O mundo feminino

Por Antônio Olinto (A Tribuna da Imprensa)

Repousar todo um livro no universo feminino pode levar o escritor à descrição de vários tipos de mulher – a sonhadora, a desconfiada, a crédula, a humilde, a estrela, a solitária, a tímida, a eterna apaixonada, abandonada, a ingênua, a invejosa, a tranqüila, a desesperada, a permanente alegre, a mal-humorada, quase todas vítimas do amor, donas do amor, a virgem e a quase virgem, a vaidosa e a simples, a medrosa e a que vai na frente, a recatada e a explosiva, a companheira ideal e a inimiga, a bela e a fera, a que ri e a que chora, a ciumenta e a pegajosa – todas estão no livro Mulheres de água, de Gabriel Chalita.

Em sua introdução ao livro, explica o autor: “A água pode ser nítida, quando fluida. Pode ser opaca, quando gelo. Cristalina ou turva. Tranqüila ou bravia. Molda-se ao ambiente, desliza, ocupa as gretas, vazios e vãos. Mansa ou ligeiramente ondulada, alaga planos e baixios, espraia-se. Em desníveis, empurra, puxa, ergue-se em cristais. Água com mais água ganha força, ao mesmo tempo briga, encrespa-se e encapela-se, vaga sobre vaga, turbilhão, tormenta. Mulheres são água. Fluidos, sangue, mênstruo, seiva. Mulheres são pássaros. Umas cantam, tristemente, as suas penas. Outras exibem vistoso colorido. Mas têm o projeto de fazer ninho, o sonho de voar, o vôo para o horizonte e o peito cheio de amor”.

Cada capítulo do livro funciona como narrativa isolada, mas uma ligação maior prepondera nas histórias, com a mulher sempre no primeiro lugar. Em alguns contos é a mãe quem toma conta da história, seguindo o filho em sua busca de um caminho, em outros é a mulher imaginando o que fará para conquistar o seu homem. E há o caso da mulher que e julga a melhor, já leu muita biografia, mas jamais conheceu alguém tão fascinante como ela mesma. As figuras femininas vão aparecendo no livro – Judith, a impaciente, Loreta, a disponível, Joninha, a sábia, Goretti, a baixinha, Estela, a esperta, Anésia, a iniciante – e outras que se inserem no mundo feminino que o autor vai traçando, com a leveza de estilo em tudo condizente com o espírito. A manhã de trabalho de Goretti, por exemplo, é típica do estilo de Gabriel Chalita.

“Goretti está sem vontade de trabalhar. Começa a telefonar. Adora dar conselhos. Para uma pessoa, sugere que deixe o namorado, não confia nos homens; para outra, sugere que desmarque a viagem do fim de semana, decerto vai chover; para outra, desaconselha a compra de um carro novo, sempre desvaloriza quando sai da revendedora. Para outra, comenta sobre serviços que não funcionam. E assim acaba sua manhã de trabalho”. O que o autor na realidade faz é promover um levantamento de tipos femininos em traços fortes e ao mesmo tempo levemente cômicos. Trata-se, porém, de uma comicidade tocada de lirismo. Lírico, por exemplo, é o capítulo “Medo de ontem”, em que Gabriel Chalita descreve um ato de amor com perfeita perícia literária. Este é, na verdade, o traço principal do livro, cujo estilo tem um ritmo em que palavras também se juntam com em versos.

O acadêmico Marcos Vinicius Vilaça, presidente da Academia Brasileira de Letras diz na 4ª capa do livro: “Se a água é o elemento essencial de toda a vida, sua fonte e origem, por outro lado, também é, aos olhos humanos, o mais variável, o mais inapreensível de todos, sólido, líquido, gasoso, repousando na mais perfeita placidez ou bramando furiosamente, sempre se transformando e fluindo como o próprio tempo. Foi sem dúvida pensando nisso que Gabriel Chalita teve a felicidade de intitular este Mulheres de Água, cujos pequenos contos, as sintéticas narrações, cobrem um vasto espectro da alma feminina. Nascidos de observações do real, aparentemente transfigurados em pura imaginação pela habilidade da narrativa, eles nos conduzem a uma enriquecedora viagem pela alma da mulher, das muitas mulheres, tão bem apreendidas, sem nenhum reducionismo, pela empática acuidade do autor.”

Mulheres de água, de Gabriel Chalita, é um lançamento da Editora Arx. Diretora editorial: Janice Florido. Gerente editorial: Carla Fortino. Editora de arte: Ana Dobón. Projeto gráfico: Dany Editora Ltda. Imagem de capa: Getty Images.

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