A nova vida de Alice

Alice é uma mulher feita, dois filhos, faculdade concluída, emprego e sorriso no rosto. Encontrei Alice após uma palestra que ministrei sobre “Direitos humanos – infância e juventude”. E ela me contou a sua história.

Alice viveu na antiga FEBEM. Foi presa por tráfico. Chegou grávida e sem muita esperança. A mãe mandou avisar que jamais a perdoaria. Alice ficou internada em uma unidade criada especialmente para mulheres grávidas, com berçário e tudo. Ali, resolveu estudar e participou de um projeto que coordenei quando era secretário, que dava emprego e bolsa de estudos para jovens egressos da FEBEM.

Demorou um tempo para reconquistar a mãe. Contou-me de sua emoção quando a viu em sua formatura. O pai da criança, o que fazia com que ela levasse droga, acabou assassinado. Mas Alice casou-se com um rapaz que conheceu na faculdade. Tiveram um filho. E ele cuida do primeiro filho de Alice como se fosse seu. Os dois trabalham. E os dois sabem a importância do exemplo para formar filhos saudáveis, equilibrados.

Cada vez que vejo uma história de superação, fico mais convicto de que precisamos cuidar de verdade das crianças e adolescentes. Prevenir é mais fácil e mais barato do que remediar. Daí a importância de investir em uma educação de qualidade que, como diz o artigo 205 da CF, forme a pessoa, o cidadão e prepare para o mercado de trabalho. Mas, nas vidas errantes, precisamos dar uma segunda chance. E essa segunda chance depende da perspectiva que oferecemos a esses jovens. Se, ao sair da Fundação Casa, o adolescente não tiver nenhuma oportunidade, as chances de ele voltar à rota da criminalidade serão muito maiores.

Esse é um tema que diz respeito a toda sociedade. Precisamos de caminhos mais eficazes para o mal que assola nossa sociedade – violência não se combate com violência, mas com inteligência. No país das maravilhas, Alice dizia, “a única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível”. Que a nova vida de Alice seja um exemplo a tantos outros que, por alguma razão, caíram, mas gostariam de se levantar.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 20/9/2013

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