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A Paulo Autran, o príncipe

Por Gabriel Chalita

Em 1985, Paulo Autran teve um infarto. Lembro-me bem de como foi grande a comoção de todo o público brasileiro, temendo a perda desse talento gigantesco. Mas a providência divina nos deu ainda mais 22 anos de convivência com esse cavalheiro do teatro, um homem amoroso, gentil, amigo de todas as horas. Tive a ventura de conviver com Paulo Autran, de rir com ele, de chorar com ele.

Hoje, choro por ele, como todas as pessoas do mundo do teatro. Mas me sinto feliz por ter recebido dele tantos exemplos de vida. Gostaria de lembrar uma frase que ele repetiu, muitas vezes, na peça Liberdade, Liberdade: “Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar toda a sua vida à humanidade e à paixão existentes nestes metros de tablado, esse é um homem de teatro.” Era mesmo um homem dos palcos. Em 58 anos de carreira, foram 90 peças, a mais recente delas “O Avarento”, peça que protagonizou até ser internado, no dia 11 de outubro, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Muitas novelas. Foram também 20 filmes, destacando-se “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. E ainda vamos vê-lo, em breve, no filme inédito de Hector Babenco – “O Passado”. Quis ser cremado. Fizeram-lhe a vontade, no dia 13 de outubro de 2007. O corpo de Paulo Paquet Autran não está mais conosco. Mas sua alma… esta permanece, alegre e verdadeira, enriquecendo a nossa alma coletiva de brasileiros.

Respeito às diferenças

Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

O cinema é uma fonte inesgotável de situações para discussão de questões educacionais em sala de aula. No filme My fair lady, por exemplo, um professor de fonética aceita a aposta de transformar uma florista maltrapilha em uma dama preparada para freqüentar as altas rodas sociais, apenas por ensinar-lhe a falar corretamente. Para as aulas, a florista vai morar na casa do professor. O filme, de 1964, é baseado no livro Pigmalião, de George Bernard Shaw. Sob a direção de George Cukor, estão no elenco Audrey Hepburn, Rex Harrison, Stanley Holloway e Wilfrid Hyde-White. 

O enredo começa, mesmo, na praça do mercado central de Londres, numa noite chuvosa e fria do início do século 20. Sob a marquise, bem em frente a uma casa de ópera, pessoas da alta sociedade esperam carruagens para voltarem para casa. A florista pobre reclama em altos brados de estar sendo observada por um senhor bem vestido que anota cada palavra que ela pronuncia. Imagina ser um policial que a vigia para expulsá-la do seu ponto de venda. O homem, porém, é um professor de fonética, que se gaba de reconhecer a origem de uma pessoa pelo som de sua voz, com margem de erro inferior a seis quilômetros. Ele a acusa de “assassinar, a sangue frio, a língua inglesa”. Curiosos se aproximam para ouvir a conversa, e testemunham uma estranha aposta. O professor Henry Higgins (interpretado por Rex Harrison) aceita o desafio de transformar a rude florista (interpretada por Audrey Hepburn) em uma dama.

Depois dos desastres dos primeiros dias, o professor se dá conta de que não será possível ensinar a língua sem ensinar, primeiro, a importância das atitudes. De professor inflexível, George muda para uma atitude de mais compreensão. A partir desse ponto, a relação avança, e Elisa começa a aprender com mais facilidade.

Elisa é levada, enfim, ao baile do embaixador. O baile é uma homenagem à rainha da Transilvânia, que visita Londres. Elisa é apresentada à sociedade e encanta a todos, pela elegância, postura, educação e boa conversa. A própria rainha manda um emissário pedir-lhe que dance com o filho, o príncipe Gregor. Mas um especialista em línguas, o húngaro Zoltan Karpathy, assessor da rainha, se aproxima para travar conversação com Elisa, e a sua origem humilde pode estar prestes a ser desmascarada. Mas eis o diagnóstico que Zoltan leva para a rainha: 

– “O inglês dela é muito bom, o que indica que é estrangeira. Os ingleses não costumam ser muito instruídos em sua própria língua. E, apesar de ter talvez estudado com um perito em dialética e gramática, posso afirmar que ela nasceu húngara. E de sangue nobre! Seu sangue é mais azul do que a água do rio Danúbio.”

Higgins e Pickering voltam exultantes para casa. Elogiam-se mutuamente pelo triunfo. Mas se esquecem de sequer mencionar Elisa e seu esforço, e ela fica magoada. Henry acaba percebendo o abatimento dela e pergunta o que há de errado.

– Com você nada, não é? – ela diz. – Ganhei a aposta para você, não foi? Já basta.
– Fui eu quem ganhou a aposta, sua presunçosa!
– Seu bruto egoísta! Agora que tudo terminou, vai poder me jogar de volta na sarjeta. O que será de mim?
– Você está livre agora. Vai poder fazer o que quiser.
– Fazer o quê? Você me preparou para quê? Eu era mais digna antes. Vendia flores, não a mim mesma. E, agora que você fez uma dama de mim, eu não sirvo para mais nada.

Eles a acusam de ingrata. E Elisa foge, voltando à praça onde vivia. Nenhum dos velhos amigos a reconhece, deixando-a ainda mais triste. É uma pessoa presa entre dois mundos, sem pertencer nem a um nem a outro.

Desnorteada, resolve visitar a mãe de Henry. Num depoimento a Sra. Higgins, Elisa diz a frase que é o verdadeiro corolário da sua história:

– Deixando de lado o que se aprende, a diferença entre uma dama e uma florista não é como se comporta, mas como é tratada.

Henry (que ali chegara) franze a testa, ao ouvi-la, reconhecendo que sempre a tratara como uma florista e jamais como uma dama.

Eis, em resumo, um conjunto de valores que pode ser trabalhado em sala de aula, por meio desse filme. Uma atividade simples, mas que pode conduzir a resultados significativos, frutos de uma aprendizagem efetiva.

Alma da África, alma do Brasil

Por Gabriel Chalita (Jornal de Letras)

A narrativa de Antonio Olinto em seus romances africanos começa, em A casa da água, como uma enxurrada. Não há introdução, preparativos, prolegômenos. O leitor literalmente mergulha, já na primeira frase, em uma enchente. É a metáfora que conduz o discurso, uma recuperação moderna da narrativa sinfônica. Olinto escreve como quem conta uma história ao pé da fogueira na noite da África ancestral.

Enumera os usos e costumes, o sincretismo religioso, os procedimentos curativos, o folclore, o cotidiano das casas e das ruas, mas principalmente localiza o leitor, pondo e transpondo pessoas, com enorme habilidade, em lugares de aqui e de acolá, do Piau a Juiz de Fora, do Rio à Bahia, do Brasil à África. Mas, se o espaço tem destaque na linguagem, o tempo é etéreo. Tempus fugit. A primeira referência temporal só se dá por volta da página 200, quando se menciona a guerra. “Mariana achava ingleses, franceses e alemães tão parecidos, por que haveriam de brigar, mas deviam ter lá suas razões.” Somente ao final do livro uma tabela de datas vai esclarecer de que tempo histórico se está falando. E aí está: o tempo cronológico não tem importância.

Os achados de linguagem são tocantes. Logo à página 20, damos com esta preciosidade: “As mulheres ficaram com receio de olhar para fora e puseram os olhos no chão, Mariana, não, Mariana comeu o prazer de cada imagem.” À página 58, outra: “Maria Gorda pegou-a no colo, começou a falar, tinha uma voz boa e gorda também.” E à página 64: “A alegria dominou durante outra semana ainda o navio, mas foi-se diluindo em pedaços cada vez maiores de silêncio.” É a voz soberana do narrador, simples, despida e precisa, fazendo um registro. Sem avaliações morais ou moralistas. O padre José que bebe cachaça, a matança cerimonial, a fornicação sem vergonhas. O livro é a pauta da vida. Desenvolve-se. Evolui, como um navio que avança pelas ondas franjadas. O livro é a vida, em seu processo, sujeitando as pessoas pela tradição, cultura, pela dinâmica própria. Um relicário da prodigiosa observação desse autor que funde ficção e memória em uma liga só, emocionante e densa. Aqui e ali, versinhos de infância. Em todo lugar, alegria, música e ritmos.

A Casa da água foi lançado em 1969 e serviu de esteio para os outros dois livros da trilogia (O Rei de Keto e o Trono de Vidro). A análise da alma africana, e por extensão da alma humana, é preciosa, no texto de Antonio Olinto. Mas não está em fatos pitorescos ou nas anedotas. Está nos refrões, pregões, imprecações. Vejam esta frase: “Ele tinha boa cara, os lábios, grossos e fortes, formavam um sorriso lento, que demorava a se formar e demorava a se desfazer.” Outra: “O pai revelou-se um homem baixo e muito gordo, a boca se esparramava como a de um sapo, ria uma risada enorme e demorada.”

A trilogia do acadêmico Antonio Olinto é um compêndio sobre costumes de um povo que passou muitos anos lutando para manter a sua identidade. Assim, a pretexto de falar da alma da África, o autor fala da alma do Brasil. O fio condutor é Mariana, errante e errática, miscigenada e híbrida, suspensa entre dois mundos, como a água do mar, a água da enchente, nessa torrente de vida. Mas uma mulher firme, empreendedora, justa. Uma brasileira. A frase de Mariana, ao batizar a sua loja, comprada com o trabalho de uma vida, de Casa da água, foi esta: “É que eu comecei a ser eu depois que fiz um poço.” Anos mais tarde, ela diria (página 59 de O Rei de Keto): “A coisa mais importante que fiz foi abrir um poço em Lagos quando era moça.” Quanta densidade em duas frases!

Aqui e ali, a voz do autor se deixa evidenciar, numa cuidada intervenção da primeira pessoa. São apenas dois ou três verbos em cada volume, com desinência voltada para o eu. Artifícios de um habilidoso processo de construção da narrativa. A um homem que viveu a África, como adido cultural na Nigéria, escolho a boa tradição iorubá, e termino este artigo com um oriki, como faz o autor no seu romance: ó Antonio Olinto, tu que ensinas a ver e a julgar, que estás no teu merecido lugar no cenáculo da Academia Brasileira de Letras, que escrevas muito e que teus escritos sejam recebidos com alegria pelos nossos corações, para sempre. Porque tua obra, nobre escritor, é como tu: tem a energia do trovão, a sabedoria dos nossos ancestrais e a serenidade do mar calmo.

No laboratório da vida

Por Gabriel Chalita

A educação não precisa necessariamente se realizar dentro de uma sala de aula. O cotidiano da vida é um excelente laboratório, em que se vão misturando doses de atitudes, ações e reações, até encontrar o aristotélico meio-termo. Mas um dos ingredientes mais fundamentais de qualquer dessas misturas é, sem dúvida, o respeito. O respeito tem que estar presente em qualquer experimento social – ou mesmo individual. Isto porque, quem não tem amor-próprio, quem não se respeita, corre o risco de perder o sentido da vida.

A dignidade nasce do respeito que forma o caráter e determina uma vida condizente com ele. Há numerosas histórias de pessoas que se encontraram em situações em que poderiam levar vantagem ilícita, sem que ninguém soubesse e sem que nunca fossem descobertas. Os desfechos de algumas dessas histórias seguem a lógica da esperteza – “já que posso passar impune, por que não aproveitar a ocasião?” Outros seguem uma lógica mais profunda, que respeita a consciência. – “Pode ser que ninguém veja, mas eu estou vendo” – reagirá aquele que se respeita. Na ótica do laboratório vital, aquele que não se respeita não será respeitado.

Respeito é palavra que significa, na sua origem latina (respectus), a ação de olhar para trás. A palavra demonstra, claramente, que a pessoa dotada de respeito é aquela que não esquece o que passou, não se esquece de quem ficou para trás porque envelheceu, morreu ou sofreu. Geralmente se utiliza a palavra respeito para definir a atitude desejável diante de pessoas mais velhas, porque mais vividas, mais sofridas. Merecem, por um cansaço físico, passar à frente nas filas, ter primazia nos transportes, receber atendimento prioritário em hospitais e bancos e em outros serviços públicos ou privados. Isso não significa que devam ser tratados com pena, mas com dignidade. Inclusive no mercado de trabalho. Talvez não tenham a mesma força física. Têm, entretanto, geralmente, mais sabedoria. Viveram mais, experimentaram maiores perdas, amadureceram.

Mas também merece respeito a criança, um ser em formação. O Estatuto da Criança e do Adolescente traz um corolário dos direitos de que são detentoras essas crianças. Essa lei traz proibições inclusive para os pais e outros educadores. Traz exigências ao próprio Estado quanto ao atendimento das necessidades das crianças. Elas não podem ser humilhadas nem agredidas. Em outras palavras, precisam ser respeitadas.

Merece respeito o trabalhador, independentemente de sua profissão. Como é bom trabalhar em um ambiente em que as pessoas respeitam e são respeitadas, em que há hierarquia, mas não humilhação ou prepotência.

Merece respeito a mulher que não pode, por conta de uma desvantagem física (há exceções, é claro) se submeter ao marido agressor. Multiplicam-se os casos de violência doméstica que causam indignação e dor. A covardia do mais forte é intolerável.

Merece respeito todo cidadão, pelos impostos que paga, pelas obrigações que não pode deixar de cumprir. Desrespeita o cidadão o político corrupto, o mentiroso, o demagogo. Desrespeita o cidadão o político que age em interesse próprio ou aquele que é ineficiente na utilização do dinheiro que não lhe pertence.

Merecem respeito todas as pessoas. E isso se aprende em casa, na escola, na vida. E a melhor lição é que é possível vencer sem destruir os próprios princípios. É preciso respeitar os limites, as diferenças, as perdas. É preciso compreender que cada um é diferente. Quantos há que querem mudar tudo em si mesmo, com a intenção de agradar ao outro. Isto é falta de respeito próprio. Será que o outro teria a mesma disposição em mudar tudo para me agradar? Se tiver, tome cuidado. Quem não respeita a si mesmo não há de respeitar o outro também. O mais interessante é que essas coisas são tão simples, tão óbvias e exatamente por isso merecem ser repetidas o tempo todo, como uma composição química testada e comprovada. Porque o difícil é ser simples.

Respeito. No laboratório da vida, vale nos dois sentidos: comigo e com o outro. De mim para mim; do outro para o outro; de mim para o outro, e do outro para mim.

A harmonia no ambiente escolar

Por Gabriel Chalita (Revista Educacional)

Cecília Meireles, em sua saborosa poética, assim escreve: “Ensinar é acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por uma contemplação poética, afetuosa e participante.” Quando se lê a educação com esse olhar de Cecília, parece que o dia a dia na relação professor-aluno é encantado. Muitos dirão que essa elevação afetiva só funciona no plano das idéias e que, na prática, se assiste a um aviltante processo de destruição das relações humanas.

A violência nas escolas se materializa em agressões verbais e físicas. É a prática do bullying que destrói as relações e os seres humanos. O professor se sente vítima de um sistema que não o valoriza, portanto não o entende bem, nem o protege. Os alunos parecem prontos para a batalha. Padecem de amor e de limites. A ausência familiar se faz sentir na postura agressiva ou apatia em sala de aula.

Além disso, e talvez por isso, tentam disputar poder com os professores que, por sua vez, se deixam levar em um debate desnecessário. Há um axioma essencial na relação entre professor e aluno: autoridade harmonizada pelo afeto. O aluno precisa de limite e precisa compreender o papel do educador. O educador não pode impor sua autoridade, mas deve conquistá-la. Sem brigas nem ameaças. Sem histeria nem parcimônia. Com o respeito de quem sabe ensinar e aprender e de quem harmoniza as relações.

É imprescindível o resgate das relações harmoniosas no universo escolar. Evidentemente, são a experiência e a disposição do professor que farão com que ele toque na alma do seu aluno – sem isso não há educação. Alguns cuidados em nossas atitudes são de extrema importância. O primeiro deles é que professor não brigue com aluno, mesmo que tenha razão. Se isso acontecer, parte da sala torcerá pelo aluno e a outra pelo professor, assim, ele deixa de ser referencial. Um segundo cuidado seria o professor não colocar apelido em aluno. Outra precaução seria a de não comparar um com o outro – é preciso lembrar que não há homogeneidade no processo educativo, mas heterogeneidade. E, por último, o professor não pode se mostrar arrogante nem subserviente. O meio termo é amoroso.

E aí voltamos à Cecília Meireles. A harmonia no ambiente escolar há de ocorrer quando se consegue quebrar a carcaça que envolve alguns alunos, pela falta de algo que deveria ter vindo antes. É esse sonambulismo, essa postura incorreta frente à vida e frente a si mesmo.

Trata-se de ajudá-lo a viver essa contemplação poética, ou, em termos aristotélicos, a buscar uma aspiração para a vida. Ou ainda, em Paulo Freire, ajudá-los a desenvolver autonomia para sonhar.

Aí sim, o professor mostrará autoridade. Autoridade generosa de quem confia e cobra. De quem educa pelo exemplo, pelo respeito, pela admiração de seus alunos. E é nesse bom caminho que entra o afeto como instrumento de poder e participação. É do olhar do mestre que saem essas virtudes. O olhar que acolhe e que constrange quando necessário. O olhar que se faz cúmplice nas boas conquistas e que lamenta docemente pelo que se perdeu. O olhar que mantém o silêncio na sala de aula, sem gritos ou lamentações, mas que é capaz de chorar pela emoção de mais um aprendiz que encontrou seu caminho.

A harmonia no ambiente escolar não é uma utopia. É talvez uma tarefa complexa que exige o que de melhor podem dar os educadores: competência, coragem e muito, muito amor!

Pois é

Por Gabriel Chalita (Jornal das Letras)

A verdade pode durar uma vida inteira, perseguir uma mulher madura, assaltada de lembranças provocadas por uma amiga que mexe com uma varinha “o fundo lodoso da memória”. E, de repente, a avó percebe uma convulsão na sua realidade, porque de repente outra verdade se sobrepõe. Explica. Reduz. E ao mesmo tempo amplia. Pois é. A verdade, em Lygia Fagundes Telles, é tão crua quanto esclarecedora.

O que está em seus contos é a vida, sua própria e de outros, tão real e tátil como o chão áspero de cimento. Reli, com assombro renovado, seu Papoulas em feltro negro, que ela incluiu no livro “Meus contos preferidos”. Em onze páginas, Lygia roteiriza, organiza, sumariza, romantiza, anarquiza e enfim suaviza e cicatriza uma vida inteira.

Ojeriza.
Fuga.
Medo.
Ansiedade.
Mentira.

Não foi sem intenção que a narrativa das memórias suscitadas por um telefonema se concentre na latrina do colégio. Era o ponto da tangência. O ponto da fuga. A casinha fedorenta era melhor do que a sala de aula, com aquela presença esmagadora, opressora da professora castradora. Mentira! Tão bem dissimulada que pareceu verdade, por cinqüenta anos. E a verdade, um dia, lhe atinge a face como a aba de um chapéu de feltro, ornado de papoulas desmaiadas.

A memória é sinestésica. E os elementos formais estão ali, polvilhados no conto de Lygia, a declarar a ação dos sentidos. O tato da memória traz a aspereza do giz, o suor das mãos, o pé que esfrega a mancha queimada de cigarro no tapete. A audição da memória pede que se repita a Valsa dos Patinadores, como se repetiu a lembrança pela voz da companheira sessenta e oito, da escola primária. Mas o cheiro da memória remete, primeiro, a urina. A latrina escura. E eis a visão da memória a denunciar a obliteração. Negro quadro-negro. Trança negra. Saia negra. Feltro negro.

No meio do negrume, o sol reflete o seu fulgor majestoso na vidraça. É o esplendor do flagrante descobrimento. “O sol incendiava os vidros e ainda assim adivinhei em meio do fogaréu da vidraça a sombra cravada em mim.” Dissimulação – mesmo em meio a tanta luz, há uma sombra. É uma sombra que persegue a personagem até o reencontro com a professora. Sombra, por definição, é uma imagem sem contornos nítidos, sem clareza. Como a professora, morta-viva, “invadindo os outros, todos transparentes, meu Deus!” E Deus, que sombra é esta a que chamamos Deus?

Pois é. Neste conto de Lygia, o gosto da memória, ou a memória do gosto, está ausente. Não se manifesta o sabor. Por que não se manifestou o saber, é por isso?

O conto é partícula de vida. É meio primo da História. Mais do que eventos, registra caráter, caracteres, costumes, clima, ambiente, formas, cores, preferências, gostos. O conto é uma das modalidades da história feita arquivo. Por isso conto, contas, contamos. O conto oral é o livro em potência, a história em potência. Ambos pertencem a quem os usa, e a quem de seus exemplos faz uso.

A escola deve ensinar a ler. Mas também deve ensinar a ouvir. Por isso, também na escola, que é um complemento da família, é preciso haver quem conte histórias. Como Lygia, que nos faz lembrar que é preciso haver a lembrança de uma infância vivida, o acalanto de uma voz querida, contando histórias, ilustrando a vida.

Lygia é de uma franqueza pontiaguda.

Este conto, em especial, é uma escancarada confissão de humanidade. A personagem é Lygia, ou qualquer um de nós. A personagem é frágil. Conquanto pensasse, a vida inteira, que era forte. Imaginava-se executora. Conquanto pensasse, a vida inteira, que era executada. Humana, enfim. Eis a verdade. Eis Lygia. Pois é.

Entendimento, atitude de inclusão

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

“Para entender o coração e a mente de uma pessoa, não olhe para o que ela já conseguiu, mas para o que ela aspira”. A frase é de Gibran Khalil Gibran, filósofo e poeta libanês, que viveu entre 1883 e 1931, e resume a qualidade do entendimento. Quem entende também atende. Quem entende também estende – estende a mão e a atenção para a outra pessoa.

Há formas diferentes de perceber a importância do entendimento. Como se sente carente aquele que, diante do juiz, não consegue entender o que ele está dizendo; ou aquele que vai ao consultório e não domina a linguagem que o médico faz questão de rebuscar; ou em uma palestra em que o conferencista faz questão de mostrar que domina termos que não são comuns ao auditório. Para o professor, o entendimento é ainda mais fundamental, porque não se pode ensinar sem entender o aluno. E o aluno não aprende se não entende. É praticamente uma relação de companheirismo.

Um filme francês (O oitavo dia) mostra um verdadeiro retrato do entendimento.

Harry é um profissional de sucesso, mas não consegue o mesmo na vida pessoal. Cansada, a mulher o abandona, levando os dois filhos. No fim de semana em que o filme se passa, Harry deveria pegar os filhos, que vêm para visitá-lo, na estação de trem. Mas, ocupado como sempre, acaba se esquecendo. Os filhos ficam loucos da vida e prometem nunca mais querer vê-lo. E Harry sai dirigindo por uma estrada, para espairecer. Georges é órfão, tem a síndrome de Down, e mora em um hospital psiquiátrico. Nessa tarde, ele fica muito chateado de não receber visita e resolve fugir. Está caminhando por uma estrada, fugindo, sob uma forte neblina, e é quase atropelado pelo carro de Harry. O encontro acidental aproxima os dois. Harry tenta se livrar de Georges, mas uma forte ligação entre ambos é quase imediata. A partir daí, uma amizade especial se desenvolve, que levará a profundas mudanças na vida de Harry.

O ator que interpreta Georges é um jovem francês, com síndrome de Down, que mostrou que talento é resultado de dedicação e esforço. Ele teve o entendimento necessário para levar, ao cinema, a angústia do preconceito e a possibilidade da superação através da gentileza que nasce da amizade, que nasce do amor.

A lição do exemplo

A situação de Georges chama a atenção para a inclusão. Seus sonhos eram os de qualquer outro jovem de sua idade.

Há um mito no sistema educacional que perdura, por mais que a legislação já tenha garantido o contrário, que é o de separar as crianças com deficiência das outras crianças. Esse mito vem do medo de que o professor não consiga lidar com as diferenças. Vem ainda da preocupação de que os alunos não entendam que o outro é diferente e o acabem ridicularizando.

A prática mostra o contrário. Nas salas de aula em que convivem os alunos com deficiência com os outros alunos, nasce um sentimento de respeito e mais do que isso, de solidariedade. É comum, em uma sala com algum aluno que tenha deficiência auditiva, ver toda a sala aprendendo a linguagem de sinais para melhorar a convivência. Alunos empurrando a cadeira de rodas daquele que só se locomove dessa maneira, outros entendendo as dificuldades daquele que traz algum problema. Já dissemos que o jovem é solidário. O aluno é solidário. O preconceito nasce muito mais do discurso viciado de alguns pais que temem que seus filhos não se desenvolvam porque há algum aluno mais atrasado cognitivamente na mesma sala de aula.

Evidentemente, o professor precisa de capacitação para que esse aluno seja de fato incluído. O aluno precisa participar, executar as tarefas que estiverem ao seu alcance. Não precisa de pena, mas de dignidade. E os alunos, ao conviverem com pessoas diferentes, estarão se preparando para a vida. Nos países mais desenvolvidos, já foi superada essa discussão. Não apenas entendem que a inclusão é necessária na escola como o é em toda a sociedade. Dos meios de transporte ao mercado de trabalho, passando por teatros e cinemas e restaurantes.

Oxalá o tempo em que essas pessoas ficavam confinadas em casa, por falta de condições de se desenvolverem, não volte nunca mais. Precisam eles de atenção e de entendimento. Entender o outro faz-me entender a mim mesmo. Entender o outro faz-me melhor porque perco a arrogância de achar que o normal sou eu. O que é ser normal? Talvez no filme seja Georges o mestre de Harry.

Compreensão, instrumento da pegagogia

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

O filme inglês Iris (EUA, 2002), dirigido por Richard Eyre, aborda uma das mais importantes qualidades do caráter: a compreensão. Esta é uma palavra utilizada para determinar a capacidade de perceber completamente, com perfeito domínio intelectual, uma pessoa, uma coisa ou um assunto. Mas compreensão também significa a faculdade de possuir um espírito de complacência, indulgência ou simpatia para com as dificuldades de uma pessoa, percebendo os obstáculos que venham a suceder com alguém. A compreensão ajuda a conviver melhor. 

Quantos casos há de alunos que desistem por fatores externos à sala de aula. Tantas razões existem e são desconhecidas para que um aluno não consiga aprender. Bloqueios que nascem de uma educação castradora ou sem afeto. Medo de errar, medo de não ter inteligência, medo de ser rejeitado, medo de não dar certo. O educador compreensivo conhece seu aluno para ajudá-lo. Pais compreensivos compreendem as diferenças entre os filhos e aceitam os caminhos que cada um opta trilhar segundo os impulsos das escolhas nascidas da reflexão. Talvez o que possam fazer é ajudar a refletir. Pais compreensivos não exigem que os filhos vivam os sonhos não realizados por eles. A projeção da felicidade não é felicidade. Daí a assertiva sartreana de que “o inferno são os outros”, isto porque cada um projeta no outro a própria realização. E o resultado será a infelicidade para toda a gente.

Professores compreensivos conseguem entender que a aprendizagem é múltipla, e que cada um aprende de uma forma diversa. E mais: têm a humildade de mudar a estratégia para que os alunos que estejam à margem, por qualquer motivo, sintam-se integrados.

A compreensão faz com que casais que se educam mutuamente entendam que príncipes e princesas existem na ficção e alimentam os sonhos, mas que, na prática, são todos mortais, com as imperfeições e as idiossincrasias que marcam o ser humano. Imperfeições que desafiam. Os compreensivos se completam e por isso se respeitam e conseguem conviver em harmonia.

Compreendendo o ser humano

O longa-metragem Iris destaca partes da vida da romancista e filósofa irlandesa Iris Murdoch, alternando cenas que retratam o início de seu relacionamento com o professor de literatura, John Bayley, e outras que reproduzem os momentos finais de sua existência, já abalada pelo Mal de Alzheimer. Em sua juventude, Iris Murdoch (interpretada por Kate Winslet), revela uma personalidade forte, destemida e dominadora, que contrasta com o comportamento tímido, dócil e respeitoso de seu culto colega da Universidade de Oxford, John Bayley (representado pelo ator Hugh Bonneville).

Na fase madura da vida, Iris (agora interpretada por Judi Dench), é laureada com o título de Dama da Ordem do Império Britânico, em reconhecimento ao seu inegável talento na arte da palavra. Está no auge de uma bem-sucedida carreira literária, notabilizada por um extraordinário domínio da linguagem e pelo habilidoso uso dos recursos da imaginação, próprios de uma mente privilegiada. Mas é a mente que começa a sofrer os efeitos da doença degenerativa que a acometeu. Na companhia de seu apaixonado e zeloso companheiro – representado então por Jim Broadbent -, experimenta o progressivo comprometimento de seu cérebro, por meio da dramática diminuição de sua memória, de constrangedoras dificuldades de raciocínio e pensamento, e aniquiladoras alterações comportamentais.

Acima de tudo, seus romances lidam com questões morais. Conflitos entre o bem e o mal também estão freqüentemente presentes em cenas mundanas, que ganham força mítica e trágica por meio da sutileza com que são descritas. Embora intelectualmente sofisticados, seus romances são sempre melodramáticos e cômicos, fixados – como ela mesma dizia – num desejo de contar uma “boa história”.

Foi fortemente influenciada por pensadores como Platão, Freud, Simone Weil e Sartre, e por romancistas ingleses e russos do século XIX. Seus romances, muitas vezes, incluem personagens homossexuais, animais afetuosos e eventualmente um poderoso e quase demoníaco “galanteador”, que impõe sua vontade sobre a dos outros personagens.

No filme, há um trecho em que Iris fala para uma platéia lotada. Fala, emocionada, sobre a importância da educação. O que se destaca do pensamento dela é a compreensão da pessoa humana. Um posicionamento que requer, afinal, uma atitude de desligar-se de si mesma e ir em busca da outra pessoa, percebendo com os olhos da alma o que se passa em seus corações. Veja a seguir alguns trechos do filme, em que ela reflete sobre este assunto:

– “A educação não traz felicidade e nem sequer liberdade. Não nos tornamos felizes porque somos livres, se somos, ou porque somos ou fomos educados, se formos. Mas porque a educação pode ser o meio pelo qual percebemos que somos felizes. Ela abre nossos olhos e ouvidos. Conta-nos onde se escondem os prazeres. Convence-nos de que só existe uma liberdade que realmente importa. A da mente. E nos dá a segurança, a confiança para trilhar o caminho que a nossa mente educada proporciona.”

– “Os seres humanos se amam. No sexo, na amizade, e quando estão apaixonados. E eles cuidam de outros seres. Humanos, animais, plantas e até mesmo pedras. A busca e a promoção da felicidade estão em tudo isso e no poder da nossa imaginação.”

– “Toda alma humana presencia, talvez mesmo antes do nascimento, formas puras. Tais como justiça, moderação, beleza e todas as qualidades morais de que nos honramos. Somos levados em direção ao bem, pela vaga lembrança dessas formas. Simples, tranqüilas e abençoadas, as quais uma vez vimos, em sua luz límpida e clara, sendo nós mesmos puros.”

– “Temos que acreditar em algo divino. Sem a ajuda de Deus. Algo que poderíamos chamar de amor… ou bondade. Como diz o Salmo: ‘Até onde devo me afastar do teu Espírito para evitar a tua presença? Se eu subo até o paraíso, Tu estás lá. Se vou para o inferno, Tu estás lá. Se tomo as asas da manhã e vou para os mais remotos cantos do mar, até mesmo lá tua mão me conduzirá e tua mão direita me segurará.

Saber entender

O marido, no filme, compreende as transformações pelas quais passa a nossa personagem. Já dissemos que compreender não é tarefa simples. Significa sair de si e tentar entender o que se passa com o outro e com ele, apesar das mudanças ou diferenças conseguir conviver. Já se superou o mito de que os iguais devem estudar juntos. E os outros com os outros.

As falas de Íris mostram um pouco o que a educação pode significar para o ser humano. Quando ela diz que a educação não traz por si só a felicidade, mas é ela que tem o poder de nos ensinar a perceber o quanto somos felizes. A educação abre nossos olhos e ouvidos para que a nossa vida não seja uma constante reclamação. Educa nossa mente para que seja livre e nos dá a segurança para realizar nosso mister. Diz ainda outra linda verdade. Os seres humanos se amam. E por isso cuidam uns dos outros e quando não o fazem é por alguma perversão, algum distanciamento da própria humanidade. É feliz aquele que ama e isso se sente na elevação que vem do resultado de uma ação nobre.

E para não parecer contraditório frente ao mar de sofrimentos e traições e maldades que há por aí, insiste Íris que a alma humana presencia talvez antes mesmo do nascimento, formas puras, e isso é platônico. O mundo das idéias em que tudo e perfeito. E é por causa dessa pureza que somos levados em direção ao bem e é apenas fazendo o bem que encontramos o caminho da felicidade. É como que uma luz que nunca deixará de ser luz mesmo escondida, mesmo empoeirada. Talvez ela não cumpra sua função maior que é a de iluminar, talvez nem percebam que se trata de luz. Mas sua essência será sempre essa, luz. Luz que não ilumina. Que pena. Faltou um pouco de paciência para limpar o recipiente ou para colocá-lo em um local correto.

E fala Íris de Deus. É Ele a origem e a essência do Bem. E é no bem que a felicidade se justifica. E é no Bem que a liberdade se amplia e que os horizontes nos remetem a ação. É o motor imóvel de Aristóteles que move os motores móveis. Sem a alavanca primeira nem existiram os demais movimentos.

Nosso eterno amigo, o livro

Por Gabriel Chalita (Jornal do Brasil)

O semiólogo italiano Umberto Eco afirmou certa feita que o livro, “depois de ser inventado, vai-nos acompanhar por muito tempo”. Penso, entretanto, que essa companhia será para sempre, pois, assim como a televisão não fez desaparecer o rádio, nem o cinema impediu que o teatro continuasse a ser arte tão antiga quanto admirada, a cultura digital não eliminará o livro.

À medida que se prestigia, nas últimas décadas, a educação – algo fundamental para elevar a condição de vida do nosso povo e promover o correto e justo processo de desenvolvimento do país – abre-se espaço, ao lado da cultura digital, para a continuada difusão da cultura letrada e para o aparecimento de pensadores, filósofos, cientistas e poetas, indispensáveis para que brotem novos leitores e escritores.

Conquanto ainda haja um percentual expressivo de analfabetos em nosso país, cabe registrar que, nas últimas décadas, o hábito da leitura tem crescido entre nós. Conforme revelou recente pesquisa da Câmara Brasileira do Livro, o brasileiro lê, em média, 1,8 livro por ano – obviamente um número modesto se compararmos com a França, onde o índice é de 7, ou a Colômbia, país vizinho ao nosso, com 2,4 livros lidos por ano.

Para isso, muito têm ensejado iniciativas governamentais e de instituições privadas, visando a estimular a leitura e a reflexão a respeito de tudo que é humano. Como ministro da Educação, em meados da década de 80, empreendi, por intermédio da criação do Programa Nacional do Livro Didático (Prodeli), ações para aumentar a oferta de livros aos estudantes da rede pública – da União, Estados e municípios – por entender que essa seria uma forma de não somente ajudar o aluno a educar-se, mas também fazer desabrochar novas vocações e concorrer para o aggiornamento cultural e intelectual da sociedade brasileira. Infelizmente, observe-se, ainda é pequena a quantidade de bibliotecas, sobretudo nas regiões mais pobres do país.

A publicação de livros está ligada também ao fortalecimento da democracia, especialmente a liberdade de expressão. Em tempos não remotos, livros, jornais e enciclopédias eram assunto de polícia e da censura, que ainda sobrevive em vários países e é o pior dos instrumentos que a liberdade de pensamento e manifestação tem de vencer.

Recorde-se a famosa Carta histórica e política endereçada a um magistrado, de Denis Diderot, talvez o principal responsável pela primeira enciclopédia do mundo. O magistrado a quem Diderot se referia era Antoine Gabriel de Sartine, na época, ajudante-geral de Polícia da Cidade de Paris, cargo que exercia cumulativamente com o de diretor de imprensa, encarregado da censura dos jornais.

O livro, ademais, é de fundamental importância para a “vertebração” de nossa identidade. Esta, aliás, é antes um desejo do que uma necessidade, pois não podemos deixar de reconhecer que ela é moldada pelo perpassar do tempo. O Brasil, nação ainda jovem, já ostenta, contudo, forte “instinto de nacionalidade”, como definiu Machado de Assis, ao observar há mais de 100 anos: “Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço”.

Ao Brasil se credita, embora persistam ignominiosos índices de desigualdade social e econômica, um notável melting pot, miscigenação que poucos países possuem, mormente se consideramos a nossa extensão territorial e a grande dimensão demográfica. A busca da identidade, por se tratar de um processo que se tece ao longo do tempo, é endógena e não há tampouco lei ou critério estabelecido que a conceitue “nessa estranha máquina que se chama mundo”, como diria Camões.

Sabemos igualmente que o livro, instrumento ancilar do desenvolvimento cultural de um país, ajuda a preservar a memória nacional, a suscitar idéias para a solução de nossos problemas e a direcionar o itinerário da nacionalidade com relação ao futuro. Como disse o poeta John Milton, um dos maiores vultos da literatura universal, “os livros são tão vivos quanto os seres humanos”. E mais: “Vetada a circulação de um livro… o que morre não é simplesmente a expressão de idéias individuais… mas todo o valor atemporal e perene, da razão”.

O mundo feminino

Por Antônio Olinto (A Tribuna da Imprensa)

Repousar todo um livro no universo feminino pode levar o escritor à descrição de vários tipos de mulher – a sonhadora, a desconfiada, a crédula, a humilde, a estrela, a solitária, a tímida, a eterna apaixonada, abandonada, a ingênua, a invejosa, a tranqüila, a desesperada, a permanente alegre, a mal-humorada, quase todas vítimas do amor, donas do amor, a virgem e a quase virgem, a vaidosa e a simples, a medrosa e a que vai na frente, a recatada e a explosiva, a companheira ideal e a inimiga, a bela e a fera, a que ri e a que chora, a ciumenta e a pegajosa – todas estão no livro Mulheres de água, de Gabriel Chalita.

Em sua introdução ao livro, explica o autor: “A água pode ser nítida, quando fluida. Pode ser opaca, quando gelo. Cristalina ou turva. Tranqüila ou bravia. Molda-se ao ambiente, desliza, ocupa as gretas, vazios e vãos. Mansa ou ligeiramente ondulada, alaga planos e baixios, espraia-se. Em desníveis, empurra, puxa, ergue-se em cristais. Água com mais água ganha força, ao mesmo tempo briga, encrespa-se e encapela-se, vaga sobre vaga, turbilhão, tormenta. Mulheres são água. Fluidos, sangue, mênstruo, seiva. Mulheres são pássaros. Umas cantam, tristemente, as suas penas. Outras exibem vistoso colorido. Mas têm o projeto de fazer ninho, o sonho de voar, o vôo para o horizonte e o peito cheio de amor”.

Cada capítulo do livro funciona como narrativa isolada, mas uma ligação maior prepondera nas histórias, com a mulher sempre no primeiro lugar. Em alguns contos é a mãe quem toma conta da história, seguindo o filho em sua busca de um caminho, em outros é a mulher imaginando o que fará para conquistar o seu homem. E há o caso da mulher que e julga a melhor, já leu muita biografia, mas jamais conheceu alguém tão fascinante como ela mesma. As figuras femininas vão aparecendo no livro – Judith, a impaciente, Loreta, a disponível, Joninha, a sábia, Goretti, a baixinha, Estela, a esperta, Anésia, a iniciante – e outras que se inserem no mundo feminino que o autor vai traçando, com a leveza de estilo em tudo condizente com o espírito. A manhã de trabalho de Goretti, por exemplo, é típica do estilo de Gabriel Chalita.

“Goretti está sem vontade de trabalhar. Começa a telefonar. Adora dar conselhos. Para uma pessoa, sugere que deixe o namorado, não confia nos homens; para outra, sugere que desmarque a viagem do fim de semana, decerto vai chover; para outra, desaconselha a compra de um carro novo, sempre desvaloriza quando sai da revendedora. Para outra, comenta sobre serviços que não funcionam. E assim acaba sua manhã de trabalho”. O que o autor na realidade faz é promover um levantamento de tipos femininos em traços fortes e ao mesmo tempo levemente cômicos. Trata-se, porém, de uma comicidade tocada de lirismo. Lírico, por exemplo, é o capítulo “Medo de ontem”, em que Gabriel Chalita descreve um ato de amor com perfeita perícia literária. Este é, na verdade, o traço principal do livro, cujo estilo tem um ritmo em que palavras também se juntam com em versos.

O acadêmico Marcos Vinicius Vilaça, presidente da Academia Brasileira de Letras diz na 4ª capa do livro: “Se a água é o elemento essencial de toda a vida, sua fonte e origem, por outro lado, também é, aos olhos humanos, o mais variável, o mais inapreensível de todos, sólido, líquido, gasoso, repousando na mais perfeita placidez ou bramando furiosamente, sempre se transformando e fluindo como o próprio tempo. Foi sem dúvida pensando nisso que Gabriel Chalita teve a felicidade de intitular este Mulheres de Água, cujos pequenos contos, as sintéticas narrações, cobrem um vasto espectro da alma feminina. Nascidos de observações do real, aparentemente transfigurados em pura imaginação pela habilidade da narrativa, eles nos conduzem a uma enriquecedora viagem pela alma da mulher, das muitas mulheres, tão bem apreendidas, sem nenhum reducionismo, pela empática acuidade do autor.”

Mulheres de água, de Gabriel Chalita, é um lançamento da Editora Arx. Diretora editorial: Janice Florido. Gerente editorial: Carla Fortino. Editora de arte: Ana Dobón. Projeto gráfico: Dany Editora Ltda. Imagem de capa: Getty Images.