É preciso um ambiente favorável para que as universidades tenham doadores. A divulgação dos resultados do Sistema Nacional de Avaliação Básica (Saeb) e da prova Brasil realizados pelo Ministério da Educação trouxe o tema da educação e modelos de gestão para a pauta das discussões nacionais.
Se é verdade que um dos gargalos para o desenvolvimento sustentável brasileiro reside na educação básica e secundária, não menos importante é a educação superior, para que o País realmente decole. Os problemas e desafios detectados para o primeiro e segundo grau assumem dimensões significativas para o terceiro grau.
Em artigos e entrevistas sobre o Saeb, o professor Naercio Menezes, meu colega na FEA/USP, e o ex-ministro Paulo Renato apontam um dos problemas detectados pelo Saeb: gestão das escolas, o envolvimento e a responsabilização dos diretores pelo desempenho alcançado. Com relação às universidades, a meu ver, é preciso discutir o modelo de financiamento e abrir a caixa- preta da gestão incorporando o conceito de “accountability”. Este conceito implica responsabilidades assumidas por aqueles que administram ou controlam recursos de outros; embora seja um conceito que entrou para o jargão administrês recentemente, tem suas origens em Aristóteles, preocupado em como prevenir o mau uso dos recursos públicos.
No mundo desenvolvido, a demanda por educação superior tem crescido significativamente nos últimos dez anos; na Europa esse crescimento foi da ordem de 20%. Entre os Bric (Brasil, Rússia, China e Índia), essa porcentagem tem ainda sido maior. Isto coloca para os governos a questão de como financiar as universidades?
Os contribuintes e os políticos cada vez mais priorizam outros investimentos que não na educação, principalmente na superior. A resposta mais fácil é a privatização do ensino, com o surgimento de centros educacionais modelados para atender a um número elevado de pessoas. O outro modelo de universidade: pública ou privada , preocupada em oferecer, além da graduação, a pós-graduação e atividade de pesquisa, os recursos cada vez mais escassos trazem o desafio da sustentabilidade financeira. A solução é cobrar dos estudantes, levantar recursos junto a agências de fomento à pesquisa, conseguir doadores, patrocinadores?
O exemplo mais significativo e divulgado de “fund raising” é o das universidades americanas, principalmente das dez mais importantes, para cujo orçamento as doações contribuem com parcela significativa. No caso da Universidade Harvard, os fundos provenientes de doações totalizaram US$ 933 milhões em 2006, representando um terço da renda da universidade. Acrescidos aos investimentos feitos, chegaram a representar 38% do orçamento da universidade. Mesmo em universidades menores, como o Bentley College, em Boston, os recursos levantados com o “fund raising” são da ordem de US$ 240 milhões.
Para as universidades de pesquisa, a questão do “fund raising” é ainda mais importante. Um estudo realizado entre universidades públicas do estado da Carolina do Sul mostrou como não só é crucial esse aporte de recursos a pesquisa, como trouxe à baila como avaliar a performance dessas instituições em outras atividades que não o ensino de graduação (onde é mais fácil estabelecer coeficientes número de alunos por número de professores).
Na Europa, mesmo entre as universidades anglo-saxônicas, mais próximas do modelo americano, a atividade de “fund raising” ainda acontece em escala reduzida.
Entre as inglesas, Oxford e Cambridge representam exceções. Cambridge conta com recursos na ordem de US $ 1,1 bilhão, incluindo o Gates Cambridge Fund, um fundo criado por Bill Gates para pesquisadores excepcionais; os valores para Oxford são semelhantes. Com o objetivo de mudar a cultura britânica , estendendo essa prática de busca de recursos para outras universidades, o primeiro-ministro Tony Blair prometeu que, a cada duas libras esterlinas levantadas pela universidade, o governo contribuiria com mais uma libra.
No Brasil, a atividade de “fund raising” por parte das universidades ainda é muito limitada. Há dificuldades de ordem cultural: não temos tradição nesse sentido e mesmo alunos que estudaram em universidades públicas e que hoje gozam de confortável posição financeira não se sentem motivados a contribuir com ela; não temos também os incentivos fiscais, ou seja, um ambiente institucional que favorece esse tipo de prática.
Recentemente, chamou atenção o fato de o Ibmec-São Paulo, ao se tornar uma instituição sem fins lucrativos, levantar recursos para a construção de seu novo prédio na Vila Olímpia e para um fundo de bolsa para estudantes. Atividades como essa têm sido realizadas por outras instituições privadas e públicas, mas com importância reduzida quando comparada às congêneres americanas.
Mas, por outro lado, a atividade de “fund raising” implica, como mencionamos no início deste artigo, gestão e responsabilização. Ou seja, é preciso haver um ambiente institucional e cultural favorável para se ter doadores. Em contrapartida, do lado das instituições receptoras, é preciso ter claro objetivos, planos, metas, um sistema de avaliação com indicadores definidos e, principalmente, responsabilização para se prestar contas de um recurso privado que se tornou bem público.
