03Novembro |
|
|||||||||||
27Outubro |
|
|||||||||||

Não sei bem a raça do cachorro que vi passeando com sua dona. Não sei se tem pedigree. Não sei nada da vida de ambos – a mulher e o cachorro.
Eu estava correndo, quando vi a alegria daquele pequeno cachorro com três patas. Ele saltitava chamando sua dona para continuar a caminhada. Latia. Reclamava, talvez. Tinha pressa de viver. Tinha vontade de sentir outros cheiros, de encontrar outros companheiros que, por aquela via, também passeavam.
O dia estava bonito. Os dias são bonitos quando estamos bem. Pessoas corriam. Outras caminhavam. Algumas conversavam. Outras ouviam alguma canção. Canções nos remetem a tempos e a pessoas. Histórias que, algum dia, vivemos ou gostaríamos de tê-las vivido. Os pensamentos também correm.
Continuei observando o cachorro, enquanto diminuía o meu ritmo. Encontrou um outro, um pouco maior. Era fêmea. Ele, macho. Menores possibilidades de disputas, de brigas. Cheiraram-se. Ameaçaram pular um no outro. Brincaram e se despediram, forçosamente, já que os seus donos continuavam a caminhar. Entre os cachorros, nenhum comentário sobre a ausência de uma das patas. A cadela pareceu nem ter reparado. Depois, ainda vi o encontro entre ele e um filhote. Risco menor ainda de alguma contenda. Os cachorros maiores respeitam os filhotes. Há uma lei que não precisou ser escrita e a que todos eles obedecem. Não podem brigar. Podem e devem brincar. Rolaram-se no chão. Abraçaram-se à sua maneira. Lambidas e partida. E nada de perguntas sobre a ausência da pata.
A dona comprou uma água de coco. Dividiu com o seu cachorro que não cabia em si de tanta gratidão. Olhavam-se com cumplicidade. Sabiam quanto eram importantes um ao outro.
O que vi termina aí.
O que imaginei foi além.
O cachorro sofreu um acidente? Teve alguma doença? Teve a pata amputada? Nasceu sem uma pata? O que importa? Alguém resolveu cuidar do bichinho. Dar a ele o direito de viver com as patas de que ele dispunha. Passear com ele. Permitir que ele pudesse fazer companhia. Brincar de viver. De viver sem os pesos e sem as responsabilidades das comparações. Quem tem cachorro sabe do que estou falando. É bom chegar em casa e ser recebido com festa. É bom sentir-se importante quando, por exemplo, arrumamos a mala e eles nos olham com olhares que podem significar – “De novo? vai viajar novamente? E eu?”.
Não se importam se erramos ou acertamos. Se nossos “pés de galinha” já chegaram para ficar, se engordamos um pouco ou se emagrecemos, se o que esperávamos não vai chegar. Não importa se o dia está mais nublado ou se há sol em abundância. Percebem eles nossas tristezas. Certamente. Se, por um lado, eles não se preocupam com as aparências, preocupam-se com os nossos sentimentos. Uma pata a mais ou a menos não merece tanta observação. Uma lágrima que cai merece uma brincadeira surpreendente, um deitar-se pedinte. As carícias que dispensamos a eles nos abastecem de companheirismos.
Alguns criticam que há pessoas que cuidam melhor dos cachorros que dos humanos. Eu discordo. Cada um tem o seu espaço. E, se somos capazes de desenvolver nossa sensibilidade com os animais, faremos o mesmo com maior facilidade com os humanos. O inverso também é verdadeiro. Quem agride um tem maior chance de agredir o outro.
Terminei a corrida. Fiquei com a imagem daquele cãozinho. E de sua alegria. E dos outros que o encontraram e o festejaram do jeito que ele é. E da sua dona. A mulher que com ele dividiu sua água. Ela tinha os pés e as mãos. Mas, certamente, como todos nós, também tinha suas ausências.
Era definitivamente um dia bonito.
Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 30/10/2016

Muitas cidades no Brasil voltam às urnas no domingo. Como no primeiro turno, há pouca movimentação. E mais uma vez as abstenções, os votos nulos e brancos podem ser os vitoriosos. O que leva alguém a não votar ou a anular o voto ou a votar em branco? Um protesto? Um silencioso protesto? As cidades assistiram a debates entre os candidatos. Acusações têm sido mais fortes do que propostas. O eleitor olha, não se sente representado e fica em silêncio. Qual a razão dessa apatia? O excesso de partidos, a falta de debates democráticos entre eles, a ausência de causas, de bandeiras, de sonhos?
O que é a política, afinal? A palavra vem de “polis”, cidade. Do cuidar da cidade, do melhorar a cidade, do fazer com que a cidade seja cada vez mais do cidadão. De todos os cidadãos. O que me leva a votar neste candidato ou naquele ou a não votar? Terá a mídia alguma responsabilidade nessa apatia? Dificilmente boas práticas das gestões públicas são divulgadas. Práticas que, independentemente de quem as executa, poderiam ser replicadas em outros cantos. Não que não se deva criticar as ações dos que ingressam na área pública. Mas e o outro lado? E os que trabalham com a consciência de que ocupam cargos para melhorar as cidades e os cidadãos? Criminalizar a todos, diminuir a todos, contribui para quê? Serão todos os políticos frutos de uma mesma árvore de oportunismos e desonestidades? A generalização é um caminho para a injustiça. E para o silêncio. Há muitos com muitos talentos que contemplam o cenário e decidem: não quero fazer parte desse espetáculo. Não quero colocar em risco a minha vida, a minha reputação por algum fabricador de dossiês. E há outros que tendo participado decidem sair. Querem a liberdade de caminhar por outros caminhos. De conviver menos com as injustiças e as hipocrisias. E a política perde com isso.
Há o bom silêncio, o que leva à tomada consciente de decisão. Depois, é preciso agir. Ou isso ou a política será ainda pior amanhã.

Era final de um almoço e ela pediu um doce. Disse, justificando: “Doce é bom. Ajuda na digestão”. Eu discordei dando algum espaço para alguma explicação. “Doce ajuda na digestão? Imagine! Pelo contrário. Doce acumula gordura. Doce tem calorias. Doce engorda. Bem, a não ser que tenham descoberto alguma nova teoria. Descobriram?”. Perguntei e um filme passou pela minha cabeça de tantas teorias surgidas e desaparecidas que criaram mitos na alimentação. O ovo, por exemplo, já foi vilão antes de ser o queridinho dos que querem um corpo escultural. A manteiga e a margarina. As misturas proibidas e depois liberadas de alguns alimentos. Ah, lembrei até do leite com manga. Alguns se contorciam de medo das reações quando viam um desavisado tomar suco de leite com manga. E os regimes inusitados. O da Lua. O do limão.
“Teoria?” – ela perguntou, interrompendo minha viagem, mas também viajando. Olhando ao longe. Não era, na verdade, uma pergunta de alguém que buscava uma resposta. Era uma tentativa de revelação. “Queria entender alguma teoria que me explicasse as escolhas erradas que eu fiz na vida”. E foi assim que, antes do doce, ela revelou o seu amargor.
O marido não tinha escrúpulos em humilhá-la. O tempo cobrou o seu preço. Ela já não era a menina que o conhecera em um jogo de tênis. Não sei sua idade. Ela não revela e não acho necessário perguntar. Pois bem, entre pausas e soluços, ela disse do medo da solidão, do medo de buscar outra vida, sem as humilhações, do medo, inclusive, de não saber o que fazer sem elas. “Os meus seios não são os mesmos de quando nos conhecemos”.
Contou-me dos 3 filhos. Falou que agora cada um vivia as suas escolhas. Estavam apenas os dois em casa. Ela e o marido. Ela e o marido e os monstros das comparações. Diz o marido que não tem desejo por ela. Que seu corpo perdeu todos os atrativos. Enquanto fala, arruma o cabelo e se olha no espelho que esta atrás da poltrona em que estou sentado. Eu digo que a acho uma mulher muito bonita. Ela não dá ouvidos e prossegue. “Ele faz piadas com os amigos sobre mim. Diz coisas que me depreciam. E eu rio. Rio de tristeza. Rio de medo. Rio de vergonha”.
“E os filhos?”, pergunto. Ela explica que não sabem, que não têm tempo para observar, que estão distantes. Ela fica distante. “Ele já me bateu. Ninguém sabe. Foram poucas vezes. Mas ele me bateu”.
Ficamos em silêncio.
Entro no assunto da atitude covarde e criminosa. Das delegacias em que mulheres podem contar o seu martírio. Ela me interrompe e diz que decidiu nada fazer porque não deveria ter sido feito e que ela tinha as suas razões. Olha, novamente, no espelho. Passa o dedo pelos olhos, buscando as rugas. Volta a mexer no cabelo. “Há muito tempo que sou infeliz. Não acredito, aliás, em felicidade”. Tento discordar, mas ela me lembra que sou jovem demais para compreender. “Eu já fui apaixonada por ele. Já senti muito prazer. Já sonhei com uma velhice terna”. Mais uma vez no espelho. Agora estica um pouco a pele. “Não tem volta. Se tivesse volta, eu teria sido mais cuidadosa. Eu deveria ter impedido que ele começasse a me destratar. Agora é tarde”.
Eu fico um pouco mais enfático para não ser interrompido como nas outras tentativas e insisto que nunca é tarde para escolher outro caminho, para deixar quem merece ser deixado, para dizer a si mesmo que a vida é curta para ser desperdiçada. Ela ri da minha ênfase e diz que gostaria de ser novamente jovem. Eu digo que as pessoas vivem mais.
“Ontem, ele me disse, com aspereza, que eu o incomodava com minhas histórias intermináveis”.
Ela me diz que realmente tinha lindos seios. E eu digo que os seus seios agora têm muito mais histórias dos que os seios de antigamente. Ela os toca com algum carinho. E ri. Eu digo que espero ainda ter o prazer de comemorar sua alforria.
“Alforria?”
Chegou o doce. Ela olhou aquele doce com tanto prazer, com tanta necessidade, que me arrependi de minhas teorias nutricionais.
“Como é bom um doce para digerir”.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/10/2016

A rede informacional vem mudando nossas formas de relacionamento. As românticas cartas deram lugar aos e-mails que deram lugar às mensagens em facebook, twitter, instagram, entre outros. Os pagamentos feitos em agências bancárias deram lugar à agilidade de transferências online. As pesquisas nas velhas enciclopédias foram perdendo espaços para o google. E outros tantos caminhos poderiam ser visitados. Na medicina. Nos laboratórios e na fabricação de remédios ou carros. Nas planilhas de custos. Nos projetos. Nas escrituras de livros ou de quaisquer outras informações. Na comunicação com o outro – facetime, whatsapp, messenger – e na relação com o conhecimento.
Mas essas conquistas trazem problemas. E muitos. Há um deles que vem chamando a atenção de pesquisadores do comportamento humano. O ódio na rede. O ódio na internet. Sempre ouve atiradores de pedras. Alguns se revestindo de poder religioso, outros na clandestinidade de algum grupo radical, outros no criminalidade pura de um nada puro jeito de se dar bem na vida. As pedras na internet, ou o ódio, são facilmente observáveis. Em uma notícia em um site qualquer sobre qualquer assunto, geralmente há, nos comentários dos que o visitaram, mais ódio do que generosidade. Nas discordâncias ideológicas em redes sociais, há agressões inimagináveis. Muitas anônimas. Covardemente anônimas. O ódio ao que ou a quem nem se conhece. Bauman, o sociólogo polônes, chama a isso de “ativismo de sofá”, pessoas fechadas em suas zonas de conforto que usam a rede não para unir nem para ampliar seus horizontes, mas para buscar ecos de suas vozes, reflexos de seus pensamentos: “As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha”.
Tempos perdidos de quem passa tempos a expelir o seu pior. Há tratamento? Sem querer respostas apressadas, uma mera sugestão. Saia do mundo virtual, entre no mundo real e ajude alguém. A generosidade tem o poder de transformar humores e comportamentos.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/10/2016

Um amigo meu, Carmo, contou-me esta história. Carmo não é seu primeiro nome, nem o último. É o nome do meio. “No meio do caminho havia uma pedra”, explicava Drummond. No meio de tanta gente, havia um professor. Sempre há um professor. Este, o professor do Carmo, gostava de poemas, gostava de Drummond. Certa feita, explicava o professor, ele mandou alguns de seus rabiscos para o poeta maior. Enviou em folhas brancas preenchidas com sua letra. Nada de máquinas de escrever ou de computador. O poeta merecia ler os seus textos inéditos. Evidentemente, ele os copiou. Guardaria no caso de uma publicação. Era um professor do interior. E, do seu interior, nasciam letras e palavras e frases. Pois bem, revela o meu amigo que o dito professor gostava de contar sua história com Drummond. Explicava ele com detalhes que demorou muito a se decidir se enviava ou não a tal carta com os tais poemas. Conseguiu o endereço do poeta. Investigou para saber se ele mesmo costumava ler as cartas que recebia. Quis saber de alguém se alguém já havia recebido alguma resposta. As informações eram vagas, mas ele decidiu prosseguir. E mandou. Lá se foram os dias de comedimento e a inauguração da ousadia. O maior poeta vivo haveria de ler, enfim, os seus poemas. Ficaria ele surpreso? Ficou relendo o que Carlos Drummond escrevera quando pela primeira vez leu o texto de Cora Coralina:
“Cora Coralina.
Não tenho o seu endereço, lanço estas palavras ao vento, na esperança de que ele as deposite em suas mãos. Admiro e amo você como alguém que vive em estado de graça com a poesia. Seu livro é um encanto, seu verso é água corrente, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais. Ah, você me dá saudades de Minas, tão irmã do teu Goiás! Dá alegria na gente saber que existe bem no coração do Brasil um ser chamado Cora Coralina. Todo o carinho, toda a admiração do seu. Carlos Drummond de Andrade”
O professor contou que a resposta do poeta veio. E veio delicada. Não quis revelar os entremeios do que disse. Apenas falou do início e do final. O início começava com “Estimado professor” e, a seguir, elogios à nobre profissão de quem semeia amanhãs. E, ao final, encerrava, antes da assinatura, com um carinhoso “abraços saudosos”. “Abraços saudosos”, repetia o professor.Insistia que era muita honra essa distinção. “Abraças saudosos” significaria, escreva-me mais, continue com sua obra poética, não me esqueça. O professor dizia e se emocionava.
Os alunos nem sempre são inocentes. O professor poeta já não gozava de boa memória. E não se sabe o tempo que a tal missiva de Drummond o havia emocionado. Quando o professor entrava na sala de aula, algum aluno o interpelava perguntando: “Professor, é verdade que o próprio Drummond lhe escreveu uma carta?”. O professor enchia-se de orgulho e com modéstia iniciava: “Eu não contei para vocês? Não conto para não me gabar, mas foi verdade, sim. E sabe como ele terminou a carta? Abraços saudosos, abraços saudosos” E lá iam detalhes e mais detalhes da dúvida em enviar, do envio e do recebimento da carta do poeta.
Quando os alunos inquiriam sobre novas cartas ou sobre a publicação dos poemas, o professor olhava ao longe, dava uma pausa, e prosseguia o ofício. Carmo não gostava do que os alunos faziam. Tinha vontade de dizer ao professor que ele contava a mesma história toda a aula. Mas vivia em dúvida. Era tanta felicidade daquele velho mestre em contar o seu dia de glória, ao abrir a tal carta, que, talvez, não tivesse ele o direito de endireitar as coisas. À esquerda daquele peito, um coração batia feliz, por um tempo que talvez tivesse existido. Algumas vezes, ele terminava a aula com um poema seu. Eram bons, revela Carmo. Outras, dizia algo de Cora Coralina ou do seu amigo Drummond. E se emocionava como só acontece a um poeta.
Cartas são objetos não tão comuns. Professores prosseguem com seus saberes e com suas ausências. São humanos, afinal.
Ontem, foi dia do professor. Histórias como estas preenchem cada canto deste país. Mulheres e homens se desnudam para cobrir de futuro os alunos. Aos meus irmão de ofício, o meu respeito, o meu carinho.
Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 16/10/2016

O que leva alguém a abraçar a carreira de professor? O que leva uma pessoa a se decidir por um ofício que exige disposição cotidiana para ensinar, envolver, surpreender, confirmar que o futuro existe?
Hoje, é dia do professor.
Hoje e todo dia. Porque todo dia, no “chão da escola”, há uma troca de experiências que instiga os alunos a perceberem que podem mais. Há desafios de envolver as famílias para que estejam presentes, de trabalhar currículos para que sejam significativos, de compreender heterogeneidades. Os alunos são únicos. As turmas não se repetem. Portanto, a formação continuada do professor é fundamental para o seu ressignificar. Nós nos reinventamos para surpreender. Aos nossos alunos e a nós mesmos.
É preciso gostar do que se faz. E de fazer coletivamente. Evidentemente, não se deve ter a ingenuidade de achar que basta o amor pelo ofício. É preciso pensar no sistema, na carreira. A carreira, aliás, está longe de ser atrativa no aspecto financeiro.
No passado, quando poucos tinham acesso à escola pública, um professor ganhava como um juiz de direito. Hoje, vejam quanto ganha um juiz, um promotor de justiça e um professor. Por que tanta diferença? O piso do magistério foi uma conquista, mas está longe do ideal.
Além do salário, falemos de respeito. Vejam quantas reformas já foram propostas em âmbito federal, estadual e municipal. Em muitas delas, esqueceu-se de “sua excelência, o professor”. Como podemos reformar o ensino sem envolver quem está nas escolas todos os dias? De forma vertical, de cima para baixo, nunca dará certo.
Costumamos usar exemplos internacionais mesmo sem conhecê-los com profundidade. Mas o fato é que Finlândia ou Espanha, Coréia ou Japão, Hong Kong ou Israel têm em comum o profundo respeito ao professor. E à sua autonomia. É o seu agir que desperta a criatividade e o protagonismo dos alunos.
O melhor presente para os professores no dia do professor é jamais deixá-lo de lado. A bandeira da educação tem que tremular acima de bandeiras ideológicas ou partidárias. As mudanças educacionais não podem servir a governos, mas ao Estado Brasileiro. A educação é o caminho para reduzir as desigualdades e permitir que filhos de ricos ou pobres, nascidos no Sul ou no Nordeste, imigrantes ou indígenas, brancos ou negros, tenham direito a revelar seus talentos. Os maestros sabem disso. Só que, às vezes, não são ouvidos.
O que leva, então, alguém a abraçar a carreira de professor? Talvez a teimosia, ou resistência, ou um sonho coletivo de continuar professando a crença na humanidade.
Por: Gabriel Chalita (fonte: O Imparcial – Araraquara) | Data: 15/10/2016

Desde criança, frequento a Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Um Santuário da Fé. Vou até lá para rezar, para visitar a casa da mãe, para dizer os meus agradecimentos e pedidos. Aparecida é bem próxima a Cachoeira Paulista, a cidade em que nasci. Fica no vale do Paraíba. Abençoado vale que repousa entre as serras do mar e da mantiqueira. Tenho saudade daquele chão. E de tantas pessoas boas que ali alimentaram minha fé.
Estou longe, mas perto. Nas lembranças e na presença, quando posso. Vou em família, muitas vezes. Minha mãe se emociona sempre. Meu pai que gostava tanto de ir, hoje, já não está mais por aqui. A Igreja é acolhedora. Pessoas chegam por todos os lados. Ônibus lotados, carros e até mesmo a pé. Peregrinos que caminham dias e dias por um milagre. Outros em agradecimento à graça alcançada. Chegam em busca de conforto, de abrigo, de colo sagrado. E é bonito de se ver os fiéis desfilando suas dores e seus sonhos.Fico observando a simplicidade das pessoas. Os olhos suplicantes. Os joelhos no chão. As canções que saem da alma.Uma mãe pedindo pela cura do filho. Um filho pedindo pela cura da mãe. Uma mulher dizendo que vai se submeter a uma cirurgia e lembrando que tem filhos para ver crescer. Um pai prometendo uma vela gigante se o filho for curado do câncer.
Crianças ali são batizadas. Casamentos são celebrados. É o Brasil e o mundo que para e olha para a Padroeira. A imagem encontrada por pescadores. A santa que compreende os pecadores. A mãe de Jesus com o título de Aparecida. É uma só. A de Nazaré, a Piedade, a de Fátima, a de Lourdes, a da Glória e tantas outras. A mesma. Que aparece e diz: “Estou aqui para te ajudar”. Só a simplicidade nos empresta olhos de ver. Olhos de ver. Vez ou outra, revisito esses espaços e esses tempos. Servem de alimento. Para prosseguir. Para compreender que é no ordinário, não no extraordinário, da vida que se é feliz. Aparecida, a fé que comove.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/10/2016
Precisamos de mais histórias de gente correta que nos inspirem a prosseguir.
“Vez em quando, é bom parar e relembrar a vida de homens que nos iluminam em meio às escuridões que nos frequentam.”
Estas palavras, reproduzidas em uma das crônicas que compõem este livro, representam a vontade e o propósito de Gabriel Chalita com a publicação de Aos mestres, com carinho. Publicados no jornal Diário de São Paulo, os textos são uma coleção de impressões e observações registradas por Chalita em seu cotidiano. Por intermédio de seu olhar, enxergamos a essência das pessoas em seu estado mais puro. E é justamente por meio dessa perspectiva que percebemos quão inspiradoras podem ser a verdade e a generosidade do ser humano.
A riqueza do cotidiano faz extraordinário o que é ordinário. Um olhar, um dizer, um acolher, um doer de paixão. Escolhas que fazemos e agradecemos, escolhas que fazemos e lamentamos. Acertos e erros. É de vida que trata esse livro. De vida humana. De aprendizagens que nos transformam em pessoas melhores. A poética dos encontros, os ensinamentos que brotam por toda a parte, a vida toda. Triste é não ter a humildade necessária para se surpreender com quem surge na nossa frente. São muitos e são únicos.
