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Solo sagrado

Ouvi esta história de uma secretária de educação. Numa cidade do interior deste imenso país, crianças esperavam, com ansiedade, a inauguração de uma escola. Estudavam elas em espaços improvisados. Sem nenhum conforto nem estrutura. Mas estudavam. Ao lado, o novo prédio ia se erguendo. O tempo parecia não passar, mas, enfim, chegara o dia da inauguração. Festa da comunidade. A escola é um centro de luz que irradia saberes e futuros. Que prepara para a vida. Que edifica os alicerces de um mundo em construção. Famílias estavam presentes. Educadores entusiasmados. 

Algumas semanas depois, a secretária foi visitar a escola. Quando estava chegando, viu a cena que a comoveu. Um menino simples, que viera caminhando em ruas de terra, tirou um pano da bolsa surrada que trazia algum material e limpou a sola dos chinelos antes de pisar no solo sagrado da escola. Não reparou que estava sendo observado. Fez isso por convicção. A secretária o abordou querendo saber onde ele aprendera aquilo. Ele, pleno de simplicidade, explicou que, naquele espaço, ele se preparava para crescer, para ser um homem de verdade, para dar orgulho aos seus pais que nunca puderam estudar e para cuidar deles, retribuindo todo o esforço que fizeram e ainda faziam por ele.

Ela me contou essa história com lágrimas nos olhos, dizendo que nos surpreendemos, todos os dias, com o que aprendemos com nossos alunos. Na simplicidade de um menino que reconhece o esforço dos pais e que se alimenta dos sonhos de amanhãs, preenchemo-nos de responsabilidades cientes de nosso poder de fazer a diferença na educação. Ter olhos de ver o que, de fato, acontece ao nosso redor, no solo sagrado de cada escola, na transformação cotidiana que somos capazes de realizar, na decisão inegociável de jamais desistir de nenhum aluno. É assim que educamos. É assim que renovamos nossos votos de que ser professor é professar a crença de que cada pessoa humana merece a oportunidade de ser feliz.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/01/2015

 

Ignácio de Loyola Brandão – o interior e seu menino

José Maria Ferreira Brandão foi marceneiro, seleiro, barbeiro e delegado de polícia. Foi, também, avô de um dos maiores nomes da literatura contemporânea, Ignácio de Loyola Brandão. 

Com mais de 40 livros publicados em diversas línguas, Ignácio, saído de sua querida Araraquara, ganhou o mundo. Morou fora do Brasil. E viaja muito. Vive de cidade em cidade cumprindo sua agenda com a palavra. Onde quer que esteja, leva consigo sua história. E ela começa em um lugar de onde ele nunca saiu. De um lugar que vive no tempo. Nas rodas de cadeira e de conversa que se espalhavam pelas calçadas. No cheiro do café e do bolo que se misturava às aventuras da infância na sua terra natal. Época em que via caminhão, casas e chafariz nos pedaços de madeira do barracão do avô, o José de tantos talentos. Pai de seu pai. 

Nesse “lugar mágico que cheirava a madeira”, havia de tudo. Lixas, porcas, lápis quadrado vermelho de marceneiro, alicates, limas, verniz. E lá no fundo, uma caixa vermelha. Vermelha, empoeirada. Coberta pela fuligem e repleta de memórias. Tantas e tão importantes que ninguém podia chegar perto. E isso era o bastante para despertar a curiosidade das crianças. Principalmente a do menino Ignácio, o preferido de seu avô. Em uma manhã, o velho José entrou na oficina, pegou a chave, abriu a caixa vermelha e gritou. A caixa estava vazia. Alguém a abrira e retirara de dentro “os olhos cegos dos cavalos loucos”, os olhos de vidro dos cavalos do carrossel. Um carrossel de madeira que girava pelas cidades e que trouxera alegria à vida de seu José. Das lembranças dos melhores anos vividos pelo avô, sobrara o que estava naquela caixa. Agora, só memórias. Agora, as majestosas memórias. E a vida toda para recordá-las. Memórias registradas nas histórias que Ignácio de Loyola Brandão, o menino e o escritor, compartilha conosco em seu novo livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos” (Moderna, 2014) e em tantos outros. 

O menino e seu interior

A infância é um terreno sempre fértil. Vive para sempre em nossa maneira de ver o mundo.  Em nosso olhar curioso de criança que quer sempre mais do mundo e dos homens. Passa o tempo, mas não se perde o que passou. São as memórias que nos mantêm vivas as sensações, as emoções e aqueles que se vão, sem nunca nos deixar. 

O menino Ignácio perdeu, em um jogo com os amigos, as bolinhas brancas, os olhos dos cavalos do carrossel. Entristeceu seu avô. Mas Ignácio, o escritor, publicou, neste livro, seu pedido de desculpas ao velho José. Mostrou o seu menino. A sua infância. O seu interior. Mundo de menino vivido e revivido pelo homem Ignácio, menino que nasceu com nome de santo.  Santificou e santifica a sua vida rendendo homenagens à sua excelência, como gostava de dizer Tatiana Belinky, a palavra. Sua prosa encanta crianças e adultos. Seu humor tributa a vida. E tudo nasceu no interior. No circo, na cerca, na roda de conversa.  “Do circo de cavalinhos de pau sobraram os olhos. E agora os olhos se foram. Se foram como todos nós vamos.” As memórias ficam. Do avô. De Ignácio. De todos nós.

 

Principais obras de Ignácio de Loyola Brandão

Bebel que a cidade comeu 

Zero 

Dentes ao sol 

Não verás país nenhum 

O verde violentou o muro

O beijo não vem pela boca 

O homem que odiava a segunda-feira

O anônimo célebre 

Veia bailarina

O menino que vendia palavras

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/01/2015 | Foto: André Brandão (divulgação)

 

Respeite minha memória

Em um restaurante, uma filha mostrava impaciência com a mãe que repetia as histórias. A filha a interrompia, grosseiramente, dizendo: “Mãe, você já contou isso, você está muito esquecida, você não está bem. Que pena, mas você não está bem!”. 

A mãe, olhar ao longe, ficava em silêncio, parecia triste, mas voltava ao assunto. A filha a interrompia, começava uma história, falava do marido, falava mal do marido. A mãe tentava ajudar, dizendo que tivesse paciência, pois as pessoas eram diferentes. Falava vagarosamente. E a filha a interrompia, mais uma vez, dizendo: “Mãe, você está muito lenta, está sem cabeça, você não é mais a mesma. Que pena, mas você não está bem!” A mãe não retrucava. Calava-se, obediente. Voltava ao seu silêncio, como se buscasse, dentro de si, o conforto da própria companhia.

Como aquela conversa me incomodou! Quantas vezes a filha disse para a mãe que ela estava sem cabeça, que não estava bem! Repetir histórias, todos nós fazemos, independentemente, da idade. Quando percebemos que o outro está esquecido, que o tempo trouxe alguma dificuldade à memória, é preciso respeitar. 

Tratar os pais com respeito. Compreender as limitações que todos nós temos em qualquer idade. Não expor as ausências, não ridicularizar, não diminuir quem nos alimentou de vida nos mais fortes anos de suas vidas e que, agora no entardecer, já não têm o mesmo vigor são formas de fortalecer os laços de família, de amor, de acolhimento. Laços que lhes parecem tão fragilizados nessa etapa da vida. 

Ao final, a filha, impaciente, não esperou a mãe terminar de comer. “Vamos, tenho que ir embora, você está comendo muito devagar. Também, você não faz nada. Vamos, eu cuido de você”. Cuidar não é isso. Nas palavras, estão instrumentos poderosos de diminuir ou elevar as pessoas. Há gestos que fazemos sem refletir. Tempos que perdemos por não compreender. Pessoas que machucamos por não respeitar. Que pena. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/01/2015

 

Escola não tem o poder de substituir educação que vem de casa

Fico feliz ao ver quanta gente de diferentes áreas escreve e opina sobre educação. Há um movimento da sociedade, muito positivo, que acredita ser a educação a garantidora de melhores tempos para nosso país.

Todos os temas da vida humana passam pela educação. A ética depende da educação. É preciso ensinar a honestidade. O fim dos preconceitos também carece de uma educação capaz de entranhar (termo aristotélico) as mais belas verdades sobre o respeito e a convivência plural. As tantas competências exigidas por um mercado cada vez mais competitivo dependem de uma educação de qualidade. O bem escrever, o bem falar, o bem realizar conexões desenvolvendo autonomia e senso crítico também dependem da educação.

Evidentemente, a educação não é um processo que se esgota em sala de aula. Tudo educa. E tudo pode deseducar. Por isso, é preciso formar a capacidade reflexiva para discernir entre o correto e o errado. Nossa vida é determinada por escolhas. Saber escolher também depende da educação que forja nosso caráter.

O artigo 205 da Constituição Federal evidencia o necessário em um processo educativo: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

A educação é direito de todos. Isso me parece pacificado. É dever do Estado e da família. Portanto, não apenas do Estado. A família tem papel essencial assim como a sociedade. O artigo elenca, ainda, os objetivos da educação, quais sejam: o pleno desenvolvimento da pessoa, com todas as suas complexidades racionais e emocionais; o exercício da cidadania, com a compreensão e a prática de direitos e deveres; e a qualificação para o mercado de trabalho, fazendo com que se transforme informação e conhecimento em benefício para a sociedade.

Sabedores de que precisamos formar a pessoa e prepará-la para o mercado de trabalho, faz-se mister refletir sobre as formas de educar para esses fins.

 

Tripé da educação

 

Poderíamos nos deter nas estatísticas internacionais, analisando os indicadores de qualidade que mudaram o cenário de países como a Coréia do Sul e, mais recentemente, a China. Ou, ainda, trazermos um exemplo mais próximo como o Chile. Entretanto, há três pontos convergentes nesses sistemas sobre os quais educadores brasileiros já se debruçaram. Chamo-os de “o tripé da educação com qualidade”.

O primeiro ponto é o professor. Mesmo em tempos de alta tecnologia e de todo o aparato presente na sala de aula ou nos ambientes virtuais, é o professor a alma do processo educativo. E, por isso, a carreira de professor deve ser desejada, valorizada, respeitada.

Fico pasmo quando leio alguns opinantes sobre educação afirmarem que não é relevante dar um bom salário ao professor. Sejamos mais profissionais. Remunera-se muito mal o professor. E mesmo não ganhando bem, a maioria desempenha com mestria seu papel. Há, sim, abnegados que abraçam a educação como bandeira de vida e que, independentemente do quanto recebem, fazem prodígios nas salas de aula.

Precisamos de milhares e milhares de professores para atender à demanda do ensino de qualidade. E isso requer que jovens tenham o desejo de abraçar o magistério como profissão. Se não tivermos um salário digno e um plano de carreira atraente, os jovens não optarão por essa profissão. Sem professores, como vamos educar? Uma remuneração justa, uma formação continuada que garanta qualidade, atualização, entusiasmo dos que ensinam nas salas de aula presenciais ou a distância compõem o primeiro ponto.

O segundo ponto é o currículo inteligente, significativo, que obedeça ao que indica o artigo 205 da Constituição, ou seja, que forme a pessoa, o cidadão, e que o prepare para o mercado de trabalho. Estamos muito atrasados nas escolas em tempo integral em oposição a todos os outros países que, avaliados pelo PISA, conseguem se destacar em qualidade.

Um currículo inteligente intercala teoria e prática, oferece problemas para desafiar os alunos, inquieta para que a habilidade cognitiva seja despertada e socializa as emoções para que o encontro com os diferentes (e diferentes são todos) forme uma cultura de paz. É preciso levar em conta que os alunos são menos atentos. A “geração do instantâneo” não consegue ficar quieta, ouvindo um professor falar durante muito tempo.

O currículo inteligente abrange uma arquitetura diferenciada da sala de aula. Estações de aprendizagem são mais eficazes do que a antiga disposição das carteiras enfileiradas com o professor à frente. Estando o dia todo na escola, o aluno conseguirá suprir suas deficiências e ampliar o horizonte do aprendizado.

O terceiro ponto é a participação familiar. É a família a educadora por excelência. Por melhor que seja uma escola, ela não terá o poder de substituir uma família ausente ou uma família que diz ou pratica anti-valores que colidem com a obrigação de formar a pessoa. Preconceitos nascem em famílias que se desrespeitam. Vejam os índices de violência doméstica. A casa é o primeiro ambiente a educar.

A escola pode ajudar os pais a refletirem sobre a complexa tarefa de educar. Se o mundo virtual é importante, é preciso ter limites. Como em tudo na vida. Os pais contadores de história são fundamentais para o desenvolvimento da curiosidade e da inteligência, além da dimensão afetiva. A cena de uma mãe ou de um pai lendo ou contando histórias para os filhos vale muito mais do que brinquedos e computadores caros. São universos que vão povoando uma mente em formação.

Professores, currículo inteligente, participação familiar. Esse é o tripé de que precisamos. Sem muitos malabarismos. Mas presente em todas as escolas como obrigação de governantes nas esferas federal, estadual e municipal. Um caminho que precisa ser percorrido sob pena de desperdiçarmos o futuro.

Por: Gabriel Chalita (fonte: UOL) | Data: 3/12/2014

 

“A Família Bélier” e os sons do silêncio

O filme “A família Bélier”, que estreou no final de 2014, é uma comédia francesa ambientada na zona rural de uma pequena cidade. O lugarejo tem todas as características da vida no campo. Há, entretanto, um toque a mais do diretor francês Eric Lartigau. O núcleo central é formado por uma família de surdos, com exceção de um dos membros. Na época do lançamento, os deficientes auditivos franceses protestaram por não terem contratado atores surdos para representar as personagens da trama: o pai, a mãe e um dos filhos. Alguns insistiram que os exageros do núcleo de atores deram uma cor depreciativa à questão e que, para roubar risos, fizeram coisas que eles, os surdos, não fazem. De outro lado, parte dos deficientes auditivos franceses discordou desse posicionamento e elogiou a temática e a abordagem.

Polêmicas à parte, o filme é sensível e emocionante. Os atores têm atuação irretocável. O pai, Rodolphe Bélier (François Damiens), abusa de expressões incríveis para demonstrar os seus sentimentos. A mãe Gigi Bélier (Karin Viard) e o filho Quentin (Luca Gelberg) estão muito bem. O pai resolve ser candidato a prefeito de sua cidade depois de ficar enojado com as demagogias do atual prefeito, candidato à reeleição. Conhecidos tentam demovê-lo da ideia. Como um homem surdo poderia ser prefeito? Os diálogos são muito interessantes e reforçam a verdade de que os deficientes auditivos têm capacidade para fazer o que desejarem, como todas as pessoas; e podem, inclusive, exercer o cargo de prefeito. Sua mulher fala de outros desafios que superaram juntos, como a chácara que cuidam, quando as pessoas diziam que era impossível um casal com essa deficiência se virar sozinho com plantação, gado, coleta do leite, feitio do queijo, venda dos produtos, etc.

A filha, Paula Bélier (Louane Emera), adolescente com a instabilidade emocional própria da idade, ajuda os pais e o irmão. Interpreta a linguagem deles. Torna-se a voz de toda a família. Faz isso com prazer, embora não deixe de repreendê-los pelos exageros. Afinal, “ser surdo não é desculpa”, insiste ela. O filme não é pretensioso. Não repete palavras de ordem na defesa das pessoas com deficiência. É leve. É belo. Mas trata da inclusão de forma correta. E dos desafios de toda a família, com ou sem deficiência, de conviver e de se alimentar de futuro.

A certa altura, a filha Paula se inscreve no coral da escola por estar apaixonada por um colega, Gabriel (Ilian Bergala). No início, sua atenção se resume a ele, nada quer com a música nem com as canções. Mesmo assim, o professor, o maestro (Eric Elmosnino), fica fascinado pela beleza de sua voz. E a faz descobrir a emoção de cantar a paixão. A menina vai se superando, e o professor a incentiva, então, a participar de um concurso da Radio France, em Paris. Aqui, entra a trama central da história. Como a menina abandonaria os pais e o irmão para se mudar para Paris? Quem iria servir de intérprete? Quem ajudaria nos negócios da pequena fazenda? Os pais, sabedores da notícia, são contrários à mudança. Há um belo diálogo entre eles, na linguagem de sinais, a Libras, sobre deixá-la ou não seguir o seu sonho. A mãe diz que a filha é seu bebê, que não saberá se virar sozinha em Paris, que tem medo. O pai, entretanto, assume que o medo da mãe é ficar sem a proteção da filha e não o contrário.

Os três, o casal e o filho, vão assistir à apresentação do coral na escola. E o diretor resolve muito bem os sons do silêncio. É linda a cena do dueto entre os dois jovens, Paula e Gabriel, cantando Je Vais t’Aimer, de Michel Sardou. 

O filme segue seu curso. Um lindo final mostra a beleza da superação sem exageros nem apelos desnecessários. Apenas apresentando a vida que segue “quebrando pedras e plantando flores” – como ensinava Cora Coralina. A canção, também de Michel Sardou, Je Vole, coroa o conceito de família que o diretor quer apresentar. O voo dos filhos que saem de casa e vão viver a sua vida. Não por ausência de amor, mas por necessidade de vida.

É de Gibran Khalil Gibran o lindo poema para pais e filhos, com ou sem deficiência:

Vossos filhos não são vossos filhos. 

São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. 

Vêm através de vós, mas não de vós. 

E embora vivam convosco, não vos pertencem. 

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, 

Porque eles têm seus próprios pensamentos. 

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; 

Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 

Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. 

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, 

Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. 

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. 

O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força 

Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. 

Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: 

Pois assim como ele ama a flecha que voa, 

Ama também o arco que permanece estável.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/01/2015

 

 

A idade de aprender

Encontrei, no final do ano, uma senhora sorridente em uma das calçadas de São Paulo. Apresentou-se, desejou-me boas festas e falou de seu orgulho de ser recém-formada. Julia, é esse o seu nome, formou-se aos 72 anos de idade. É, agora, nutricionista. Falou-me de alimentação, de cuidados que precisamos ter para que as crianças adquiram bons hábitos, do comer apressado, da falta de tempo para prestar atenção às coisas e às pessoas. Disse-me que quer muito escrever um livro. Um livro simples sobre o que aprendera. Foi além, afirmando ser o escritor um generoso em essência. Porque partilha o que sabe. Porque permite que outras pessoas participem de suas ideias e de seus conceitos.

Eu a incentivei. E quis saber o que a levara a cursar a faculdade. Ela falou-me de um programa de rádio em que uma senhora que havia se formado aos 90 anos estava dando uma entrevista, contando da sua emoção e dizendo que a idade de aprender, para ela, era qualquer idade. Julia, na época com sessenta e poucos anos, sentiu-se uma menina e decidiu concluir o ensino médio e cursar a faculdade. “Gostaria de um dia encontrar essa senhora para lhe agradecer. Ela mudou minha vida com seu depoimento”. Conversamos mais um pouco. Ela falou, novamente, sobre o primeiro livro que não quer demorar a escrever e a lançar. Porque quer publicar outros. Tem muitos planos. Muita vontade de viver. Falou-me do marido que morreu cedo. Da ausência de filhos, mas da presença de tantos amigos que ela fizera na faculdade, que ela faz na vida. Conversamos mais um pouco, caminhando. Fui bebendo de sua alegria e ouvindo seus tantos projetos que faziam seus olhos de menina, de menina de 72 anos, brilhar.

Convidou-me para uma festa naquela noite. Agradeci. “Festa”, repetiu ela, pronunciando sorridente e com vagar essa palavra cheia de significados. E concluiu: “A vida é uma festa”. Concordei. Depende da nossa disposição. E, para isso, não há idade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/01/2015

Compaixão e generosidade, da literatura para a vida

Compaixão é ter a capacidade de se colocar no lugar do outro e de sentir a sua paixão, a sua dor. É compreender o estado emocional daquele que padece e, em outras palavras, enxergá-lo.

A generosidade é a virtude de acrescentar algo ao outro, de partilhar, de deixar um pouco de si para preencher o que falta na outra pessoa. São complementares. Filhas do amor. Irmãs da bondade. A literatura é rica em personagens que nos desconcertam pelo onírico concerto de afinar o mundo.

Um dos meus livros preferidos da literatura universal é “Os miseráveis”, de Victor Hugo. Uma obra recheada do melhor fermento de sonhos e canções de vida em um mundo destroçado por guerras, autoritarismos e violência.

A obra, composta de cinco volumes, foi publicada quando Victor Hugo tinha 60 anos, mas o fio da narrativa começa a germinar quando, aos 22 anos, o jovem escritor se incomoda com a situação dos prisioneiros da colônia penal de Toulon, de onde saíam os remadores para os trabalhos forçados nas galés, onde remavam com os pés atados em correntes. Tristes cenas. Restos humanos lambuzados de humilhações e dor.  

O tema social, a miséria dos excluídos, marcou a trajetória política e literária de Victor Hugo. Charles Dickens já havia mostrado uma Inglaterra diferente das cortes. Sua denúncia chegava aos que viviam invisivelmente nos submundos de Londres. 

Victor Hugo faz o mesmo em “Os miseráveis”. Dramas chocantes de mulheres e homens alijados de bens materiais e de amparos humanos.

A personagem central é Jean Valjean, órfão de pai e de mãe, que foi criado por uma irmã mais velha que tinha sete filhos. Quando ela enviuvou, o menino Jean passa a ser o homem da casa. Em um dia, desesperado, sem ter dinheiro para comprar pão para a irmã e para os seus filhos, Jean furta um pão, o que lhe rende dezenove anos de prisão (cinco pelo pão e quatorze por tentar fugir). Jean passa sua juventude na prisão.

Quando, enfim, deixa o cárcere, perambula por vilarejos em busca de trabalho. É humilhado e temido por ser considerado um bandido perigoso. As portas se fecham na frieza de uma sociedade que não tolera erros alheios, embora seja farta de erros próprios, escondidos. Na sarjeta do abandono, um homem o acolhe, o Monsenhor Bienvenu (que significa bem-vindo). Ele o retira das ruas e o traz para casa para que tenha uma refeição decente e uma cama limpa para dormir. Jean come como um bicho esfomeado e fica arredio. Não acredita que alguém pudesse ser, com ele, generoso. Compaixão, ele certamente só conhecera nos idos da infância quando a irmã o acolhera.

Durante a noite, resolve furtar o Monsenhor. Recolhe o que estava à vista e sai pelas ruas frias de uma noite angustiante. É preso e os soldados o trazem para a casa do Monsenhor para que devolva o que ele furtou. Jean sabia que ficaria o resto da sua vida na prisão. Seria agora um reincidente. Se já era considerado um homem perigoso por ter furtado um pão para alimentar os sobrinhos, imagine agora que teve a ousadia de furtar um homem que lhe dera abrigo, que lhe dera alimento e conforto. Um homem importante. 

Jean está apavorado, amarrado, humilhado pelos guardas quando chega a casa do Monsenhor. Percebendo a situação, o Monsenhor agradece o trabalho dos guardas, mas diz que a prataria que o homem carregava não fora objeto de furto, mas de um presente que ele havia lhe dado. Jean arregala os olhos, desconcertado com a bondade do Monsenhor que pega mais algumas peças que, supostamente, Jean havia “esquecido”. “Use a prata para se tornar um homem honesto”, foi o que Jean Valjean ouviu daquele homem e o que remoeu para sempre em sua consciência.

Aqui, nesse ato de compaixão, dá-se a transformação de muitas vidas. A de Jean Valjan e a de todos os que, posteriormente, foram abraçados por sua generosidade. 

 

Da compaixão, nasce uma nova história

 

A compaixão é um sentimento essencial da convivência. Olhos de ver. Paciência. Tempo de silêncio para que a voz do outro tenha alguém onde depositar sua necessidade. Tempo de fala para que o silêncio do outro não se transforme em solidão. Presença que ameniza ausências. É como estar no deserto da dor e ver surgir o cortejo da esperança.  

Foi assim que floresceu um novo homem. Quem é Jean Valjan? Depois de conhecer o Monsenhor, é um homem sempre pronto para revelar a nobreza dos sentimentos.

Há muitas outras personagens e tramas nesse enredo fantástico de Victor Hugo. E a generosidade de Jean permeia todos os núcleos dessa narrativa. Há uma mãe solteira, Fantine, que fora abandonada pelo homem que tanto amou e que confia a criação de sua filha a um casal que, aparentemente, proporcionaria mais conforto em sua criação. Ela trabalha para pagar esse casal. Para que cuidem bem de sua filha. Somente para isso. Imaginem o que era ser mãe solteira naquela época. A filha, Cosette, na verdade, vive frágil e assustada, porque é maltratada.  Mesmo assim, canta ela a canção da esperança. Quando Fantine morre, Cosette é criada por Jean Valjan até se casar com o idealista Marius Pontmercy, um jovem que sobrevive ao sonho e à utopia de destronar o rei. Aliás, a narrativa de “Os miseráveis” ocorre entre dois episódios históricos: a batalha de Waterloo e os motins de junho de 1832, em que jovens morreram sonhando com um mundo sem privilégios nem preconceitos.

A obra é extensa, mas há um filme recente, de 2012, dirigido por Tom Hooper, que é fiel a essa linda história. Um elenco de peso com atuação irretocável: Hugh Jackman, Russell Crowe, Amanda Seyfried, Samantha Barks, Anne Hathaway, Eddie Redmayne, entre outros. 

Outros filmes e peças de teatro no mundo inteiro mostraram a ousadia de Victor Hugo em revelar a miséria humana, o abandono, a saga dos invisíveis e, mesmo assim, alimentar-nos de esperança. No final, a canção de uma vitória que não cabe nesse mundo. 

Jean Valjan aprende com o lindo gesto do Monsenhor e transforma sua vida em uma vida capaz de cuidar de outras vidas. Até mesmo diante de seu maior perseguidor, o inspetor Javert, consegue ser generoso, compreende as amarras que o impedem de entender o verdadeiro sentido da justiça. Javert se desconcerta frente ao olhar compassivo do homem que ele perseguiu a vida toda. “Ninguém pode ser tão bom quanto Jean Valjan”, rumina ele. Pode sim, especialmente se tiver em seu caminho um Monsenhor Bienvenu.

Bem-vindas a compaixão e a generosidade neste início de mais um ano. Incomodemo-nos com o aprendizado que a literatura nos proporciona. E que mais livros nos aqueçam e ampliem o nosso repertório e a nossa capacidade de contemplar e de transformar o mundo. Feliz 2015.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/01/2015

 

O dia da paz

Ontem, foi o dia da paz. 

Essa dada foi instituída, em 1968, pelo Papa Paulo VI. O Dia Mundial da Paz. Por que precisamos de um dia da paz? Porque ainda estamos longe de compreender o seu significado e de viver a sua plenitude. Paz não é ausência de guerras, apenas. Paz é presença de amor. É crença e ação.

O papa Francisco propôs, em mensagem especialmente escrita para essa data, uma reflexão sobre os conflitos, sobre a perversidade e sua superação: “já não escravos, mas irmãos”.  

Perversidade. O que fazer para aplacar essa fúria que permite que irmão destrua irmão?

Ainda há escravidão. Ainda há exploração de toda ordem. Ainda há violência, opressão. Ainda não aprendemos a conviver com as diferenças. E o que dizer da miséria em um mundo rico ou do abandono em meio a tanta fartura? E os “invisíveis” que parecem filhos de outra espécie, porque preferimos não os enxergar. Estão sujos de ausências, carentes de quem lhes estenda a mão para um novo caminhar.

A paz é atitude de boa vontade. É compreensão de que somos atores de um espetáculo, sem ensaios, que se encadeia dia a dia, podendo descortinar a tragédia ou a comédia. Depende de nós. A dor ou o riso. As mãos que agridem ou as que acolhem. Os pés que nos levam para longe ou os que servem para nos aproximar. 

Sem pretensões de mudar o mundo, mudemos o mundo em que vivemos, a nossa aldeia, como diria Pessoa. O rio de sua aldeia, os próximos da nossa aldeia. Pessoas que me veem e que eu deveria vê-las também. 

Paz é presença de amor. É crença e ação. Repito. Quando temos os valores corretos, é mais fácil agir corretamente. Basta não nos acomodarmos. Paz no nosso silêncio e paz no necessário ruído de nosso agir. Que o que vemos nos comova e que a comoção nos mova para cuidar. Do próximo. Esse é um bom começo para que o dia da paz não seja apenas o dia de ontem. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/01/2015

O primeiro amor

Há livros, à exaustão, que falam do primeiro amor e que nos enveredam pelos mais auspiciosos sentimentos do romantismo. Há canções de amor para todos os gostos. Canções que nos ajudam a atar os olhares e as promessas de amanhãs. Há canções e poemas de recomeços, desabafos exagerados de vida que segue sem as amarras de um amor que findou ou que nem chegou a existir. Embalava o amor em versos, Drummond, nosso poeta:

“Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?”

(…)

“Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.”

O primeiro amor não se trata apenas de Eros, o deus brincalhão que nos fere com sua flecha e nos impede o raciocínio. Paixão que nos embriaga de necessidades, de reciprocidades, de dizeres que nos acalmem. O primeiro amor trata-se, também, de primeiro desejo ou mais profundamente de primeira aspiração.

Imagine um cantor que foi trocando os chuveiros pelos palcos. Mesmo os modestos. E que, a cada show, se lembrava da impressão primeira de subir em um palco e cantar. Ou o artista em sua estreia e nas tantas outras apresentações que se sucederam em sua carreira. Mas sempre com o sabor da primeira impressão, do primeiro amor ao palco.

Sou um artesão das letras e sou grato a todas as pessoas que me deram oportunidade de juntar palavras expressando os significados que brotam das minhas crenças. Crenças que aprendo com os meus irmãos de ofício, lendo os que se foram e os que ainda estão por aqui. Meu primeiro amor, meu primeiro livro, meu primeiro contato com alguns leitores que comentavam as personagens que eu criava e crio.

Sou grato a este jornal, O “Diário de São Paulo”, por permitir que, nestas linhas, eu me comunique com leitores que generosamente usam parte do seu tempo para ler os meus escritos. Honra minha. Responsabilidade também.

Neste espaço, durante este ano, falei algumas vezes sobre um homem que, com sua simplicidade e decisão, vem nos servindo de referencial. O Papa Francisco. E, nesta semana, ele falou em “primeiro amor” quando usou algumas incisivas reflexões para os seus irmãos no sacerdócio. Falou o papa em “Alzheimer espiritual” ou esquecimento do primeiro amor de um religioso com a história da sua entrega ao Senhor. Um sacerdote que se distancia do Senhor transforma suas atividades em atos mecânicos. Repete como uma máquina, sem refletir sobre o significado de suas orações. Foi mais a fundo o Santo Padre, falou dos que se sentem imortais ou insubstituíveis e os convidou a visitarem os cemitérios para se lembrarem de que “somos pó e ao pó voltaremos”. Falou em empedernimento ou perda da sensibilidade. “É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem os ‘sentimentos de Jesus’ porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e ao próximo”. Falou em esquizofrenia espiritual, em hipocrisia, em rivalidade e vanglória. Criticou a sisudez e elogiou o bom humor. Criticou as torpes palavras que servem para destruir o outro, a fofoca, o maldizer e abençoou os encontros generosos.

Há tanto de sabedoria nos dizeres desse homem que impressiona o mundo com sua capacidade de fazer pontes, de dialogar, de unir os homens nos mais elevados sentimentos de compaixão e amor.

O primeiro amor é combustível para que os vícios nos abandonem. Se o discurso do papa se dirigia aos membros da cúpula do Vaticano, é útil para qualquer cidadão que se esquece do primeiro amor e vive das migalhas que sobram dos ódios lançados contra o seu irmão. 

Quão nobre é o ofício do médico ou do enfermeiro que cuidam de vidas e quão tosca é sua atuação quando se transformam em burocratas de procedimentos e se esquecem das razões que os motivaram a dedicar a vida a amenizar a dor. 

O fim do ano é tempo de agradecimentos e de propósitos. Para agradecer, é preciso recordar. Lembrar o que se foi e que merece ser revisitado. Agradecer o que se conquistou e às pessoas que foram essenciais nessa conquista. Agradecer o que se perdeu porque talvez não coubesse junto com outras conquistas que vieram. Lembrar os inícios. Do primeiro amor que gerou uma família ou uma amizade ou uma profissão ou uma incursão por uma ação que mudou a vida de pessoas. E ter propósitos. Que o primeiro amor se converta em um eterno amor. “O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos”, poetizou Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Nos enlaces de Eros, a paixão vai se transformando em cumplicidade que desafia o tempo. Como é lindo ver um casal que se reinventa nos ditos românticos depois de 20, 30, 40 anos ou mais de relação. Como é bonito ver um juiz que, depois de 30 anos de carreira, ainda se lembra do primeiro amor em um primeiro julgamento em que foi capaz de fazer justiça. Ou de um construtor que nunca esquece a primeira edificação. 

Edifiquemos no próximo ano, junto ao altar das nossas capacidades, a nossa disposição de vencer as doenças da alma que nos afastam do outro e de nós mesmos. 

Ao primeiro amor, o brinde de ano novo! 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/12/2014

Lygia e a generosidade natalina

Lygia Fagundes Telles é, certamente, a grande dama da nossa literatura. Obras memoráveis fizeram-na uma das maiores contistas de todos os tempos. “Venha ver o pôr do sol” é uma aula de estranhamentos, ciúmes, loucura, morte; “O moço do saxofone” traz, com riqueza de detalhes, os cortiços da alma, as aceitações obrigadas de um amor injustificado. Há mais. Muito mais. “Antes do baile verde”, “Seminário dos ratos”, “A confissão de Leontina”, “A estrutura da bolha de sabão”. E muitos outros. Sem contar o consagrado romance “As meninas”. Quantas contradições em tempos de “guerra e de paz” tinham essas meninas. Lygia fala de outro menino, em um outro conto. Um triste conto de natal. De dor. De perversidade. O menino Alonso mora em um conto chamado “Biruta”.

Biruta era um cãozinho que morava na casa de dona Zulu, uma dura senhora, que adotara o menino Alonso. Resgatara-o de um asilo de crianças, levando-o para um suposto lar. Mas ordenava-lhe trabalho. Não lhe ofertava amor. Biruta era o companheiro, o irmão, a família toda. Biruta era sua pouca, mas intensa e verdadeira alegria.

O fato é que, enquanto Alonso era obrigado a reprimir sua meninice para não zangar dona Zulu, Biruta vivia intensamente a arte de ser “criança”. Aprontava poucas e boas, fazendo com que Alonso ora pagasse por isso, ora escondesse os estragos para que seu grande amigo não tivesse que ser castigado. Implorava o menino ao seu cãozinho: “Só dona Zulu não entende que você é que nem uma criancinha. Ah Biruta, Biruta, cresça logo, pelo amor de Deus! Cresça logo e fique um cachorro sossegado”. Dona Zulu não gostava de crianças. O que parecia caridade era, na verdade, a maldade de exploração do trabalho de uma criança, confinada nos cômodos de serviço da casa, tendo a garagem fria como quarto. Mas Alonso era feliz. Biruta era toda a sua felicidade. Mas dona Zulu não queria “crianças” na casa. 

Era dia de Natal. E deu-se o desencontro dos sentimentos humanos. Dona Zulu entra na cozinha, surpreendentemente gentil, e diz ao menino: “Vou numa festa onde tem um menininho assim do seu tamanho. Ele adora cachorros. Então me lembrei de levar o Biruta emprestado só por esta noite. O pequeno está doente, vai ficar radiante, o pobrezinho. Você empresta só por hoje, não empresta? O automóvel já está na porta. Ponha ele lá que já estamos de saída.” Alonso não conseguia conter a alegria. Pelo menos o Biruta iria a uma festa de Natal. Parecia impossível que dona Zulu pudesse ser ainda mais cruel. Mas foi. E deu fim ao único laço de amor de Alonso. Biruta não voltaria mais.

Ao saber da verdade por Leduína, a empregada da casa que demonstra, nesse momento, um sentimento de compaixão pelo garoto, Alonso “deixou cair os braços ao longo do corpo. E arrastando os pés, num andar de velho, foi saindo para o quintal. Dirigiu-se à garagem. A porta de ferro estava erguida. A luz fria do luar chegava até a borda do colchão desmantelado. Alonso travou os olhos brilhantes num pedaço de osso roído, meio encoberto sob um rasgão do lençol. Ajoelhou-se. Estendeu a mão tateante. Tirou de baixo do travesseio uma bola de borracha.

– Biruta – chamou baixinho – Biruta… – E desta vez só os lábios se moveram e não saiu som algum.

Muito tempo ele ficou ali ajoelhado, segurando a bola. Depois apertou-a fortemente contra o coração.

A genialidade de Lygia, ao mesclar as questões sociais e humanas, vai construindo no leitor um sentimento de cumplicidade com a condição da criança abandonada. Há um misto de verdade e inventividade construído na narrativa fantástica da escritora que leva o leitor a se perder na ficção para se encontrar no sofrimento do outro. Este, sim, com referente concreto na nossa sociedade. A inversão das expectativas de um menino que, no asilo, recebia presente no Natal e que, no novo lar, é maltratado constrange e provoca. Lygia confessa: “O meu objetivo é a condição humana. A condição humana me apaixona muito, então eu tento me desembrulhar, desembrulhando meu próximo. Nesse ato de me desembrulhar, faço do próximo meu cúmplice, meu parceiro. Tenho vontade de trazer este leitor até onde estou e na realidade nós somos parecidos, temos os medos, as esperanças.”

Lygia é genial, reiteradamente genial. A mestria de nossa escritora nos presenteia com sua arte, sempre e neste momento de encontro, com a cumplicidade, com o desejo de transformar o sofrimento do outro, provocando, em nós, a reflexão e a esperança. O que fez de dona Zulu uma mulher capaz de tamanha perversidade? Quem semeou nela sentimentos tão inferiores? Qual é a melhor semeadura que nos compete em mais este Natal? A literatura é a inspiração. A simplicidade de Alonso e a alegria de Biruta são bons companheiros. E ler Lygia é um presente que podemos dar a nós mesmos. Salve Lygia e a generosidade natalina.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/12/2014