A cultura para a educação

Os cuidados com a educação fazem a diferença no enriquecimento de um país. Não se trata apenas do volume de investimentos a ser aplicado nessa área ou da busca pela maior qualidade do ensino. Mas, prioritariamente, da criação e aprofundamento de uma cultura que retrate a necessidade de educar os mais jovens.

Vejamos um exemplo real de duas pessoas que passaram a infância e a adolescência na Casa Verde, bairro de classe média baixa paulistano. Carla era uma das cinco filhas de um casal de pedreiro e doméstica. Tão logo pudessem se equilibrar nas pernas e encontrar sozinhas o caminho de casa, as meninas foram obrigadas a buscar um emprego. Pior: eram desincentivadas a estudar tanto pelos seus pais quanto por seus empregadores, que não as liberavam em tempo para chegar à escola, no período noturno.

Já com a vizinha e amiga de Carla, Sandra, apesar da mesma necessidade financeira familiar, ocorria o contrário. Era filha de professora, cujo salário ficou tão achatado que já não era suficiente para sustentar a família. Mas, mesmo quando começou a trabalhar, aos 15 anos, a orientação dentro de casa era que a prioridade sempre seria dada ao horário escolar e à freqüência às aulas.

Já se vão 20 anos do início dessa história e hoje a realidade financeira das duas amigas, que era bem próxima, se distancia cada vez mais. Carla e suas irmãs, que não concluíram nem o ensino médio e, portanto, têm menos de 11 anos de estudo, alternam entre subempregos e períodos de desemprego. Sandra concluiu o superior, seguiu estudando, e hoje, além de atuar na sua profissão, já guarda recursos para sua aposentadoria privada. Carla e suas irmãs, ao que tudo indica, serão mais um contingente a depender dos benefícios previdenciários do governo.

Daí a importância do incentivo à educação por uma ótica cultural e qualitativa, uma vez que os gastos públicos brasileiros nesse quesito não são baixos. Segundo levantamento feito pelo diretor-executivo para mercados emergentes do banco WestLB, Ricardo Amorim, com 132 países, os dispêndios no Brasil chegam a 4,2% do Produto Interno Bruto (PIB) e não deixam a desejar em relação a outros emergentes como Coréia do Sul e Chile (que têm índices semelhantes), Índia (4,1%), Rússia (3,8%) e Turquia (3,7%). São, inclusive, maiores que os do Japão, com 3,6% do produto local. A média mundial de gastos educacionais é de 4,9% do Produto Interno Bruto.

Não é preciso engessar mais recursos para esse fim, mas, sim, dedicar mais horas em discussão e elaboração de projetos de incentivo à qualificação. Pessoas com mais tempo de estudo fazem parte de uma engrenagem mais produtiva e podem se garantir financeiramente, reduzindo sua dependência futura do governo, ou seja, do sistema previdenciário. Enquanto o pensamento vigente for o de que é preciso investir mais em quem está improdutivo do que em quem tem potencial de gerar riquezas, há grande chance de o Brasil continuar pobre.

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