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Shakespeare, Juca, Lear

Que Shakespeare é um genial leitor da alma humana, capaz de transformar em textos intrigas, dramas – vícios e virtudes do ser humano –, ninguém duvida. Que Juca de Oliveira é um mestre dos palcos e das telas, um ator que se reinventa a cada personagem para cumprir o compromisso com a essência de sua vida – ser operário da arte – é mais do que sabido.

E Lear, o Rei? Texto desafiador. Parece que foi escrito ontem. Trata de temas que nos incomodam hoje. Uma luta em que os vícios da vaidade, da ingratidão, do egoísmo parecem suplantar a virtude da sabedoria. Mas talvez o intento de Shakespeare seja exatamente o oposto. Mostrar o quanto erramos quando “envelhecemos sem ficarmos sábios”. O Rei comunica às três filhas que quer se aposentar. E que vai dividir o poderoso reino entre elas; para isso, quer ouvir as melhores declarações de reconhecimento de sua grandeza. Quer alimentar sua vaidade. Duas filhas fazem o jogo do pai e o engordam de elogios. A mais nova, a sincera, a que o amava de verdade não aceita fazer parte da trama. O pai, furioso, a renega e a expulsa. Divide o reino apenas com as duas que, depois de terem o poder, se cansam do velho pai. É a filha mais nova que vem salvá-lo. Assim segue a história. E Juca opta pela esperança no desenlace da trama.

A vaidade é um vício que emburrece. Perdemos o senso de nós mesmos. Acreditamos no poder que não temos. Permitimos aos aduladores a façanha do engodo. E nos esquecemos da transitoriedade da vida. “Somos pó e ao pó haveremos de voltar”. É esta a arma contra a vaidade: a sabedoria. Aristóteles ensina que o último degrau da sabedoria é a humildade. Virtudes que nos alimentam do que somos, que nos nutrem de felicidade e nos ensinam a viver. No cotidiano das escolhas corretas, no valor aos afetos desinteressados, no exercício nobre do pensar. Ver Juca interpretando vários personagens de Lear, em um monólogo surpreendente, nos comove e nos move. O futuro existe.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/7/2014

 

O teórico que incorporou o afeto à sala de aula

Para a mentalidade contemporânea, amor talvez não seja a primeira palavra que venha à cabeça quando se fala em ciência, método ou teoria. Mas o afeto teve papel central na obra de pensadores que lançaram os fundamentos da pedagogia moderna. Nenhum deles deu mais importância ao amor, em particular ao amor materno, do que o suíço Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827).

Antecipando concepções do movimento da Escola Nova, que só surgiria na virada do século 19 para o 20, Pestalozzi afirmava que a função principal do ensino é levar as crianças a desenvolver suas habilidades naturais e inatas. “Segundo ele, o amor deflagra o processo de auto-educação”, diz a escritora Dora Incontri, uma das poucas estudiosas de Pestalozzi no Brasil.

A escola idealizada por Pestalozzi deveria ser não só uma extensão do lar como inspirar-se no ambiente familiar, para oferecer uma atmosfera de segurança e afeto. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, o pensador suíço não concordava totalmente com o elogio da razão humana. Para ele, só o amor tinha força salvadora, capaz de levar o homem à plena realização moral – isto é, encontrar conscientemente, dentro de si, a essência divina que lhe dá liberdade. “Pestalozzi chega ao ponto de afirmar que a religiosidade humana nasce da relação afetiva da criança com a mãe, por meio da sensação de providência”, diz Dora Incontri.
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Sem notas, castigos ou prêmios

Ao contrário de Rousseau, cuja teoria é idealizada, Pestalozzi, segundo a educadora Dora Incontri, “experimentava sua teoria e tirava a teoria da prática”, nas várias escolas que criou. Pestalozzi aplicou em classe seu princípio da educação integral – isto é, não limitada à absorção de informações. Segundo ele, o processo educativo deveria englobar três dimensões humanas, identificadas com a cabeça, a mão e o coração. O objetivo final do aprendizado deveria ser uma formação também tripla: intelectual, física e moral. E o método de estudo deveria reduzir-se a seus três elementos mais simples: som, forma e número. Só depois da percepção viria a linguagem. Com os instrumentos adquiridos desse modo, o estudante teria condições de encontrar em si mesmo liberdade e autonomia moral. Como alcançar esse objetivo dependia de uma trajetória íntima, Pestalozzi não acreditava em julgamento externo. Por isso, em suas escolas não havia notas ou provas, castigos ou recompensas, numa époc a em que chic otear os alunos er a comum. “A disciplina exterior, na escola de Pestalozzi, era substituída pelo cultivo da disciplina interior, essencial à moral protestante”, diz Alessandra Arce.

Bondade potencial

Tanto a defesa de uma volta à natureza quanto a construção de novos conceitos de criança, família e instrução a que Pestalozzi se dedicou devem muito a sua leitura do filósofo franco-suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), nome central do pensamento iluminista. Ambos consideravam o ser humano de seu tempo excessivamente cerceado por convenções sociais e influências do meio, distanciado de sua índole original – que seria essencialmente boa para Rousseau e potencialmente fértil, mas egoísta e submissa aos sentidos, para Pestalozzi.

“A criança, na concepção de Pestalozzi, era um ser puro, bom em sua essência e possuidor de uma natureza divina que deveria ser cultivada e descoberta para atingir a plenitude”, diz Alessandra Arce, professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto. O pensador suíço costumava comparar o ofício do professor ao do jardineiro, que devia providenciar as melhores condições externas para que as plantas seguissem seu desenvolvimento natural. Ele gostava de lembrar que a semente traz em si o “projeto” da árvore toda.

Desse modo, o aprendizado seria, em grande parte, conduzido pelo próprio aluno, com base na experimentação prática e na vivência intelectual, sensorial e emocional do conhecimento. É a idéia do “aprender fazendo”, amplamente incorporada pela maioria das escolas pedagógicas posteriores a Pestalozzi. O método deveria partir do conhecido para o novo e do concreto para o abstrato, com ênfase na ação e na percepção dos objetos, mais do que nas palavras. O que importava não era tanto o conteúdo, mas o desenvolvimento das habilidades e dos valores.

Fonte: Revista Nova Escola (Por Márcio Ferrari)

Elza e as rosas de Lupicínio

Fui ao show de Elza Soares. Uma guerreira que transformou sofrimento em trabalho e que faz, de sua arte, uma vitória contra o derrotismo. Elza casou-se aos 12 anos. Nascida na favela, sofreu todo tipo de preconceito. Foi mãe aos 13. Perdeu um filho. Teve que doar outro. E perdeu mais um, o de Garrincha – homem a quem amou profundamente, mesmo incompreendida, humilhada por uma sociedade influenciada por dizeres falsos. Persistiu. Nunca renunciou ao amor. Que sentido teria a vida se o fizesse?

Elza canta o amor com o brilhantismo de uma voz afinadíssima, única. No show, canções de Lupicínio. Outro gênio que não renunciou ao amor. Sofreu. E revelou sua dor: “Esses moços, pobres moços/Ah, se soubessem o que eu sei/Não amavam, não passavam/Aquilo que já passei”. Elza fala do dia em que Lupicínio foi vê-la em um show. Elegante, com os olhos fitos nela. “Olhos de paixão”, imaginou. “Olhos de segundas intenções”. Quando ele se aproximou, disse: “rosas para uma rosa”. Elza, na defensiva, respondeu: “não me chamo Rosa e detesto rosas”. Quando ele, sorrindo, identificou-se, Elza, desculpando-se, disse que amava rosas e que tinha apenas medo. Afinal, ferira-se com muitos espinhos em sua vida. Ficaram amigos. O primeiro grande sucesso da cantora foi a música de Lupicínio: “Se acaso você chegasse”.

Ao final do show, lotado, tive a honra de conversar com ela. Uma dama. Saiu de uma cirurgia na coluna, tem dificuldade para andar. Mas, na sua voz, não há espaço para lamúrias ou queixumes. Na sua voz, há arte da melhor qualidade. Na sua voz, há um fluxo de histórias tantas de dor, de saudade, de perdas e de vitórias. Bom conhecer pessoas assim, que nos alimentam de futuro e de autenticidade. É também de Lupícinio a obra-prima com que encerra o show: “Felicidade foi se embora/E a saudade no meu peito ainda mora/E é por isso que eu gosto lá de fora/Porque sei que a falsidade não vigora”. Onde a falsidade vigora é melhor pular fora.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/7/2014

Virando a página

Muito já se falou sobre a derrota do Brasil na Copa, inclusive sobre o sofrimento das crianças e o aprendizado diante da dor. Foram eleitos os culpados. Falou-se das questões emocionais, do “apagão” diante da responsabilidade. Das improvisações. Da falta de preparo.

O próprio técnico, Felipão, disse que quem aceita desafio corre riscos. Era ele um ídolo por ter sido o técnico do penta. E agora? É incrível como alguém deixa de ser ídolo para ser vilão de uma hora para outra. E vice-versa. O goleiro Júlio Cesar, tão criticado, virou herói no jogo contra o Chile.

O país parou para ver seu time jogar. Os jogadores tinham a responsabilidade de vestir a camisa com as estrelas de pentacampeões do mundo. E perdemos. E sofremos. Mas é preciso virar a página.

No dia do jogo, virando as páginas de um livro, deparei-me com uma história escrita pelo afegão Atiq Rahimi: “Terra e cinzas”. Um conto comovente sobre a guerra. Quase um recital em defesa da paz.

A história se passa entre um avô e seu neto. Toda a família morreu na guerra. As bombas dilaceraram as vidas em que corriam os mesmos sangues. O avô busca seu filho junto com o neto, que busca o pai. Saem juntos em meio à poeira da estrada, inundados pelas lembranças dolorosas, mas com esperança. A criança ficou surda nos bombardeios. Mas não sabe.

Acha que a guerra roubou a voz do avô. E, sem voz, o avô não poderá mais contar as histórias que tanto embalaram seus dias felizes. E segue o livro. E segue a vida. Há problemas sérios a serem enfrentados pela humanidade. As guerras que persistem. As tantas formas de violência. Os preconceitos. As dores vividas por famílias carentes de tudo. O calvário do atendimento à saúde. O desperdício de talentos por causa de uma educação que não educa.

Que as derrotas nos sirvam de aprendizagem, mas que não nos paralisem, não nos roubem a voz. Há outras páginas a serem lidas, a serem escritas, a serem vividas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/7/2014

A criança e o mundo mágico dos livros

A bela cena de um pai ou mãe lendo para os filhos vai além da poética do aconchego, dos afetos. Entra no campo da inteligência, do desenvolvimento do raciocínio, da criatividade e da ampliação da linguagem.

Pais que leem para os filhos ampliam seus horizontes cognitivos e emocionais. Ao contrário das imagens prontas na TV e no computador, a criança ouve a história e imagina as personagens. As imagens no papel estimulam mais a imaginação do que nas telas. Exigem mais da criatividade e da atenção.

Recente estudo da American Academy of Pediatrics atesta a importância da leitura para crianças, inclusive para as que possuem alguns meses de vida. Mesmo os bebês, que não compreendem a história, terão mais estímulos ao ouvirem a voz dos pais e ao terem intimidade com o livro. Segundo a pesquisa, crianças com pouco mais de um ano, familiarizadas com essa prática, percebem, por exemplo, quando o livro está de cabeça para baixo.

Erram os pais que entregam o processo educativo dos filhos apenas às escolas. Elas complementam o que a família faz. Por melhor que seja, a escola nunca minimizará as carências provocadas por uma família ausente. É no centro das primeiras relações que a personalidade vai se formando, que as influências positivas ou negativas dão o tom do futuro. Não há desculpas para a ausência. Pais que trabalham o dia todo podem ter momentos preciosos com os filhos, lendo para eles antes de dormir. Podem usar finais de semana para conviver mais. Podem compensar a ausência de quantidade pela qualidade da presença.

Famílias ausentes trancam as janelas do futuro para os filhos. Tudo será mais difícil se não for estimulado na infância. As chaves poderão ser obtidas de outra forma, mas as ausências cobrarão seu preço.

Apresentemos às crianças o mundo mágico dos livros. Com os afetos da presença que máquina alguma substitui. No virar das páginas, no dizer das histórias, no olhar e sorrir, talentos vão nascendo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/7/2014

Ler a vida, ler o mundo, reescrever a esperança

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Em 2013 comemoramos 50 anos da marcante e simbólica experiência de Paulo Freire em Angicos, alfabetizando 300 pessoas em 40 dias, abrindo a oportunidade de o Brasil enfrentar, desde aquela época, os já 14 milhões de brasileiras e brasileiros analfabetos, números que, hoje, pasmem, (50 anos depois!) são praticamente os mesmos – isso, sem falarmos no número do analfabetismo funcional da leitura e da escrita, muito maior que isso, e que ainda assola o nosso país.

Como forma de contribuir para superar estes dados alarmantes da educação nacional é que se faz necessário a valorização da leitura em todos os seus significados e amplitudes. Registro aqui, para provocar nossa reflexão sobre o tema, três de suas variáveis: ler a vida, ler o mundo, reescrever a esperança. Ler é sempre um ato de conhecimento, de aprendizagem, de ensinamento, de crescimento pessoal e coletivo: a leitura nos inspira, alegra a nossa alma, resgata as nossas lembranças, provoca a nossa ira, causa-nos emoções, muda a nossa vida, acalma, aproxima-nos de outras pessoas e de outras culturas, fortalecendo-nos para a luta e para as transformações sociais que buscamos por meio da própria educação. Mas não basta apenas “ler”. Trata-se de ler, de tomar consciência da realidade lida e, com base nesse movimento, buscar transformar a realidade e a nós mesmos/as.

Como permanecemos em luta política contra a injustiça, seguimos também brigando por participação popular e social (Gadotti, 2013), bem como pelo direito ao acesso à leitura e à educação como direito fundamental. E arrisco-me a dizer que na atual conjuntura nacional e internacional, quem não souber ler e interpretar o que está se passando na atualidade, como processo e resultado de lutas políticas históricas, não será capaz de pronunciar a sua palavra grávida das mudanças necessárias para uma vida mais feliz para todas as pessoas. Nesse sentido, registro e reafirmo a necessidade de lermos a vida, o mundo e a esperança, reescrevendo-os sempre.

Ler a vida – trata-se de enxergar a vida que vivemos hoje, comparadas às condições que tínhamos anos atrás e de realizarmos agora os sonhos sonhados no passado, mas com coerência ética, estética, ideológica e política. E sempre praticarmos a “pedagogia da pergunta”: temos sido coerentes com os princípios e valores que defendemos outrora? Ou, ao contrário, desviamo-nos a tal ponto do nosso caminho que chegamos a negar, hoje, tudo o que defendemos ontem? Qual o sentido e o significado de estarmos hoje onde estamos? Como aproveitar as lições aprendidas no passado e como não perdermos a oportunidade de deixarmos as nossas “pegadas” na história, visando a um mundo mais justo e a uma vida mais plena e mais feliz para todas as pessoas, para todos os seres vivos e para todos os ecossistemas?

Como escreveu Paulo Freire, “não sou apenas objeto da História mas seu sujeito igualmente. No mundo da História, da cultura, da política, constato não apenas para me adaptar, mas para mudar”. (1997, pg. 85-85). Acrescente-se a isso a perspectiva da educação intertranscultural (Padilha 2007), que tem como ponto de partida as relações entre as pessoas e, destas, com todos os ecossistemas. Os conhecimentos da ciência, da arte e da política, por exemplo, compõem este cenário de aprendizagens complexas, transformadoras, com sentido e significado.

Ler o mundo – Ler e enxergar o mundo é mais do que olhar para ele na sua superfície: é estarmos permanente e estrategicamente atentos e atentas ao que se passa ao nosso lado e ao que está distante de nós, em profundidade. É superar nosso eventual daltonismo em relação às pessoas com quem convivemos e em relação à realidade que nos cerca e em todos os espaços sociais nos quais vivemos ou por onde passamos. Ler o mundo enquanto processo que envolve aprendizes e ensinantes de suas histórias recíprocas, ambos, vivendo e dividindo processos criadores.

Como também nos ensina Freire, “desde o começo, na prática democrática e crítica, a leitura do mundo e a leitura da palavra estão dinamicamente juntas. O comando da leitura e da escrita se dá a partir de palavras e de temas significativos à experiência comum dos alfabetizandos e não de palavras e de temas apenas ligados à experiência do educador”. (1997, pg. 29).

Trata-se de aprofundar o que já sabemos, conhecer, desvelar e interpretar diferentes dimensões da realidade – social, econômica, política, ética, estética, ambiental, sexual, cultural, etc. – e também do real – significando tudo o que existe dentro e fora da mente humana, o que inclui o que é concreto, o que é abstrato, o que é simbólico, o que é mitológico – descobrindo o que não sabemos e estando sensíveis e humildes para aprender, com o outro, que nós mesmos podemos mudar o rumo da nossa história pessoal quanto mais estivermos abertos às mudanças.

Vivemos no século 21, às vezes ainda impregnados de princípios e valores do século 19. Aí nos perguntamos: como podemos defender transformações se nos declaramos pessoas dialógicas e mudancistas, democráticas e sensíveis, mas se não formos capazes de mudar ou de estarmos abertos a novas concepções de vida, de educação, a novas visões de mundo e de natureza humana? Como influenciarmos mudanças se nos mantivermos nas nossas certezas, nos nossos preconceitos, na nossa pseudossabedoria e nas nossas inquestionáveis certezas? Quem já não ouviu alguém dizer “eu sou assim e não mudo”! Podemos observar: quanto mais certeza temos sobre algo, maior poderá ser o tamanho do nosso erro e, também, maior possivelmente será a nossa ignorância. Paulo Freire dizia, quando nos falava de seu pensamento complexo – sem se referir exatamente à complexidade, que não é impossível estarmos certos de alguma coisa. Impossível é estarmos absolutamente certos. (1997).

Reescrever a esperança – A esperança existe mas, diante de certos contextos e desafios, temos a impressão de que, ela própria, está em nós enfraquecida. Mas com determinação e com capacidade de ler a realidade, o real e de sonhar com um mundo melhor, é que novas esperanças se inscrevem em nossas vidas e no mundo em que vivemos. Renovados em nossas esperanças, com a força dos encontros e dos projetos dialógicos, democráticos e coletivos, percebemos que, aos poucos, retomamos a força para que outras educações e outros mundos também sejam reescritos. Segundo Paulo Freire, “Mais do que um ser no mundo, o ser humano se tornou uma Presença no mundo, com o mundo e com os outros. Presença que, reconhecendo a outra presença como um ‘não eu’ se reconhece como ‘si própria’. Presença que pensa a si mesma, que se sabe presença, que intervém, que transforma, que fala do que faz mas também do que sonha, que constata, compara, avalia, valora, decide, que rompe. E é no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade. A ética se torna inevitável e sua transgressão possível é um desvalor, jamais uma virtude”. (Freire, 1997, p. 20).

Ler a vida, ler o mundo e reescrever a esperança, significa tornar estas leituras presentes em todas as fases de nossas vidas, dentro e fora da escola em que vivemos, na qual estamos e atuamos como aprendentes e ensinantes. “A mudança do mundo implica a dialetização entre a denúncia da situação desumanizante e o anúncio de sua superação, no fundo, o nosso sonho”. (Idem, p. 88). Ler, interpretar e transformar o mundo são práticas de quem deseja construir, efetivamente, outros mundos e outras educações, possíveis, necessárias e urgentes. Com “paciência impaciente” e com “esperança sem espera”.

Fonte: Direcional Educador (Por Paulo Roberto Padilha)