Metade de abril já se passou e o ano letivo ainda não começou em vários estados, inclusive no Rio de Janeiro, para milhares de crianças matriculadas na rede pública de ensino. Os números são impressionantes: em Pernambuco, cem mil estudantes de 7 a 14 anos estão sem aulas; no Rio, são 20 mil; em Alagoas, 50 mil, sendo que outros 120 mil vão concluir o ensino médio sem ter aprendido matemática, física, química e biologia. Ou seja, matérias da área técnica, absolutamente fundamentais em nossa era de acelerado desenvolvimento científico e tecnológico.
Parte da explicação para essa situação absurda é simples: faltam professores. O déficit no Rio, por exemplo, chega a 26 mil. Não é de admirar: de acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), a média dos salários dos professores no país está entre R$500 e R$700. Por isso, um Ciep de Nova Iguaçu só funciona até às 15h, deixando sem aulas 370 de 570 alunos.
A falta de supervisão e a gestão deficiente por parte do poder público são evidentes, quadro que se agrava pela tendência de considerar os problemas resolvidos assim que as boas intenções são postas no papel. Tanto que, na mesma área de educação, já foram gastos R$700 milhões com o programa Brasil Alfabetizado, lançado em 2003, e que pretendia erradicar de vez o analfabetismo. Hoje, entretanto, 10,9% da população acima de 15 anos continuam analfabetos. O caso é típico de aplicação de verbas sem o devido controle, o que permitiu a formação de turmas inteiras de alunos-fantasmas no Distrito Federal.
As estatísticas são sempre úteis, mas uma coisa é a notícia de que o Brasil perdeu uma posição, em 2004, na lista da ONU do Índice de Desenvolvimento Humano dos países, porque os índices referentes à educação não melhoraram; outra, muito diferente, é constatar, in loco, como fizeram as reportagens do GLOBO, as conseqüências práticas do drama que é a degradação do ensino público. Que perspectiva terão futuramente no mercado de trabalho alunos de Ciep que só têm aulas três dias por semana? O drama individual se reproduzirá na tragédia de um país que não terá uma população qualificada para competir. Constrói-se agora a mediocridade do futuro próximo.
