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A consciência livre do poeta

Uma reflexão sobre o dia da Consciência Negra

Era um sonho dantesco”. Assim o poeta da liberdade e dos escravos, Castro Alves, descreve a infernal cena dos escravos acorrentados na enorme embarcação negreira. Da metáfora à crueldade de dias sombrios em nossa história. Homens, mulheres, jovens e crianças arrancadas de sua terra natal, feitos escravos, sem o direito de sequer sonhar. “Ontem a Serra Leoa,/ A guerra, a caça ao leão,/O sono dormido à toa/Sob as tendas d’amplidão! /Hoje… o porão negro, fundo,/Infecto, apertado, imundo,/ Tendo a peste por jaguar…”.  Muitos morriam pelo caminho, encarcerados num porão fétido, lúgubre e desumano, sem ar suficiente para respirar. Centenas de homens negros amontoados como bichos, castrados de sua dignidade que se esvaía pelo mar. A vida, ali, confundia-se com a morte. Homens vivos sem vida. Homens mortos sem dó. “Nem são livres p’ra morrer.”

No meio do doloroso inferno misturado ao vermelho sangue, algozes brancos e ferozes, desafiando a irmandade entre os homens, entre todos os homens, açoitavam – impiedosamente – os impotentes escravos. “ No entanto o capitão manda a manobra,/ ‘Vibrai rijo o chicote, marinheiros! /Fazei-os mais dançar!…”. Mulheres e homens negros debaixo de chibatadas, destinados à miséria humana de servirem de escravos classificados apenas pela cor de sua pele. Nascidos para sofrer, sem direito à escolha, sem direito ao amor, sem direito à liberdade. 

Como um pássaro que sobrevoa o mar, avistando o solitário navio, o eu-lírico parece aproximar-se da cena, como se não fosse possível acreditar no que ali acontecia: “Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras! /É canto funeral! … Que tétricas figuras! … /Que cena infame e vil…/ Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”. A indignação do poeta diante daquela atrocidade persiste muitos anos depois. O poema foi escrito há 146 anos.  Há poucos 51 anos, Martin Luther King, líder negro norte-americano, declarou em um discurso de paz e indignação diante das leis segregacionistas que negavam iguais direitos aos negros de seu país: “Eu tenho o sonho de ver um dia meus quatro filhos vivendo numa nação em que não sejam julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo seu caráter.” No final do século XX, outro grande líder negro, Nelson Mandela, proclamou-se, também, diante do preconceito injusto contra os negros africanos: “Ninguém nasce odiando outras pessoas pela cor da sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Questionava ele sobre o fato de os homens aprenderem a voar como pássaros e a nadar como peixes e não aprenderem a conviver como irmãos!

Indignemo-nos. Sempre. Os navios negreiros foram proibidos, a escravidão foi abolida e a consciência negra de Castro Alves fez história. E a de tantos outros líderes que dedicaram suas vidas à luta pela liberdade. Pelo direito de cada homem ser o que é. Com dignidade. Todos os homens são iguais. Um homem jamais foi superior ao outro. Não há, nem nunca houve, homens de primeira nem de segunda categoria. 

O sonho libérrimo desses homens permanece. O nosso também. Vivemos em uma sociedade que não pode suportar o preconceito em nenhuma situação. Que a celebração da data da Consciência Negra seja de reflexão, de união, de solidariedade.  De respeito aos nossos irmãos negros que ajudaram a construir a identidade desta nação. De pedir perdão às dores e aos horrores a eles causados. É um dia de esperança. A esperança de que, um dia, não precisemos mais de um dia dedicado à Consciência Negra. Que as tintas que pintaram quadros de crueldade humana componham, nestes tempos, um cenário de diversidade harmoniosa e cúmplice. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/11/2014

 

 

Lágrimas milagrosas

No final da semana passada e no início desta, proferi várias conferências na Região Nordeste e Norte de nosso país. Estive em Recife, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Macapá e Belém do Pará. Fiquei emocionado com o carinho dos professores e dos alunos. Aprendi muito. E ouvi muitas histórias. Quando estou com professores, alimento-me de vida, de vida generosa.

Depois da palestra em Juazeiro do Norte, fui visitar a estátua do Padre Cícero e a Igreja onde ele está enterrado. Lá conheci Cícero. Nascido em Palmeira dos Índios, Alagoas, Cícero vive, hoje, em Juazeiro. E gosta das rezas, disse-me ele, sorrindo. E gosta de velório. Não perde um. Acha que deveria haver uma lei que obrigasse as pessoas a ir a velórios. Contou-me que é “sentinela de velório”, eu não sabia o que isso significava. Cantou-me algumas músicas populares, tristes. Uma para cada ocasião. Quando morre o pai, é um tipo de música; quando morre a mãe, é outro. “Quando morre o filho, é dor doída demais”, confidenciou-me Cícero. Disse-me que seus irmãos não gostam dele. Que o acham atormentado. Mas que ele não se importa. Que é feliz assim. Cantando. Rezando. Chorando. Lembrou-me Morte e Vida Severina, de João Cabral. A singeleza das ladainhas e a riqueza da crença popular. 

Contou-me ainda que chorava sempre, pois todo velório é triste. Mas revelou: “o velório mais triste da minha vida foi o que eu não fui: o de minha mãe”. Seus irmãos não o avisaram. E, até hoje, ele sente essa dor. Sua mãe foi o que de melhor ele teve na vida. E se tivesse oportunidade de chorar, de chorar lágrimas milagrosas, ele choraria sem parar para trazê-la de volta. Deu-me um abraço forte e chorou.

A missa começou e eu fiquei olhando seus gestos de  fé. E de outros que ali estavam trazendo suas dores, suas lágrimas e seus sonhos. Eu também rezei e pedi a Deus o dom da simplicidade. Em um mundo tão cheio de irracionalidades, é bom conhecer alguns Cíceros e aprender com eles. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/11/2014

Lançamento do livro “Cozinhando com poesia”

No dia 28 de novembro, na livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis, Gabriel Chalita e a chef Eliane Carvalho lançarão o livro “Cozinhando com Poesia”, editado pela Companhia Editora Nacional. Poemas e reflexões escritas por Chalita dialogam com quarenta e nove receitas de carnes, peixes, entradas e sobremesas, elaboradas por Eliane Carvalho e inspiradas na culinária francesa.

Noite de autógrafo com Gabriel Chalita e Eliane Carvalho

“Cozinhando com poesia”

28 de novembro, das 18h30 às 21h30

Livraria da Vila – Shopping Pátio Higienópolis (piso Pacaembu)

Av. Higienópolis, 618 

 

Macapá e Belém recebem Gabriel Chalita

Gabriel Chalita ministra palestras para professores e estudantes na região norte do país. Acadêmicos de Macapá e de Belém participam desses encontros em que a educação e o crescimento integral dos alunos são basilares.

Segundo Chalita, “educar é fazer do conhecimento um aliado para o desenvolvimento pessoal e profissional.” Além de refletir sobre questões inerentes às regiões visitadas, Chalita aborda aspectos fundamentais para o crescimento crítico do indivíduo, dentro de princípios sociais, éticos, solidários e justos. 

Fonte: assessoria de imprensa