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Os grandes males pedem grandes remédios

Por Gabriel Chalita

O título deste artigo remete ao Sermão de São Roque, de Padre Vieira, proferido em 1659. Serve-nos de inspiração para ver, julgar e agir sobre um dos maiores males de nosso tempo, a corrupção. Infelizmente, o Brasil frequenta, desde que se mede a corrupção mundial, há 16 anos, a incômoda faixa da 60ª à 80ª posição no ranking da percepção da corrupção entre as nações (no ano passado, o País ocupou a 69ª, entre os 178 países, devendo estar próximo disso no relatório que, provavelmente, será apresentado em outubro pela TransparencyInternational).

A nota que o Brasil vem tirando anda, sistematicamente, perto de 3,5 (3,7 no ano passado) – numa escala de 0 a 10 -, o que nos deixa muito longe dos países nórdicos, com suas invejáveis notas ao redor de 9,5.

Esse índice é bem conhecido e amplamente divulgado e discutido a cada ano, quando a Transparency lança seu novo relatório. O que se discute menos é outro índice, o que mede a percepção da corrupção nacional pelos próprios cidadãos. No último levantamento, de 2010, apenas 4% dos mil brasileiros entrevistados pelo Ibope para a TransparencyInternational reportaram que já pagaram propina a algum dos prestadores de serviço elencados na entrevista – funcionários públicos, policiais, políticos, etc. – para a obtenção ou aceleração de algum favor ou serviço. Isso nos deixaria na seleta lista dos países menos corruptos do mundo.

Ou então, mais preocupante, essa discrepância entre a corrupção medida e a sua percepção pela população poderia estar demonstrando o despreparo com que o cidadão brasileiro encara a corrupção e a necessidade de combatê-la.

Teríamos, então, um problema de raiz, tão profundo, que todas as intenções governamentais e o impressionante instrumental hoje colocado à disposição do cidadão – tal como portais da transparência, contas públicas abertas, jornalismo investigativo, procuradores independentes e dinâmicos – não bastariam para nos tirar desse patamar.

A Presidente Dilma Rousseff, por ocasião de sua participação na Assembleia Geral das Nações Unidas, reafirmou seu compromisso com a transparência e o combate aos “malfeitos” – entenda-se, à corrupção. Trata-se de atitude admirável, principalmente vinda da líder maior da nação, eleita com mais de 55 milhões de votos e que deve, portanto, servir de exemplo para o seu País.

Ver e julgar. Não há como desconsiderar que a corrupção corrói setores públicos e privados. Vamos ao agir. No mesmo “Sermão de São Roque”, afirma Vieira, “o maior perigo não é quando se teme o perigo, é quando se teme o remédio”. E o remédio é o agir.

É preciso incutir em cada um dos brasileiros a consciência de que o comportamento ético começa em casa, no exemplo que os pais dão aos filhos. Segue na escola, onde professores preparados e valorizados devem ensinar e discutir os valores com os alunos desde as primeiras incursões nesse espaço de paz. É assunto de responsabilidade de todas as esferas da administração – municipal, estadual e federal, de todos os poderes e de toda a sociedade organizada.

Se a educação demora a surtir efeitos, usemos, imediatamente, a tecnologia. Aí está a solução mais rápida – transparência, eficiência de sistemas, vigilância de ações e punição justa aos responsáveis.

É preciso usar os remédios sem medo. Os que temem os remédios preferem conviver com os “malfeitos” e desperdiçam a oportunidade de exercício do poder, seja público ou privado, para fazer o bem.

A ética se constrói tijolo a tijolo no cotidiano, no hábito. E o seu exercício é o grande remédio para este grande mal: a corrupção

Professores: senadores da esperança

Por Gabriel Chalita

Semeadores são aqueles que se dedicam a fomentar a vida. Semeiam porque acreditam na dádiva futura de cada semente. Semeiam porque sabem que os frutos da existência dependem da fertilidade dos campos. No cultivo da vida, como no amanhar da terra, é preciso permanente cuidado. Antes, durante e depois. O prêmio é a boa colheita que alimenta. Os professores são semeadores. Semeadores da esperança. São mulheres e homens que fazem da vida uma lição de amor. Escolher ser professor é assumir um compromisso com a formação do ser humano.

Quem ensina alguma coisa a alguém experimenta a generosidade, o prazer da entrega, a alegria do florescer humano. Essa é a esperança a ser semeada. O início de uma relação deve ser sempre sedutor. Em uma sala de aula, só o amor pode inspirar as relações de ensino, de forma a permitir a transformação pelo conhecimento. É preciso que o estudante se encante pela postura do professor, assim como pelas informações que forem transmitidas. É preciso semear o respeito mútuo, o deleite do convívio. Paulo Freire, no livro Pedagogia da Autonomia, apresenta uma visão inspiradora a respeito de seu papel de educador: “Sou professor a favor da esperança que me anima, apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza. Sou professor a favor da boniteza da minha própria prática (…)”. Na mesma obra, nosso andarilho da esperança afirma que, tão importante quanto o ensino dos conteúdos, é seu testemunho ético ao ensiná-los, a decência com que o faz, a preparação científica revelada com humildade, o respeito jamais negado ao educando. Faz-se mister que nós, professores, não nos acomodemos, que sempre busquemos a motivação que, inicialmente, nos conduziu ao ofício de educar. Se olharmos para trás e imaginarmos o que ainda há por vir, conseguiremos manter o prazer de ensinar, reinventando – a cada dia – a mágica ansiedade da primeira vez em sala de aula. Um prazer vivido e revivido na consciência do dever cumprido. Independentemente do quanto já caminhamos, ainda resta um longo caminho pela frente, e os caminhantes valorosos não permanecerão parados por muito tempo. É, também, preciso sonhar. Se não, a esperança se esvai. Sonhar que todos os alunos aprendam sem tropeços, que todos sejam educados, que não haja dificuldade de relacionamento com os outros professores, que os pais acompanhem em casa tudo o que a escola sugerir, que governos e patrões entendam a importância do professor e o valorizem. Valorizar o professor é fundamental, porque o professor é a alma, o pilar da educação. Os sonhos contemporâneos dos educadores precisam estar fortalecidos o suficiente para vencerem as numerosas barreiras que impedem que a aprendizagem se construa com a força que lhe é necessária. Quem não sonha não semeia nem educa. Confesso-me apaixonado pela profissão que escolhi, porque faço parte de uma plêiade de realizadores que não desistem, que não se entregam. Aprendo com professores que me ensinam no momento em que me indagam. Aprendo com alunos. Aprendo com relatos de experiências ousadas que conseguiram desmistificar dogmas educacionais. Gosto de ser semeador. A semeadura é o meu ofício. É o meu prazer. É por isso que, se me perguntarem como me vejo daqui a 50 anos, eu, sem dúvida, responderei: dando aulas. Ou, se preferirem, semeando esperança.
Aos semeadores, minha homenagem!

Professores: semeadores da esperança

Por Gabriel Chalita

Semeadores são aqueles que se dedicam a fomentar a vida. Semeiam porque acreditam na dádiva futura de cada semente. Semeiam porque sabem que os frutos da existência dependem da fertilidade dos campos. No cultivo da vida, como no amanhar da terra, é preciso permanente cuidado. Antes, durante e depois. O prêmio é a boa colheita que alimenta. Os professores são semeadores. Semeadores da esperança. São mulheres e homens que fazem da vida uma lição de amor.

Escolher ser professor é assumir um compromisso com a formação do ser humano. Quem ensina alguma coisa a alguém experimenta a generosidade, o prazer da entrega, a alegria do florescer humano. Essa é a esperança a ser semeada.

O início de uma relação deve ser sempre sedutor. Em uma sala de aula, só o amor pode inspirar as relações de ensino, de forma a permitir a transformação pelo conhecimento. É preciso que o estudante se encante pela postura do professor, assim como pelas informações que forem transmitidas. É preciso semear o respeito mútuo, o deleite do convívio.

Paulo Freire, no livro Pedagogia da Autonomia, apresenta uma visão inspiradora a respeito de seu papel de educador: “Sou professor a favor da esperança que me anima, apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza. Sou professor a favor da boniteza da minha própria prática (…)”. Na mesma obra, nosso andarilho da esperança afirma que, tão importante quanto o ensino dos conteúdos, é seu testemunho ético ao ensiná-los, a decência com que o faz, a preparação científica revelada com humildade, o respeito jamais negado ao educando.

Faz-se mister que nós, professores, não nos acomodemos, que sempre busquemos a motivação que, inicialmente, nos conduziu ao ofício de educar. Se olharmos para trás e imaginarmos o que ainda há por vir, conseguiremos manter o prazer de ensinar, reinventando – a cada dia – a mágica ansiedade da primeira vez em sala de aula. Um prazer vivido e revivido na consciência do dever cumprido. Independentemente do quanto já caminhamos, ainda resta um longo caminho pela frente, e os caminhantes valorosos não permanecerão parados por muito tempo.

É, também, preciso sonhar. Se não, a esperança se esvai. Sonhar que todos os alunos aprendam sem tropeços, que todos sejam educados, que não haja dificuldade de relacionamento com os outros professores, que os pais acompanhem em casa tudo o que a escola sugerir, que governos e patrões entendam a importância do professor e o valorizem. Valorizar o professor é fundamental, porque o professor é a alma, o pilar da educação. Os sonhos contemporâneos dos educadores precisam estar fortalecidos o suficiente para vencerem as numerosas barreiras que impedem que a aprendizagem se construa com a força que lhe é necessária. Quem não sonha não semeia nem educa.

Confesso-me apaixonado pela profissão que escolhi, porque faço parte de uma plêiade de realizadores que não desistem, que não se entregam. Aprendo com professores que me ensinam no momento em que me indagam. Aprendo com alunos. Aprendo com relatos de experiências ousadas que conseguiram desmistificar dogmas educacionais.

Gosto de ser semeador. A semeadura é o meu ofício. É o meu prazer. É por isso que, se me perguntarem como me vejo daqui a 50 anos, eu, sem dúvida, responderei: dando aulas. Ou, se preferirem, semeando esperança.

Aos semeadores, minha homenagem!

O Dia do Professor e a força do magistério

Por Gabriel Chalita

Na obra-prima “Os Sertões”, Euclides da Cunha presenteou-nos com uma frase que entrou para a história: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Parafraseando o autor, podemos dizer, com convicção, que também “o educador é, antes de tudo, um forte”. Agente fundamental no processo de formação de gerações, o professor merece, em sua homenagem, a data de hoje. Mas a valorização desse profissional deve ser um exercício diário, que corresponda à complexidade e à nobreza de seu ofício. 

Em muitos aspectos, o magistério assemelha-se à geração da vida, à formação e ao desenvolvimento de novos seres. Como as mães e os pais, os mestres orientam, aconselham, ensinam e regam, todos os dias, dezenas de sementes. Sua função é fazer com que as sementes cresçam, floresçam e deem frutos capazes de alimentar os novos tempos com sua beleza multicor e vibrante.

Os educadores-sonhadores jamais desistem de suas sementes, mesmo que não germinem no tempo certo… Mesmo que pareçam frágeis frente às intempéries… Mesmo que não sejam viçosas e que não exalem o perfume que se espera delas. O espírito de um mestre nunca se deixa abater pelas dificuldades. Ao contrário, esses educadores entendem experiências difíceis como desafios a serem vencidos.

E uma vez superados esses desafios… como é indescritível o resultado de ver transformada uma planta frágil em uma árvore frondosa! É quando se percebe que cada minuto empregado nessa empreitada vale por uma vida e nos dá a certeza de que é imprescindível continuar exercendo esse ofício gratificante e incomparável.

Para isso, há que se cultivar com os alunos uma relação de troca, em que haja o compartilhar e o aprendizado mútuo. Há que se conquistar o aluno pela paixão com que se leciona esta ou aquela disciplina. É preciso conquistá-lo pelos gestos que fazem o dia a dia da sala de aula.

Gestos singelos que demandam dos professores a visão e a clareza de que têm em mãos as crianças e os jovens que darão continuidade ao processo natural de ocupação deste planeta. Cabe aos educadores dedicar-se ao máximo para que essa juventude seja partidária do progresso com responsabilidade, do exercício da cidadania plena, da política fundamentada no trabalho em prol do bem para a coletividade, do altruísmo, do respeito às diferenças de cor, de credo e de classe social, do diálogo franco e aberto em vez da intolerância, da busca de soluções e de alternativas que viabilizem a cultura da paz…

Contribuir para um novo mundo exige, tão-somente, o amor, a paciência e o respeito pelo aprendiz. Significa começar a olhar os alunos diretamente nos olhos. Olhar com ternura, com apoio, com segurança e com credibilidade.

Acreditamos nisso e ressaltamos a necessidade de os educadores terem de enxergar sempre além. Educar é preparar para a vida, e isso exige o empenho, a dedicação e o trabalho ininterruptos da família, da escola e da sociedade. E a escola deve ser o centro de luz que irradia a energia necessária para que essa educação ocorra da melhor forma possível, em todos os níveis e em todas as esferas sociais.

Temos certeza de que os educadores compactuam com esses ideais e lutam diariamente para colocá-los em prática. Muitos enfrentam, bravamente, jornadas cansativas e rotinas estafantes. Muitos abrem mão de seu lazer para preparar aulas mais interessantes e sedutoras. Muitos têm de conciliar seus horários e suas agendas de forma quase hercúlea, deslocando-se por grandes distâncias e enfrentando o trânsito caótico das metrópoles. Muitos dormem tarde e acordam cedo na esperança de que seu trabalho possa propiciar um mundo melhor.

Em razão de tantos fatores, nada mais justo que dedicarmos esta data a milhões de professores brasileiros, fortes na prática de seu ofício, hábeis na condução de seus aprendizes. Também se faz necessário reconhecer o trabalho e a dedicação desses profissionais dia após dia. Afinal, é na relação cotidiana que o educador ajuda a construir, com dignidade, uma sociedade mais justa e cidadã.

O poder da tolerância e da união

Diferentemente das notícias que nos chegam por meio dos diversos veículos de comunicação, espalham-se, pelo País, iniciativas grandiosas de combate ao bullying, com resultados surpreendentes. Sustentadas pela tolerância e pela união dos atores envolvidos no universo escolar, elas são, em sua maioria, lideradas por professores. Profissionais que alicerçam, incansavelmente, a convivência harmoniosa numa sociedade plural.

Concebidas intramuros, as ações antibullying objetivam a conscientização da importância de uma convivência harmoniosa no ambiente escolar, a partir das situações de conflito experimentadas pelos alunos e pelos professores. Desse modo, a observação e a análise dos conflitos são material precioso na busca por soluções diante dos desafios de se conviver, pacificamente, com as diferenças. É o poder das pequenas revoluções empenhadas nos diversos rincões deste país.

E o professor é, assim, figura fundamental nesse contexto, haja vista que ele é a alma do processo formativo, o intercessor das situações educativas, o líder dessas pequenas revoluções. Mediar conflitos é educar por meio do afeto, disseminando bons valores, como a amizade, a união e a tolerância. O professor mediador é vital para o sucesso social, emocional e cognitivo dos alunos. Sem sua intervenção, a já difícil compreensão do mundo se torna ainda mais complexa e intricada.

Um mestre é capaz de fazer com que os alunos percebam que podem contar com alguém dentro da escola. E essa percepção tem grande valor, pois um dos problemas do bullying é o fato de a maioria das vítimas permanecer calada, com medo de não ser ouvida ou de sofrer retaliações. Ao sentir-se segura e acolhida para narrar sua dor e, assim, aliviá-la, é provável que a vítima o faça. Isso vale também para o convívio familiar – pais devem estar presentes no dia a dia dos filhos, mostrando-lhes a importância de compartilharem aquilo que os incomoda, que os torna infelizes.

É certo que não há como separar o ser humano profissional do ser humano pessoal. O professor também tem problemas, mas, como parceiro mais experiente, deve ser capaz de romper barreiras e de trabalhar suas limitações, a fim de transmitir uma sensação de tranquilidade, de ajuste, de equilíbrio aos aprendizes. O professor é referência para esses alunos, que vivem em um mundo tão sem referências como o de hoje. E aí reside o seu poder de transformar duras realidades em espaços de paz.

Não se trata de estender mais uma responsabilidade ao professor – profissional já sobrecarregado por dificuldades de todo tipo que se impõem ao seu ofício –, mas, sim, de resgatar o encantamento de uma profissão que cuida, que orienta pessoas e que constrói possibilidades. Paulo Freire afirmava que professor precisa gostar de gente. Caso não goste, não pode ser professor. Dar afeto, vibrar com a conquista do outro, acolher, transformar dores em alegrias são privilégios humanos. Que capacidade infinda de dar e de receber afeto, de sorrir, de chorar, de abraçar, de vibrar com o sucesso do outro tem um professor! Que poderes de atar laços humanos, de promover a união e de semear a tolerância tem um professor! Que privilégio ser um professor!

Fonte: revista Profissão Mestre por Gabriel Chalita

Um exercício de coragem

Aristóteles dizia que “a coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras”. A coragem também foi tema de Platão, seu mestre. No “Mito da Caverna”, o filósofo ensina que sair da caverna e enfrentar a vida não é simples. É, inclusive, incômodo, para quem nunca viu a luz, deparar-se com ela. A vida na caverna parece mais confortável, sem grandes mudanças de temperatura, sem feras que possam devorar, sem novidades. Entretanto, na caverna, vive-se das sombras. Quem quer viver, de fato, tem de enfrentar os riscos que a vida real oferece.

A política é um espaço propício para correr riscos. Tenho incentivado meus alunos e meus amigos a participarem mais ativamente da política. Há aqueles que oferecem como resposta os riscos da exposição pública, das injustiças, dos adversários imundos que atuam no subsolo. Há outros que fazem o discurso da desconfiança desse espaço para qualquer transformação real da sociedade. São descrentes da política porque consideram que “o poder corrompe o homem”.

Evidentemente, é mais fácil ficar em “casa”. O conforto é ainda maior do que o da “caverna”. E é preciso respeitar quem, assim, decide. Mas não custa insistir. Se fazemos coro àqueles que acreditam na política como “arte e ciência do bem comum” (também de Aristóteles), se somos capazes de ver que uma parcela dos políticos opta pela corrupção, pelo egóico exercício do poder, precisamos trazer novas vozes.

Conheço muitos políticos corretos. A mídia divulga mais os que nos envergonham. E isso não é uma crítica. Não se fala dos aviões que não caem. Anuncia-se o que caiu. Um político honesto é um avião que voa e chega ao seu destino. E há muitos que são assim. Há prefeitos por este Brasil afora que conseguiram mudar a história da sua cidade sem negligenciar os valores preconizados na lei e na ética. Há governos capazes de unir competência e sensibilidade. Há parlamentares que, imbuídos dos melhores sentimentos, trabalham com entusiasmo, honrando o voto e a confiança que receberam.

Os corretos, muitas vezes, são vítimas de injustiça, são misturados com os que não têm as mesmas intenções. Mas, com o exercício da coragem, prosseguem. É melhor isso a permanecer na caverna.

Que novas lideranças saiam da caverna. O exercício da crítica torna-se mais eficaz quando os que criticam resolvem participar e, participando, dão esperanças à política, ou melhor, à Política.

Fonte: site Brasil 247 por Gabriel Chalita

A leitura: prazeroso navegar

É impressionante como o mar e a leitura estão ligados de forma indelével há milhares de anos. O escritor argentino Jorge Luis Borges – amante inveterado dos livros – dizia uma frase que sintetiza bem esse conceito: “Toda a literatura declina de Homero”. A afirmação impactante do autor de Ficções expõe a importância do poeta grego, cujas obras Ilíada e Odisséia podem ser consideradas verdadeiros marcos da literatura ocidental.

Ambos são belíssimos, mas, em Odisséia, Homero criou uma das mais belas e instigantes histórias já escritas, na qual o mar exerce um papel fundamental no desenvolvimento de seu enredo. Afinal, o que seria de Ulisses (ou Odisseu) sem o mar como pano de fundo para suas aventuras?

Da mesma forma, Luís de Camões e Fernando Pessoa – para citar apenas dois ícones da literatura de língua portuguesa – muitas vezes fizeram uso da pena para versificar sobre o mar, sobre sua grandiosidade, sobre sua imponência, sobre sua beleza e sobre sua relevância crucial para o progresso da civilização (grandes descobrimentos, novas rotas de navegação, possibilidade de expansão econômica e comercial etc.). Por meio da História e da Literatura, percebemos que o mar sempre foi palco de grandes aventuras, conquistas, e de numerosos feitos heroicos da humanidade.

Esse mesmo sentimento de descoberta, de desbravamento e de heroísmo presente no espírito dos grandes navegadores também se apodera de todos os personagens reais da vida quando se envolvem, se entregam e se deixam levar pela fascinante viagem proporcionada pela leitura. Quando nos tornamos leitores e passamos a apreciar e a valorizar devidamente essa condição, percebemos quão maravilhoso é poder desvendar o universo e cruzar suas fronteiras de forma ilimitada. Em outras palavras, ler é singrar os mares em direção à esplêndida aventura do conhecimento e do aprendizado. Temos, nos livros, uma espécie de bússola, que nos orienta – piratas e vikings curiosos e sedentos de experiências diversas – na direção exata de um tesouro singular: o saber. Passaporte imprescindível para quem deseja realizar a verdadeira viagem da vida. Neste novo tempo, em que o verbo “navegar” ganhou conotações cibernéticas devido às novas ferramentas tecnológicas que nos auxiliam na busca contínua do entretenimento e da informação (leia-se internet), é preciso deixar claro: nada substitui o prazer e os ganhos proporcionados pela leitura de um bom livro. Sem uma sólida formação cultural, acabamos por subutilizar tanto a rede mundial de computadores como todas as demais criações tecnológicas, recebendo suas informações de forma fragmentada e descontextualizada.

A leitura nos fornece as condições necessárias para ampliarmos nossos horizontes ao infinito. Aumentamos nossa capacidade crítica, nosso poder de argumentação, de discernimento, de persuasão. Adquirimos a força, a coragem, o entusiasmo, o dinamismo e o espírito adequados para enfrentar as grandes tempestades, as turbulências e os desafios da jornada. Os livros nos credenciam para empreendermos com sucesso as expedições mais variadas, traçando o rumo de nosso próprio destino com talento, com sabedoria e com confiança.

Em seu poema O Livro e a América, o escritor brasileiro Castro Alves mescla com maestria a relação metafórica mais do que pertinente entre o livro e o mar. Uma visão magistral, que, certamente, irá nos inspirar para que prossigamos esta reflexão que apenas iniciamos: “Oh! Bendito o que semeia/Livros… livros à mão cheia…/E manda o povo pensar!/O livro caindo n’alma/É gérmen – que faz a palma,/ É chuva – que faz o mar”.

Fonte: revista Profissão Mestre por Gabriel Chalita

Agraço de pai

A imprensa noticiou, amplamente, um fato estarrecedor: um pai e um filho foram espancados por um grupo de pessoas em uma feira agropecuária, no interior de São Paulo. O grupo se aproximou e ficou incomodado com o fato de dois homens estarem abraçados. Cena que eles consideraram esdrúxula, afinal, abraço é algo realmente estranho.

Indignados, quiseram saber se se tratavam de homossexuais. O pai esclareceu que não. Foram embora, mas, desconfiados da veracidade dessa afirmação, voltaram e começaram a agressão. Abraço de pai é gesto que agride. Que história é essa de pai sair por aí abraçando filho?!

Fico imaginando a criação desses jovens agressores, os valores ou a ausência deles, os traumas, os olhares míopes sobre a vida. Aprender a conviver é um dos elementos fundantes da humanidade. Não conseguimos nos desenvolver individualmente. É no grupo, no convívio com as diferenças, que mulher e homem evoluem.

O direito de ser diferente faz parte da nossa constituição humana e o respeito a esse princípio reside na nossa constituição legal. A violência é a ausência dessa compreensão. Nada justifica ações dessa natureza. Contra nenhum grupo. Os cidadãos têm direito de escolher sua religião, seu partido político, seu time de futebol etc. E merecem ter suas escolhas acatadas.

A intolerância humana tem sido propulsora da violência que se instaura no caos urbano. Por isso, a organização das cidades é tão importante quanto as políticas de segurança pública. Uma cidade com pouca iluminação, suja, com terrenos abandonados, com poucos espaços de lazer, acaba sendo um terreno fértil para a proliferação da violência. Assim acontece com o ser humano. Pessoas sombrias, sujas, com sentimentos abandonados se tornam seres perigosos para a sociedade.

Um abraço de pai deveria ser celebrado e não repudiado. Triste sociedade em que as emoções precisam ser escondidas. Dia desses, assisti a um vídeo em que um cachorro, no meio de uma rua, tentava, com sua patinha, acordar um cachorro morto, vitima de atropelamento. Gesto afetivo. Se a moda pega no mundo canino, os outros cães bem poderiam espancar aquele cachorro, por ser carinhoso demais.

Como disse Guimarães Rosa, “se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?”.

Fonte: site Brasil 247 por Gabriel Chalita

Cinema, talento e traição

O novo filme de François Ozon é uma deliciosa viagem às intrigas familiares e ao novo tempo em que as mulheres começaram a viver, a partir da revolução feminista – talvez a mais importante dos últimos séculos. Catherine Deneuve, com todo o seu talento, é aparentemente uma mulher “Potiche”, isto é, um enfeite. Uma mãe amorosa, uma avó devotada, uma esposa que compreende as aventuras amorosas do marido e cuida de cuidar dele. Preocupa-se com o remédio e com os problemas da fábrica de guarda-chuvas que o marido herdou do sogro.

A filha do casal, à primeira vista liberal, se mostra tão reacionária e conservadora como o pai. O marido não gosta que Deneuve emita opiniões; afinal, ela é como um vaso decorativo – enfeita em silêncio qualquer ambiente.

Depois de um problema de saúde do marido, ela assume a fábrica e conta com a ajuda de um ex-amante – Gerard Depardieu (também impecável, aliás como todo o elenco). Mostra-se mais competente do que o marido, mas, mesmo assim, perde a direção da empresa e volta ao lar. Só que uma grande transformação começa a acontecer. Vale a pena assistir.

Um aspecto curioso é o momento em que ela revela ao marido e ao ex-amante que outros homens passaram por sua vida. Nem o marido nem o ex-amante se conformam. Como ele, que traiu a vida inteira, pode ser traído também? Parece ilógico o raciocínio, mas muito parecido com o de tantos homens que acreditam que apenas os homens têm o direito de trair as suas mulheres. Há quem defenda, inclusive, que é uma questão “biológica”.

A regra de ouro da ética é uma inspiração para a compreensão das relações humanas: “não faça ao outro o que você não gostaria que fizessem com você”.

Muitos pais incentivam os filhos a iniciar o mais rápido possível a vida sexual e trancafiam as filhas. Qual a diferença? O homem, para ser “macho”, deve mostrar que é capaz de seduzir o maior número de mulheres, e as mulheres devem se preservar para uma relação sólida, para não se desvalorizarem nem caírem nas bocas malditas? Parece coisa antiga, mas não é. Respeitar mulheres e homens é fundamental em uma sociedade que quer ser considerada evoluída. Se o valor da fidelidade ajuda a preservar uma família sem máscaras, sem mentiras, essa premissa vale tanto para o homem quanto para a mulher.

Em tempo, já que falamos sobre cinema, é imperdível assistir ao Woody Allen reinventado, mais uma vez, em “Meia-noite em Paris”.

Fonte: site Brasil 247 por Gabriel Chalita

Homem chora

Dia desses, ouvi uma mãe explicando ao filho que “homem não chora”. O menino de três ou quatro anos fazia de tudo para não chorar, mas não conseguia. Passava os bracinhos miúdos sobre os olhos, tentava limpar o nariz, que também participava da dor, e nada. E a mãe agia com mais vigor, alertando que “homem não chora”. Quem será que criou essa teoria? 

Quem separou o gênero humano entre aqueles que podem e aqueles que não podem chorar? Homem chora, sim. Homem é razão e emoção como a mulher. Homem chora de dor, de emoção, de saudade, de felicidade. Jesus chorou diante do sofrimento da família de Lázaro. Sabia que tinha o poder de ressuscitá-lo, mas a situação daquelas irmãs inconsoláveis diante da perda o emocionou, e ele chorou. Uniu-se à nossa humanidade e chorou.

Na educação dos filhos, não poucas vezes, as famílias cobram de uma criança a postura de um adulto. Criança é criança. Tem inseguranças próprias de criança. O adulto tem as suas. Os medos talvez sejam diferentes. Mas todos têm medo. Meninas e meninos também têm diferenças como os homens e as mulheres. Mas têm muito em comum: choram, emocionam-se, amam. É para isso que fomos criados.

Fiquei imaginando por que aquele menino estava chorando. E fiquei imaginando os erros que as mães e os pais cometem quando querem transformar os seus filhos em heróis. Os pais não são heróis. Por que os filhos haveriam de ser?

Vez ou outra, sente-se com o seu filho e chore com ele. Pai ou mãe. Conte alguma história das tantas pedras que surgiram no seu caminho. Mostre os fracassos e as possibilidades de superação. Porque os seus filhos passarão por histórias de fracassos, também. Todos passam. E o problema não será a queda, será a ausência de aprendizagem de que quem está caído pode se levantar. E pode chorar quando da queda. E pode chorar quando da superação da queda.

Meu pai chorava muito de emoção. Minha mãe também. Em casa, nunca tivemos constrangimento em chorar. Nas partidas ou nas chegadas. Como é bom viver sem máscaras. Como é bom ter uma família que nos ajude a viver sem ter medo das nossas emoções. 

Como diria Pe. Zezinho:
“Das muitas coisas
Do meu tempo de criança
Guardo vivo na lembrança
O aconchego de meu lar
No fim da tarde
Quando tudo se aquietava
A família se ajuntava
Lá no alpendre a conversar
Meus pais não tinham
Nem escola e nem dinheiro
Todo dia, o ano inteiro
Trabalhavam sem parar
Faltava tudo
Mas a gente nem ligava
O importante não faltava
Seu sorriso, seu olhar”.

Fonte: revista Canção Nova por Gabriel Chalita