Artigos

E por falar em amor

“Eu já disse que te amo?”.  Foi essa a frase que deu início ao esfriamento do amor. Quem disse foi um homem apaixonado por uma mulher. Ela respondeu. “Eu também te amo”.

Poderia ter terminado assim. Poderiam ter aproveitado o enlevo da poética das frases e iniciado outros escritos. Mas ele, inseguro, prosseguiu: “Eu sei que você não me ama como eu te amo. Eu sei que sempre, em uma relação, um ama mais do que o outro”. Ela ficou ouvindo e não disse nada. Ele continuou: “Por que você não disse nada? Porque concorda comigo, não é?” Ela disse: “É você quem está dizendo, meu amor!” Ele não se satisfez: “Esse ‘meu amor’ não foi natural, foi forçado. Eu te conheço bem”.

Ela tentou dizer alguma coisa, mas a ânsia das teorias dele não lhe deu espaço, e ele pontificou: “Eu sei que, na vida, a gente só tem um grande amor. E eu sei quem foi o seu grande amor. E sei que não fui eu. Já, no meu caso, você é meu grande amor. É por isso que eu não te cobro nada. Nada. Eu entendo isso”. Ela respondeu: “Nossa, você tem muitas certezas, e isso me sufoca um pouco”.

 A conversa continuou.  Terá a relação sobrevivido? Por que sabotamos instantes preciosos de nossa vida? Por que sabotamos a felicidade? Por que buscamos problemas quando tudo parece bem?

Poderíamos pensar que, se essa mulher fosse mais enfática na resposta, talvez ele se aquietasse. Se ela dissesse que era ele o seu grande amor, o problema teria sido resolvido. Mas por que ela é obrigada a dizer o que ele decidiu ser o texto adequado para se provar que há amor? Por que ele pode ter teorias robustas sobre “amor único”? Por que ele a conhece mais do que ela mesma?

Há histórias que findam por sufocamento. Um dos dois não consegue sentir saudade, porque o outro não deixa. Os desejos vão se realizando sem esforço algum e, sem esforço algum, perdem a razão de existir. E o cotidiano que poderia ser desafiador torna-se indesejado.

Uma história de amor é sempre um desafio porque não controlamos os sentimentos dos outros nem os nossos. Não temos esse poder. E nos enganamos com frequência. Misturamos amor com obsessão. Lemos sinais que não existem. E, por outro lado, desistimos do que não precisaríamos desistir com medo do fracasso. Com medo de que o amor já tenho ido embora. E o amor estava ali, do seu jeito, por vezes um pouco tímido, mas ali. 

Buscar pessoas perfeitas nos leva ao solitário mundo das esperas. Não que não se possa cultivar o amor dos amigos, das ideias, dos sonhos comuns. Há muitos que se realizam assim. Mas aos que buscam uma alma para serenar a sua, é preciso compreender que o amor idealizado, como diz o nome, mora no mundo das ideias. A pele que vemos é frequentada por cicatrizes e queimaduras, tem saliências e tons que nem sempre são os mesmos. Ou nos apaixonamos por ela ou é melhor folhear rostos em livros, cujas expressão e espessura não mudarão.

A resposta ao “eu te amo” foi o que aquela mulher pode dar aquele homem. Do seu jeito. Com o seu tom. Banhado com o olhar que ela possuía no momento. Era isso que ele poderia desfrutar em vez de se lambuzar em dúvidas desnecessárias. “Será que ela me amará amanhã?” Era o que o angustiava. Quem é o dono do amanhã? Quem sabe quem deixará de amar primeiro? 

Regras não há. Quem entra nas águas do amor sabe do risco que corre, mas sabe das sensações únicas que esses banhos proporcionam. Nada, sem nada garantir. O instante vale, aos nadadores, prazeres especiais.  E se um dos dois sair primeiro das águas, o tempo haverá de secar o necessário. E se houver um pouco de coragem, quem sabe surja outro amor para mais um banho! Sem comparações. Bocas abertas para muitos dizeres atrapalham as braçadas dos nadadores. E, nessas águas, afogamentos não são bem-vindos.

“Eu te amo”  é nobre demais para ser desperdiçado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/02/2016

Começar e Terminar

Os tempos rápidos em que vivemos ampliam uma angústia que é comum nos jovens. Cobranças de resultados. Na família. Na escola. Nas primeiras atividades profissionais. As razões são muitas.

Medo de não dar certo. De fracassar. De ter feito a escolha errada. Isso faz com que muitos pulem de galho em galho sem antes experimentar o fruto que há naquela ocupação. Assim, também, nos namoros e nas relações afetivas. Tudo muito descartável. Tudo aligeirado pelo tempo do agora. Do online. Do imediato. Do instantâneo.

 Começa-se um trabalho, em um escritório, e já se está pronto para novas empreitadas. Não há mais o tempo da permanência. Não há mais o tempo da aderência. Começa-se um curso de  inglês e, depois, muda-se para o espanhol ou mandarim sem concluir nenhum deles. Alguém disse que o mercado está buscando profissionais que tenham o domínio do mandarim? Então, o melhor a fazer é abandonar o inglês ou o alemão ou o francês. E se outra informação, em sentido contrário, vem muda-se novamente. Uma nova língua precisa de um tempo para ser assimilada. Um emprego, também. E, assim, com os cursos. É preciso terminar o que se começa. Cumprir um ciclo. Realizar um trajeto cognitivo, social e afetivo nas aprendizagens que nos propomos a absorver.

Quantos se matriculam em academias de ginástica, pagam o ano inteiro e desistem no início? Quantos iniciam um curso universitário e, depois, pedem transferência para outro ou abandonam? Quantos desistem de um amor porque não dão chance ao tempo de desvelamento do outro? Sentem-se frustrados, apressadamente, porque não era exatamente o que imaginavam! Calma. É preciso de tempo para se saber. Em todas as áreas, haverá prazeres e desgostos. É preciso estar preparado para o penoso e prosseguir. Depois das inclinações, há tempos para contemplação. O cenário que se vê, de cima do topo das nossas vocações, há de compensar o esforço. E surpreender.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/02/2016

Professores inesquecíveis

“Enfim, acabaram as férias”. Foi com essas palavras que minha professora, na escola pública de Cachoeira Paulista, iniciou mais um ano letivo. “Enfim, acabaram as férias”. Só isso já desenharia, em nossos olhares, uma obra de arte acolhedora. Ela gostava de estar ali. Gostava de ser nossa professora. Dizia isso sem apelos, sem exageros. Ela não trabalhava aguardando as férias ou finais de semana ou feriados. Gostava deles, naturalmente. É bom descansar. Bom e necessário. É bom viajar. Mas o melhor é exercer o ofício que se escolheu e que se compreende ser um instrumento para a melhoria do mundo. Ela, definitivamente, gostava de ser professora. E isso faz toda diferença.

As aulas estão começando. Os alunos vão entrando pelas salas e preenchendo, um a um, o mundo de possibilidades que esses espaços abraçam. Há escolas com mais ou menos tecnologia. Com espaços maiores ou menores para práticas esportivas ou culturais. Há escolas modestas e outras abastadas. Há algumas que ficam em grandes cidades e que possuem muitos alunos. Há outras, em cantos menores, com pouca gente. Em todas elas, há um professor. 

 Os espaços precisam ser acolhedores. A boa escola se prepara para receber os alunos. Sabe da importância estética do lugar que se frequenta buscando o novo. Espaços limpos. Frases tocantes. Ditos de entusiasmo na chegada. Como é bom chegar a algum lugar e se saber esperado, querido. Como é bom alguém nos olhar e dizer com palavras ou gestos: “Que bom que você está aqui!”, “Que bom que você existe!”, “Que bom que você me dará trabalho!” – pois foi essa a minha escolha.

Os inícios são fundamentais para o que virá depois. A autoridade do professor vai se construindo a partir do primeiro dia. Do primeiro encontro. Das primeiras atitudes. O aluno precisa se sentir seguro de que há alguém disposto a gastar com ele um pouco da própria vida para que sua vida ganhe mais significado. A atitude do educador haverá de preencher espaços essenciais da vida dos aprendizes.

Lembro-me de que, diretor de escola e iniciante, dei uma palestra aos professores da minha escola. Talvez por insegurança quis mostrar muito conteúdo. Falei de escolas pedagógicas na história e em outros países. Desfilei o que sabia para mostrar que a pouca idade não era um impedimento para que eu estivesse naquela posição. Quando terminei, uma professora mais experiente disse que havia gostado muito do que eu havia dito, mas que gostaria de dar uma modesta contribuição para outras falas. “É preciso dizer aos professores que digam ‘bom dia’, ‘boa tarde’. Que se apresentem com humildade, que prestem atenção aos alunos, que mostrem a eles o quanto é importante  estarem juntos, aprendendo”. Eu agradeci, mas disse que isso eles sabiam, que era óbvio. Ela insistiu: “É preciso dizer o óbvio; as pessoas se esquecem do que sabem ou deveriam saber”. Fiquei pensando na experiência daquela professora. Há algo que vai além dos conteúdos e que é tão ou mais importante do que eles, a atitude de quem educa.

Se revisitarmos o baú de nossas recordações, o baú afetivo do qual apenas nós temos as chaves, encontraremos, certamente, alguns professores. Talvez seja um bom exercício nos perguntarmos a razão de eles estarem ali. O que fizeram para serem professores inesquecíveis. Quais eram as suas atitudes. Essa é uma boa escola para nós que estamos nas salas de aula ensinando. Olharmos para trás e tentarmos compreender as lições do que permanece. Há professores que tropeçam nas tentativas insanas de ensinar passando o máximo de informações possível. Informações, há em toda parte. Professores, não. Os alunos terão caminhos para dirimir dúvidas sobre conteúdos, mas os exemplos dos seus professores só se encontram nos seus professores. Exemplos que ajudam a forjar o caráter, a perseguir o caminho reto, a ter apreço pela ética, pelo respeito, a compreender as diferenças, a exercer a generosidade como um mandamento de vida, a ter sonhos e persegui-los.

Educar para os valores faz toda diferença. Aquela antiga professora me dizia isso. É bom ter um repertório sofisticado, ter conhecimento, ter estudo, ter preparo, mas é melhor ainda ter tudo isso e tocar na alma das pessoas. Com leveza. Com simplicidade. Com um “bom dia” que significa muito, que significa tudo.

“Enfim, acabaram as férias”. Depois dessa frase, ela disse outras na mesma direção. “É uma honra ser professora de vocês. Será um ano muito bom. Vamos aprender juntos. Vocês vão ver como é bom aprender coisas novas. Quero começar contando uma história. Uma história que eu aprendi com uma professora quando tinha a idade de vocês e que eu nunca mais esqueci. A história de um menino que achava que não ia conseguir aprender…”.

Pronto. Já revisitei meu baú de recordações. Já posso entrar na sala de aula e encontrar meus novos alunos. Estou feliz por conhecê-los. Farão parte da minha vida neste novo ano e, certamente, permanecerão…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/02/2016

O aprendizado das “cinzas”

A quarta-feira de cinzas tem um significado especial no calendário litúrgico. Ela inaugura o tempo da Quaresma, o tempo de preparação para a Páscoa. Na celebração, o sacerdote diz, enquanto faz um sinal da cruz com as cinzas nas testas dos fiéis: “Lembra-te que és pós e que ao pó voltarás”.

As cinzas nos trazem um aprendizado essencial. A humildade. A consciência de que não temos o direito de nos sentirmos superiores a ninguém. Viemos e voltaremos, sem levarmos bens ou glórias. Toda nossa aparente força ou poder se vai no instante em que os nossos órgãos vitais deixarem de nos sustentar. Uma doença. Um acidente. Uma queda. Mais ou menos jovens. Em dias chuvosos ou ensolarados. Depois de alguma incursão triste ou feliz. Partiremos. E não há poder que nos faça prosseguir nesta vida. Podemos cuidar e prolongar nossa permanência. Mas, um dia, voltaremos ao pó.

 Essa certeza deveria nos ajudar a viver melhor. A saber que excessos não contribuem para uma jornada mais feliz. A não desperdiçamos tempo ou forças com nada que nos prenda. O pó é tão livre que escapa sem muito esforço de nossas mãos e vai ao sabor do vento, quando há vento. Os ventos não nos fragilizam quando sabemos nos deixar levar. Choramos nossos mortos. Sentimos as despedidas, mesmo sabendo que a regra é esta. Partir. E partir sem nada. Sem nada material. O que podemos é partir com o acúmulo de amores, de felicidades construídas na generosidade das convivências. Mas partir. Como as cinzas. Sem nada.

Todas as vezes em que me pego envolto em preocupações exageradas, em problemas que com o tempo não serão nada, cinzas talvez, tento me convencer desses ditos. Dessas celebrações que me embalam para errar menos e me preparar mais para o que acredito. Somos cinza e, ao mesmo tempo, somos amor. Sobre isso, já escrevi: “Matérias-primas de que somos feitos são duas, paradoxalmente duas: pó e amor! O pó nos iguala. O amor nos identifica.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/02/2016

É mais um carnaval

Há tantas canções que nos embalam nesses dias de folia. Há algumas, de antigamente, que nos trazem nostalgia. De velhos carnavais. De amores que se foram. De sonhos esmaecidos. De inocências que, talvez, tenhamos perdido.

Blocos de rua, escolas de samba, clubes, brincadeiras de criança. Fantasias. Passávamos um mês em torno da fantasia. Os tempos vão mudando. Os significados  da alegria, também. 

 Lembro-me dos meus carnavais do interior. Do desejo de ficar adulto logo para entrar no clube à noite. Crianças frequentavam as matinês. Há uma idade em que não somos crianças  nem adultos. E toda a ebulição nos leva a querer antecipar o tempo. Há outros tempos em que, se pudéssemos, pararíamos ou, ao  menos, pediríamos que passasse mais lentamente. Não temos esse poder. Mas essa é uma outra história.

Lembro-me da primeira vez que, na cidade grande, vi um desfile inteiro de escolas de samba. E desde a primeira vez, fiquei impressionado com a capacidade de contarem, na avenida, a história de alguém ou de alguéns. De um tema. De um lugar. De uma época. E os foliões tomando a avenida e fazendo parte de um dos mais belos espetáculos da terra. 

Gosto das músicas antigas de carnaval. Talvez porque me tragam recordações de pessoas e momentos que não voltam mais. Volta-me a alegria da infância, a inquietude menina que ansiava pelos 4 dias de festa na cidade. Mas gosto também das atuais. É preciso compreender o belo, nos tempos diversos, e aceitar as novas formas de fazer arte. Gosto da alegria dos foliões. E este ano São Paulo vive um lindo carnaval. Até aqui, este domingo, poucas histórias de violência e muitas narrativas de blocos, tomando a cidade. A alegria, lentamente, parece emudecer a dor. Talvez. Brincar é a lei. Afinal, hoje é carnaval! “Ó, quanto riso. Ó quanta alegria!”, descreve a canção. 

E a metrópole se colore, tomada pelas pessoas. Com responsabilidade. Com pertencimento. Acompanhei alguns blocos. Vi jovens de todas as idades cantando, dançando , sambando – quem diz que paulista não samba? Samba, sim!

É bonito de se ver avenidas inteiras povoada pelas gentes que querem quebrar os concretos com gingas de alegria. A pauliceia desvairada não é só do trabalho. Mas o carnaval, também, gera muito trabalho. O que é bom. O que nos ajuda. Olhar o turismo como grande potencial de emprego e renda é fundamental para todo governante.

Alguns lamurientos criticam essa alegria toda, dizendo que depois tudo volta ao normal. E que, em tempos de crise, não faz sentido celebrar nada. Discordo. Venceremos as crises trabalhando e celebrando. Convivendo, enfim. E o carnaval pode nos ensinar a vencer a sisudez com algum charme especial. Com algum bloco de otimismo. Com alguma escola da criatividade. Com algum gole de esperança.

Antigos ou novos carnavais são uma oportunidade a mais para expressar o prazer de viver. Os exageros são ruins. Drogas.  Bebidas em excesso. Desrespeitos aos desejos do outro. Atrevimentos deselegantes. Tirando esses desvios, o desfile é bom. 

É mais um carnaval. Talvez uma nova oportunidade para aprender o canto da alegria. Alegria que só é possível quando palhaços, colombinas, pierrôs e tantos outros se encontram longe das perversidades. Quando o riso sincero se apresenta e convida outros risos para celebrar.

¨Vai passar nessa avenida o samba popular. Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar¨ . E assim vai…

Bom carnaval.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/02/2016

Laços de menina

Valéria estuda em uma escola pública. É falante. Expressiva. Tem luz nos olhos. Fomos apresentados pela diretora da escola, logo depois de ela recitar um lindo poema. Disse-lhe que o poema era lindo. Ela concordou: “Sim, porém, triste”. Perguntei, então, a razão do poema.  Respondeu-me que o mundo era assim.  Ela, aos 7 anos, foi tecendo seus comentários sobre a vida. Vida dura a de Valéria. Muitos irmãos. Poucos recursos. O pai não consegue deixar de beber. Com ar de quem entende das coisas, explicou-me que ele não tem o mesmo empenho para trabalhar como tem para ir ao bar. Ouvi atento. Ela prosseguiu falando da mãe. A mãe era seu laço maior com o futuro. A sua inspiração. A mãe trabalha muito. Nem sempre consegue ir à escola ver a filha dizer seus poemas. Foi o que entendi. “Quando pode, vem”, explicou. Mas os laços no cabelo são feitos pela mãe. Logo cedo. Antes do trabalho. Ela arruma filho por filho.  Os dois meninos. E as três meninas. Todas com laços e fitas alegres. Encaminha-os  para a escola. E vai trabalhar. Quando voltam da escola, ficam com a avó. Que gosta de contar histórias. E que incentiva Valéria a ser professora. A profissão mais nobre do mundo. 

 À noite, volta a mãe.  Deixa na entrada os embates duros da vida. No despedir do dia, só tempo para curtir os filhos. Vez ou outra, vai até o bar e traz o marido. Ainda não desistiu dele. Explica que beber tanto assim é uma doença e que, um dia, há de vir a cura. Tudo isso ela me falou olhando nos olhos. Gostaria de conhecer sua mãe. Maria.  Maria é forte e suave. Fiquei imaginando o seu amanhecer. O seu cuidar. O seu labor. O seu prazer. Há de ter algo de muito especial essa tal Maria. Valéria não me disse o nome do pai. Também ele deve ter seus acertos. E a avó, como será?

Cada aluno traz para a escola seu mundo, que é sempre interessante. Seria bom se pudéssemos conhecer.  A diretora estava emocionada com a desenvoltura de Valéria. E eu feliz em estar ali, alimentando-me de esperança.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/02/2016

Os direitos das crianças

Dados recentes da UNICEF chamam a atenção para uma canção triste na voz de milhões de crianças que orquestram a dor nos territórios atingidos por conflitos. São 250 milhões de crianças – ou 1 em cada 9 –  que moram em áreas em que a paz não tem autorização para permanecer.

Têm essas crianças o dobro de chances de morrer de doença antes dos 5 anos. Morrem também das armas fabricadas pelos homens. Morrem, também, ao verem morrer seus pais, seus parentes, seus amigos. Ao verem o quintal dos sonhos devastado pela ambição dos homens. Infâncias desperdiçadas. Brincam com utensílios de destruição, ouvem histórias de ódio, falam sobre os inimigos, choram as invasões. E são apenas crianças.

 E os direitos das crianças? Aqueles aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 20 de novembro de 1959? Envelheceram sem nascer? Foram esquecidos antes de mostrar a face? Seus 10 princípios são tão significativos. Vida, liberdade, educação, saúde, cuidado, proteção, narram direitos que não podem ser negligenciados. A narrativa, entretanto, não alcança quem é de direito. As crianças padecem do jardim propício para a formação das raízes. Raízes que exigem condições mínimas de uma vida digna. Se as raízes estiverem fincadas em terrenos corretos, crescerão com menos problemas e alcançarão os patamares que ousarem de acordo com os impulsos das próprias escolhas.

Escolhas? Em territórios de guerra, o que se escolhe? Em ausências de paz, as outras ausências vão se apresentando. Não há educação, não há saúde, não há equilíbrio, não há bondade. O que se vê e o que se aprende é a combater. Não o bom combate, o que exige valentia para fazer tremular os valores em que se acredita. Falamos, aqui, do combate para a sobrevivência. Ou mato ou morro. E isso na infância. Onde as raízes ainda não têm história. Terrenos de guerra são pouco férteis. Difícil de ver brotar frutos bons.

Toda criança deve crescer em um ambiente de amor. Em um ambiente de compreensão, de segurança. É linda a imagem do filme “A Vida é Bela”, em que o pai inventa uma história bonita para amenizar os horrores dos traumas nascidos em um campo nazista para os poucos que sobreviveriam. Há pais que conseguem fazer isso nesses territórios de conflito. Mas é difícil. É difícil saber que se pode morrer amanhã e, na noite de hoje, deitar na cama do filho e embalar os seus sonhos contando uma história de amor. É difícil brincar ao amanhecer se há barulhos de bomba eclodindo como primeira refeição. Nutrientes ruins esses. Nossos jardins foram invadidos por estranhos que, por razões econômicas ou religiosas ou quaisquer outras, se acham no direito de nos desconsiderar.

Até quando conviveremos com isso? Até quando as nossas diferenças serão resolvidas com a eliminação de vidas? Que racionalidade é essa que nos faz ostentar algum orgulho? Somos animais racionais, não é assim que ensinamos? Como uma criança aprenderá sobre isso nessas áreas tristemente violentas?

Estamos falando de episódios com os quais convivemos em nossos tempos. Este dado da UNICEF, de 250 milhões de crianças que vivem em áreas de conflito, é de agora. E então?

E, talvez, seja pior. Há territórios nos quais os conflitos não são contabilizados. Lares violentos, brigas entre os pais, espancamentos de mulheres, de crianças. E os direitos das crianças?

Não quero deixar uma mensagem de pessimismo, mas, para ousar a utopia, é preciso conhecer a realidade. A realidade é a de um jardim devastado. Ainda acredito nos semeadores. Nas mulheres e homens que percebem a complexidade do que fazem e que não desistem. Valentes educadores que ousam desafiar o ódio e implementar o plantio do amor. Vencem o medo com o canto certo. O que se afina dia a dia para que a orquestra dos que vêm chegando continue a ser executada.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/01/2016

Lágrimas de alegria

Sou da teoria de que homem chora. E é bom que chore. Que chore de dor. Que chore de emoção. Que chore de saudade. 

Um homem, um menino, de nome Sérgio dos Santos Santana, do interior do Piauí, filho de um pedreiro e de uma empregada doméstica, entrou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Piauí. Imaginem os três chorando juntos! Sérgio acreditou na própria capacidade e foi em busca de seu sonho. Ser médico. Amenizar a dor de tantos que choram. Um outro choro. Um choro que, também, haverá de acompanhá-lo. Nunca me esqueço de uma vez que entrevistei o Dr. Adib Jatene e lhe perguntei se ele chorava quando tinha que, por exemplo, dizer a uma mãe que o seu único filho havia morrido. Ele me respondeu que sim, que chorava nessa e em outras situações. Quando um paciente ficava curado, também chorava. Dizia que um médico sem emoção não é capaz de exercer, dignamente, o seu ofício.

 O jovem Sérgio começa uma nova etapa de sua vida. Valente, não aceitou limitações que as condições financeiras ou as distâncias de centros maiores pudessem impor. Foi além. Estudou com afinco. Estudará com afinco para que sua vida mude muitas vidas. 

Assim que soube da aprovação, ligou para o pai. Choraram juntos. A simplicidade daquela família ajudou a forjar o caráter do futuro médico. Que ele continue assim. Orgulhoso dos pais que não tiveram a oportunidade de estudar, mas que o criaram para o voo certo.

Há um longo caminho, ainda, a ser percorrido para que a nossa educação melhore, mas histórias como essas nos enchem de esperança. Estamos mudando. É o que narra o lindo filme da Anna Muylaert , “Que horas ela volta?”, quando a filha da empregada entra em uma universidade. Já o filho da patroa, que estudou em colégios renomados, não. A diferença é que, assim como Sérgio, a garota estudou. O filho da patroa, não. Parabéns Sérgio. Parabéns senhor Hamilton Santana e senhora Marizete dos Santos. Que as lágrimas de alegria aqueçam vocês.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/01/2016

Empresta o seu sorriso

Asilos são cenários privilegiados de acúmulos de histórias.
Histórias, enredos de vidas reais. Amores de ontem. Tempos delicados de encantamentos. Encontros. Despedidas. Os anos acumulados acumulam perdas. Quantos estão ali revivendo momentos que aquecem o presente! Fotografias belas de um outro tempo. Falam de descobertas do mundo que foi se transformando, das aprendizagens que se fizeram necessárias. Falam dos seus que já não são mais seus. Ou porque partiram ou porque partiram. Assim mesmo. Partiram para a eternidade ou partiram os sentimentos dos que ali esperam um amor, uma presença como antes, um convívio. Histórias de filhos que não visitam os pais. Que por razões, sem razão, negam as raízes. As mais absurdas desculpas são usadas para justificar o injustificável. Aguardam, os que estão ali, um aceno, um encontro, um instante de revivida celebração.  Mas os filhos se ocupam de outras tarefas. O passado talvez os incomode. Mas é de presente que falamos. De presença.

 Em terras pedregosas, sempre há uma teimosa flor que brota para lembrar a cor do belo. Nas ausências desses asilos, aparecem pessoas dispostas a ouvir e a conviver. A ser voluntário da partilha. Gostam, os que têm histórias, dos que têm paciência de ouvir histórias.

Certa feita, um adolescente chegou triste a um asilo. Não estava triste por estar ali. Estava triste por uma ausência. Por um amor adolescente que o adoeceu. Estava triste pela insegurança diante da vida sem o tal amor que parecia eterno. Um namoro se findara. Apenas isso. Apenas isso? Isso é muito. Dói mais do que imagina quem nunca teve o privilégio de sofrer por amor.
O adolescente estava assim, nebuloso, mas foi, com outros adolescentes, ao projeto que faziam de conviver com os moradores do asilo.

Cada qual sentava onde queria e conversavam. Pedro, o adolescente, sentou-se ao lado de Carmen, uma senhora em quem o tempo acumulou felicidades. Problemas, ela sempre teve. Mas não foram suficientemente fortes para diminuí-la. Carmen foi dançarina. Viveu amores intensos. Perdeu o que tinha, quando não tinha o discernimento necessário para fazer as escolhas corretas. Reencontrou-se. Amou o seu amor, mas dele se despediu em um dia frio de junho. Ela conta, como em uma novela, os detalhes do velório do marido. Não tiveram filhos. Tentaram, mas não conseguiram. Tiveram, entretanto, razões suficientes para viver de amor. Carmen é falante. E fala sorrindo. E gosta dos detalhes. “Os detalhes enfeitam a vida”, ensina ela. Pedro era só ouvinte. Fechado em si mesmo, pela dor da despedida, ouvia. Contava Carmen de quando conhecera o seu amor. E um sorriso lindo a tomou  desprevenida. Foi quando Pedro pediu: “Empresta o seu sorriso?”.
 
Carmen compreendeu. Falou que também havia sofrido por amor. E que era lindo ver um homem chorando por uma mulher. Chorando por amar. O tempo agradeceria essas experiências. Mesmo as dolorosas. Vidas são assim. Choraram juntos aqueles dois. E, ao final, depois do pranto dos desabafos, Pedro saiu sorrindo. Disse ela ao menino, “Fique com o sorriso para você, não precisa me devolver”. Bem melhor do que chegou, porque boas ações nos fazem assim, Pedro respondeu: “Faço questão de devolvê-lo, será um motivo a mais para nos reencontrarmos”.

Tenho o hábito de visitar asilos e sempre saio com uma penca de sorrisos emprestados. Toda pessoa deveria fazer um trabalho voluntário. É o ensinamento de Francisco de Assis, “Quem dá é ainda mais feliz do que quem recebe”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/01/2016

Onde mora Deus

Uma criança pergunta para sua mãe:
– Onde mora o Papai do Céu?
 E ela responde:
 – No Céu. Se é Papai do Céu, mora no Céu.
A criança fica pensando, pensando. E não satisfeita com a resposta prossegue:
– Mas onde, no Céu? Em cima ou embaixo dos aviões?
A mãe não sabe o que responder. E, enquanto ensaia dizer alguma coisa, entra a avó.
A criança repete a pergunta  e explica a resposta da mãe. Quer saber o que pensa a avó.
– Onde mora o Papai do Céu?

A avó, experiente nesses assuntos de extrair o que a criança tem de melhor, devolve a pergunta:
– Onde você acha que mora o Papai do Céu?
A criança, sem titubear, responde:
– Em todo lugar.
– Em todo lugar? – Insiste a avó.
– Em quase todo.
A avó aproveita e quer saber mais:
– E onde, então, não mora o Papai do Céu?
Com uma certeza definitiva, responde a criança:
– Onde tem maldade.
A conversa prossegue. A mulher observa sua mãe conversando com o seu filho.
Deus mora onde não mora a maldade. Não que a maldade seja mais forte do que Deus. É que Deus respeita as escolhas humanas. É que Deus autoriza o homem a querer ou não sua morada.
A avó abraçou o neto e disse com carinho:
– Obrigada pela oportunidade de aprender algo tão bonito com você.
O menino piscou para algum lugar em que ele sabia que Deus estava ouvindo tudo e gostando do que ouvia.
Podemos aprender muito com as crianças.
Elas sabem onde mora Deus.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/01/201