No dia 30 de julho foi comemorado o centenário de nascimento de Mário Quintana, o poeta das coisas simples. Durante todo o ano de 2006, a vida e obra de Mario Quintana estarão sendo lembradas em uma extensa programação de eventos culturais. O “Ano do Centenário de Mario Quintana” foi instituído pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul.
Mario Miranda Quintana é natural de Alegrete, no Rio Grande do Sul. Afirmava nunca se preocupar com a crítica, e que fazia poesia porque “sente necessidade”. Foi jornalista, tendo iniciado carreira em 1928, no jornal O Estado do Rio Grande. Participou da Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, como voluntário do Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre. Voltou para Porto Alegre em 1936, para trabalhar na Livraria do Globo, em Porto Alegre, sob a direção de Erico Veríssimo, traduzindo Charles Morgan, Rosamond Lehman, Lin Yutang, Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, Maupassant.
Sua poesia mostra dois aspectos opostos: pessimismo e ternura. Publicou “A Rua dos Cataventos” (1940), “Canções” (1945), “Sapato Florido” (1947), “Espelho Mágico” (1948), “O Aprendiz de Feiticeiro” (1950), “Poesias” (1962), “Pé de Pilão” (1968), “Apontamentos de História Sobrenatural” (1976), “Nova Antologia Poética” (1982), “Batalhão das Letras” (1984). É chamado de poeta das coisas simples em razão de escritos como os que reunimos a seguir:
Os fantasmas não fumam porque
poderiam acabar fumando-se a si mesmos
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Um bom poema é aquele que nos dá a impressão
de que está lendo a gente … e não a gente a ele!
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Se alguém acha que estás escrevendo muito bem,
desconfia…
O crime perfeito não deixa vestígios
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A aranha desce verticalmente por um fio
e fica
pendendo do teto – escuro candelabro:
devem ser feitas de aranhas, desconfio,
as árvores de Natal do diabo
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O café é tão grave, tão exclusivista, tão definitivo
que não admite acompanhamento sólido. Mas eu o driblo,
saboreando, junto com ele, o cheiro das torradas-na-manteiga
que alguém pediu na mesa próxima
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Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas… Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida – a verdadeira – em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira.
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A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos.
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Em 14 de novembro de 1984 escreveu uma nota autobiográfica para a Revista IstoÉ. Eis o texto:
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não astava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu… Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras. Mario Miranda Quintana DOIS POEMAS DE MÁRIO QUINTANA Poeminha do Contra Todos estes que aí estão Atravancando o meu caminho, Eles passarão. Eu passarinho! Canção para uma valsa lenta Minha vida não foi um romance… Nunca tive até hoje um segredo. Se me amas, não digas, que morro … De surpresa … de encanto … de medo … Minha vida não foi um romance … Minha vida passou por passar. Se não me amas, não finjas, que vivo Esperando um amor para amar. Minha vida não foi um romance … Pobre vida … passou sem enredo … Glória a ti que me enches de vida De surpresa … de encanto …de medo … Minha vida não foi um romance … Ai de mim … Já se ia acabar ! Pobre vida que toda depende De um sorriso … de um gesto … um olhar … O Disfarce Cansado da sua beleza angelical, o Anjo vivia ensaiando caretas diante do espelho. Até que conseguiu a obra-prima do horror. Veio, assim, dar uma volta pela Terra. E Lili, a primeira meninazinha que o avistou, põe-se a gritar da porta para dentro de casa: “Mamãe! Mamãe! Vem ver como o Frankenstein está bonito hoje!” HOMENAGEM No dia 25 de agosto de 1966, data em que Mário Quintana completava 60 anos, Manuel Bandeira recitou, na Academia Brasileira de Letras um poema que escreveu em homenagem ao amigo: Quintanares Manuel Bandeira Meu Quintana, os teus cantares Não são, Quintana, cantares: São, Quintana, quintanares. Quinta-essência de cantares… Insólitos, singulares… Cantares? Não! Quintanares! Quer livres, quer regulares, Abrem sempre os teus cantares Como flor de quintanares. São cantigas sem esgares. Onde as lágrimas são mares De amor, os teus quintanares. São feitos esses cantares De um tudo-nada: ao falares, Luzem estrelas luares. São para dizer em bares Como em mansões seculares Quintana, os teus quintanares. Sim, em bares, onde os pares Se beijam sem que repares Que são casais exemplares. E quer no pudor dos lares. Quer no horror dos lupanares. Cheiram sempre os teus cantares Ao ar dos melhores ares, Pois são simples, invulgares. Quintana, os teus quintanares. Por isso peço não pares, Quintana, nos teus cantares… Perdão! digo quintanares. Que eu vou passando e passando, Como em busca de outros ares… Sempre de barco passando, Cantando meus quintanares…
Mario Quintana
