituição brasileira, como também diversas leis que garantem a universalização do ensino, em detrimento da discriminação. Esse perrengue judicial jogou holofotes sobre o assunto e acabou estimulando uma pergunta que reverbera pelos quatro cantos do Brasil: afinal, precisamos incluir a que preço?

Duas correntes se formaram e tomaram caminhos opostos. Por um lado, acredita-se que a solução adequada seja não forçar a inclusão em colégios que não estão preparados para receber crianças que precisam de diferentes métodos de aprendizagem. Junta-se a essa corrente a justificativa de que as crianças com deficiência precisam de local adequado para estudar, um espaço com pessoas capacitadas para compreenderem e estimularem a educação de forma diferenciada. Também se fala em manter as crianças com deficiência longe da chacota infantil, da verdade sem rodeios que é característica e própria das crianças.

Segue pelo outro lado o rol de agentes da inclusão. Para estes, toda escola tem a obrigação de estar habilitada a incluir. Se não há um quadro de funcionários capacitados, forme os educadores. Se o espaço não é propício para lidar com as diferenças, há um equívoco cabal nisso. Em todos os lugares e em todos os momentos lidamos com diferenças. Afinal, somos diferentes em nossa própria natureza, não há um ser humano igual ao outro. Por essa análise, qualquer professor tem de respeitar o tempo cognitivo do aluno para poder ensinar com plenitude. Todas as crianças têm capacidade de aprender, é preciso apenas saber como.

Para uma criança com deficiência é importante conviver com outras crianças. Esse aprendizado é relevante para a educação de ambas. Para as primeiras, o convívio estimula seu desenvolvimento e cria parâmetros de vivência social. Para as outras, essa é a primeira pedra que se atira para derrubar uma barreira que se pode formar futuramente: o preconceito ancorado na falta de informação, na falta de convivência.

Essa discussão exalta os humores nacionais. Será que é necessário forçar a inclusão da criança com deficiência nos colégios regulares, mesmo havendo discriminação por toda parte, a começar por alguns educadores, ou deixá-las em escolas especiais, onde poderiam ser atendidas adequadamente, porém longe do convívio de outras?

A minha resposta é fazer as duas coisas. É preciso que todos empunhem a inclusão como bandeira real, ou seja, tomando a causa com atitude. Precisamos que as escolas regulares aceitem crianças com deficiência. Mas, antes disso, devemos buscar a formação de todos esses profissionais. As escolas especiais, por exemplo, poderiam contribuir na orientação do ensino às crianças com deficiência. Uma outra forma de resolver essa questão é estimular as escolas regulares para que tenham em seus projetos pedagógicos temas relacionados à inclusão de alunos com deficiência. Depois, podemos cruzar esses conhecimentos para que todos os educadores aprendam como as crianças aprendem, ou seja, que eles observem quais são as dificuldades e os potenciais que a criança tem e, a partir daí, estimulem o seu desenvolvimento cognitivo. Descobriremos que não há segredo, cada dia é uma nova experiência tanto para os professores quanto para as crianças.

Quando os colégios regulares puderem receber crianças com deficiência, respeitando seu tempo cognitivo, acredito que não precisaremos propor essa dupla jornada escolar. Por enquanto, defendo a matrícula em ambas as escolas. Futuramente, quem sabe, chegaremos à proposta ideal, que é dar aos pais das crianças com deficiência a possibilidade de escolher, sem nenhum medo, qual escola é melhor para a formação do seu filho.

A Prefeitura de São Paulo vem trabalhando para implantar um sistema inclusivo na rede municipal de ensino. Foram criados programas de inclusão que estão sendo implementados por toda a cidade. Os Cefais, que são os Centros de Formação e Acompanhamento à Inclusão, ficam dentro das 13 coordenadorias de educação e têm o objetivo de dar embasamento pedagógico a todas as unidades escolares. Já o Paai é um programa em que professores habilitados e itinerantes dão apoio à comunidade educativa. Por último, as Saais, salas de apoio e acompanhamento à inclusão, oferecem atendimento complementar, suplementar ou exclusivo aos alunos com deficiência. A cidade já conta com 111 Saais, que atendem perto de mil alunos com deficiência. E esse acompanhamento é realizado fora do horário de aula das crianças por quase 500 educadores especializados. Hoje, a rede municipal tem cerca de 13 mil alunos com deficiência matriculados nas suas unidades escolares.

São Paulo está dando o exemplo, mas o quadro educacional brasileiro me faz crer que ainda temos muito que aprender. De certa forma, até o nosso douto Judiciário.

A minha experiência de tetraplégica me faz observar que muitos adultos não imaginam que eu possa ser tão ativa como eles – ou mais. Com certeza, eles olhariam as pessoas com deficiência com menos surpresa e preconceito se, quando crianças, tivessem convivido com as diferenças na escola. O que me faz pensar que há certas coisas que a gente pode aprender desde cedo, antes da batalha da vida. E respeitar as diferenças é, com certeza, uma delas.

A receita das escolas-padrão

Embora tenha conseguido vencer o desafio da universalização no acesso ao ensino fundamental, no início da década, o Brasil continua registrando melhoria pífia da qualidade da educação oferecida pela rede pública. Segundo os indicadores sociais que acabam de ser divulgados pelo IBGE, 36,4% dos estudantes que freqüentavam a 8ª série do ensino fundamental, em 2005, estavam em séries atrasadas para suas idades.

As falhas do processo educacional também são evidenciadas pelos resultados da Prova Brasil, que em 2005 avaliou o desempenho de 3.306.378 alunos de 40.920 escolas públicas e constatou que 50% deles não são capazes de ler e entender textos mais complexos e de fazer as quatro operações aritméticas.

Por isso, neste momento em que o sistema educacional apresenta um desempenho muito inferior ao necessário num mundo cada vez mais marcado pelo avanço do conhecimento e pela inovação tecnológica, não pode passar despercebida uma importante pesquisa que acaba de ser divulgada, apontando quais são as escolas-padrão do País e qual é a receita de seu sucesso.

Realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), o estudo selecionou 33 colégios municipais e estaduais que, bem colocados na Prova Brasil, destacaram-se por seus projetos pedagógicos e pelo impacto do ensino que oferecem na aprendizagem das crianças. Localizadas em 14 Estados e no Distrito Federal, várias escolas situam-se em bairros pobres, contam com o envolvimento da comunidade em suas iniciativas e desenvolvem práticas ligadas à realidade social e econômica dos alunos.

Os projetos pedagógicos com melhores resultados, segundo o estudo, são os que se destacam por sua simplicidade e criatividade. Uma das constatações mais importantes do trabalho do Unicef e do Inep é que o sucesso alcançado por esses colégios não está necessariamente relacionado à qualidade de sua infra-estrutura nem à disponibilidade de recursos. Algumas escolas formularam bem-sucedidos programas de leituras sem terem biblioteca. Utilizaram rótulos de embalagens de produtos descartados para fazer ditados, nas aulas de português. O mesmo material serviu para ilustrar aulas de matemática. E escolas sem quadra esportiva própria fizeram convênios com quartéis, universidades e colégios particulares.

Embora os 33 colégios estejam situados em diferentes contextos socioeconômicos, eles têm em comum professores empenhados e capacitados, estabilidade do corpo de funcionários administrativos e forte apoio dos pais, principalmente na fiscalização da freqüência, no controle das lições de casa e até na confecção de lanches. A divisão de tortas e bolos trazidos pelos alunos, por exemplo, tornou-se uma forma tanto de preparar as crianças para o convívio social como de ensinar aritmética. “A escola não é um depósito. A família é a base. Se a família não vai à escola, a criança não evolui”, diz Maria Teresa da Cruz, da Escola Casa Meio Norte, em Teresina (PI).

Para a diretora do escritório do Unicef no Brasil, Marie-Pierre Boirier, as informações obtidas pela entidade e pelo Inep a partir da identificação das 33 escolas-modelo não devem ser vistas como uma “receita pronta” para ser imposta a toda rede pública de ensino fundamental, pois cada unidade tem suas especificidades. O mérito da pesquisa, diz ela, é mostrar que é possível elevar a qualidade da educação pública a partir de medidas simples, que tornem os alunos mais responsáveis e exigentes, motivem os professores e envolvam a comunidade não só na formação de conselhos de pais e mestres, mas também nas atividades diárias das escolas.

Como o ensino fundamental é decisivo para melhorar as condições econômicas das famílias, propiciar a emancipação cultural das novas gerações e assegurar a formação de capital humano de que o País necessita para se desenvolver, o trabalho do Unicef e do Inep deve servir de fonte de inspiração para o governo do presidente Lula, que perdeu os quatro anos de seu primeiro mandato com projetos ambiciosos e mirabolantes, em seus objetivos, mas de pouco impacto na aprendizagem dos alunos, como acabam de apontar os indicadores sociais do IBGE.

Ensino que ensine

Jogar com as ambigüidades, cultivar o improviso, juntar o que se pretende irreconciliável e dividir o que se supõe unitário, usar falta de método como método, tratar enigmas como soluções e o inesperado como o caminho – são traços da cultura do povo brasileiro. Estratégias de sobrevivência?

Por que não também manancial de grandes feitos, tanto na prática como no pensamento? A orientação de nosso ensino costuma ser o oposto dessa fecundidade indisciplinada: dogmas confundidos com idéias, informações sobrepostas a capacitações, insistência em métodos “corretos” e em respostas “certas”, ditadura da falta de imaginação. Nega-se voz aos talentos, difusos e frustrados, da nação. Essa contradição nunca foi tema de nosso debate nacional.

Entre nós, educação é assunto para economistas e engenheiros, não para educadores, como se o alvo fosse construir escolas, não construir pessoas. Preconizo revolução na orientação do ensino brasileiro. Nada tem a ver com falta de rigor ou com modismo pedagógico. E exige professorado formado, equipado e remunerado para cumprir essa tarefa libertadora.

Em matemática, por exemplo, em vez de enfoque nas soluções únicas, atenção para as formulações alternativas, as soluções múltiplas ou inexistentes e a descoberta de problemas, tão importante quanto o encontro de soluções. Em leitura e escrita, análise de textos com a preocupação de aprofundar, não de suprimir, possibilidades de interpretação; defesa, crítica e revisão de idéias; obrigação de escrever todos os dias, formulando e reformulando sem fim. Em ciência, o despertar para a dialética entre explicações e experimentos e para os mistérios da relação entre os nexos de causa e efeito e sua representação matemática. Em história, e em todas as disciplinas, as transformações analisadas de pontos de vista contrastantes.

Nada disso se parece com o objetivo – cretino – de fazer do aluno um simulacro humano da enciclopédia. Tudo se destina a capacitá-lo a compreender realidades, a mobilizar saber e a usar e desenvolver idéias. O mesmo objetivo vale desde o pré-primário até a pós-graduação universitária.

Isso é educação. O resto é perda de tempo. O resto absorve os esforços da grande maioria das escolas no Brasil e em muitos outros países. Os pais se dão por satisfeitos quando seus filhos tiram boas pontuações em provas nacionais e internacionais voltadas para a informação e a destreza. Quem lutará para que a educação no Brasil eduque?