Author page: Savio chalita

A dor da vida

28.02.2021

Gabriel Chalita

Eu voltava da missa da quarta-feira de cinzas, quando caí em dor. Voltava feliz. 

Padre Antonino tem um jeito humano de nos trazer Deus. Um olhar que une o que o interminável inverno do mundo vem desunindo.

Gosto das músicas e do silêncio. Das explicações e do tempo das esperas. 

É quaresma. O espaço das pedras que ferem precisa ser convertido em jardins que acolhem. 

Chorei os meus erros e fiz promessas de vida nova. Quero limpar meu coração para a Páscoa. Quero vida em mim. E foi assim que deixei a Igreja e caminhei passos tranquilos para minha casa. 

Foi quando Julia disse a solidão que a incomodava desde a morte do marido. 

Resolvi mudar o caminho e fui com ela conversando sobre despedidas e sobre a fé. E, então, vi o que não queria ter visto. Nadir, meu marido, beijando uma mulher dentro de um carro.

Tropecei em mim mesma. Ele me viu. Disse nada e foi caminhando sem ela. Passou ao meu lado e se foi. E ela deu partida no carro. 

Entrei na casa de Julia e desabei. Ela achou estranho que eu não soubesse. Talvez eu soubesse. Ela falou do quanto ele era grosseiro. Eu concordei, ampliando. Nos modos e nos pensamentos. 

Às vezes, tenho vergonha. Outras, tenho vergonha de mim por gostar dele. E gosto. 

Fechei um pouco os olhos no sofá da minha amiga. Meus sentimentos barulhavam o frio que me consumia, quando pensava em viver sem ele. Quem era a mulher que estava com ele? Veio entregar em casa o seu brinquedo e parou em uma outra rua para que eu não visse? De onde estavam vindo?

Julia sugeriu que eu decidisse. Eu disse que não conseguia. Se sonho, é com ele que sonho. Quando acordo, é a imagem dele que me desperta. Que vejo. Que viajo nos dias em que ele não estava. Sim, porque ele já me deixou. Mais de uma vez. 

“Até quando?”, foi a pergunta que caiu de Julia. “Até quando?”.

Vitor, meu filho, não suporta o pai, que tem vergonha do filho. O pai queria um filho macho como ele. O filho queria um pai amoroso como ele. E minha falta de ação em nada ajuda. O filho lamenta as piadas preconceituosas que o pai conta. E o meu riso. Mas eu não rio de concordância. Rio de nervoso, de tristeza, de medo de não ter mais ninguém para amar. 

Julia oferece que eu durma em sua casa. 

Agradeço e enfrento as pedras nas ruas poucas que me separam da minha. O pó dos instantes vai me dar forças para fazer o correto. A dor da vida não inclui o desmanchar da alma. 

Vou me refazer. É quaresma. Quero vida, em mim, na Páscoa.

Foi só um dia ruim

21.02.2021

(Gabriel Chalita)

Voltei para casa precisando me matricular em alguma escola do perdão. O ódio faz mal, eu sei. Mas a forma como fui demitido. O momento. A falta de jeito. A ingratidão.

Tremi bebendo um copo de água durante o desajeitado comunicado. Eu disse que queria conversar com o patrão. Recebi um “não”. E um apressado aviso de que retirasse as minha coisas. E um segurança ficou, sem jeito, observando.

Foram mais de 20 anos no mesmo chão. 

Sem chão, fui caminhando. No dia seguinte, acordaria sem ter para onde ir.

Sei que essas coisas acontecem, mas acho que eu esperava um abraço, alguns dizeres e confiança. Tropecei, enquanto caminhava. Um senhor distraído quase pôs fim à minha vida. Quando viu, se desculpou. Eu disse nada. 

Tomei chuva. Não me importei. Parecia ver o filme da minha vida embaçado por algum engano. Enganado estava eu em confiar. Eu sei que dinheiro não falta para ele. Eu havia pedido uns dias para cuidar do meu pai que não está bem, no interior. Ele deu de ombros e falou que assuntos menores eram resolvidos com a secretária.

A saúde do meu pai não é um assunto menor, pensei sem dizer. Eu cuidei do pai dele durante anos. Morreu ele de uma doença demorada. O filho pouca atenção dava. Fui filho do seu pai. Era assim que o velho Antenor me tratava, “Meu filho, como você é bom para mim!”, e chorava a emoção de ser cuidado. Herança grande ficou para o filho. Em dinheiro, A bondade foi enterrada com o pai. 

A quem os filhos puxam? Como podem ser tão diferentes? A mãe foi para uma casa de repouso, depois da morte do marido. E era eu quem a visitava. Dona Lúcia tinha histórias para contar, e eu ouvidos para ouvir. Ele não visitava a mãe e foi rápido no sepultamento. Fiquei procurando alguma lágrima naquele rosto tão mexido por reparos estéticos e tão pouco inteiro no tema das emoções. Mas não sou dos julgamentos. Comigo, era ora ríspido, ora ausente. Fui me acostumando à falta de afetos. E fui me esmerando em trabalhar sempre mais. 

E tudo acaba com um comunicado breve e um segurança olhando para o que eu levaria das poucas gavetas que tinha de 20 anos de trabalho.

Cheguei em casa e recebi meu filho Mateus gritando: “Papai, que bom que você chegou!”. Sentei no chão e chorei abraçado ao menino de nove anos que faz minha vida a mais feliz do mundo. Ele não entendeu o choro nem Marina, minha mulher. 

Contei que havia sido demitido, que nem pude conversar direito, que havia me sentido desrespeitado. Foi quando Mateus lascou, “Papai, foi só um dia ruim!”. E seus olhos acenderam em mim o que aquele dia havia apagado. Eu era pai de um menino maravilhoso, casado com a mulher que sempre senti ser o grande amor da minha vida, filho de um casal que me ensinou a bondade como um valor inegociável.

“Foi só um dia ruim”, é isso. Vou poder ficar algum tempo com o meu pai. O dinheiro é pouco, mas o essencial vai muito além. Seu André, meu patrão, não esboça felicidade com todo o dinheiro que tem. É perverso até nos intervalos. 

A escola do perdão estava no abraço do meu filho. Fomos fazer o jantar juntos e, depois, vimos filme aconchegados por uma manta e muito amor. Mateus dormia no meu ombro, enquanto a trama percorria minha mente mais calma. 

Falei com meu pai que demonstrou felicidade sabendo da minha ida. Marina, com as mãos nas minhas, parecia querer amar até mais tarde. 

O dia não foi tão ruim assim.

Aniversário da minha mãe

14.02.2021

Gabriel Chalita

Foi ontem, dia 13 de fevereiro. E, pela primeira vez, ela não estava. Seu sorriso, então, não estava. A não ser em mim. Em mim, ela prossegue, plena, como desde os inícios, que vivem em minha memória.

Eu não a tenho como gostaria. O seu colo é lembrança. Os seus dizeres, passado. Seu beijo, que evitava tantos males, reminiscência. 

Em um dos seus aniversários, depois da partida de meu pai, resolvi preparar a sua alegria. Disse que não conseguiria estar com ela e que comemoraríamos no final de semana. 

Comecei com uma cesta de café da manhã e um poema de amor. Depois, umas flores com algumas fotos nossas. Depois, um bolo enfeitado de gratidão, no almoço. No início da tarde, doces caseiros e mais flores e mais bilhetes. Depois, uns tocadores de música no entardecer. E depois, apareci, de surpresa,  para jantarmos e fecharmos o dia brindando o amor. A cada surpresa, ela me ligava e ria me chamando de maluco. Maluco por ela. 

Em um outro aniversário, eu dei de presente um livro que escrevi sobre sua vida: “Carta aberta para minha mãe”. Festa linda. Ontem, revi as fotos. Chorei sozinho a orfandade. Eram tantos convidados. E ela, ao meu lado, vendo os autógrafos e os afagos: “Dona Anisse, como a senhora é linda!”. 

Em seu último aniversário, ela estava no hospital. Foi o dia em que quase partiu. Estávamos lá para dar amor, família toda. Enfeitamos o quarto. E a vimos recobrando o sorriso. E ainda tivemos alguns meses juntos, antes de ela se tornar eterna. Quando fez 80 anos, olhamos para o futuro brincando dos 90. Que não vieram.

Se tenho alguma inveja na vida? De quem tem mãe. De quem tem o privilégio de olhar para o celular e receber uma chamada com o nome de “mãe” ou de “pai”. Eu a atendia brincando, “mamãezinha”, e desligava dizendo “te amo muito”. Ela falava em saudade e me contava histórias. Às vezes, repetia a mesma história. Dava alguns conselhos. E ralhava com as minhas discordâncias.

Gostava das festas. Do convívio. Do passear pela vida. Teve ela vida dura. De muitas despedidas. A dor de uma mãe que enterra um filho é indizível. Ela enterrou dois. E prosseguiu. E foi avó. E bisavó. E distribuidora de amor.

Sonho com ela sonhos bonitos. Há pouco tempo, estávamos na praia, e ela boiava e eu acariciava seus cabelos dizendo que era preciso voltar, sair da água, que havia muita gente esperando. E ela respondeu com um sorriso ainda mais lindo: “Vou ficar, meu filho, está tão bom aqui”. Fiquei um pouco mais tocando sua felicidade plena e, depois, acordei.

Os acordes do dia ora afinam, ora desafinam. Ora rimos, ora choramos. Ora nos fortalecemos de futuro, ora desejamos o passado. A tristeza já não me surpreende como antes. Me lapida. Me ajuda a tirar fora as partes que me desfiguram. Sem os enfeites, tenho saudade de ser quem sou e me esforço o quanto posso para me lembrar do que faço por aqui.

Como minha mãe e meu pai, eu também vou. Vamos todos. A fé me acalma, mesmo sem nada saber, mesmo com as dúvidas que se revezam, mas que sempre existem.

Antes de terminar o dia do seu aniversário, falei com ela. Sozinho. Agradeci pelo sonho, pelos sonhos. Um sonho de mãe que plantou, em mim, todos os sonhos do mundo.

Feliz aniversário, mamãezinha.

O volume do silêncio

07.02.2021

(Gabriel Chalita)

Minha filha não se entende com a felicidade. Não diz os sentimentos. Desperdiça o perdão.

Converso com ela, com algum cuidado. Gosta nada de ser contrariada. Sei que ela e João se amam. Pena estarem distantes. Ele fez de tudo para voltarem. Ela disse ‘não’ querendo ter dito ‘sim’. Chegou a me confessar entre dúvidas. “É bom ter dúvidas”, foi o que eu disse. 

Pedro e eu fomos casados por quase 40 anos. Éramos tão diferentes. Poderíamos ter desistido, mas escolhemos nos amar. O amor é, sim, também uma escolha. Escolhemos nos amar mesmo em tempos ruins. 

Pedro viajava muito, vendia tecidos e, também, simpatia. Era, certamente, convidado a outras experiências, mas escolheu permanecer.  Eu, também, tive outros convites. Sempre fui uma mulher interessante. Bonita, por que não? Tenho mais de sessenta e, quando me olho, gosto de como sou.  No passado, então, “eu fechava quarteirões”, era o que vociferava Pedro, meu marido, orgulhoso da beleza da própria mulher. 

Digo a minha filha sobre desentendimentos. Sugiro alguns passos. Solto frases que marcaram uma história que existiu e que deu certo. Uma das vezes em que eu tive dúvidas, ainda nos inícios, ainda sem filhos, Pedro me recobrou os pensamentos dizendo, “Você pode escolher me amar acima das minhas imperfeições”.  Eu disse nada. Ele prosseguiu, “Fique e superaremos  juntos esse medo”.

Tive medos, sim, e não foram poucos. Medos dos dias prolongados quando eu estava triste. Minha mãe terminou o seu tempo regada a depressão. Temia que acontecesse comigo.

Meu filho mais velho é chegado à vida. Aprendeu a não discutir com o destino, embora nele não acredite. Vai vivendo de acontecer. São irmãos e são tão diferentes.

Disse à minha filha outra frase do meu marido, seu pai, “Desliguei os ouvidos e aumentei o volume do silêncio”. Foi quando os irmãos dele brigaram pelo que ficou de herança do pai. Ele queria o pai, não a matéria, não o metal que se perde. E o pai estava nele. Somos pedaços dos nossos, mas vamos discernindo os pedaços bons para vivermos melhor. 

Quando Pedro morreu, eu estava com ele. Rezei com ele os últimos suspiros. Sofri, agradecendo. Que bom que permanecemos, que nos demos a chance da felicidade. 

O que pode uma mãe ensinar a uma filha que já beira os 40? Ela é mulher feita. Talentosa, sem acreditar. Boicota a si mesma, parece não registrar o direito de ser feliz. E, por isso, escolhe por teimosia, não por amor. 

Sei que é errado comparar os irmãos. Cada um carrega a unicidade da existência. Mas que mãe não sonha com a felicidade para os seus? Falei, ontem, com João. Pedi que o amor se alimente de paciência e compreensão. Ele sorriu esperançoso. 

Resolvi rezar para que minha filha compreenda que desperdiçar um homem bom não é prova de sensatez. Maria Fernanda há de dizer ‘sim’, quando quer dizer ‘sim’. E se ajeitar com a felicidade.

Entre o amor e as sinceridades

31.01.2021

Gabriel Chalita

Seu Tomás trabalha na portaria do prédio em que minha mulher e eu moramos. 

Gosta ele das conversas e das verdades que diz, sem muitos filtros. É assim nos assuntos da política, do futebol, da religião e da vida das pessoas. 

Foi na semana passada, em que ele gastou alguns segundos me olhando, enquanto eu aguardava o elevador, que ele incendiou minhas preocupações:

“Engordou, hein, doutor?!”.

Antes da porta se abrir e antes que eu pudesse conferir no espelho a sua verdade, tentei explicar dizendo que havia operado o joelho que estava sem correr, que já havia voltado, que, enfim, tudo voltaria ao seu lugar. 

Ele ouviu, meneando a cabeça, e lascou: “É, mas se não fechar a boca, não resolve”.

Ri e disse nada. Entrei no elevador e fiquei medindo o que estava fora do lugar. 

Vida dura a de médico. Pouco tempo para cuidados necessários. Vou voltar a correr, sim. E vou voltar a viver sem as gorduras que perturbam o seu Tomás. 

No mesmo dia, recebemos um casal de amigos para jantar. Minha mulher gosta de fazer pizza. Temos um forno na varanda de casa. Soraia é uma amiga querida que, há muito, não nos visitava. 

Seu marido é um diplomata da elegância. Pensa em cada palavra que vai dizer. Tem a humildade de ouvir antes de opinar.

Ajudava Verônica, minha esposa, a preparar as pizzas, enquanto ouvíamos Chico Buarque e falávamos amenidades.

Soraia parecia satisfeita com os pedaços que comia. Perguntava eu os sabores, e ela aceitava todos. Marguerita. Muçarela. Burratta. 

Ríamos de lembranças do ontem, comentávamos a genialidade de Chico de compor tão único e tão diverso.  Foi quando ela olhou para minha mulher e falou: “Agora, depois do sexto pedaço, posso confessar, não gosto de pizza”. O marido, elegante, tossiu engasgado. Quis explicar: “Meu amor, – prosseguiu ela – fui sincera! Se eu soubesse que era pizza, nem teria vindo, é que gostei tanto que fui comendo”.

Minha mulher ofereceu fazer outra coisa. Ele disse que não, que queria mais um pedaço de Marguerita. E depois comeu mais uns três ou quatro. E eu estou sendo tão sincero quanto ela e o Seu Tomás, sem exageros nem interpretações. E ainda perguntou se faríamos uma pizza doce para terminar. 

O marido lembrou que eles haviam trazido uns chocolates para a sobremesa. Que era desnecessário. “Eu prefiro a pizza doce, se não for dar trabalho”, disse, selando o seu dito com um beijo no marido que aquiesceu. 

E assim foi feito.

Eles se despediram e antes de nos amarmos, Veronica e eu brincamos de revisitar o dia. Contei do Seu Tomás e disse que, no dia seguinte, sairia escondido, depois de tanta pizza. E agradecemos o privilégio de, em tempos tão maquiados, conviver com a sinceridade.

Entre sorrisos gentis, a verdade é sempre bem-vinda.

Ouvindo Chico que cantava: “E me beija com calma e fundo até minha alma se sentir beijada”,  eu beijava minha mulher que não tinha os mesmos incômodos do porteiro.

Penso eu. 

Mas amanhã volto a correr.

Os cachorros têm lugar no céu

24.01.2021

Gabriel Chalita

O sol rachava a caminhada no janeiro do Rio, e a prosa soprava uma brisa metafísica sobre os nossos entendimentos. Júlio e Breno, de assunto em assunto, estacionaram as emoções para falar de Kush.

Kush era um cachorro. Chegou tímido tateando os cheiros da casa. E da gata. Sim, havia uma gata, Taga. Taga parecia professorar os jeitos de Kush. Ele se movimentava quase que deslizando. E, se não a via,  escondida que gostava de ser,  procurava-a sem incômodos nos poucos cômodos onde moravam. Quem disse que cão e gata precisam brigar? Que precisam se estranhar?

Os anos de alegria vão se desligando, e outros se ligam sem que possamos decidir. Do jeito filhote ao entardecer cansado, ele ocupava aquele mundo. Era preto como as asas da graúna e foi se esbranquiçando como acontece com as forças que se despedem. 

Na caminhada, uma água para refrescar os pensamentos. E o pensamento nele prosseguia no dizer daqueles dois.  Ele gostava de gente. Esmerava-se em desfilar com elegância e olhava, em pose de atenção, para receber elogios. Os passeios com ele eram obrigação de amor. Nos movimentos de saída, ele já aguardava na porta, ensinando gratidão. Sua felicidade dissipava qualquer antônimo. E o dia começava bem. No pôr do sol, ele admirava como gente. E, como gente, olhava as expressões dos que sabem se expressar quando conseguem ver o espetáculo único de todos os dias. 

Júlio se emociona para falar da despedida. Pede desculpas. Eu digo, em sorriso, que compreendo o amor que eles nos dão e a dor de quando se vão. Conto dos meus cachorros que se foram. De um que partiu o ano passado. Do último abraço no tapete da sala, do último olhar, das primeiras lágrimas sem ele. 

Breno pede que Julio conte da missa. “Fomos à Igreja de São Judas Tadeu, e o padre, quando começou a ler as intenções, disse: 

– Missa de sétimo dia de Maria Antonia e de… me desculpem, mas tem um nome aqui que não consigo pronunciar. Deixa eu soletrar K U S H. Tem alguém da família?

E eu, com riso nervoso e os olhos marejados, expliquei que era o meu cachorro. E achei que ganharia uma reprimenda. Ocorreu o contrário, o padre me acolheu com sorriso. Tempos depois, nos encontramos na rua e ele se lembrou de mim e disse: “Viu que até o Papa Francisco disse que os cachorros têm lugar no céu?”.

Algum silêncio nos encontrou, enquanto minha imaginação brincava de desenhar palavras. Como é bom encontrar pessoas que não têm medo de demonstrar os sentimentos. O que é o viver sem o sentir?

No mosaico dos sentimentos, encontramos recados todos os dias. Misteriosamente, eles aparecem tentando fazer desaparecer nossas insensibilidades. São trechos de vidas, são dizeres de encantamento, são silêncios reveladores.  Por isso presto tanto atenção ao que os outros me dizem. Abro os compartimentos da escuta para que histórias de amor me preencham.

Por pessoas, por animais, pelos dias, pelas causas. 

No fim da caminhada, nos despedimos e voltei para a vida imaginando Kush brincando em algum jardim das transcendências. E abanando uma alegria capaz de ultrapassar o invísivel.

Alegre, terminei o meu dia.

Um céu para Anna

“Um céu para Anna” é o título de minha crônica publicada,  hoje, no Jornal O Dia RJ:

Um céu para Anna

Gabriel Chalita

Eram os dias finais do ano que já se findou quando recebi a notícia. Nesse dia, estava de folga, ajeitando a vida, que deixo de lado, quando estou no hospital.

Sou enfermeira e, no cuidar, descobri o meu lugar no mundo. E foi assim que conheci Anna Maria Martins, a escritora.

O primeiro dizer daquela bela mulher de 96 anos foi, “Minha querida, estou sendo muito bem tratada aqui, agradeço a amabilidade de todos, mas, infelizmente, vou ter que ir embora, compreende?”. A filha sorria com o dizer da mãe. As palavras, companheiras de toda uma vida, não aconteciam sem cerimônias. Eram pensadas antes de ganharem vida. 

Acho linda a vida de um escritor e quis saber mais. Um pouco ela mesma me disse, feliz com minha curiosidade. Outro tanto fui pesquisando e me encantando com aquela mulher. O marido era, também, escritor. E, também, a filha. Ela gostava de dirigir a vida, inclusive. Mas me contou que, aos 90, ainda ia interior afora visitar parentes. E gostava da liberdade. E ria dizendo que, vez ou outra, extrapolava os limites da velocidade, “Que minha filha não me ouça!”, soletrava brincadeiras. 

Os livros tomavam horas de seus dias. Era ciosa na arte de traduzir, engenhosa na arte de inventar personagens ou de relatar acontecimentos. Os seus pares a tinham como a dama da elegância ou da delicadeza ou da generosidade. Meu Deus, por que demorei tanto para conhecer essa mulher?

Já disse que gosto do cuidar, e esse é o meu manifesto de que não desisti da humanidade. Mas me pego absorvida de horror quando vejo as violências. Há mulheres que chegam ao hospital rabiscadas de um escrito covarde que agride partes do corpo e que diminui a alma. A alma, vocacionada para as grandezas. Brigas tolas que geram ferimentos, por homens armados de ódio. No trânsito. Na vizinhança. No bar. 

Há outras provas da violência onde trabalho. Os abandonados. Os que melhorariam mais rapidamente se tivessem o amor dos seus. Essas imagens sempre me visitaram. E me entristeceram. E, jamais, me desanimaram. 

Meu ânimo hoje é outro. A tristeza da despedida de Anna e a certeza de que o que ela falou era mais profundo do que ir para casa. “Agradeço a amabilidade de todos, mas, infelizmente, vou ter que ir embora”.

Ela foi embora. Infelizmente, ela foi embora. Embora tenha ido feliz. Não que a vida não a tivesse ferido, mas tinha ela, na gentileza, o poder cicatrizante dos dias.
Quem a conheceu,  há mais tempo, dizia que os dias ao lado dela eram mais leves. Que ela plantou delicadezas em todos os palcos em que representou com mestria o viver pela palavra.

“Sou uma escritora”, dizia ela, “Sou da literatura, sou das histórias bem contadas, dos laços que unem vidas e que proporcionam felicidades”.

Decidi que vou ler mais em gratidão aos poucos dias em que pude ouvir a sonoridade da sua voz dizendo belezas.
Fico imaginando como deve ser um céu para Anna. Terá ela um clube de leituras para explicar o amor, a amizade, a bondade? Terá ela outros escritores para inspirar os dias? Terá ela alguma enfermeira como eu para acariciar a alma cuidando e sendo cuidada?

Sou uma mulher de fé. E isso me basta para dizer que não sei como é a vida depois que a vida se despede. Só sei que não pode ser ruim para quem foi bom. 
Anna, ainda nos encontraremos…

“Enfim, casados”

“Enfim, casados” é o título de minha crônica publicada, hoje, no Jornal O Dia RJ:

Enfim, casados

(Gabriel Chalita)

Conheci a mulher da minha vida há 12 anos. Foi em uma canção de música de espera. Linda, sentada à minha frente, em uma faculdade de direito. 

As primeiras conversas foram cuidadosas. Não sou homem de muitas palavras. Gosto dos olhares. 

Gabrielle foi aceitando caminhar comigo. Somos do interior. Temos costumes um pouco vagarosos para tempos tão apressados. Quando conto que, do primeiro olhar ao primeiro beijo, aguardei um ano, parece coisa de antigamente. 

Guardo momentos de conversas, guardo gestos de autorização, guardo carícias de jovens amadurecendo no amor. O primeiro beijo ainda mora em mim. Valeu a espera!

Os anos foram se passando, e os amigos brincavam da demora. Não houve demora. O amor nunca deixou de estar presente. 
E, então,  12 anos depois, com os cuidados dos dias difíceis que estamos vivendo, ela entrou na Igreja, entrando ainda mais na minha vida. Sou tímido; às vezes, demoro a dizer sentimentos. Minha mãe não disfarçava a emoção. E, também, a mãe da mulher que amo. E, também, o pai. E, também, o meu pai. Chorei devagar. Emocionado. 

Combinamos muito. Fui o seu primeiro e único namorado. Fui com a delicadeza necessária para tornar mágico cada pequeno toque entre os nossos corpos. 
Sentir o seu cheiro é perfumar de amor os meus dias. 

O dia teve chuva e teve sol. Reparei pouco nas temperaturas. E nos enfeites que acompanhavam os seus passos decididos em busca do altar, onde eu estava inteiro para ela.

Tenho amigos que se orgulham das conquistas irrepetidas. Das mulheres que se têm e se descartam. Ouço as histórias e digo nada. Cada um mora na casa que decidiu. A minha é de concreto firme, de base inquebrantável. Que venham os ventos e as outras naturezas. Estaremos juntos. Que venha algum estranhamento, longe de mim plantar perfeições. Em mim, mora o que nela mora, uma decisão de enlace, uma despreocupação com outras paisagens, um sorriso de quem acompanha os dias acompanhado. 

Na roça, gosto de arrancar o mato para deixar a terra limpa para fazer brotar o que enfeita e o que alimenta. Quero ter a mesma disposição na vida de casado. Faz só uma semana do beijo do altar, das músicas das núpcias, do dormir sentindo o céu em nós. 

E, em todos os poucos dias que se seguiram, eu pude olhar para ela e dizer que o amor existe e que a felicidade daquele primeiro dia, daquela faculdade de direito, endireitou os nossos caminhos. 

O que são 12 anos em um sentimento que os poetas já decidiram eterno? Em nós, a escritura do amor foi feita com a arte de uma matéria-prima que nunca se acaba.

Lavei e passei 2020

“Lavei e passei 2020” é o título de minha crônica publicada,  hoje, no Jornal O Dia – RJ:

Lavei e passei 2020

(Gabriel Chalita)

Quero começar bem o novo ano. Fiquei sozinha em casa, com receio das festas sem necessidades que fizeram por aí.

Foi um ano difícil. Perdi muita gente. Aqui da comunidade mesmo. E vi muita gente, que eu via espalhando bondade, indo embora. Achei injusto. 

Minha única filha mora longe, tem as coisas dela, é importante, até secretária tem. Pouco tempo gasta comigo. Mas compreendo. Em uma mãe, cabem muitas explicações. Que seja feliz com os seus, do seu jeito. 

Depois que o pai dela morreu, só tive uma história de amor. E foi tumultuada. E onde é que se acha coragem para deixar o erro e ir adiante? Eu o amei.  Amei muito. Eu o recolhi das cinzas mais de uma vez. E, mais de uma vez, eu disse que deveria ir, para não ficar. E fiquei. Foram anos duros, de agressões e de vazios. E, então, me vesti de dignidade e fui cuidar do que restou de mim.

Sou lavadeira. E gosto do que eu faço. Criei minha filha com o dinheiro do meu trabalho. Até faculdade, paguei. Na noite da formatura, chorei para dentro, para não incomodar.

Ela ligou na passagem do ano. Estava com pressa, mas disse que, quando as coisas se ajeitassem, viria me ver.

Choveu muito por aqui. Em dias sem sol, as roupas têm que aguardar. Lavei e passei 2020 antes da virada. Decidi limpar tudo. Em mim, também. Vejo gente dizendo das sujeiras do mundo. Também digo. Mas sei ver as sujeiras em mim.

As minhas implicâncias, a minha falta de vontade de viver – vez em quando, tenho isso. Os meus reclamos com a solidão. Não é fácil uma mulher da minha idade encontrar alguém. E não é fácil viver sem ninguém. Escrevi em mim que a grande felicidade da vida é ser amada por alguém. E não encontrei ninguém para ler. Nem minha filha com seus amigos importantes. Não. Não vou remoer em roupa lavada e passada. Vou rezar para os dias que virão, vou encontrar outras calçadas para caminhar, vou viver a novidade que posso, enquanto posso.

É ano novo. E há um broto de flor se abrindo em mim, enquanto ouço os passarinhos que cantam aqui na comunidade.

Tenho amigas e amigos que me amam, sei disso. Tenho alguma beleza, todo mundo tem. Tenho olhos de ver as transitoriedades e as permanências. 
Permaneço disposta ao trabalho de lavar do mundo as injustiças, as perversidades, as arrogâncias, a insensibilidade. Prefiro chorar a saudade de quem partiu a partir alguém. 

Gosto de música. E, modestamente, posso dizer, tenho alma de bailarina, desde sempre. Acompanhada ou na solidão, danço o amor. Visto de roupas que eu mesma preparei e acalmo a tristeza dançando ou danço com ela, quando ela grita.E aí me deito com as janelas abertas para ser despertada no primeiro raiar de luz.

Acordei, hoje, com o riso acompanhando a lembrança de que estou viva. Vou, no cair da tarde, tomar café na casa de Maria.
De lá é bonito de se ver o pôr do sol, o primeiro pôr do sol de 2021. Gosto do sol se despedindo, porque sei que é só uma pausa. 

E, como é domingo, vou aproveitar para bordar. Bordar sentimentos novos em roupa lavada e passada e com cheiro de baile.

Ah, memórias bonitas que moram em mim. Mesmo as que não existiram.

Sangue no jornal

Gabriel Chalita

Só aos domingos minha família comia carne. O dinheiro não suportava outra possibilidade. Era minha avó quem determinava a ida ao açougue. Quantos anos eu tinha na época? Sete ou oito, talvez.

Gostava nada de entrar no açougue e ver o pendurar de vidas que foram abatidas para alimentar outras vidas. Foi aí que resolvi nunca mais comer carne. Não queria, dentro de mim, aqueles sofrimentos todos. Ficava imaginando os sentimentos arrancados quando um bezerrinho se ia, quando um porco gordo já estava pronto, quando um carneiro engolia o choro para ser engolido por gente desconhecida. Desconhecemos os sentimentos, nós, os racionais, os humanos. 

Se há dor nessas lembranças, há, também, preciosidades. Eu gostava de ir ao açougue e ler o quanto podia do jornal que haveria de embrulhar a carne. O senhor Zé Geraldo me observava. Tinha pressa nenhuma. Deixava que atendesse as outras pessoas. E ia lendo, e ia ficando atento ao mundo que se escondia naquele jornal. Em casa, era difícil de ler. O sangue no jornal embaraçava a história.

Sonhei ser jornalista e jornalista sou. Deixei o interior e vim para a cidade grande. Catar letrinhas. Construir frases. Espalhar ideias. Dei muito orgulho à minha avó, antes de partir. Meu pai não conheci, e minha mãe tinha pouco tempo para me perceber crescendo. Não lamento o que não tive. O que tive foi suficiente para chegar até aqui. 

No jornal em que trabalho, ainda me preocupo com meninos descalços que ficam, em algum lugar, tentando ler. Com mentes que ainda estão em formação. E, por isso, renovo em cada artigo o contrato com a verdade. 

Dizem que sangue no jornal aumenta a venda. Não sei. Desconfio dessas estatísticas. Dizem que é bom inventar algum escândalo. Sou jornalista, não sou inventor. Lamento que colegas de profissão cedam ao engodo do espalhar inverdades. São irresponsabilidades que não acrescento ao meu currículo. Vejo alguns querendo proteger uns em troca de desonestidades. Outros abraçam o erro por preconceito. E há os que são precipitados. Querendo dar o “furo”, cospem inverdades e sujam vidas que são corretas.

Talvez eu esteja ficando velho. Pode ser. Mas a velhice está me encontrando com a mesma compaixão que tinha quando via os olhos daqueles inocentes animais sem vida pendurados no açougue do senhor Zé Geraldo. Não. Ele não era um homem mau. Ele foi apenas se acostumando com a morte.

Eu escolhi a vida para escrever. E, se errei, e, certamente, errei muitas vezes, tive a honra de me desculpar e de prosseguir tentando fazer o certo. Sei do poder que tenho, que nós, jornalistas, temos de povoar as mentes de informações e de conceitos. E, por isso, digo ‘não’ a todo tipo de trama que nasça da perversidade.

Dia desses um assessor de político me trouxe, em êxtase, um dossiê contra o seu opositor. Ofereceu algum presente. Pediu pressa. Apressado fiquei eu em me desvencilhar dessa teia. São doentes os que saem a elaborar astúcias para atingir o outro. Por que não lutamos no campo das ideias? Por que não sugerimos sonhos em vez de lamas? 

Os que comigo trabalham gostam de me render homenagens, mas nem sempre homenageiam com seus atos os valores que tento deixar de herança. Prossigo, entretanto, semeando.

Já não sou o mesmo de ontem, cheio de certezas de que um jornalista seria capaz de mudar o mundo. Já não tenho a mesma aptidão para ouvir desavenças. Sou cuidadoso com o tempo que ainda me resta. Reservo para contar histórias que histórias construam e para amar a que construí com minha mulher, meus filhos e netos. Muito não temos. E, por isso, agradeço. O excesso de coisas torna a viagem mais pesada, mais desconfortável. Já o excesso de conhecimento só alivia a alma, os dias, a vida. 

Aos domingos, minha família conta história e se alimenta de vida.

Publicado pelo jornal O DIA, em 01.11.2020