Comi a saudade

Nenhum dos meus amigos viveu a guerra. Eu vivi. Era um menino pobre de um país pobre de tanta dor. Minha terra chorava dia e noite. Mães atormentadas por sirenes com medo de mais um enterro. Os enterros se sucediam. As lágrimas desciam montanhas abaixo, sonhando germinar um novo tempo. Eu era um menino que ganhava algumas moedas vendendo doces ou limpando cabelo em uma barbearia. Moedas que não eram suficientes para comprar o sanduíche de que eu mais gostava. Minha mãe e meus quatro irmãos estavam na mesma situação. Nas calçadas da penúria, no caminhar em busca de paz. 

Calçada era onde me sentava do outro lado da rua para ver os que tinham dinheiro comprarem e comerem o sanduíche de Falafel. Um vazio me abria naquele corpo tão menino. Reclamar? Como? Minha mãe era muitas para lidar com a sobrevivência de tantos. 

Em uma viagem de saudades e acenos, viemos para o Brasil. 

Os inícios, por aqui, também foram duros. De pedra em pedra, fui construindo minha história. Sem nunca abandonar as minhas raízes. Fiz família. Mulher e filhas que preenchem os meus mais lindos instantes. 

E, um dia, voltei ao Líbano e à rua do sanduíche de Falafel e ao tempo que, dentro de mim, trazia lembranças. 

Era outro o vendedor, era outra a paisagem. O sol queimava o dia e eu aquecia o meu coração comprando cinco sanduíches de Falafel. Sem muita explicação, quis sentar na calçada e comer um a um. Eu estava comendo a saudade. Eu estava comendo a gratidão de ter sobrevivido, de ter viajado, de ter plantado em terras de paz. As lágrimas iam despencando, não de medo das sirenes ou das mortes de quem perdíamos. Eram lágrimas da emoção do curso da vida. Das tantas dores passageiras. Das cicatrizes com as quais aprendemos a conviver. 

Conto aos meus amigos que me ouvem com poesia. As privações podem nos empoeirar de tantas maneiras. E podem nos impedir de prosseguir. Não foi o que aconteceu comigo. O que tenho de mais precioso não é o dinheiro para comprar os cinco sanduíches. O que tenho de mais precioso são os sentimentos que foram regados por tantas pessoas que fui aprendendo a amar. 

E, se pensam que conhecem da grande felicidade, esperem o nascimento dos netos. Meus netos são como milagres que brotaram de um Cedro do Líbano que teve a grandeza de nunca desistir de acreditar. 

Quando os abraço, relembro o menino que fui e agradeço a Deus por ter chegado até aqui. 

Publicado dia 05  de janeiro, no jornal O Dia 

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