Amor aos livros

Dois episódios ligados aos livros e à leitura me impressionaram recentemente. O primeiro se deu numa bela tarde de sábado, quando eu procurava um salão de beleza perto do apartamento para onde me mudei. Dizem que um gambá cheira o outro; acredito nisso. Entrei numa portinha e fui recebida por um rapaz que, enquanto marcava para mim a manicure, se apresentou como cabeleireiro do lugar e, em poucas palavras, revelou toda a paixão que sente pelos livros.

“Não só adoro ler como me dedico a ensinar meus filhos a gostar de ler. Meu projeto é montar uma biblioteca comunitária perto de casa, para expandir isso para o maior número possível de jovens do bairro”, discursou João, com o sorriso da esperança nos lábios.

Poucos dias depois, conversando com a empregada da casa da minha mãe, quando lhe disse que iria ler um pouco antes de dormir, Meire me saiu com esta: “Eu também não consigo dormir sem ler”. “Ah, é, você gosta de ler?”, indaguei meio surpresa. Ela confirmou que lê muito, sempre. Que estava gostando lá de casa porque havia muitos livros para escolher, enumerou os que já tinha devorado. Contou que trabalhou para uma família que possuía uma estante com vários títulos, mas cujo filho lera apenas uns três. Era ela quem aproveitava.

A não ser pelo preconceito, os dois eventos não deveriam surpreender. Afinal, ocupar função considerada subalterna, como empregada doméstica, não deveria ser indício de pouca cultura ou falta de hábito de leitura. São fortes tais estereótipos preconceituosos: de que falta de educação ou de cultura é coisa de pobre. Entre os tantos a serem combatidos, esse é um.

Independentemente disso, enche de alegria o coração de uma amiga dos livros descobrir pares aonde quer que vá. Sinal de que, por mais que a educação ande em crise, que professores não saibam como ensinar a gostar de ler (muitas vezes porque também não gostam muito), nem tudo está perdido.

A importância da leitura não está somente no aspecto do estudo, mas da formação global dos seres humanos. Para escrever, se expressar, entender o mundo, ser cidadão, crescer como gente e como país, precisamos da leitura. Como diz o Ziraldo, um dos grandes fomentadores do amor aos livros, ler é melhor que estudar. Vem antes e ensina mais.

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