A longa travessia

Será que alguém vai me ajudar? Nessas épocas, é gente demais atravessando. E o tempo é curto. Quando se vê, já fechou. E é preciso esperar. Esperar para que se abra novamente. 

Não faz muito tempo e eu conseguia atravessar sozinha. Ou acompanhada de quem sabia quem eu era. Os meus já se foram. E eu sobrevivi. Hoje, tenho pouca gente. Algumas velhas amigas que, também viúvas, vivem de aguardar. 

Há muitas coisas que já não mais faço. Meu andar é lento. É por isso que redobro os meus cuidados. Uma queda pode levar algum prazer que ainda ficou. Prazeres foram indo um a um. 

Um dia, acordei velha. Assim mesmo. Sempre fui vaidosa. Não sou dessas que admitem que o tempo decida a cor do cabelo. Sempre saí arrumada. Aprendi com minha mãe que aprendeu com a mãe dela. Pequenos apetrechos que destacam o que temos de melhor. Um brinco delicado, um colar que combine com o dia, uma maquiagem que não carregue, mas que alivie as horas. 

Um dia, percebi que os anos que em mim se acumulavam eram mais fortes do que qualquer batom ou pó ou base, ou seja lá o que eu usasse. As rugas que alguns dizem que nos enfeitam de sabedoria começaram a me incomodar. E não tem volta. É assim que é. Não é uma ferida que cicatriza, são os anos que vão se acumulando em saliências no meu próprio corpo. 

Olho as antigas fotografias e me pergunto por que tudo passou. Por que a travessia é longa e tão curta. A linda menina já se foi. Os elogios vão encontrando outras palavras. Deixei de ser bela para ser agradável ou simpática ou inteligente ou boa conselheira. Os olhos já não me olhavam como antes. 
Desejos foram se rarefazendo. E eu não compreendi. E confesso que desconfio de quem diz que compreende. 

É triste não se sentir desejada. Desde que enviuvei, não conheci outro calor. Até tentei. Mas, quando gostei, não gostaram; quando gostaram, não gostei. Por que é assim? Por que é tão difícil encaixar? 

Encaixotei as esperanças de viver uma outra história e resolvi sorver os afetos com amigas que, como eu, continuavam a travessia. E, agora, olho para esses movimentos todos. Há uma avenida a ser atravessada. E há tantos e não há ninguém capaz de perceber que eu preciso. 

Tenho um certo incômodo com as palavras. Elas sobram dentro de mim e se ausentam quando preciso dizer. Como é difícil gritar que preciso de ajuda, que preciso de amor, que preciso de que alguém me veja. Não. Eles não me veem. Estão pensando neles mesmos. Como vão me ver? Como vão perceber que preciso de alguém para essa travessia? Alguém que tenha a gentileza de pegar a minha mão e me fazer sentir amada. Nem que seja por esses poucos minutos que moram nessa longa travessia. Os barulhos estão aí para dificultar a compreensão. Com os barulhos, é mais difícil de se ver. 

Saudade dos silêncios acompanhados. Ah, o que é uma vida sem amor? O que é um prêmio sem um abraço do amado? O que é um dormir sem um desejar boa noite? O que é um acordar sem esperar alguém que diga que o dia vai ser lindo? Sempre gostei de cuidar e de me sentir cuidada. Meu marido não era um homem fácil. Mas quem é? As manias vão nos dificultando o conviver. As exigências vão nos afastando de quem pode nos amar. Desperdício é cultivar o que nos separa. Sempre há algo que nos diz que há razões para permanecer. Como foi difícil reaprender a dormir sem ele. Gostava quando ele me procurava. Quentura boa. Dias que se foram. 

Tenho medo de ser atropelada nesses dias que me restam. É por isso que fico parada. Sem ação. Sem coragem de dizer o que preciso. Não que não tenha alguma esperança. 

De repente surge uma música no barulho do dia. De repente, surge uma dança e, mesmo vagarosamente, eu me permito. Queria terminar os meus dias dançando. Ah, preciso confessar que o meu sonho de bailarina nunca foi realizado. Mas ainda estou viva. Quem sabe? 

Os olhos ainda não me faltam. Vejo bem. E parece que, do outro lado, vem alguém sorrindo pra mim. 

Apesar do barulho, o dia está lindo. Apesar do barulho, eu ainda ouço quem sou. 

Publicado dia 15 de dezembro, no jornal O Dia (RJ). 

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