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Primavera poética

Por Gabriel Chalita

Primavera: semente de poesia A flor que és, não a que dás, eu quero. Porque me negas o que te não peço. Tempo há para negares Depois de teres dado. Flor, sê-me flor! Se te colhêr avaro A mão da infausta esfinge, tu perene Sombra errarás absurda, Buscando o que não deste. (Ricardo Reis – ode nº 354) Setembro já se foi levando consigo os primeiros dias da primavera.

Estamos certamente mais maduros após vivenciar outro inverno – estação cuja poesia é da safra proveniente dos ares gélidos, convites necessários à reflexão, à introspecção, à convivência mais próxima e calorosa entre as pessoas. O clima frio traz à tona, também, um quê preponderante de mistério, de casulo, de aconchego. Para além da semântica e do léxico, inverno é também sinônimo de saudade e de gestação da poesia. Trata-se de uma época em que o coletivo comumente se recolhe para gerar versos e prosas que, pouco depois, são germinados na estação das flores. Tudo isso para que cresçam no verão e sejam colhidos no outono. O início de uma estação representa mudança de ciclo, transição, renovação. As antigas civilizações – muito mais sábias e atentas às manifestações da natureza e aos processos que ela desencadeia nos mais diversos setores da vida – comemoravam a chegada do solstício e do equinócio com rituais simbólicos, místicos, cerimônias marcadas pelo compasso do canto, da dança e dos louvores para saudar a mãe terra e todos os benefícios que ela oferece à humanidade, como as plantas medicinais, as flores, os frutos, o calor, a energia, os alimentos, os minerais, a beleza impressionista da fauna e da flora e, enfim, a possibilidade da vida. Há que se resgatar essa sintonia entre os seres humanos e a natureza, sob pena de, cada vez mais, não compreendermos a riqueza do que vemos à nossa volta. Na primavera estamos prontos para criar, para ousar, para estruturar idéias, delinear novos projetos e ações. O céu azul tem a cor das promessas e dos sonhos que, comumente, hibernam no inverno. Como educadores, resta-nos compartilhar essas sensações e conhecimentos com nossos aprendizes, semeando sensibilidade em seus corações e mentes. Essa é uma forma de colaborar para a formação de indivíduos mais sintonizados com a beleza da natureza e com os vários espetáculos que o universo nos propicia. Já a associação que propusemos entre a primavera e o poema de Ricardo Reis/Fernando Pessoa nos leva a refletir sobre outro aspecto importante não só na primavera, mas em todas as estações do ano: qual é a nossa flor verdadeira? Que flor representamos para as pessoas à nossa volta? Pensar sobre isso talvez nos traga dúvidas, mas é preciso lembrar que nelas reside uma parte importante da grande graça da existência. Uma graça que pode – só depende de nós – ser bem mais perfumada e poética.

Alfabetizar é possível

Por Gabriel Chalita

No conto “Felicidade Clandestina”, Clarice Lispector nos apresenta uma protagonista tímida e sonhadora. Uma menina cujo sofrimento é não poder desfrutar da leitura diária de inúmeros livros. Seu sonho dourado, entretanto, é o clássico Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. O livro custava caro e uma garota invejosa e perversa que prometera emprestá-lo passa dias humilhando-a e postergando a entrega da obra. Em seu coração sensível, a menina ávida por livros nutria um sentimento de ausência, de carência de algo que se deseja muito e não se pode ter. Afinal, ela já sabia que o mundo fica melhor por meio da leitura e das viagens que ela proporciona.

O fato é que esse conto parece feito sob medida para esta semana, em que foi comemorado o Dia Internacional da Alfabetização (8 de setembro). Um momento que nos convida a refletir sobre a importância da leitura e da escrita no processo de aquisição da cidadania e no desenvolvimento integral do ser. Infelizmente, no Brasil, ainda há 15 milhões de pessoas que não podem, sequer, sentir o mesmo desespero da personagem criada por Clarice Lispector. Na verdade, esses milhões de brasileiros vivem, cotidianamente, a angústia maior de não conseguir decodificar as letras. Em plena Era da Informação e do Conhecimento, eles não têm autonomia para realizar coisas simples mas essenciais à vida prática. Dependem dos outros para entender o sentido das placas, letreiros, cartazes. Não podem ir às compras sem o auxílio de alguém que lhes informe preço, nome do produto, sua utilidade. A boa notícia é que esse quadro, felizmente, está mudando. Basta observar os numerosos programas, projetos e ações visando à erradicação do analfabetismo no País. Iniciativas implementadas pelos governos das 3 esferas, empresas do setor privado, instituições não-governamentais e entidades sociais que, juntas, têm oferecido a milhões de pessoas, a possibilidade de um futuro digno. É com alegria que observamos, por exemplo, o verdadeiro exército de trabalhadores voluntários que luta para abolir o analfabetismo. São jovens universitários, aposentados, profissionais liberais, lideranças comunitárias e religiosas que dedicam parte de seu tempo para ensinar pessoas a ler e a escrever. Nesse contexto, o Estado de São Paulo tem procurado alternativas capazes de contribuir para a solução desse problema. Só no último ano, por meio do Programa de Alfabetização e Inclusão – PAI – criado pela Secretaria de Estado da Educação e já inserido no Programa Escola da Família, foram firmadas parcerias com 117 instituições de ensino e quatro organizações não-governamentais. Essa união de esforços foi essencial para propiciar a alfabetização de cerca de 150 mil aprendizes. Além disso, temos o Programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA), praticado em 2.393 escolas da rede e se destina aos estudantes do Ensino Supletivo (Fundamental e Médio). O EJA atendeu, apenas este ano, em torno de 700 mil pessoas. Sabemos das dificuldades do caminho, mas elas não serão empecilho para que prossigamos dando nossa contribuição para superar esse desafio. Temos esperança de que, a cada dia, centenas de brasileiros passem a ver o mundo de uma maneira mais crítica e consciente. Uma consciência que advém da leitura e da escrita – instrumentos que nos levam a pensar, a refletir, a encontrar caminhos para nossa evolução pessoal e profissional. Que esta semana, cujo significado transcende idiomas, linguagens e culturas diversas seja um grande convite. Um convite para que compreendamos a urgência de assegurar a alfabetização para todas as pessoas que ainda careçam dela. E, principalmente: que essa “Felicidade” vivenciada pela personagem de Clarice Lispector se expanda, deixe de ser “clandestina” e possa ser, o quanto antes, um direito de todos.

As olimpíadas da vida

Por Gabriel Chalita

“Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo./Rumo do céu?/Que importa a rota./Voa e canta enquanto resistirem as asas.” (“O vôo” – Menotti Del Picchia) Nossa existência é composta de obstáculos, desafios, grandes e pequenas modalidades de lutas que exigem empenho, dedicação, garra e perseverança de seus atletas. Seres humanos que estão em constantes campeonatos, em inúmeros certames, em incontáveis disputas e jogos cujos resultados são, comumente, o reflexo perfeito de nossos esforços.

A verdade é que, nos torneios que compõem nossa história, enfrentamos provas diversas vencidas apenas por aqueles que conseguem superar-se a cada fracasso, a cada derrota, a cada dificuldade experimentada. A vida é mesmo uma escola, uma olimpíada, uma possibilidade de aprender, de evoluir, de enfrentar medos, frustrações e limitações que nos impediriam de ir além se não os enfrentássemos. Neste mundo cada vez mais competitivo em que vivemos, nesta era em que a conquista do conhecimento representa a medalha de ouro, cabe a nós, educadores, incentivarmos nossos aprendizes a dar o melhor de si. A jamais desistir dessa corrida rumo à descoberta. Rumo à compreensão de que o importante, sobretudo, não é a chegada, mas a beleza do caminho. Um caminho em que obtenham a percepção de que não há troféu, medalha, honra ou glória sem determinação extrema, sem sacrifícios ou lágrimas. Nossa grande missão é fazer com que meninos e meninas, moças e rapazes que ainda estão no começo dessa fascinante olimpíada que é a vida recebam o estímulo, o apoio e os instrumentos para que suas trajetórias sejam bem-sucedidas. Precisamos atuar como guias, treinadores, mentores que os conduzam pelas veredas da arte, da técnica, da prática, da teoria. Líderes seguros, capazes de despertar nesses atletas iniciantes qualidades e virtudes, competências e habilidades, talentos e criatividade. Que todos possamos exercer esse ofício com paixão e que sejamos capazes de apontar um norte, uma direção, uma estrada que ofereça aos aprendizes a possibilidade de um futuro digno, de um Brasil e de um mundo melhores. A todos vocês, educadores, mentores, orientadores das novas gerações, verdadeiros campeões da educação paulista, o nosso muito obrigado e toda a nossa admiração e respeito.

Escola da família

Por Gabriel Chalita

Programa Escola da Família. Uma iniciativa fundamentada, justamente, na “Ética”, na “delicadeza”, no “amor”, na “amizade” e na “felicidade”. Termos essenciais à vida humana. Vocábulos que dão a tônica desse grande sonho transformado em realidade. “(…) sou dos que acreditam que a felicidade é possível, que o amor é possível, que não existe só desencontro e traição, mas ternura, amizade, compaixão, ética e delicadeza.” (Lya Luft em “Perdas e Ganhos”)

As belíssimas palavras da escritora Lya Luft bem poderiam constituir uma das frases símbolos do Programa Escola da Família. Uma iniciativa fundamentada, justamente, na “Ética”, na “delicadeza”, no “amor”, na “amizade” e na “felicidade”. Termos essenciais à vida humana. Vocábulos que dão a tônica desse grande sonho transformado em realidade. Em verdade vivenciada em cada uma das milhares de escolas da rede estadual de ensino de São Paulo. Templos e espaços sagrados destinados ao saber e à sua propagação. Instituições que, agora, podem acolher não apenas alunos regularmente matriculados, mas toda a comunidade de seu entorno. Homens, mulheres, jovens e crianças ávidos pela descoberta, pela arte, pelo esporte, pelos cursos disponíveis… Pelo aprendizado, enfim. Este empreendimento instigante que abraça causas diversas em prol da educação de excelência só tem sido possível graças à participação de uma equipe especial. São milhares de educadores, de universitários, de voluntários, de cidadãos apaixonados que acreditam, sobretudo, na força do trabalho e na grandeza existente no processo ensino-aprendizado. Multiplicadores de idéias e também de ideais vistos por muitos como românticos, quixotescos, inatingíveis. O Escola da Família é um sucesso porque é formado por homens e mulheres desbravadores. Protagonistas sociais que, há um ano, têm provado que grandes mudanças positivas, para serem empreendidas, necessitam – muito mais do que de recursos financeiros – de união, dedicação, criatividade, talento, vontade. Prova disso é que, hoje, temos em nossas escolas um programa que é exemplo, referência, modelo, norte… Um verdadeiro caminho. Um porto seguro para as embarcações mais diversas que, nos mares do mundo todo, sonham em singrar oceanos sem medo do desconhecido e de sua imensa grandeza. Por tudo isso, a todos vocês, companheiros dessa maravilhosa viagem, heróis e heroínas que acreditam e compartilham desta aventura bem-sucedida conosco, o nosso muito obrigado e a nossa convicção de que esta jornada fascinante vale a pena! Recebemos as bênçãos de Fernando Pessoa, descritas em seu “Mar Portuguez”, quando diz: “Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena./ Quem quere passar além do Bojador/Tem que passar além da dor/Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,/Mas nelle é que espelhou o céu”.

Pais, homens e herois

Por Gabriel Chalita

Pai é uma sombra imensa que nos envolve. Árvore forte, robusta e sempre gigantesca aos nossos olhos de eternas crianças. Meninos e meninas para sempre querendo colo, afago, proteção. “Depois encontrei meu pai, que me fez festa e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria, os lábios de novo e a cara circulados de sangue,caçava o que fazer pra gastar sua alegria: onde está meu formão, minha vara de pescar, cadê minha binga, meu vidro de café? Eu sempre sonho que uma coisa gera, nunca nada está morto (…)” (“Leitura”, Bagagem, Adélia Prado)

Pai é uma sombra imensa que nos envolve. Árvore forte, robusta e sempre gigantesca aos nossos olhos de eternas crianças. Meninos e meninas para sempre querendo colo, afago, proteção. O pai é a figura que mescla, ao mesmo tempo, austeridade, coragem, amor, segurança. É ele quem, comumente, também desperta em nós a veia pulsante do conflito, da raiva, dos primeiros desentendimentos e questionamentos. Presente ou ausente, o pai é uma imagem constante, seja ela real, seja ela criada pela imaginação mais fantástica. Uma representação que povoa nosso imaginário ou mesmo as lembranças que nos acompanham durante toda a vida. É ele o homem múltiplo que assume personagens diversos. Há fases em que é herói, outras em que é vilão, outras, ainda, em que se parece com o mocinho, com o galã, com o professor. É nele que, às vezes, nos vemos refletidos numa espécie de espelho e nos projetamos em direção ao futuro. É ele o homem que nos impulsiona, muitas vezes sem perceber, a enfrentar o mundo, a querer nossa independência, a construir castelos, a ter nossos próprios sonhos, desejos e ideais. Batalhador incansável, muitas vezes o pai dedica sua juventude e toda a sua maturidade ao trabalho e à rotina de trazer para casa o pão de cada dia, o conforto para a família, a melhor educação para os filhos. Uma educação que, de preferência, seja muito superior a que ele teve. Culto ou analfabeto, ele detém a sabedoria de guiar seus filhos pelas veredas da vida. Comandante atento às tempestades do mar bravio, o pai se antecipa, sempre, em mostrar o perigo, em oferecer a bússola, em demonstrar as rotas mais adequadas para as travessias daqueles que ama – marinheiros ávidos por suas primeiras viagens. É para esse homem que semeia, acolhe e incentiva que queremos demonstrar nosso respeito, nossa admiração e nosso mais sincero agradecimento neste dia 08 de agosto. Até porque pais são seres eternos que, mesmo já tendo partido para outras dimensões, permanecem vivos em nossos corações para sempre infantis e carentes de seu cuidado, de seu reconhecimento. A todos esses homens – seres humanos que erram, acertam, lutam, sonham, caem, levantam – o nosso muito obrigado e o nosso abraço afetuoso. Atenciosamente.

O cinema é uma escola

Por Gabriel Chalita

Há muito está superada a tese de que a educação é um tema restrito aos meios acadêmicos e ao cotidiano escolar. Da mesma forma, já não temos dúvidas quando discorremos sobre a educação como um processo contínuo, uma via de mão dupla que propicia o vaivém necessário à construção do ensino-aprendizagem. Nesse contexto, é essencial perceber que o mundo é uma escola exemplar por sua diversidade, excesso de cores, aromas, sabores e sensações.

Cabe a nós desenvolver a sensibilidade para decodificar esse panorama composto por símbolos, linhas e entrelinhas que dão sentido pleno ao texto da vida. A observação atenta das manifestações artísticas constitui uma maneira eficaz de apreender esses códigos . Quando apreciamos arte, mesmo sem nos dar conta, estamos exercitando razão e emoção, binômio responsável pela expansão da consciência em torno do universal e do particular, do outro como extensão de nós mesmos. Há um filme nacional atualmente em cartaz que corrobora essa afirmação porque lança luz sobre temas como amor, verdade, juventude, amadurecimento, solidão, solidariedade, sonhos, paixões – ingredientes que compõem parte importante da existência humana. Trata-se de Cazuza, o tempo não pára , de Sandra Werneck. O filme traz à tona a vida explosiva e poética do jovem Agenor de Miranda Araújo Neto , o Cazuza, rebelde encantador capaz de traduzir o mundo em canções repletas de som e de fúria. Esse desejo de criar, de quebrar paradigmas e de romper estruturas arcaicas alçou o jovem músico à posição de ícone de uma geração que não teve medo de buscar o prazer, o excesso. A partida física de Cazuza não impediu que ele permanecesse conosco por meio de suas composições poéticas e por suas letras marcadas por críticas contundentes à sociedade consumista. O menino Agenor provou a todos que o tempo não pára e que o mundo é realmente um moinho… O grande moinho de Cartola, de Cazuza, de Cervantes e de todos os grandes poetas. Um filme tão surpreendente quanto a própria vida. Filme que educa de maneira envolvente e sedutora, como deveria ser o ensino em todas as escolas do mundo. Que o cinema e as demais formas de arte continuem nos enchendo de esperança, sonhos e lições capazes de nos auxiliar no longo caminho da vida – essa jornada singular que une ficção e realidade, aventura e responsabilidade.

O saber e o sabor

Por Gabriel Chalita

Em sua obra denominada Livro sem fim, o educador Rubem Alves nos brinda com uma metáfora belíssima sobre a relação entre as palavras e os alimentos. Por meio do exemplo extraído de textos de escritores diversos e dos famosos quadros de Giuseppi Arcimboldo, Alves constrói sua argumentação de que o saber pode e deve ter sabor. Em um determinado momento da narrativa, o autor dispara: “Escrevo como quem cozinha”.

Na verdade, o texto de Alves nos convida a refletir sobre a verdadeira delícia que é o processo de aprendizado, de aquisição de saberes. Se analisarmos de forma mais detida, veremos que há uma sensação palatável quando degustamos o conhecimento, quando nos acostumamos ao sabor incomparável dos alimentos que sustentam e enchem de energia o nosso espírito. Tornamo-nos como que dependentes. Entregamo-nos a uma espécie de vício paradoxal – um vício às avessas porque extremamente revitalizador e positivo. O sabor proporcionado pelo saber pode ser comparado – guardadas as devidas proporções – ao pão descrito na ceia bíblica, porque é uma refeição abençoada e que marcará para sempre as nossas vidas. Um pão que nos oferece as condições necessárias para sermos, tal qual os apóstolos do Novo Testamento, propagadores de boas-novas. Quando mesclamos saber e sabor na mesma proporção, estamos ampliando o leque de possibilidades das palavras sorver, absorver e apreender. Juntas, elas passam a pertencer a uma mesma cadeia de significados e deixam de ser apenas verbos para reforçar também, um tempo verbal: o futuro. Um futuro promissor em que vemos, a cada dia, nossos sonhos sendo realizados, nossas esperanças sendo concretizadas, nossos desejos sendo atendidos por força de nossa própria capacidade de construir a vida que, um dia, projetamos num esboço quase primitivo. Apóstolos, missionários, mestres, educadores… Pessoas que vieram ao mundo para ser, justamente, o elo entre o saber e o sabor – dois verbetes imprescindíveis ao nosso desenvolvimento, à solidificação de nossa consciência crítica e de nossa cidadania. Nas salas de aula – ou fora delas – o saber e o sabor devem transitar faceiros, seduzindo os aprendizes para o interminável banquete propiciado pelo conhecimento. Um banquete composto por iguarias variadas… Um banquete que deve ser acessível a todos os educandos, a todas as nossas crianças e jovens… Um banquete que pode e deve ser preparado e servido em todos os ambientes voltados à propagação da educação e da cultura. A educação tem de ser um setor movido pela paixão, pelo entusiasmo e pela competência – qualidades essenciais à difusão do conhecimento. É papel do educador descobrir mecanismos capazes de tornar sua atividade mais atraente, mais dinâmica, mais apaixonante, mais sedutora, enfim. No dia-a-dia da sala de aula deve haver espaço para a criação, para a descoberta, para a renovação e para a reciclagem de idéias, posturas, conceitos e informações diversas. O binômio ensino-aprendizado deve ser aplicado à luz de uma ótica atraente, criativa, desafiadora, viva, bonita e eficaz, de modo que o educando sinta-se cativado e participe de maneira intensa das atividades da escola, sejam elas curriculares ou extracurriculares. Todas as disciplinas devem ser tratadas como extensões da vida do aluno, possibilitando a ele uma ampla visão de sua realidade e do meio em que vive. O aprendiz precisa se sentir estimulado para compreender o porquê de cada coisa, bem como a forma como esse conhecimento será empregado em sua vida. Professores devem ser artesãos, mestres na arte de misturar os ingredientes necessários para uma boa aula, ou melhor, para um banquete realmente inesquecível. Um banquete que permanecerá para sempre na memória dos aprendizes, como uma refeição indispensável ao seu crescimento e ao desenvolvimento de seu talento para viver – com saber e sabor – a aventura de gosto inigualável que é a vida. Uma boa semana a todos!

Ensinamentos poéticos

Por Gabriel Chalita

No poema “Ensinamento”, a poeta mineira Adélia Prado traduz, de forma brilhante, a importância do amor como sentimento que deve pairar soberano acima de todas as outras coisas… “Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: ‘Coitado, até essa hora no serviço pesado.’ Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo”. (“Ensinamento”, in Poesia Reunida, Adélia Prado)

No poema “Ensinamento”, a poeta mineira Adélia Prado traduz, de forma brilhante, a importância do amor como sentimento que deve pairar soberano acima de todas as outras coisas. Acima, até mesmo, da educação, do estudo e do conhecimento. Na verdade, se não há amor, se não há entendimento a respeito dos valores que derivam dele, tudo o quanto possuímos pode transformar-se em arma contra nós, contra nossos semelhantes e, em conseqüência disso, contra o mundo. O texto de Adélia possui precisão minuciosa, cadência, ritmo e beleza extremada – características inerentes às obras poéticas, estejam elas em prosa ou em verso. Mas isso não é tudo… É, ao contrário, apenas o começo. Não obstante utilizar palavras como instrumento de propagação de idéias e sensações, o poema de Adélia tem o efeito de um objeto cortante porque trespassa nosso corpo e nossa alma com a eficiência de uma lâmina. É uma imagem forte, mas eficaz para descrever a intensidade e a força que as palavras da poeta mineira exercem sobre nós. Cada uma delas parece penetrar profundamente em nossas mentes e corações, tomando-nos de assalto, seduzindo-nos e, finalmente, instigando-nos à reflexão sobre o que é realmente essencial em nossas vidas. É um exemplo riquíssimo de habilidade poética. Em poucas linhas, há uma enorme quantidade de informações que revelam percepções sutis sobre os relacionamentos humanos, sobre a família, sobre o ato de compartilhar, sobre o cuidar, sobre o olhar atento em relação ao outro – captando suas dores e alegrias – e, por fim, sobre a supremacia das ações em detrimento das palavras… É um poema que nos ensina como podem e devem nos tocar os diferentes aprendizados que obtemos ao longo do tempo. Aprendizados, muitas vezes, escondidos por trás dos gestos mais simples… Aprendizados que se situam num universo à parte dos livros escolares. Um universo sustentado, justamente, pelas fibras, teias, cordas e laços inquebrantáveis do amor. São lições imprescindíveis aos seres humanos. Lições que devem ser ministradas, primeiramente, em casa, no seio familiar, para, em seguida, serem reforçadas, fortalecidas e solidificadas pela escola, por meio dos mestres, que assumem papel de destaque nas salas de aula do mundo. Lições que deveriam estar nas entrelinhas dos textos de cada disciplina, de cada novo ponto ou tópico aplicado pelos professores… É para isso que devemos atentar: se não ensinamos com amor e sobre o amor, então não ensinamos nada… Então não cumprimos nossa missão… Então estamos perdendo tempo… Estamos, em resumo, exercendo o ofício errado. Adélia nos ensina tudo isso nas poucas, mas grandiosas linhas de seu poema. Não foi à toa que outro mestre de nossas letras, Carlos Drummond de Andrade, se rendeu aos encantos da conterrânea mineira e incentivou ativamente a publicação de seu primeiro livro, Bagagem, em 1976. Drummond sabia das coisas… E, nós, brasileiros, ficamos devendo mais essa ao grande poeta das terras das Gerais – berço esplêndido de numerosos artistas brasileiros. Drummond, Adélia, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana e tantos outros poetas – para ficar só nos brasileiros – nos ensinam lições fundamentais. Lições que podem nos ajudar a reverter o quadro atual. Um quadro dantesco que reproduz o horror de um mundo em conflito permanente. Um mundo marcado por guerras, intolerâncias, preconceitos, banalização da violência, desrespeito generalizado, ausência de afeto, de fraternidade e de solidariedade. Trabalhar essas questões em sala de aula é uma missão difícil, mas extremamente necessária. Uma missão que exige a mescla de razão e de sensibilidade. Uma missão que poderá nos conduzir a um futuro diverso da realidade que vivemos hoje. Um tempo verdadeiramente regido pelo amor, pela justiça e pela dignidade. E a poesia nos ajuda a levar essa mensagem. Não só a poesia presente amiúde nos livros de português e de literatura, mas a poesia descrita tão belamente por Adélia Prado. A poesia presente nas ações, na forma como enxergamos e nos comovemos com as necessidades do outro, na maneira como transmitimos saberes aos nossos educandos. Estamos falando sobre uma poesia fundamentada, justamente, na nossa crença em contribuir para que os aprendizes possam, um dia, assumir, com competência, talento e desenvoltura, o rumo das naus que, hoje, navegam sem norte em busca da conquista. Naus que, em sua maioria (há raras exceções), estão sendo guiadas por comandantes prepotentes, insanos, despreparados… Capitães insensíveis porque só pensam na aquisição ininterrupta de terras e de falsos tesouros. Viajantes cegos ao verdadeiro sentido e às genuínas riquezas da vida. Riquezas economicamente não-mensuráveis. Sim. A poesia nos diz que estamos aqui para conquistar e propiciar algo muito maior e mais sublime: o amor, a felicidade, a amizade, o afeto e a paz de espírito. Preciosidades que se adquirem quando nosso foco está voltado não apenas para o destino de nossas naus, mas, sobretudo, para a beleza do caminho e para os ensinamentos que ele nos proporciona. É isso. Uma boa aula é, em outras palavras, uma inesquecível viagem… Uma viagem movida à poesia… Esse combustível que sintetiza, tal qual no poema de Adélia, uma educação para o amor. Uma educação para a vida. Boa jornada a todos!

Batalha contra as drogas

Por Gabriel Chalita

No filme O invasor (Brasil, 2001), o jovem diretor Beto Brant constrói, graças à sua sensibilidade aguçada, uma história densa, impactante, repleta de crimes e castigos. Na tela, nuances dostoievskianas explodem em arrependimentos, culpas, assassinatos, ausência de escrúpulos, síndromes de perseguição. A cidade de São Paulo, com sua atmosfera concreta e complexa, é o cenário perfeito para o drama urbano dirigido por Brant, que trafega com destreza por temas áridos como ambição, corrupção, marginalidade e drogas.

A escolha do elenco é, ainda, outro elemento que tornou a narrativa bem sucedida, crível, próxima do real. Muito já se falou sobre a premiada atuação de Paulo Miklos, que interpreta o “invasor” perverso, perfeito em sua caracterização. Mas há que se observar, também, a performance convincente da atriz Mariana Ximenes. É ela quem dá vida à adolescente Marina, que sofre a perda abrupta dos pais e, no transcorrer da trama, experimenta uma incursão vertiginosa pelo mundo das drogas. O resultado não poderia mesmo ser outro: uma série de atitudes irresponsáveis que a conduzem a uma vida desregrada, perigosa, sempre por um fio. Com seu visual diferente e sua postura transgressora, a personagem expõe muito da rebeldia e da impetuosidade juvenil. Seu perfil contribui para que ela se deixe envolver, mesmo sem se dar conta, com o criminoso interpretado por Miklos, que é, entre outras coisas desabonadoras, o assassino dos pais de Marina. Fora da ficção, entretanto, as drogas é que parecem ser, cada vez mais, as verdadeiras “invasoras” que se infiltram na vida de milhares de pessoas. Muitas delas, ressalte-se, são jovens que, como a personagem de Brant, passam a viver no submundo da criminalidade e da violência, destruindo suas existências promissoras com voracidade. É dever da sociedade atentar para esse modo “invasivo” com que as drogas lícitas e ilícitas seduzem um número cada vez maior de adolescentes. Um modo que arrebata sua energia, sua vitalidade, seus sonhos. Cabe às instituições sociais – família, escola, empresas, associações e ONG’s – unirem esforços no sentido de pôr a baixo esse verdadeiro império que se sustenta pela dependência química, pelo crime organizado e pela degradação de valores essenciais à vida em sociedade. Nesse contexto, pensando numa forma de expandir a prevenção e as informações relativas às drogas, o governador Geraldo Alckmin, por meio da Secretaria de Estado da Educação, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, lançou, este mês, o programa Tá na roda: uma conversa sobre drogas, que irá beneficiar cerca de um milhão de alunos da rede estadual de ensino. A proposta do programa é ampliar as ações e reflexões relativas ao tema entre educadores e educandos. Todas as 89 Diretorias de Ensino do Estado vão participar do projeto, com início agendado para março. Mais uma vez, ficção e realidade irão se mesclar, na medida em que, nesta primeira etapa, o programa tem, dentre seus instrumentos de aplicabilidade, mil kits contendo livros, CD ROM e vídeos, que trazem – além de depoimentos, entrevistas e orientações do psiquiatra Jairo Bauer – trechos de capítulos levados ao ar na telenovela O Clone. Escrita por Glória Perez, a história comoveu todo o Brasil abordando a temática das drogas com realismo e contundência. A capacitação dos educadores será realizada, inicialmente, para 356 profissionais de todas as Diretorias de Ensino que, regionalmente, trabalharão com diretores e professores de suas escolas. Um site para o projeto também será criado, facilitando a pesquisa e a consulta sobre o assunto. Os professores envolvidos serão capacitados através de aulas presenciais e a distância, ampliando o rol de acesso dos educadores às informações e conteúdos didáticos indispensáveis às atividades em classe. É nosso dever compor o roteiro que tornará possível ampliar as ações de educação preventiva contra as drogas, que já vêm sendo desenvolvidas em todas as escolas da rede, por intermédio do Programa Prevenção também se ensina, criado em 1.996, com o objetivo de instrumentalizar os educadores de Ensino Fundamental e Ensino Médio a trabalhar a prevenção ao uso de drogas e às doenças sexualmente transmissíveis com a comunidade escolar. Essas iniciativas, a nosso ver, fortalecem o conceito de uma escola democrática, dinâmica, que impulsiona debates e reflexões a respeito de temas relevantes. Uma escola que, diferentemente das obras de ficção, do cinema e da TV, esteja livre de “invasores” do mal, personagens cruéis e vilões de qualquer espécie. Até porque escola é centro de luz e, como tal, deve propagar felicidade, harmonia, paz, prosperidade. É esse o nosso compromisso. É esse o final feliz que desejamos ajudar a escrever para os seis milhões de alunos da rede e também para as suas famílias.

O ‘Cinema Paradiso’ e a volta às aulas

Por Gabriel Chalita

No clássico Cinema Paradiso (1989), do diretor e roteirista italiano Giuseppe Tornatore, o pequeno e sensível protagonista Totó descobre o mundo por meio de uma escola diferente. Uma escola encantada, impregnada de sonhos, desejos, possibilidades. Uma escola travestida de cinema e que prescinde do quadro negro justamente porque ensina, comove e arrebata os corações e mentes utilizando imagens, emoções, sentimentos e ações reproduzidas nas projeções comandadas por Alfredo – espécie de mentor, professor, pai e amigo do eloqüente Totó.

É essa vontade de desvendar o mundo, vivenciada pelo pequeno personagem de Tornatore, que pretendemos levar aos alunos da rede estadual de ensino na próxima segunda-feira, quando seis milhões de estudantes voltam às aulas e assumem seus postos de aprendizes nas seis mil escolas do Estado. Estamos convictos de que a maioria de nossos 250 mil educadores tem muito do amor, da generosidade e do espírito apaixonado do velho projecionista Alfredo. Homem que se vale dos filmes e de suas histórias para fazer do menino Totó um ser humano melhor, mais confiante no futuro. Uma criança comprometida com o aprimoramento de seus talentos. Alfredo ministra ao bambino muito mais do que o ofício da projeção das fitas. Sábio, o velho mentor ensina, a bem da verdade, a importância do sonho, a importância de acreditar neles e a necessidade de lutar para que se tornem realidade. Alfredo é um professor na acepção mais completa do termo. Um mestre que, mesmo após ter perdido a visão durante um dramático incêndio no cinema em que trabalhava, consegue enxergar em seu pupilo o grande artista que ele se tornaria um dia. O grande homem que deixaria aquela pequena cidade sem oportunidades em que viviam em busca da concretização de seus ideais. Ideais fundamentados na concepção, na produção e na execução de suas próprias histórias. Histórias, por isso mesmo, mais fascinantes do que aquelas assistidas nas sessões das matinês. É essa a função do educador. É essa a missão das instituições de ensino. Despertar potenciais. Descobrir dons adormecidos. Injetar confiança em crianças e jovens muitas vezes descrentes de seu valor, de sua singular capacidade de escrever belos roteiros para suas vidas. Nesta época do ano, em que retomamos as atividades do processo ensino-aprendizagem em nossas escolas, faz-se necessário refletir sobre o modo como devemos “seduzir” nossos alunos para a beleza da vida e para as diversas maneiras de torná-la melhor, a cada dia. As salas de aula podem, sim, ser tão atraentes quanto as telas de cinema. Até porque é por meio delas que começamos a aprender mais sobre nós mesmos, sobre os que estão à nossa volta e sobre os que estão distantes. É nelas que deparamos com a melodia da poesia, com a dança frenética dos números, com a natureza e seus infinitos mistérios. É lá que os melhores professores nos orientam sobre o quanto podemos ser detentores das rédeas de nosso destino. O período escolar encerra anos indispensáveis ao crescimento emocional e intelectual dos indivíduos. Anos em que precisamos receber estímulos, incentivos, elogios e críticas construtivas. Tempos em que planejamos, passo a passo, o início de nossa trajetória. A educação necessita de doses maciças de ousadia, da intensidade de espíritos inquietos, da energia pulsante de uma vocação peculiar: a vocação pela propagação de saberes, pelo gosto em debater, refletir, discutir e analisar o mundo junto com o outro. Uma vocação que impulsiona o ser humano ao crescimento ininterrupto. Vocação que se traduz em amar o conhecimento e, principalmente, em compartilhá-lo. A Secretaria de Estado da Educação acredita em seus educadores e tem orgulho de presenciar o modo com que têm exercitado o magistério. É impressionante o empenho desses mestres em fazer o melhor, em participar ativamente de nossos programas, projetos e ações, como é o caso do Escola da Família. Nas visitas às unidades educacionais, nos eventos programados pela secretaria, nas capacitações, na maneira dedicada com que nos apresentam sugestões, no brilho apaixonado com que nos revelam suas idéias… Tudo nos lembra a grandeza e a extrema sensibilidade do inesquecível Alfredo, de Cinema Paradiso. Por tudo isso, a todos vocês que fazem da educação um exercício contínuo de arte, de amor e de altruísmo, um maravilhoso ano letivo. E, sobretudo, o nosso muito obrigado. Que em 2004, possamos avançar ainda mais na construção de uma escola viva, dinâmica e sedutora. Uma escola capaz de deixar nossos aprendizes como o pequeno Totó: repletos de entusiasmo, energia e autoconfiança.